18 novembro, 2020

[Livro] A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - Parte 1




  • Obs.: as citações do livros foram marcadas com uma fonte diferente.

O livro é um bom resumo sobre a trajetória da Bíblia, que é cheia de polêmicas:

Hoje as Escrituras têm má reputação. Terroristas usam o Corão para justificar atrocidades, e alguns afirmam que a violência de suas Escrituras tornam os muçulmanos cronicamente agressivos. Os cristãos fazem campanha contra o ensino da teoria evolucionista porque ela contradiz a história bíblica da Criação. Judeus sustentam que, por Deus ter prometido Canaã (Israel moderno) para os descendentes de Abraão, medidas agressivas contra os palestinos são legítimas. Houve um revival das Escrituras que se intrometeu na vida pública. Oponentes secularistas da religião afirmam que as Escrituras geram violência, sectarismo e intolerância; impedem as pessoas de pensar por si mesmas e estimulam a ilusão. Se a religião prega compaixão, por que há tanto ódio nos textos sagrados? É possível ser um “crente” hoje, quando a ciência solapou tantos ensinamentos bíblicos?

Um dos maiores problemas é interpretar mitos bíblicos como passagens literais:


O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananéias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio nas cidades cananéias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.

O pentateuco, os cinco primeiros livros da bíblia, teriam inicialmente sido orais e depois de séculos registrados por escrito por escribas desconhecidos que atribuíram a Moisés seu conteúdo. Esse conteúdo teria sido reeditado por diferentes gerações, sem uma menção expressa no texto. J e E seriam diferentes escritores que seguiriam tradições orais diferentes, mas que tiveram seus textos reunidos no mesmo livro.

A religião israelita posterior iria se tornar apaixonadamente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas. Originalmente Jeová fora membro da Assembléia Divina dos “santos”, que El, o poderoso deus de Canaã, havia presidido com sua consorte Aserá. Cada nação da região tinha sua própria divindade padroeira, e Jeová era “o santo de Israel”. No século VIII, Jeová havia expulsado El da Assembléia Divina e reinava sozinho sobre uma multidão de “santos”, guerreiros do exército celeste. Nenhum dos outros deuses podia se igualar a Jeová na fidelidade a seu povo. Nisso ele não tinha pares, não tinha rivais.
Desde o começo, escribas de diferentes tradições divergentes gerariam conflitos na leitura do texto:

Um número significativo dos Escritos pertencia a uma escola distinta tanto da Lei quanto dos profetas. No Oriente Médio antigo, sábios ligados à corte como mestres ou conselheiros tendiam a ver toda a realidade moldada por um vasto princípio subjacente de origem divina. Os sábios hebreus chamavam isso de Chochmá, “Sabedoria”. Todas as coisas – as leis da natureza, a sociedade e os eventos nas vidas das pessoas – se conformavam a esse projeto celeste, que nenhum ser humano poderia jamais apreender em sua totalidade. Mas os sábios que devotavam suas vidas à contemplação da Sabedoria acreditavam que, ocasionalmente, a viam de relance. Alguns expressavam sua visão com máximas vigorosas como: “Um rei dá estabilidade a um país pela justiça, um extorsionário o leva à ruína”, ou “O homem que agrada ao vizinho estende uma rede sob seus pés”. A tradição da Sabedoria tinha originalmente pouca relação com Moisés e o Sinai, mas era associada ao rei Salomão, reputado por esse tipo de argúcia,16 e três dos Kethuvim foram atribuídos a ele: os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Os Provérbios eram uma coleção de aforismos de senso comum, semelhantes aos dois citados acima. O Eclesiastes, uma meditação flagrantemente cínica, via todas as coisas como “vaidade” e parecia solapar toda a tradição da Torá, ao passo que o Cântico dos Cânticos era um poema erótico sem conteúdo espiritual aparente.
Livros como o atribuído a Enoque, patriarca bíblico misterioso, não foram incluídos na Bíblia, pois traziam uma concepção Divina diferente:

O autor do Primeiro Livro de Henoc imaginou Deus rasgando em pedaços a terra e a mosaica revelação no monte Sinai para começar de novo com uma tabula rasa. O autor do Livro dos Jubileus, amplamente lido no século II d.C., foi perseguido em razão da crueldade de alguns dos Escritos. Havia Deus realmente tentado exterminar a raça humana no Dilúvio, ordenado a Abraão que matasse o próprio filho e afogado o exército egípcio no mar dos Juncos? Ele concluiu que Deus não intervinha diretamente em assuntos humanos e que o sofrimento que vemos por toda parte à nossa volta era a obra de Satã e seus demônios.

Mesmo os ensinamentos de Jesus não trouxeram consenso interpretativo, seja para Judeus ou não judeus (gentios):

Jesus e seus discípulos vinham da Galiléia, no norte da Palestina. Depois de sua morte, mudaram-se para Jerusalém, provavelmente para estar a postos quando o reino chegasse, já que todas as profecias declaravam que o templo seria o pivô da nova ordem. Os líderes de seu movimento eram conhecidos como “os Doze”: no reino, governariam as 12 tribos de Israel reconstituído. Os integrantes do movimento liderado por Jesus participavam, juntos, de cultos, todos os dias, no templo, mas encontravam-se também para refeições comunais em que afirmavam sua fé na chegada iminente do reino. Continuavam a viver como judeus ortodoxos e devotos. Como os essênios, não tinham propriedade privada, partilhavam seus bens de maneira igualitária e dedicavam suas vidas aos últimos dias.10 Parece que Jesus recomendara pobreza voluntária e zelo especial pelos pobres; que a lealdade ao grupo devia ser mais valorizada que laços de família; e que o mal devia ser enfrentado com não-violência e amor. Os cristãos deviam pagar seus impostos, respeitar as autoridades romanas e não deviam nem cogitar em luta armada. Os seguidores de Jesus continuavam a reverenciar a Torá,13 a guardar o Shabat, e a observância das leis dietéticas era uma questão de extrema importância para eles. Como o grande fariseu Hillel, contemporâneo mais velho de Jesus, eles ensinavam uma versão da Regra de Ouro, que acreditavam ser o alicerce da fé judaica: “Assim, trate sempre os outros como gostaria que eles o tratassem; esta é a mensagem da Lei e dos Profetas.”

A situação não se resolveu com Paulo:

Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas. Era considerado um mestre consumado, mas tinha plena consciência de que seu temperamento explosivo significava que não era apreciado em toda parte. (...)
Mas Paulo nunca sugeriu que os judeus devessem cessar de observar a Torá, porque isso os teria posto fora da aliança. Israel recebera a preciosa dádiva da revelação no Sinai, do culto no templo, e o privilégio de serem “filhos” de Deus, desfrutando uma intimidade especial com Ele – e Paulo prezava tudo isso.33 Quando ele invectivava amargamente contra os “judaizantes”, não estava condenando os judeus ou o judaísmo em si mesmos, mas aqueles cristãos judeus que queriam que os gentios fossem circuncidados e observassem integralmente a Torá. Como outros sectários no final do período do Segundo Templo, Paulo estava convencido de que somente ele possuía a verdade.
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5 comentários:

  1. Este texto tem gosto de quero mais.

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  2. Certamente, a autora estudou mais do que eu o assunto para escrever este livro. Não tenho como contrapor suas colocações em destaque. Parece bom. É um livro que eu colocaria na minha longa lista. Contudo, não sei se a autora é parcial e a Academia, hoje, é onde menos se encontra imparcialidade.

    De resto, sou ardoroso defensor de todas as religiões, do judaísmo ao candomblé. Tenho meus receios com o Islã porque este não é apenas religião, mas uma noção de vida política, social e econômica MUNDIAL, bastante agressiva para o modo de vida ocidental.

    Entidades religiosas sistematizaram o ensino público, universidades, redes de saúde (casas de misericórdias) e até mesmo a origem da Inquisição foi nobre, ao tomar alguém pobre do poder local e substituir sua pena de cárcere por dez pai nosso e cinco ave maria.

    A Igreja preservou o conhecimento e ajudou, posteriormente, a difundi-lo. Vejo obras sociais evangélicas belíssimas por aí.

    Se o cara está feliz da vida entregando 10% de seus ganhos ao pastor, que o seja. O importante é isso: que esteja em paz e feliz. O problema é quando o sujeito entra numa cafeteria com dinamites para matar todo mundo, em pleno ano de 2020.

    "Hoje as Escrituras têm má reputação"... É como o corno que joga o colchão fora e fica com a rameira. A culpa foi do colchão. As escrituras sagradas (textos religiosos em geral) são refinadas. O candomblé, em teoria, é refinado, aliás.

    Sobre precisão histórica, os eruditos críticos possuem mais dúvidas do que certezas. Então, entre dúvidas, tanto faz. Aliás, quem busca um sistema religioso para seguir está cagando para teorias críticas. O cara tem apenas fé e pretende exercê-la. Aliás, Kant afirmou que nossa limitação de conhecimento é natural e que apenas pela fé podemos preenchê-la. Creio nisso. Acho que nunca chegaremos à Origem e não temos miolos para compreender o Nada.

    Sejam todos felizes sacrificando galos vermelhos ou bajulando o pastor, enfim.

    Abraços, Scant!

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    1. valorizo bastante a religião e os mitos

      os acadêmicos servem pra apontar em direção à razão, a religião nos orienta pela fé e suas metáforas - posições políticas há dos dois lados.

      Prefiro conhecer as divergências e seguir em frente com meus pensamentos, afinal só descubro (ou não) a verdade quando morrer

      tb sou a favor da liberdade de religião

      temo o Islã

      abs!

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    2. "os acadêmicos servem pra apontar em direção à razão"

      Serviriam. rs

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