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23 dezembro, 2020

[Livro] Isto És Tú (2002)/ Joseph Campbell - Parte 1

 

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"Como é possível que o sofrimento que nem é meu e nem me interessa me afete de imediato como se fosse meu e com força tal a ponto de impelir-me à ação? “(Schopenhauer no ensaio deste intitulado Dos fundamentos da moralidade)

 

A mitologia pode, num real sentido, ser definida como a religião de outro povo. E a religião pode, num certo sentido, ser entendida como uma incompreensão popular da mitologia.

  • Minha definição favorita de mitologia: a religião das outras pessoas. Minha definição favorita de religião: a incompreensão da mitologia. A incompreensão consiste na interpretação dos símbolos mitológicos espirituais como se fossem fundamentalmente referências a acontecimentos históricos. Interpretações provincianas localizadas separam as várias comunidades religiosas.

 Um sistema de símbolos mitológicos somente atua se operar na esfera de uma comunidade de pessoas que tenham experiências essencialmente análogas, ou, para nos expressarmos de outra maneira, que partilhem do mesmo domínio de experiência de vida.

  • O ritual eficiente, nas mãos erradas, pode ser extremamente perigoso. Isso é bem personificado em Hitler, que era um gênio no emprego do ritual para desenvolver consciência nacional. Ele foi um orador poderoso e carismático no centro de colossais comícios que, como um alemão uma vez me disse, com sua música, sua iluminação e banderolas agitadas, quase o fez, contra sua vontade, erguer sua mão na

 Um espaço sagrado, portanto, é qualquer área, por exemplo, cavernas, na qual tudo é feito para transformar o ambiente numa metáfora. Talvez você possa dizer que o "Espaço Sagrado está em todo lugar", mas somente pode fazê-lo depois de ter aprendido a disciplina do espaço sagrado e haver apreciado a significação metafórica dos objetos ali encontrados.

  •  O principal interesse da catedral não é como parece do lado exterior, mas como é experimentada no interior. Ela cria um espaço santo, um espaço sagrado que a nada se refere salvo ao mistério. Quando sua construção tem êxito, o resultado é um perfeito equilíbrio de impulso e sustentação, que é ele próprio uma afirmação de energia e espaço.

 

A quarta função da mitologia tradicional é conduzir o indivíduo através dos vários estágios e crises da vida, isto é, ajudar as pessoas a compreender o desdobramento da vida com integridade. Essa integridade supõe que os indivíduos experimentarão eventos significativos a partir do nascimento, passando pelo meio da existência até a morte em harmonia, primeiramente com eles mesmos, em segundo lugar com sua cultura, em terceiro lugar com o universo e, finalmente, com aquele mysterium tremendum que transcende a eles próprios e a todas as coisas.

  • As linguagens metafóricas tanto da mitologia quanto da metafísica não denotam mundos ou deuses reais, e sim conotam níveis e entidades no interior da pessoa tocada por elas. As metáforas apenas aparentam descrever o mundo exterior do tempo e do espaço. Seu universo real é o domínio espiritual da vida interior. O Reino de Deus está no interior de você.
  • A vida não possui nenhum significado absolutamente fixo.


Uma forma de privar você mesmo de uma experiência é, com efeito, ter a expectativa dela. Uma outra é ter um nome para ela antes de ter a experiência. Carl Jung afirmou que uma das funções da religião é nos proteger da experiência religiosa. Assim é porque na religião formal tudo é concretizado e formulado. Entretanto, devido à sua natureza, uma tal experiência é a experiência que somente você pode ter.

 Escrituras Shinto lê-se que os processos naturais não podem ser maus. Na nossa tradição todo impulso natural é pecaminoso a menos que tenha sido purificado de alguma maneira.

 Praticamente todas as mitologias do mundo usaram essa idéia "elementar" ou co-natural de um nascimento virginal para se referir a uma realidade espiritual em lugar de uma realidade histórica. O mesmo vale, como sugeri, para a metáfora da terra prometida, que em sua denotação nada assinala, exceto um pedaço de geografia terrena a ser tomado pela força. Sua conotação, ou seja, seu significado real, contudo, é a de uma região espiritual no coração que só pode ser adentrada por meio da contemplação.

Um princípio metodológico básico, a ser considerado ao interpretar a mitologia em termos psicológicos, nos indica que aquilo que no mito é chamado de "outro mundo" deve ser entendido psicologicamente como mundo interior ("o Reino do céu está dentro de ti"), e que aquilo que é referido como "futuro" é o agora.

Conta-se que Hallaj comparou o desejo do místico ao da mariposa pela chama. A mariposa vê uma chama ardendo à noite numa lanterna e, tomada de um desejo irresistível de estar unida àquela chama, põe-se a revolutear em torno da lanterna, namorando a flama até o alvorecer, quando retorna às suas companheiras para narrar-lhes nas mais doces palavras a sua experiência. "Você não parece ter melhorado com isso", é o que comentam, pois notam que suas asas estão amarrotadas e feridas: esta é a condição do asceta. Mas a mariposa volta na noite seguinte e, encontrando um vão no vidro da lanterna, se une completamente à sua amada, tornando-se ela mesma a chama.

Tampouco é nossa sociedade o que foi a antiga. As leis da vida social atualmente mudam a cada minuto. Não há mais segurança no conhecimento de alguma lei moral que foi comunicada. É preciso buscar os próprios valores e assumir responsabilidade pela nossa própria conduta, e não simplesmente seguir ordens transmitidas de algum período do passado. Ademais, estamos intensamente cientes de nós mesmos como indivíduos, cada um responsável pela sua própria senda, diante de si mesmos e de seu mundo.

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________________________ continua...

4 comentários:

Blogue do Neófito disse...

Olá, Scant.

Tema espinhoso.

Você começa com Schopenhauer e logo após tece os pontos entre mitologia e religião. Acho que Kant cai bem, então, para concluir o seguinte (ao menos para mim): a fé é mais do que razoável para preencher as lacunas INSTRANSPONÍVEIS de nosso conhecimento prático, por assim dizer. Eu mesmo gostaria de ter mais fé.

Não concebo uma existência sem plano espiritual até porque isso não é lógico, justamente diante da complexidade entre existir e não existir. Em resumo: entre o tudo e o nada. Se alguém está na "verdadeira" região, isso sãos outros quinhentos.

Simpatizo com o cristianismo diante de seu refinamento. É um sistema bonito e complexo.

Sobre Hitler, acho que o buraco é mais embaixo, pois o Reich se fundou verdadeiramente sobre o ocultismo da Sociedade Thule. Foi um super Estado moldado sobre cultos pagãos, um pouco de cristianismo e pureza racial. Contra o marxismo, queriam um socialismo para chamar de seu. Se não tivesse caído tão cedo, penso que do engraxate e do executivo até à primeira dama e prostitutas, todos seriam Oficiais do Reich e andariam uniformizados nas ruas. E decidiriam suas vidas analisando as runas!

Abraços!

Jotabê disse...

Ótimo texto e ótimo comentário do Neófito. Gostei demais deste trecho "Carl Jung afirmou que uma das funções da religião é nos proteger da experiência religiosa. Assim é porque na religião formal tudo é concretizado e formulado. Entretanto, devido à sua natureza, uma tal experiência é a experiência que somente você pode ter".

Scant disse...

"Eu mesmo gostaria de ter mais fé." - concordo. eu tb em alguns momentos.

principalmente no mundo materialista e artificial atual não dá pra viver sem alguma "inteligência"/senso espiritual, pois senão tudo parecem em vão.

"um pouco de cristianismo e pureza racial. " me lembra até um pouco dos ideais judaicos do antigo testamento (pureza racial). "decidiriam suas vidas analisando as runas!" seria curioso, mas necessário já que os ciganos teriam sido todos executados :)


abs!

Scant disse...

por isso que gosto dessas leituras
quando me deparo com um trecho desse, dá uma "balançada" na mente

abs!

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