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14 janeiro, 2021

[Livro] A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - Parte 2




A destruição do primeiro templo em 586 a.C. havia inspirado uma assombrosa explosão de criatividade entre os exilados na Babilônia. A destruição do segundo templo estimulou um esforço literário similar entre os cristãos. Em meados do século II, quase todos os 27 livros do Novo Testamento estavam concluídos. Comunidades já citavam cartas de Paulo como se fossem Escritura, e leituras de uma das biografias de Jesus que estavam em circulação haviam se tornado costumeiras durante o culto de domingo. 

Os evangelhos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João acabariam sendo escolhidos para o cânone, mas havia muitos outros. O evangelho de Tomás (c. 150) era uma coleção de ditos secretos de Jesus que dariam um “conhecimento” (gnosis) redentor a seus discípulos. Havia evangelhos, agora perdidos, dos ebionitas, nazarenos e hebreus, que alimentavam as comunidades cristãs judaicas. Havia também muitos evangelhos “gnósticos”, representando uma forma de cristianismo que enfatizava a gnosis e distinguia um Deus inteiramente espiritual (que mandara Jesus como seu enviado) e um demiourgos, que criara o mundo material corrupto. Outros Escritos não sobreviveram: um evangelho conhecido pelos estudiosos como Q, porque foi a fonte (alemão: quelle) para Mateus e Lucas; várias antologias de ensinamentos de Jesus; e um relato de seu julgamento, tortura e morte.


As Escrituras cristãs foram redigidas em momentos diferentes, em regiões diversas e para audiências muito díspares, mas compartilhavam uma linguagem e um conjunto de símbolos, derivados da Lei e dos Profetas, bem como de textos do final do período do Segundo Templo. Elas reuniam idéias que originalmente não tinham conexão umas com as outras – Filho de Deus, Filho do Homem, Messias e reino – numa nova síntese. Os autores não demonstravam isso de maneira lógica, mas simplesmente justapunham essas imagens de forma tão repetida que elas se fundiam na mente do leitor. Não havia uma visão uniforme de Jesus. Paulo o chamara de “Filho de Deus”, mas usara o título em seu sentido judaico tradicional. Jesus era um ser humano que gozava de uma relação especial com Deus, como os antigos reis de Israel, e fora elevado por ele a uma condição singularmente alta. 

Paulo nunca afirmou que Jesus era Deus. Mateus, Marcos e Lucas, conhecidos como os “sinóticos”, porque “vêem as coisas juntas”, também usaram o título “Filho de Deus” dessa maneira, mas eles sugeriram igualmente que Jesus era o “Filho do Homem” de que falara Daniel, o que lhe dava uma dimensão escatológica. João, que representou uma tradição cristã diferente, viu Jesus como a encarnação da Palavra e Sabedoria de Deus, que existira antes da criação do mundo. Quando os editores finais do Novo Testamento reuniram esses textos, não ficaram incomodados com as discrepâncias. Jesus havia se tornado um fenômeno demasiado imenso nas mentes dos cristãos para ser preso a uma única definição.


Como todos os Escritos joaninos, o Apocalipse é deliberadamente obscuro, e seus símbolos seriam ininteligíveis para os estranhos. É um livro tóxico e, como veremos, atrairia pessoas que, como as igrejas joaninas, sentiam-se excluídas e ressentidas. Era também controverso, e alguns cristãos relutaram em incluí-lo no cânone. Mas quando os editores definitivos decidiram inseri-lo no fim do Novo Testamento, ele se tornou o término triunfante de sua exegese pesher das Escrituras hebraicas. Transformou o relato histórico da origem do cristianismo num apocalipse orientado para o futuro. A Nova Jerusalém substituiria a velha: “Não vi templo algum na cidade, pois seu templo era o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro.” O judaísmo e seus símbolos mais sagrados haviam sido substituídos por um vitorioso cristianismo militante.


Hoje as Escrituras têm má reputação. Terroristas usam o Corão para justificar atrocidades, e alguns afirmam que a violência de suas Escrituras tornam os muçulmanos cronicamente agressivos. Os cristãos fazem campanha contra o ensino da teoria evolucionista porque ela contradiz a história bíblica da Criação. Judeus sustentam que, por Deus ter prometido Canaã (Israel moderno) para os descendentes de Abraão, medidas agressivas contra os palestinos são legítimas. Houve um revival das Escrituras que se intrometeu na vida pública. Oponentes secularistas da religião afirmam que as Escrituras geram violência, sectarismo e intolerância; impedem as pessoas de pensar por si mesmas e estimulam a ilusão. Se a religião prega compaixão, por que há tanto ódio nos textos sagrados? É possível ser um “crente” hoje, quando a ciência solapou tantos ensinamentos bíblicos?


O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananéias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio nas cidades cananéias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.


A religião israelita posterior iria se tornar apaixonadamente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas. Originalmente Jeová fora membro da Assembléia Divina dos “santos”, que El, o poderoso deus de Canaã, havia presidido com sua consorte Aserá. Cada nação da região tinha sua própria divindade padroeira, e Jeová era “o santo de Israel”. No século VIII, Jeová havia expulsado El da Assembléia Divina e reinava sozinho sobre uma multidão de “santos”, guerreiros do exército celeste. Nenhum dos outros deuses podia se igualar a Jeová na fidelidade a seu povo. Nisso ele não tinha pares, não tinha rivais.


Um número significativo dos Escritos pertencia a uma escola distinta tanto da Lei quanto dos profetas. No Oriente Médio antigo, sábios ligados à corte como mestres ou conselheiros tendiam a ver toda a realidade moldada por um vasto princípio subjacente de origem divina. Os sábios hebreus chamavam isso de Chochmá, “Sabedoria”. Todas as coisas – as leis da natureza, a sociedade e os eventos nas vidas das pessoas – se conformavam a esse projeto celeste, que nenhum ser humano poderia jamais apreender em sua totalidade. Mas os sábios que devotavam suas vidas à contemplação da Sabedoria acreditavam que, ocasionalmente, a viam de relance. Alguns expressavam sua visão com máximas vigorosas como: “Um rei dá estabilidade a um país pela justiça, um extorsionário o leva à ruína”, ou “O homem que agrada ao vizinho estende uma rede sob seus pés”. A tradição da Sabedoria tinha originalmente pouca relação com Moisés e o Sinai, mas era associada ao rei Salomão, reputado por esse tipo de argúcia, e três dos Kethuvim foram atribuídos a ele: os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Os Provérbios eram uma coleção de aforismos de senso comum, semelhantes aos dois citados acima. O Eclesiastes, uma meditação flagrantemente cínica, via todas as coisas como “vaidade” e parecia solapar toda a tradição da Torá, ao passo que o Cântico dos Cânticos era um poema erótico sem conteúdo espiritual aparente.


O autor do Primeiro Livro de Henoc imaginou Deus rasgando em pedaços a terra e a mosaica revelação no monte Sinai para começar de novo com uma tabula rasa. O autor do Livro dos Jubileus, amplamente lido no século II d.C., foi perseguido em razão da crueldade de alguns dos Escritos. Havia Deus realmente tentado exterminar a raça humana no Dilúvio, ordenado a Abraão que matasse o próprio filho e afogado o exército egípcio no mar dos Juncos? Ele concluiu que Deus não intervinha diretamente em assuntos humanos e que o sofrimento que vemos por toda parte à nossa volta era a obra de Satã e seus demônios.


Jesus e seus discípulos vinham da Galiléia, no norte da Palestina. Depois de sua morte, mudaram-se para Jerusalém, provavelmente para estar a postos quando o reino chegasse, já que todas as profecias declaravam que o templo seria o pivô da nova ordem. Os líderes de seu movimento eram conhecidos como “os Doze”: no reino, governariam as 12 tribos de Israel reconstituído. Os integrantes do movimento liderado por Jesus participavam, juntos, de cultos, todos os dias, no templo, mas encontravam-se também para refeições comunais em que afirmavam sua fé na chegada iminente do reino. Continuavam a viver como judeus ortodoxos e devotos. Como os essênios, não tinham propriedade privada, partilhavam seus bens de maneira igualitária e dedicavam suas vidas aos últimos dias. Parece que Jesus recomendara pobreza voluntária e zelo especial pelos pobres; que a lealdade ao grupo devia ser mais valorizada que laços de família; e que o mal devia ser enfrentado com não-violência e amor. Os cristãos deviam pagar seus impostos, respeitar as autoridades romanas e não deviam nem cogitar em luta armada. Os seguidores de Jesus continuavam a reverenciar a Torá, a guardar o Shabat, e a observância das leis dietéticas era uma questão de extrema importância para eles. Como o grande fariseu Hillel, contemporâneo mais velho de Jesus, eles ensinavam uma versão da Regra de Ouro, que acreditavam ser o alicerce da fé judaica: “Assim, trate sempre os outros como gostaria que eles o tratassem; esta é a mensagem da Lei e dos Profetas.”

Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas. Era considerado um mestre consumado, mas tinha plena consciência de que seu temperamento explosivo significava que não era apreciado em toda parte.


Mas Paulo nunca sugeriu que os judeus devessem cessar de observar a Torá, porque isso os teria posto fora da aliança. Israel recebera a preciosa dádiva da revelação no Sinai, do culto no templo, e o privilégio de serem “filhos” de Deus, desfrutando uma intimidade especial com Ele – e Paulo prezava tudo isso. Quando ele invectivava amargamente contra os “judaizantes”, não estava condenando os judeus ou o judaísmo em si mesmos, mas aqueles cristãos judeus que queriam que os gentios fossem circuncidados e observassem integralmente a Torá. Como outros sectários no final do período do Segundo Templo, Paulo estava convencido de que somente ele possuía a verdade.


A destruição do primeiro templo em 586 a.C. havia inspirado uma assombrosa explosão de criatividade entre os exilados na Babilônia. A destruição do segundo templo estimulou um esforço literário similar entre os cristãos. Em meados do século II, quase todos os 27 livros do Novo Testamento estavam concluídos. Comunidades já citavam cartas de Paulo como se fossem Escritura, e leituras de uma das biografias de Jesus que estavam em circulação haviam se tornado costumeiras durante o culto de domingo. Os evangelhos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João acabariam sendo escolhidos para o cânone, mas havia muitos outros. O evangelho de Tomás (c. 150) era uma coleção de ditos secretos de Jesus que dariam um “conhecimento” (gnosis) redentor a seus discípulos. Havia evangelhos, agora perdidos, dos ebionitas, nazarenos e hebreus, que alimentavam as comunidades cristãs judaicas. Havia também muitos evangelhos “gnósticos”, representando uma forma de cristianismo que enfatizava a gnosis e distinguia um Deus inteiramente espiritual (que mandara Jesus como seu enviado) e um demiourgos, que criara o mundo material corrupto. Outros Escritos não sobreviveram: um evangelho conhecido pelos estudiosos como Q, porque foi a fonte (alemão: quelle) para Mateus e Lucas; várias antologias de ensinamentos de Jesus; e um relato de seu julgamento, tortura e morte.



Como todos os Escritos joaninos, o Apocalipse é deliberadamente obscuro, e seus símbolos seriam ininteligíveis para os estranhos. É um livro tóxico e, como veremos, atrairia pessoas que, como as igrejas joaninas, sentiam-se excluídas e ressentidas. Era também controverso, e alguns cristãos relutaram em incluí-lo no cânone. Mas quando os editores definitivos decidiram inseri-lo no fim do Novo Testamento, ele se tornou o término triunfante de sua exegese pesher das Escrituras hebraicas. Transformou o relato histórico da origem do cristianismo num apocalipse orientado para o futuro. A Nova Jerusalém substituiria a velha: “Não vi templo algum na cidade, pois seu templo era o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro.” O judaísmo e seus símbolos mais sagrados haviam sido substituídos por um vitorioso cristianismo militante. 


Nos primeiros anos do século I, o grande sábio fariseu Hillel viera da Babilônia para Jerusalém, onde pregou ao lado de seu rival Shamai, cuja versão do farisaísmo era mais rigorosa. Diz-se que um dia um pagão aproximou-se de Hillel e prometeu converter-se ao judaísmo caso ele conseguisse resumir toda a Torá enquanto se equilibrava numa perna só. Equilibrando-se numa perna só, Hillel respondeu: “Não faz a teu próximo o que for odioso para ti mesmo. Esta é toda a Torá, e o restante não passa de comentário. Vai estudá-la.” Esse foi um espantoso e deliberadamente controverso exemplo de midrash. A essência da Torá era a recusa disciplinada de infligir dor a outro ser humano. Tudo mais que estava nas Escrituras era meramente “comentário”, uma glosa à Regra de Ouro.


____________________________________________ continua...


07 janeiro, 2021

[Livro] A Origem das Espécies de Darwin (2007)/Janet Browne - Parte 2




 O mesmo embaraço ocorreu com o uso que fez da palavra “adaptação”, que sugeria alguma forma de estratégia proposital dos animais e das plantas, exatamente o contrário do que tinha em mente. Mais tarde, utilizou uma artimanha como solução parcial. Darwin lutou de maneira incessante com seu vocabulário. A linguagem que tinha a seu dispor era a de Milton e Shakespeare, calcada na teologia e em propósitos, não a terminologia objetiva e livre de valores procurada pela ciência.
 

Darwin não era sequer capaz de falar da “evolução” como tal, pois naquela época o termo era usado sobretudo para descrever o desdobramento de estruturas embriológicas ocultas; foi o debate em torno de sua obra que conferiu à palavra seu sentido moderno. Na Origem das espécies, referiu-se em geral à “descendência com modificações”. Da mesma forma, não usou de início aquela que acabaria por se tornar a expressão mais famosa de todas a respeito do tema: a “sobrevivência dos mais aptos”. Ela foi cunhada alguns anos mais tarde, em 1864, por Herbert Spencer, depois de Wallace sugerir que Darwin deveria substituir o termo “seleção natural”. Todas essas ambigüidades verbais conduziriam os leitores para direções que Darwin não tencionava.
 

A falta de formas intermediárias nos registros fósseis, por exemplo, era realmente um problema espinhoso, só explicável pelo que os filósofos chamam de argumentação negativa. Ele afirmou que tais organismos seriam tão raros e transitórios, e sua preservação geológica tão infrequente e acidental, que seria extremamente improvável encontrar espécimes. A ausência deles, declarou, não podia, de maneira legítima, derrubar sua teoria. De fato, estava correto em sua conjectura. Apesar da descoberta de fósseis como o Archaeopteryx, réptil semelhante a uma ave, nos calcários de Solnhofen, na Alemanha, hoje reconhecido como um intermediário legítimo, a incidência de elos perdidos continua muito limitada.
  

Deliberadamente, omitiu as duas questões que intrigariam a todos. Evitou qualquer discussão sobre o que a teoria evolucionária teria a dizer sobre as origens humanas e se esquivou de qualquer debate acerca da presença divina no mundo natural.
 

No fim do livro, porém, mencionou a probabilidade de que todos os organismos ancestrais tivessem se originado a partir de uma só forma primordial. Darwin acreditava que essas origens antigas estavam perdidas no tempo e eram irrecuperáveis. Quando foi preciso, falou com cautela do Criador, ciente que, de outro modo, o livro poderia ser rotulado de subversivo. Mas teve o cuidado de não deixar para esse Criador nenhum papel ativo nos eventos biológicos subseqüentes.
 

Por mais surpreendente que pareça, houve pouca oposição permanente ao livro de Darwin sob a alegação de que ele contestava diretamente o relato da criação feito no Gênesis. Desde o Iluminismo, os estudos bíblicos estimulavam os cristãos a ver essas antigas histórias como poderosas metáforas, não como narrativas literais. O fundamentalismo bíblico é um problema moderno, não vitoriano. O verdadeiro empecilho do darwinismo para os vitorianos era transformar a vida em um caos amoral que não exibisse nenhum indício de uma autoridade divina ou algum sentido de finalidade ou desígnio.
 

Um dos aspectos mais conhecidos da polêmica originada por A origem das espécies é que Darwin se manteve fora da ribalta. Aparentemente, isso é verdade. Darwin nunca apreciou o debate público, detestava confrontações em que sua honra ou honestidade pudessem ser postas em questão; preferia ficar tranqüilo em casa, em segundo plano, satisfeito em deixar que os outros agitassem a bandeira com mais vigor do que ele próprio. Pessoalmente, acreditava que essas divergências entre cientistas não eram em geral profícuas.
 

(...) como é notório, Karl Marx ficou intrigado com a tese de Darwin e disse em várias ocasiões que via nela, em operação, o sistema capitalista de competição e o laissez-faire. Em certa época, pensou-se que Marx desejara dedicar O Capital a Darwin, mas essa idéia se baseava em um mal-entendido. Marx sem dúvida mencionou A origem das espécies em seu texto e enviou a Darwin, em sinal de respeito, um exemplar de cortesia da terceira edição. O livro continua na coleção de Darwin, com uma dedicatória de Marx. A confusão emergiu da identificação equivocada de uma carta enviada a Darwin. Ela fora escrita na realidade por Edward Aveling, filósofo político e genro de Marx, que adotou com entusiasmo as intuições seculares de Darwin. Aveling perguntava se Darwin aceitaria que ele lhe dedicasse um de seus livros. Por não desejar se ver publicamente associado ao ateísmo de Aveling, Darwin rejeitou o pedido.
 

Um aspecto em que a teoria de Darwin obviamente se impôs à sociedade foi na sugestão de que havia uma luta pela existência entre nações e raças. Depois da publicação da Origem das espécies, a notória doutrina do “darwinismo social” tomou a idéia de sucesso para justificar políticas sociais e econômicas em que a luta era a força motriz. Intimamente vinculado a economias nacionais, inserido em poderosas distinções de classe, raça e gênero, e sendo adaptado a uma variedade de compromissos políticos, não houve uma forma única de darwinismo social. De fato, alguns estudiosos argumentam que ele praticamente não derivou do esquema de seleção natural de Darwin e Wallace, e estava muito mais vinculado ao onipresente evolucionismo social de Herbert Spencer. A panacéia da “sobrevivência do mais apto” de Spencer era muito apropriada para descrever a expansão econômica, a rápida adaptação às circunstâncias e a colonização.
 
De qualquer maneira, a estratégia econômica dominante das nações desenvolvidas durante a segunda metade do século XIX ganhou forma no período subseqüente à publicação da Origem das espécies. Era comum que usassem o livro para legitimar a competição que florescia no regime de livre iniciativa do capitalismo vitoriano. Darwin estava plenamente ciente dessas atividades e talvez até as aprovasse. Logo observou que um crítico em Manchester (uma das maiores cidades manufatureiras da Grã-Bretanha) declarou que A origem das espécies promovia a noção de que “o poder faz o direito”. As idéias de Darwin foram bem recebidas por muitos magnatas e industriais.
 

O entusiasmo pela livre empresa logo se fundiu rapidamente com ideologias florescentes de imperialismo e eugenia. A “sobrevivência dos mais aptos” sustentava noções de diferenças “raciais” inerentes e parecia justificar lutas cruéis e constantes por territórios e poder político no cenário internacional. O sucesso dos europeus brancos ao conquistar a Tasmânia e lá se estabelecerem, por exemplo, pareceu “tornar natural” o extermínio indiscriminado dos aborígines tasmanianos. A conquista era considerada parte necessária do progresso. Uma opinião bastante típica foi expressa por Karl Pearson (1857-1936), engajado biólogo darwinista e estatístico londrino. Ninguém deveria lamentar, disse ele em 1900, que “uma raça capaz e vigorosa de homens brancos substituísse uma tribo de pele escura que não conseguia utilizar sua terra para o pleno benefício da humanidade, nem contribuir com sua cota para o cabedal comum do conhecimento humano”.
 

Embora A origem das espécies dificilmente possa explicar toda a estereotipia racial, o fervor nacionalista e o preconceito que seriam vistos nos anos subseqüentes à publicação, não se pode negar a influência do livro ao fornecer um endosso biológico às guerras e às noções de superioridade racial.
 

Vinte e três anos após publicar o livro que o tornou famoso, Darwin faleceu em casa, aos 73 anos. Foi enterrado na abadia de Westminster, em Londres, o lugar mais usual para funerais com honras de Estado, casamentos da realeza e celebrações nacionais.
 

Seu legado científico, porém, não foi nem de longe tão certo. À medida que outras áreas de pesquisa se abriram nas ciências biológicas, e novos gêneros de profissionais passaram a considerar um âmbito mais amplo de problemas com técnicas mais sofisticadas, a tese original da seleção natural foi modificada a ponto de se tornar quase irreconhecível. Houve discussão acerca dos conceitos centrais de competição, sucesso e “aptidão”, em particular sobre a maneira como se entrelaçavam com ideologias políticas da época. Entraram em jogo sistemas evolucionários alternativos, baseados em respostas diretas ao ambiente. De fato, diz-se muitas vezes que, perto do fim do século XIX, o darwinismo foi eclipsado por outros sistemas de pensamento evolucionário, sendo restaurado apenas quando uma “nova síntese” foi proposta, na década de 1940.
 
À medida que o otimismo no progresso constante decrescia, tais preocupações eram vividamente expressas em romances do final do século XIX. A máquina do tempo (1895) de H.G. Wells narrava a experiência de um viajante levado para um futuro em que os seres humanos haviam se deteriorado em duas espécies, os brutais morlocks que viviam no subterrâneo e os débeis elóis da superfície, uma parábola das divisões sociais que Wells distinguia em seu próprio tempo. The Coming Race (1871), de Bulwer Lyton, Erewhon, escrito por Samuel Butler e publicado em 1872, e O mundo perdido (1912), de Conan Doyle, trataram em geral dos mesmos temas, enquanto Émile Zola e Thomas Hardy tiraram grande proveito da idéia de degeneração hereditária e da pressão inflexível das forças biológicas sobre o gênero humano.
 

Se no tempo de Darwin a eugenia se expressava sobretudo em temores quanto à manutenção da aptidão biológica, no início do século XX ela se expandiu pela Europa e América na forma de movimentos que pretendiam mudar as políticas de governo com medidas de saúde pública para as massas, controle da natalidade e restrições compulsórias à procriação. Fundamentalmente, o velho sistema de controle malthusiano que Darwin empregara na biologia era reaplicado às economias políticas com apoio biológico convincente. Os pobres, loucos, fracos e doentes passavam a ser encarados como fardos biológicos para a sociedade. Para o bem da nação, dizia-se, era preciso introduzir políticas para evitar que se reproduzissem. Muitas dessas iniciativas assumiram forma institucional. O National Eugenics Laboratory foi fundado na University College London, com uma doação testamentária de Galton, para investigar a deterioração de linhagens familiares, aferida sobretudo pela incidência de distúrbios mentais hereditários. Sua direção coube a Karl Pearson, eugenista e biólogo darwiniano com acentuada tendência socialista. Psiquiatras identificavam “tipos” degenerados entre seus pacientes usando o então novo meio da fotografia, e criminologistas como o escritor italiano Cesare Lombroso propuseram que os desviantes sociais apresentavam estigmas físicos visíveis. Estes eram por vezes explicitamente associados a feições físicas simiescas. Lombroso popularizou também a palavra “atavismo”, que significava uma reversão a um tipo ancestral de símio.
 

A ciência da raça reflete os mais extremos preconceitos da época e também fez uso do darwinismo. É preciso dizer, no entanto, que racismo e genocídio antecederam Darwin. E tampouco estiveram limitados ao Ocidente. Apesar disso, idéias evolucionárias, e depois a nova ciência da genética, deram considerável respaldo biológico àqueles que desejavam dividir a sociedade segundo diferenças étnicas ou promover a supremacia branca.
 

Franz Boas, que foi um dos fundadores da antropologia e defendeu a natureza única e igual de todas as culturas, sofreu as pressões de um poderoso lobby racial da biologia norte-americana na década de 1920, que endossava a existência de estágios que toda sociedade deveria atravessar em seu desenvolvimento. Do outro lado do Atlântico, mais ou menos na mesma época, os nazistas afirmavam que os arianos eram uma forma distinta e superior da raça humana destinada a dominar os “subumanos”. O horror subseqüente à campanha nazista para a eliminação dos judeus pôs em questão a ideologia da ciência racial, embora muito dela ainda exista.
 

A influência da Origem das espécies se reduzia também em outros lugares. Alguns geneticistas defendiam as idéias de herança no meio ambiente. No século XX, os governos comunistas soviéticos foram em geral hostis às implicações capitalistas da teoria darwinista e endossaram uma nova forma de ambientalismo introduzida na política estatal por Trofim Lysenko na década de 1930. O feito de Lysenko foi demonstrar a adaptação do trigo às condições climáticas dominantes (a “vernalização”, em que as sementes eram expostas ao frio, de modo a germinarem mais cedo no ano seguinte). Lysenko afirmava que essa propriedade podia ser herdada, e assim seria possível produzir novas linhagens de trigo adaptadas à curta estação de crescimento na Rússia. Stálin adotou as descobertas de Lysenko, proibiu pesquisas genéticas alternativas e instigou um expurgo de importantes geneticistas, como Sergei Chetverikov e Nikolai Vavilov. Alguns fugiram para o Ocidente, como N.W. Timoffeef-Ressovsky e Theodore Dobzhansky, que deram grande contribuição ao desenvolvimento da genética. Outros simplesmente desapareceram. Sob o regime comunista, notícias de espantosos (e impossíveis) sucessos agrícolas foram difundidas até os anos intermediários do governo de Kruschev, quando Lysenko foi abertamente criticado pelo físico Andrei Sakharov. Só a partir de meados da década de 1960 a ciência soviética passou a se abrir gradualmente para as idéias darwinistas de evolução e para a nova genética.
 

Na perspectiva atual, é quase impossível conceber um mundo de pesquisa biológica sem os conceitos de adaptação e seleção natural, ferramentas intelectuais que serviram de base para grande parte da biomedicina moderna, das ciências ambientais, das teorias do comportamento humano e da psicologia.
 

O mais inesperado de todos os desenvolvimentos recentes é a ressurgência da literatura criacionista e a proliferação de toda uma nova série de teologias antidarwinistas no Ocidente. É possível que esta seja mais uma expressão, entre muitas, de uma reação cultural diante do afrouxamento dos códigos morais desde as décadas de 1960 e 1970. Os novos criacionistas talvez culpem a ascensão de idéias seculares pela decadência moderna e a perda de valores familiares tradicionais. Atacar a teoria evolucionária seria, portanto, uma forma de agredir tanto um símbolo como a pretensa causa da podridão da sociedade. Visto de fora, o tom desse movimento é condenatório e conservador.
 

O novo milênio começou, portanto, com as mentes ocidentais divididas, como sempre, em relação às implicações de uma origem natural das espécies. Apesar das contestações, a síntese moderna permanece firme no coração das ciências biológicas. Nenhum biólogo ousaria ignorar as evidências. Como disse Theodore Dobzhansky em 1960, “nada na biologia faz sentido exceto à luz da evolução”. A história raramente fala de avanços triunfantes simples, mas pode falar do impacto extraordinário de um único livro. Ainda que muitas das idéias e dos temas tratados por Darwin em 1859 não fossem novos, e seu estilo se mostrasse extremamente conciliatório, A origem das espécies foi com certeza uma publicação capital, que alterou de maneira espetacular a natureza da discussão sobre nossas origens. A influência recíproca entre um homem, um livro e as diversas circunstâncias sociais, religiosas, intelectuais e nacionais de suas audiências e as correntes mais amplas de mudança histórica fez da Origem das espécies de Darwin um fenômeno extraordinário em seu tempo – e permite que a obra continue a interessar e instruir seus leitores ainda hoje. Os textos antigos muitas vezes são recriados por novas formas de olhar, e parece que A origem das espécies de Darwin mostrou-se flexível na sobrevivência de suas principais propostas e maleável nas mãos de seus devotos. Pode ser visto, portanto, não como uma voz solitária a contestar deliberadamente as tradições da Igreja ou os valores morais da sociedade, mas como um dos eixos de transformação do pensamento ocidental.
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Fim

03 janeiro, 2021

[Lista] Livros Sobre Organização no Blog!

 

Foto de Sharad kachhi no Pexels



Título 

Autor 
Resenha


Arrume a Sua Bagunça e Transforme a Sua Vida (2016)/ 

Kingston, Karen



Casa em ordem (2009)/

 Natalia Zanar Ortiz





Checklist - Como fazer as coisas benfeitas (2011)


Atul Gawande



Chega de Desperdício! (2010)/

John Naish



Menos é Mais (2016)  

Jay, Francine



O Ócio Criativo (2000)

Domenico de Masi



Organização Pessoal: para Usuários de Agenda de Papel Ou no Computador (2003)

Marcelo Andrade



Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes (1989)

Stephen Covey



Técnicas de Arquivo e Controle de Documentos (2005)

Sebastiana Batista Vieira



Terapia do Apartamento (2007)

Maxwell Gillingham-Ryan




Uma bagunça perfeita (2008)

David H. Freedman e Eric Abrahamson


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01 janeiro, 2021

[Carreira] Atualização Profissional

 

Curso 

Conteúdo 


Carga Horária/
Conclusão


complemento:




Alexandre Zamboni (alterações no CP)  - Rogerio Sanches (arts. 28 e 28-A CPP) (arts. 3-A e ss CPP) (Informante do bem) - Marcio Alberto (arts. 158-a e ss CPP) - Eduardo Fontes (Lei 12.850/13) -Marcelo Uzeda (alterações na LEP) - Jamil Chaim (alterações no capítulo da prisão) - Gabriel Habib (alterações na Lei dos Crimes Hediondos e na Lei de Drogas) - Matheus Carvalho (Lei de Improbidade) - Ruchester (estatuto do desarmamento) - Gustavo Cordeiro (alterações no capitulo das cautelares – arts. 122 e ss do CPP e no capitulo do júri)

20 horas - concluído em janeiro/2021

ótimo curso rápido.




AULA 1. INTRODUÇÃO AO TEMA. O CONTEXTO HISTÓRICO DA ORIGEM NORMATIVA. O OBJETO DA NORMA. DISPOSIÇÕES GERAIS DA LEI DA LIBERDADE ECONÔMICA. VISÃO GERAL DA LEGISLAÇÃO. Professor Roberto Figueiredo.

AULA 2. A LEI DA LIBERDADE ECONÔMICA EM TEMPOS DE COVID-19. A RESSIGNIFICAÇÃO DA NORMA? Professor Silvano Flumignan.

AULA 3. IMPACTOS DA LIBERDADE ECONÔMICA NO DIREITO CIVIL: PESSOA JURÍDICA, NEGÓCIOS JURÍDICOS, CONTRATOS E DIREITOS REAIS. Professor Luciano Figueiredo.

AULA 4. A LEI DA LIBERDADE ECONÔMICA NO DIREITO DO TRABALHO. Professores Renato Saraiva.

AULA 5. A LEI DA LIBERDADE ECONÔMICA NO DIREITO EMPRESARIAL. Professora Renata de Lima.

20 horas - concluído em




























Metas para 2021

 

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1 - Carreira



  • Trabalho - fazer 2 ou 3 cursos online na minha área de formação (isso gera um trocado no contracheque)
  • Idiomas - chegar no nível intermediário em Inglês. 
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2 - Corpo


  • Cuidar da saúde em geralexames, consultas, tratamentos, nutrição (alimentação + suplementação sem hormônios), descanso,academia etc

  • Emagrecer sem enfraquecer - minha Meta de Shape:

Meta não atingida em 2020
O mínimo de shape com que 
quero terminar em 2021

3 - Finanças


  • Aportar 33% dos meus ganhos líquidos salariais, o que não inclui verbas extraordinárias como terço constitucional de férias, 13º, etc
  • Liquidez: Não fazer dívidas e me manter líquido o máximo possível.
  • Consumo: Consumir menos que em 2020
Objetivo da Carteira




4 - Hobbies


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5 - Mente 


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6 - Organização 


  • Não acumular objetos e roupas que não são usados
  • Não comprar por impulso coisas que não terão utilidade
  • re(organizar), ao longo do ano, minha casa com base no método do livro "Terapia do Apartamento", gastando o mínimo possível.

7 - Social


  • Viajar e conhecer ao menos duas novas cidades do Brasil
  • fazer passeios menores e se divertir 


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