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14 abril, 2021

[Livro] A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - Parte 3



Nos primeiros anos do século I, o grande sábio fariseu Hillel viera da Babilônia para Jerusalém, onde pregou ao lado de seu rival Shamai, cuja versão do farisaísmo era mais rigorosa. Diz-se que um dia um pagão aproximou-se de Hillel e prometeu converter-se ao judaísmo caso ele conseguisse resumir toda a Torá enquanto se equilibrava numa perna só. Equilibrando-se numa perna só, Hillel respondeu: “Não faz a teu próximo o que for odioso para ti mesmo. Esta é toda a Torá, e o restante não passa de comentário. Vai estudá-la.” Esse foi um espantoso e deliberadamente controverso exemplo de midrash. A essência da Torá era a recusa disciplinada de infligir dor a outro ser humano. Tudo mais que estava nas Escrituras era meramente “comentário”, uma glosa à Regra de Ouro. 

No fim da exegese, Hillel pronunciou um miqra, um chamado à ação: “Vai estudá-la!” Quando estudavam a Torá, os rabinos deviam tentar revelar o núcleo de compaixão que residia no coração de toda a legislação e das narrativas nas Escrituras – mesmo que isso significasse torcer o sentido original do texto. Os rabinos de Yavneh eram seguidores de Hillel. O rabino Akiba, o sábio mais importante do fim do período Yavneh, declarou que o princípio básico da Torá era o mandamento que consta no Levítico: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Somente um dos rabinos contestou isso, afirmando que as simples palavras “Este é o legado dos descendentes de Adão”, eram mais importantes porque revelavam a unidade de toda a raça humana.

O estudo da Torá não era uma atividade solitária. O rabino Berachiah, um sábio palestino do século VII, comparou a discussão rabínica com uma peteca: “As palavras voam para um lado e para outro quando o sábio chega a uma casa de estudo e discute a Torá, um expondo sua opinião, outro expondo outra opinião, e um terceiro expondo uma opinião diferente.” Contudo, havia uma unidade fundamental, porque os sábios não estavam meramente expressando suas próprias opiniões: “As palavras desses e dos outros sábios eram todas dadas por Moisés o Pastor a partir do que ele recebeu do Único do Universo.” Mesmo quando envolvido num acalorado debate, o estudante verdadeiramente empenhado sabia que tanto ele quanto seu oponente de alguma maneira participavam de uma conversa que se estendia no passado até Moisés e continuaria no futuro, e de que o que ambos diziam já havia sido previsto e prometido por Deus.

Agostinho não era um lingüista. Não sabia hebraico e não poderia ter conhecido o midrash judaico, mas chegara à mesma conclusão que Hillel e Akiba. Qualquer interpretação da Escritura que espalhasse ódio e dissensão era ilegítima; toda exegese devia ser guiada pelo princípio da caridade.


Os cabalistas combinavam suas meditações místicas sobre a Escritura com vigílias, jejuns e constante auto-exame. Eles tinham de viver juntos em companheirismo, reprimindo o egoísmo e a egolatria porque a ira penetrava na psique como um espírito mau e estilhaçava a harmonia divina de sua alma. Era impossível experimentar a unidade das sefirot nesse estado dividido. O amor dos amigos era fundamental para o ekstasis da Cabala. No Zohar, um dos sinais de uma exegese bem-sucedida é o grito de alegria proferido pelos colegas do intérprete quando ouvem o que experimentam como verdade divina, ou quando os exegetas se beijam um ao outro antes de recomeçar sua viagem mística.


Calvino nunca se cansou de salientar que, na Bíblia, Deus foi condescendente com nossas limitações. A Palavra foi condicionada pelas circunstâncias históricas em que foi pronunciada, de modo que as histórias menos edificantes da Bíblia devem ser vistas em contexto, como fases de um processo em curso. Não havia nenhuma necessidade de explicá-las alegoricamente. A história da criação no Gênesis era um exemplo desse balbucio divino, que adaptava processos imensamente complexos à mentalidade de pessoas sem instrução. Não era surpreendente que a história do Gênesis diferisse das novas teorias dos filósofos instruídos. Calvino tinha grande respeito pela ciência moderna. 

Achava que ela não devia ser condenada simplesmente “porque alguns frenéticos costumam rejeitar com atrevimento tudo que lhes é desconhecido. Pois a astronomia não só é agradável, como seu conhecimento é de muita utilidade: não se pode negar que essa arte revela a admirável sabedoria de Deus”. Era absurdo esperar que a Escritura ensinasse o fato científico; quem desejasse aprender sobre astronomia devia procurar em outro lugar. O mundo natural era a primeira revelação de Deus, e os cristãos deveriam encarar as novas ciências geográficas, biológicas e físicas como atividades religiosas. 


A nova disciplina da sola scriptura não foi capaz de fazer isso pelos cristãos da Europa. Mesmo após sua grande ruptura, Lutero continuou aterrorizado pela morte. Parecia estar constantemente num estado de fúria latente: contra o papa, os turcos, os judeus, as mulheres, os camponeses rebeldes, os filósofos escolásticos e cada um de seus opositores teológicos. Ele e Zwingli envolveram-se numa furiosa controvérsia acerca do significado das palavras de Cristo ao instituir a Eucaristia na última ceia, dizendo: “Este é o meu corpo.” Calvino ficou consternado com a raiva que anuviara as mentes dos dois reformadores e causou uma desavença ímpia que podia e devia ter sido evitada: “Ambos os lados foram completamente incapazes de ter paciência para ouvir o outro, de modo a seguir a verdade sem paixão, onde quer que ela estivesse”, concluiu ele. 

“Ouso afirmar com deliberação que, se suas mentes não tivessem estado em parte exasperadas pela extrema veemência das controvérsias, a divergência não teria sido tão grande que uma conciliação não pudesse ter sido facilmente alcançada.” Era impossível para intérpretes concordar acerca de cada passagem da Bíblia; disputas deviam ser conduzidas com humildade e mente aberta. Contudo, o próprio Calvino nem sempre pôs em prática esses princípios elevados e estava disposto a executar dissidentes em sua própria igreja.


Sola scriptura havia sido um ideal nobre, ainda que controverso. Na prática, porém, ela significava que todo mundo tinha o direito, concedido por Deus, de interpretar aqueles documentos extremamente complexos como bem entendesse. As seitas protestantes proliferaram, cada uma proclamando que somente ela compreendia a Bíblia. Em 1534, um grupo apocalíptico radical em Munster fundou um Estado teocrático independente baseado numa leitura literal da Escritura, que permitia a poligamia, condenava toda violência e proscrevia a propriedade privada. Esse breve experimento durou apenas um ano, mas alarmou os reformadores. 

Se não havia nenhum corpo autorizado para controlar a leitura bíblica, como poderia alguém saber quem estava certo? “Quem dará à nossa consciência informação segura sobre quem está nos ensinando a pura Palavra de Deus, nós ou nossos oponentes?”, perguntou Lutero. “Deve todo fanático ter o direito de ensinar o que bem entende?” , concordou Calvino: “Se todos têm direito de ser juíz e árbitro nessa matéria, nada pode ser considerado certo, e toda a nossa religião estará cheia de incerteza.”


Os antigos reinos feudais tinham de ser transformados em Estados eficientes, centralizados, inicialmente sob monarcas absolutos que podiam impor a unidade pela força. Fernando e Isabel fundiam os antigos reinos ibéricos para formar uma Espanha unida, mas ainda não tinham recursos para conceder aos seus súditos uma liberdade irrestrita. Não havia lugar para corpos autônomos, que se autogovernassem, como as comunidades judaicas. A Inquisição espanhola, que perseguiu tenazmente esses dissidentes, foi uma instituição modernizante, projetada para criar conformidade ideológica e unidade nacional. 

À medida que a modernização avançava, soberanos protestantes em países como a Inglaterra também foram cruéis com seus súditos católicos, vistos como inimigos do Estado. As chamadas Guerras Religiosas (1618-48) foram de fato uma luta de 30 anos da parte dos reis da França e dos príncipes alemães para se tornarem politicamente independentes do Sacro Império Romano e do papado, embora tivessem se complicado com a confrontação entre um calvinismo militante e um catolicismo revigorado, reformado.


Nem todos os colonos americanos partilhavam da visão puritana, mas ela deixou uma marca indelével no ethos dos Estados Unidos. O Êxodo continuaria a ser um texto crucial. Foi citado pelos líderes revolucionários da Guerra da Independência contra a Grã-Bretanha. Benjamin Franklin queria que o “grande selo” da nação retratasse a separação das águas do mar dos Juncos, mas a águia que se tornou o símbolo dos Estados Unidos era não só um antigo emblema imperial como estava também associada ao Êxodo. 

Outros migrantes valeram-se da história do Êxodo da mesma maneira: os mórmons, os africâners da África do Sul e os judeus que fugiram da perseguição na Europa e buscaram refúgio nos Estados Unidos. Deus os salvara da opressão e os estabelecera numa nova terra – algumas vezes à custa de outros.


Um único texto podia ser interpretado para servir a interesses diametralmente opostos. Quanto mais as pessoas eram estimuladas a fazer da Bíblia o foco de sua espiritualidade, mais difícil se tornava encontrar uma mensagem essencial. Ao mesmo tempo que afro-americanos recorriam à Bíblia para desenvolver sua teologia da libertação, a Ku Klux Klan a utilizava para justificar o linchamento de negros. Mas a história do Êxodo não significa libertação para todos. Os israelitas que se rebelaram contra Moisés no deserto foram exterminados; os cananeus indígenas foram massacrados pelos exércitos de Josué. 

Teólogas feministas negras mostraram que os israelitas possuíam escravos; que Deus lhes permitia vender suas filhas para a escravidão; e que Deus realmente ordenou a Abraão que abandonasse a escrava egípcia Hagar no deserto. Sola scriptura podia orientar as pessoas na direção da Bíblia, mas jamais conseguia fornecer uma prescrição absoluta: as pessoas sempre podiam encontrar textos alternativos para apoiar um ponto de vista oposto. No século XVII, as pessoas religiosas estavam se tornando agudamente conscientes de que a Bíblia era um livro muito confuso, e isso numa época em que a clareza e a racionalidade eram valorizadas como nunca.


Outros estudiosos aplicaram suas habilidades ceticamente críticas à Bíblia. Baruch Spinoza (1632-77) um judeu sefardita de ascendência espanhola nascido na liberal cidade de Amsterdam, havia estudado matemática, astronomia e física e as considerava incompatíveis com suas crenças religiosas.  Em 1655 ele começou a expressar dúvidas que perturbaram sua comunidade: as contradições manifestas na Bíblia provavam que ela não podia ser de origem divina; a idéia de revelação era uma ilusão; e não havia nenhuma divindade sobrenatural – o que chamávamos de “Deus” era simplesmente a própria natureza.


Israel ben Eliezer iniciou um movimento de reforma e tornou-se conhecido como o Baal Shem Tov – ou o “Besht” –, um mestre de condição excepcional. No fim de sua vida, havia cerca de 40 mil de seus hassidim (“piedosos”). O Besht afirmava que não havia sido escolhido por Deus porque estudara o Talmude, mas porque recitava as preces tradicionais com tamanho fervor e concentração que alcançava uma união extática com Deus.


Os hassidim expressavam essa consciência acentuada em preces extáticas, ruidosas e agitadas, acompanhadas por gestos extravagantes – tal como saltos mortais que simbolizavam uma total inversão de visão – que os ajudavam a se lançar com todo o seu ser no culto.


O hassidismo despertou arrebatada oposição entre os judeus ortodoxos, que ficaram horrorizados com a aparente difamação do estudo erudito da Torá por parte de Besht. Eles se tornaram conhecidos como os misnagdim (“oponentes”). Seu líder foi Elijah ben Solomon Zalman (1720-97), diretor (gaon) da academia de Vilna na Lituânia. O estudo da Torá era a maior paixão do gaon, mas ele era também versado em astronomia, anatomia, matemática e línguas estrangeiras. Embora estudasse a Escritura de maneira mais agressiva que os hassidim, o método do gaon era místico à sua maneira. 

Ele apreciava o que chamava de “esforço” do estudo, uma intensa atividade mental que o fazia cair num novo nível de consciência e o prendia aos livros a noite toda, os pés imersos em água gelada para impedir que adormecesse. Quando o gaon se permitia cochilar, a Torá penetrava seus sonhos e ele experimentava uma elevação ao divino.


A modernidade secular foi sob muitos aspectos benigna, mas foi também violenta e tendeu a romantizar a luta armada. Entre 1914 e 1945, 70 milhões de pessoas na Europa e na União Soviética morreram em conseqüência de guerra e conflito. Houve duas guerras mundiais, limpeza étnica brutalmente eficiente e atos de genocídio. Algumas das piores atrocidades haviam sido perpetradas pelos alemães, os criadores de uma das mais cultas sociedades da Europa. Não era mais possível presumir que uma educação racional eliminaria o barbarismo. A simples escala do Holocausto nazista e do Gulag soviético revela suas origens modernas. Nenhuma sociedade anterior tinha tecnologia para implementar esses esquemas grandiosos de extermínio.


Michael Fishbane, atualmente professor de estudos judaicos na Universidade de Chicago, acredita que a exegese poderia nos ajudar a recobrar a idéia de um texto sagrado. A crítica histórica da Bíblia não nos permite mais ler as Escrituras de modo sincrônico, vinculando passagens vastamente separadas no tempo. Mas a crítica literária moderna reconhece que nosso mundo interior é criado por fragmentos de muitos textos diferentes, que convivem em nossas mentes, um restringindo o outro. Nosso universo moral é moldado por Rei Lear, Moby Dick e Madame Bovary tanto quanto pela Bíblia. Raramente absorvemos textos inteiros: imagens isoladas, frases e fragmentos vivem em nossas mentes em conjuntos incontáveis, fluidos, que agem e reagem uns sobre os outros. 

De maneira semelhante, a Bíblia não existe inteira em nossas mentes, mas nelas se encontra de forma fragmentária. Criamos nosso próprio “cânone dentro do cânone”, e deveríamos nos assegurar deliberadamente de que nossa seleção é uma coleção de textos benignos. O estudo histórico da Bíblia mostra que houve muitas visões rivais no antigo Israel, cada qual afirmando – muitas vezes de maneira agressiva – ser a versão oficial do jeovismo. Podemos ler a Bíblia hoje como um comentário profético ao nosso próprio mundo de ortodoxias furiosas; mas ela pode nos proporcionar a distância compassiva para compreender os perigos desse dogmatismo estridente e substituí-lo por um pluralismo purificado.


Desde o início, os autores bíblicos se contradisseram uns aos outros, e suas visões conflitantes foram todas incluídas pelos editores no texto final. O Talmude era um texto interativo que, adequadamente ensinado, compelia o estudante a encontrar as próprias respostas. Hans Frei estava certo: a Bíblia foi um documento subversivo, desconfiado da ortodoxia desde o tempo de Amós e Oséias. 

O hábito moderno de citar textos comprobatórios para legitimar políticas e governos não está em consonância com a tradição interpretativa. Como Wilfred Cantwell Smith explicou, a Escritura não era realmente um texto, mas uma atividade, um processo espiritual que introduzia milhares de pessoas à transcendência.

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Fim

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