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3 de julho de 2026

[Rsm] Por baixo da mesa (2006)

 

Paul Cézanne - Les Joueurs de cartes







Olavo de Carvalho — Crítica ao Multiculturalismo

Diário do Comércio, editorial, 19 de dezembro

1. Definição inicial do multiculturalismo

O multiculturalismo como “irmão siamês” do desconstrucionismo

Olavo de Carvalho inicia o texto aproximando o multiculturalismo do desconstrucionismo, sugerindo que ambos pertencem ao mesmo campo intelectual e compartilham pressupostos semelhantes.

A definição apresentada por Roberto Fernández

O autor cita Roberto Fernández, professor ligado à USP, segundo o qual não faria sentido falar de verdade em si, mas apenas de uma verdade válida para determinado grupo cultural.

A visão multiculturalista da vida

Segundo a definição citada, o multiculturalismo propõe uma visão caleidoscópica da vida e da fertilidade do espírito humano. Nessa perspectiva, cada indivíduo poderia ultrapassar os limites estreitos de sua própria formação cultural.

O ideal humano multiculturalista

O modelo humano defendido pelo multiculturalismo seria alguém tolerante, compreensivo, amplo, sensível e rico, pois sua capacidade de interpretar, observar e sentir seria multiplicada pelo contato com outras culturas.

2. A contradição central do multiculturalismo

A negação da verdade universal

Olavo afirma que, se toda verdade depende da visão de um grupo cultural específico, então não haveria uma verdade acima das culturas.

A impossibilidade de transcender a própria cultura

Para o autor, se toda verdade está condicionada culturalmente, ninguém poderia realmente transcender sua formação cultural nem interpretar o mundo por meio de outras culturas.

A existência de uma verdade superior às culturas

Se alguém consegue ultrapassar as fronteiras culturais, isso provaria que existe uma verdade acima das culturas e que essa verdade é acessível à inteligência humana.

O multiculturalismo faz o que diz ser impossível

Assim, para Olavo, o multiculturalismo pratica aquilo que teoricamente declara impossível: ele afirma que não há verdade universal, mas depende de uma verdade universal para sustentar sua própria proposta.

3. Paralaxe cognitiva

Definição aplicada ao multiculturalismo

Olavo chama essa contradição de paralaxe cognitiva, isto é, uma separação entre aquilo que a pessoa afirma teoricamente e aquilo que seu próprio ato demonstra na prática.

Separação entre experiência intelectual e construção teórica

Segundo ele, há um deslocamento radical entre o eixo da experiência intelectual efetiva e o eixo da construção teórica supostamente baseada nessa experiência.

4. A contradição entre teoria e prática

Uma incongruência grosseira

Olavo afirma que a contradição do multiculturalismo é tão evidente que não poderia ser fruto de simples distração ou coincidência.

A camuflagem da contradição

A contradição ficaria levemente escondida porque seus dois lados aparecem em planos diferentes: um no plano da teoria e outro no plano da prática.

A formação do estudante multiculturalista

Para que o estudante continue envolvido nessa prática, ele precisa ser impedido de confrontar a teoria com a prática.

Incapacidade de perceber o que está fazendo

O treinamento multiculturalista, segundo Olavo, levaria o aluno a acreditar que sabe algo justamente quando não sabe o que está fazendo com esse conhecimento.

5. O multiculturalismo como embotamento intelectual

Técnica de autoembotamento

Olavo define o multiculturalismo como uma técnica de autoembotamento intelectual, isto é, um processo pelo qual a inteligência do aluno seria enfraquecida.

Estimulação contraditória rotinizada

Esse enfraquecimento ocorreria por meio de uma repetição constante de estímulos contraditórios, que acostumariam o estudante a conviver com incoerências sem percebê-las.

6. O multiculturalismo como instrumento de dominação

Impossibilidade de discuti-lo apenas como teoria

Para Olavo, não faz sentido discutir o multiculturalismo apenas como uma teoria, porque sua função principal não estaria no campo das ideias.

Impossibilidade de discuti-lo apenas como prática

Também não bastaria analisá-lo como prática isolada, pois o essencial estaria na articulação psicológica entre teoria e prática.

O ardil psicológico

O que seria necessário, segundo o autor, é revelar o ardil psicológico por trás da relação entre teoria e prática.

Dominação universitária

Olavo conclui que o multiculturalismo seria um instrumento de dominação, criado para transformar universitários em “idiotas militantes”, hipnotizados e colocados a serviço de seus professores.

7. Crítica à refutação meramente teórica das ideias esquerdistas

Referência a José Guilherme Merquior

Olavo menciona José Guilherme Merquior como exemplo de intelectual conservador brilhante que dedicou esforço a combater ideias esquerdistas.

Limite da impugnação intelectual

Para o autor, refutar teoricamente essas ideias não seria suficiente, pois elas não valeriam por si mesmas.

Ideias como camuflagem

Segundo Olavo, muitas dessas ideias funcionariam apenas como camuflagem de operações mais discretas de poder e manipulação.

8. A metáfora final

O vizinho que joga baralho

Olavo usa a imagem de um vizinho mal-intencionado que vai jogar cartas na casa de alguém, mas com a intenção escondida de assediar sua esposa por baixo da mesa.

A inutilidade de vencer o jogo

Nesse caso, vencer o jogo de cartas não resolveria o problema, porque o verdadeiro objetivo do adversário não estaria no jogo.

Virar a mesa

A conclusão da metáfora é que, diante de uma operação disfarçada, não basta vencer o debate intelectual. É preciso expor e combater diretamente a intenção oculta por trás dele.


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