25 de junho de 2026

[Rsm] A Traição dos Intelectuais (1955)

 




Resumo estruturado para revisão

The Betrayal of the Intellectuals, de Julien Benda

A obra está organizada em nota do tradutor, prefácio do autor, introdução de Herbert Read, quatro capítulos principais e notas finais. Os capítulos centrais são: I. The Modern Perfecting of Political Passions, II. Significance of This Movement: Nature of Political Passions, III. The “Clerks”: The Great Betrayal e IV. Summary: Predictions. Ou seja: até a decadência intelectual, como se vê, teve a decência mínima de vir com sumário.

Partes preliminares

1. Nota do tradutor

O problema da palavra “clerks”

O tradutor explica que o título original francês é La Trahison des Clercs. A palavra “clercs” designa, em Benda, aqueles que falam ao mundo de maneira transcendental, isto é, homens ligados à vida espiritual, intelectual, moral ou especulativa. Como não há equivalente inglês perfeito, o tradutor conserva “clerk” em sentido medieval, não no sentido moderno de funcionário de escritório.

Sentido especial de realismo e idealismo

A nota também avisa que “real” e “realism” são usados quase sempre como oposição a “ideal” e “idealism”. Isso é essencial para entender o livro: realismo não significa apenas contato com os fatos, mas apego ao mundo prático, material, político, interessado e temporal.

2. Prefácio do autor

O contraste entre Evangelhos e ordens militares

Benda abre com uma anedota de Tolstoi: ao censurar um oficial por maltratar um homem e perguntar se ele não havia lido os Evangelhos, o oficial responde perguntando se Tolstoi não havia lido as ordens militares. A anedota estabelece o conflito básico do livro: de um lado, a voz espiritual da justiça e da caridade; de outro, a lógica material da força, da disciplina e da conquista.

A função esquecida dos clercs

Benda afirma que sempre deve haver homens, ainda que desprezados, capazes de lembrar à humanidade que existe algo além da religião do material. Esses homens seriam os clercs. O problema, segundo ele, é que os clercs modernos deixaram de cumprir essa função e passaram a fazer o contrário: em vez de orientar os homens para valores superiores, convidam-nos a desprezar o Evangelho e a seguir as ordens do mundo material.

Introdução de Herbert Read

Julien Benda e o novo humanismo

1. A posição intelectual de Benda

Um pensador contra as modas intelectuais

Herbert Read apresenta Benda como um escritor prolífico, contrário às tendências dominantes da literatura e da política. Ele o descreve como representante solitário de valores que não são nem progressistas superficiais nem reacionários obtusos. A introdução situa Benda dentro da crítica francesa e mostra como suas ideias conduzem a The Betrayal of the Intellectuals.

A origem no caso Dreyfus

Benda começou escrevendo reflexões filosóficas sobre o caso Dreyfus, publicadas em Dialogues à Byzance. Depois, em Mon Premier Testament, desenvolveu uma análise da política e da moral segundo a qual a maior parte das ideias políticas dos homens não nasce da razão, mas dos sentimentos. As ideias triunfam porque satisfazem ódios, simpatias, orgulho nacional, orgulho racial, orgulho religioso, orgulho de classe ou desejo de autoapagamento.

A paixão pela verdade

Read observa que o aparente cinismo de Benda nasce de uma profunda paixão pela verdade. Benda é apresentado como herdeiro de Spinoza, interessado em compreender a alma humana e em revelar como doutrinas aparentemente racionais são muitas vezes racionalizações de sentimentos prévios.

2. A crítica a Bergson e à sensibilidade moderna

O ataque ao bergsonismo

Benda criticou Bergson em Le Bergsonisme, ou Une Philosophie de la Mobilité. Sua crítica se dirige especialmente ao conceito de intuição e à ideia de que a inteligência deformaria a realidade por fixá-la. Benda pergunta por que a intuição, ao dar movimento à realidade, também não a deformaria. O alvo não é apenas uma tese filosófica, mas uma tendência moderna de substituir a razão clara por imagens, metáforas e sentimentos.

O homem de sentimento contra o homem de razão

Read apresenta a oposição entre Descartes, símbolo do homem de razão, e Bergson, símbolo do homem de sentimento. O bergsonismo aparece como filosofia associada à democracia sentimental, ao fluxo, à duração, ao vitalismo e à intuição. Para Benda, essa tendência favorece uma cultura que prefere emoção e mobilidade à clareza intelectual.

3. A crítica estética: Belphégor

A arte reduzida à emoção

Em Belphégor, Benda critica a sociedade francesa moderna por exigir das obras de arte apenas emoções e sensações, perdendo a capacidade de obter delas prazer intelectual. Ele denuncia a vagueza, a musicalização das artes, o subjetivismo, o romantismo e o lirismo excessivo. Contra isso, defende ordem, clareza e precisão.

4. A tese de The Betrayal of the Intellectuals

Quem são os clercs

Os clercs são os intelectuais desinteressados: homens dedicados ao pensamento puro, à ciência, à filosofia, à arte, à religião ou à especulação metafísica. Entre os grandes exemplos estão Tomás de Aquino, Roger Bacon, Galileu, Descartes, Montaigne, Newton, Spinoza, Leibniz, Kepler, Pascal e Kant. A acusação de Benda é que os clercs modernos traíram essa vocação ao submeter o pensamento às paixões políticas.

A organização intelectual dos ódios políticos

Segundo Read, Benda vê o século moderno como o século da organização intelectual dos ódios políticos. O clerc saiu da torre de marfim, misturou-se às massas, adotou suas paixões e depois as revestiu de justificações intelectuais. A função do pensamento passou a ser dar verniz racional a paixões de raça, classe e nação.

A traição em duas formas principais

A traição dos clercs ocorre de duas maneiras: primeiro, pela exaltação do particular contra o universal; segundo, pela exaltação do prático contra o espiritual. Em vez de humanismo intelectual, surgem sentimentalismo, patriotismo, culto da força, elogio da guerra, dureza e orgulho coletivo.

Capítulo I

O aperfeiçoamento moderno das paixões políticas

1. O que são as paixões políticas

Paixões de raça, classe e nação

Benda começa examinando as paixões chamadas políticas, isto é, aquelas pelas quais homens se levantam contra outros homens. As principais são as paixões de raça, de classe e de nação. Mesmo os defensores do progresso inevitável da humanidade não poderiam negar, segundo o autor, que essas paixões atingiram na modernidade um grau inédito de desenvolvimento.

2. A universalização das paixões políticas

Mais pessoas são afetadas

No passado, guerras civis e conflitos internacionais muitas vezes perturbavam apenas uma parcela limitada da população. Na modernidade, quase nenhum espírito europeu estaria imune a alguma paixão racial, nacional ou de classe. O fenômeno se amplia também no Novo Mundo e no Extremo Oriente, onde massas antes alheias a esse tipo de paixão despertam para ódios sociais, sistemas partidários e espírito nacional.

A política invade a vida comum

A paixão política deixa de ser assunto de cortes, elites militares ou governantes. Ela passa a atingir o burguês, o trabalhador, o artista, o escritor, o profissional liberal e o cidadão comum. A política se torna presença constante na vida cotidiana. Eis o progresso humano, aparentemente: transformar até o café da manhã em trincheira ideológica.

3. A coerência das paixões políticas

Comunicação e espírito de grupo

As paixões políticas tornam-se mais coerentes graças ao progresso das comunicações e ao fortalecimento do espírito de grupo. Quem compartilha o mesmo ódio sente-se ligado a milhares de outros. O ódio deixa de ser disperso e se transforma em massa organizada.

O indivíduo adora o grupo

O indivíduo passa a atribuir uma espécie de personalidade mística ao grupo a que pertence. A associação é quase divinizada. O grupo deixa de ser apenas uma reunião prática de pessoas e passa a funcionar como objeto de adoração, aumentando a intensidade da paixão individual.

4. A homogeneização das paixões

Todos passam a odiar de modo parecido

As paixões políticas tornam-se mais homogêneas. Os indivíduos perdem modos pessoais de sentir e passam a repetir as mesmas fórmulas, os mesmos gestos, os mesmos slogans. Benda menciona como exemplos o antissemitismo, o anticlericalismo e o socialismo, que tendem a uniformizar seus adeptos.

A disciplina do ódio

As paixões passam a obedecer quase a uma palavra de comando. Não se trata apenas de muitas pessoas odiarem a mesma coisa, mas de odiarem segundo formas parecidas. O ódio ganha disciplina, organização e linguagem própria.

5. A precisão das paixões

Do sentimento vago ao programa definido

Algumas paixões tornam-se mais precisas. O socialismo, antes vago para muitos partidários, passa a definir melhor seu objetivo, o ponto exato em que deseja atingir o adversário e o movimento necessário para vencer. O mesmo ocorre com o movimento antidemocrático. O ódio se fortalece ao saber exatamente onde quer bater.

6. A continuidade das paixões

O ódio político não descansa

No passado, ódios políticos surgiam e desapareciam em surtos. Na modernidade, tornam-se contínuos. O jornal diário alimenta a paixão política todos os dias. Quando uma paixão parece silenciar, é apenas porque outra mais geral a absorveu temporariamente, como ocorre nas chamadas uniões nacionais.

Ódios menores se fundem em ódios maiores

Benda observa que velhos ódios parciais se condensam em grandes paixões coletivas. Na Alemanha e na Itália, rivalidades locais cedem lugar à paixão nacional. Na França, antagonismos entre nobres, clero e comuns acabam sendo absorvidos em conflitos mais amplos. Na modernidade, a paixão política simplifica o mundo em poucos ódios gigantescos.

7. A política como paixão dominante

A política invade todas as outras paixões

A paixão política passa a dominar rivalidades familiares, comerciais, ambições pessoais, disputas por honrarias e ressentimentos privados. Benda resume essa situação como “política em toda parte”. O sujeito moderno, pelo visto, descobriu como tornar até a antipatia pelo vizinho um problema constitucional.

A paixão política nas classes populares

No homem do povo, as paixões políticas tornam-se dominantes quando as condições materiais permitem algum espaço para ideias gerais. O desejo vago de mudança social transforma-se em paixão quando adquire duas marcas: ideia fixa e necessidade de ação.

8. O papel do jornal político diário

O jornal como máquina de paixão

Benda atribui grande parte desse aperfeiçoamento ao jornal político barato e diário. Ele torna as paixões universais, coerentes, homogêneas, permanentes e preponderantes. Todos os dias, logo ao acordar, os homens se entregam a esse instrumento de excitação política.

9. O aprofundamento do nacionalismo

Da política de interesse ao orgulho nacional

Quando o sentimento nacional pertencia sobretudo a reis e ministros, era ligado a interesses práticos: território, alianças, vantagens comerciais. Quando se populariza, torna-se sobretudo orgulho nacional. O cidadão moderno não conhece profundamente os interesses externos de seu país, mas sente intensamente sua honra, sua glória e seu prestígio.

A suscetibilidade nacional e a guerra

A suscetibilidade nacional aumenta o risco de guerra. Reis e ministros podiam aceitar insultos quando não lhes convinha guerrear; povos democráticos inflamados tendem a reagir como se cada afronta tocasse sua própria honra. Benda aceita parcialmente a fórmula dos monarquistas franceses, segundo a qual “democracia é guerra”, desde que se entenda democracia como difusão da suscetibilidade nacional entre as massas.

10. A nação como pessoa moral

Cultura nacional contra cultura estrangeira

As nações não se percebem apenas como forças militares ou econômicas, mas como pessoas morais dotadas de língua, arte, literatura, filosofia, civilização e cultura próprias. O patriotismo moderno passa a ser a afirmação de uma forma de espírito contra outras formas de espírito.

A guerra como conflito de culturas

Benda insiste que a ideia de que a guerra política deve ser também uma guerra de culturas é moderna. Antigamente, povos em guerra podiam admirar a cultura do inimigo. Ele cita o respeito de Roma pela Grécia, dos conquistadores de Roma pelo gênio romano, de Luís XIV pela língua alemã na Alsácia, e da Convenção francesa ao propor o sistema métrico aos ingleses.

11. O patriotismo romântico e os direitos históricos

Ambições apresentadas como seculares

O nacionalismo moderno quer sentir suas ambições como herança de séculos. Povos passam a invocar direitos históricos, ancestrais e quase sagrados. Benda menciona os alemães ligados ao espírito do Sacro Império Romano-Germânico, os italianos ligados ao Império Romano e o caso de Fiume, tratado como reivindicação secular.

12. A fusão entre nacionalismo e outras paixões

Nacionalismo, antissemitismo, capitalismo e autoridade

O nacionalismo moderno absorve paixões antes independentes: movimento contra os judeus, movimento das classes possuidoras contra o proletariado e movimento dos defensores da autoridade contra os democratas. Cada uma dessas paixões passa a se identificar com a defesa da nação. Assim, capitalismo, antissemitismo e autoritarismo recebem força nova ao se unirem ao nacionalismo.

13. A ideologia como arma do ódio

A organização intelectual dos ódios políticos

Benda conclui que a modernidade fornece a cada paixão política uma rede de doutrinas. O ódio deixa de ser apenas impulso e passa a vir acompanhado de sistemas filosóficos, morais, históricos, científicos e estéticos. Pangermanismo, monarquismo francês, antissemitismo e socialismo tornam-se não apenas movimentos políticos, mas visões completas de mundo.

A história e a ciência como justificativas

As paixões modernas afirmam estar de acordo com o desenvolvimento da história e com a observação científica dos fatos. Cada movimento diz encarnar a lei histórica e acusa o adversário de estar contra ela. Essa pretensão científica dá às paixões políticas rigidez, autoconfiança e desumanidade.

Capítulo II

Significado do movimento e natureza das paixões políticas

1. As duas raízes das paixões políticas

Interesse material e orgulho coletivo

Benda reduz as paixões políticas a dois desejos fundamentais: o desejo de um grupo de obter ou conservar vantagens materiais, como território, conforto e poder; e o desejo de um grupo tornar-se consciente de si como distinto dos outros. Em termos simples: interesse e orgulho.

Raça, religião, classe e nação

A paixão racial e a paixão religiosa, consideradas em estado puro, baseiam-se sobretudo no desejo de distinção. A paixão de classe, principalmente no proletariado, baseia-se mais na busca de vantagens materiais. Já a paixão nacional une as duas coisas: quer vantagens materiais e quer afirmar uma identidade distinta. Por isso, é mais forte que paixões baseadas apenas no interesse.

2. As paixões políticas como paixões realistas

Realismo como apego ao mundo prático

Para Benda, querer a vida real significa querer vantagens materiais e consciência individual ou coletiva de distinção. A vida que busca apenas vantagens espirituais ou se afirma no universal situa-se fora do real, no sentido prático do termo. As paixões políticas, sobretudo as nacionais, são portanto paixões realistas.

O grupo amplia o egoísmo

Quando o indivíduo transfere seus desejos para a nação ou a classe, ele não os purifica; apenas amplia sua escala. Querer vantagens para a nação continua sendo querer vantagens. Querer distinguir-se por meio da nação continua sendo querer distinção. O egoísmo nacional torna-se egoísmo sagrado.

3. O realismo divinizado

Estado, pátria e classe como absolutos

Benda afirma que a modernidade não é apenas realista, mas religiosamente realista. O Estado, a Pátria e a Classe tornam-se objetos de culto. Os homens não apenas buscam interesses materiais: santificam esses interesses, transformando-os em deuses políticos.

Socialismo e nacionalismo como formas de realismo

O socialismo descrito por Benda rejeita o “homem universal” e busca vantagens materiais para a classe. O nacionalismo, por sua vez, orgulha-se de ser puramente realista, recusando guerras por princípios abstratos. A humanidade moderna estaria, assim, mais do que nunca situada na existência prática, material e política.

Capítulo III

Os “clercs” e a grande traição

1. A oposição entre laymen e clerks

Os leigos como homens do interesse material

Benda chama de laymen os homens cuja função é perseguir interesses materiais: massas burguesas ou proletárias, reis, ministros, líderes políticos e demais agentes da vida prática. Que esses homens se tornem realistas não surpreende, pois essa é sua função própria.

Os clercs como homens do não material

Os clercs são aqueles cuja atividade essencial não busca fins práticos. Eles encontram alegria na arte, na ciência, na especulação metafísica e nos valores não materiais. Sua fórmula implícita é: “meu reino não é deste mundo”. Durante séculos, filósofos, religiosos, escritores, artistas e cientistas mantiveram uma oposição ao realismo das massas.

2. A função histórica dos clercs

Não impediram o mal, mas impediram sua divinização

Benda reconhece que os clercs não impediram guerras, matanças e ódios. Mas impediram algo decisivo: que os homens transformassem suas paixões materiais em religião. A humanidade fazia o mal, mas ainda honrava o bem. Essa contradição permitiu a entrada da civilização no mundo.

3. A mudança moderna

Os clercs passam a estimular as paixões

No fim do século XIX, segundo Benda, os clercs deixam de frear o realismo das massas e passam a estimulá-lo. Em vez de se oporem às paixões de raça, classe e nação, aderem a elas. A traição consiste em usar o prestígio do pensamento, da arte, da ciência e da religião para fortalecer paixões políticas.

De exceção a comportamento dominante

No passado, havia clercs politicamente apaixonados, como Dante, Petrarca ou certos pregadores da Liga. Mas seriam exceções. Na modernidade, figuras como Mommsen, Treitschke, Ostwald, Brunetière, Barrès, Lemaître, Péguy, Maurras, d’Annunzio e Kipling representam clercs que exercem paixões políticas com sede de ação, resultados imediatos, desprezo pelo argumento e ideias fixas.

4. Quando o clerc age publicamente sem trair sua função

A ação em nome da justiça abstrata

Benda distingue a ação política em nome de paixões realistas da intervenção pública em nome da justiça abstrata. Ele cita Gerson, Spinoza, Voltaire, Zola e Duclaux como clercs que agiram publicamente de modo legítimo, pois defenderam princípios superiores e não interesses de raça, classe ou nação.

O sinal do verdadeiro clerc

O verdadeiro clerc, ao defender a justiça, costuma ser odiado pelos interesses que fere. Benda observa que o clerc elogiado pelos leigos tende a ser traidor de sua função. Belíssimo critério, aliás: se todos os poderosos aplaudem o intelectual, talvez ele tenha virado decoração de gabinete.

5. A adesão ao patriotismo absoluto

Patriotismo sem julgamento

A adesão dos clercs ao nacionalismo é, para Benda, uma das novidades mais graves. Antigos pensadores podiam amar sua pátria, mas ainda julgavam seus erros. Fénelon, Massillon, Voltaire, Renan, Buckle e Nietzsche são citados como exemplos de escritores capazes de criticar a própria nação. O moderno clerc, ao contrário, proclama que a pátria deve ser considerada certa mesmo quando está errada.

O clero e o nacionalismo

Benda vê a traição também nos homens da Igreja, que seriam os clercs por excelência. Durante a guerra, o clero de vários países teria aderido à causa nacional com pouco ou nenhum protesto moral contra injustiças cometidas por sua própria nação. Como contraste, ele menciona Bartolomé de las Casas e Vittoria, que denunciaram crueldades cometidas por seus compatriotas na conquista da América.

6. A xenofobia intelectual

O ódio ao estrangeiro adotado pelos homens de pensamento

Os clercs modernos adotam a rejeição ao estrangeiro e a desprezam tudo que não pertence à sua própria cultura. Benda menciona professores alemães que proclamaram o declínio de todas as civilizações exceto a sua, e franceses que atacavam admiradores de Nietzsche, Wagner, Kant ou Goethe.

A invenção alemã do clerc nacionalista

Benda atribui aos alemães a liderança na criação do clerc nacionalista. Lessing, Schlegel, Fichte e Goerres são mencionados como figuras que organizaram a adoração por tudo que é alemão e o desprezo pelo que não é. Para Benda, muitas atitudes espirituais dos clercs europeus modernos têm origem alemã.

7. A nacionalização do espírito

Ciência, arte e pensamento como produtos nacionais

Os clercs passam a falar em ciência francesa, ciência alemã, sensibilidade francesa, pensamento ariano, gênio semita e outras formas de vincular a mente a uma identidade nacional ou racial. Benda vê nisso uma renúncia ao caráter universal do pensamento.

Renan contra Barrès

Benda opõe Renan, para quem o homem não pertence nem à língua nem à raça, mas a si mesmo como ser moral, a Barrès, para quem ser moral é não querer libertar-se da própria raça. Essa oposição resume o conflito entre o universalismo moral e o gregarismo nacionalista.

O culto das raízes

Os clercs modernos exaltam o enraizamento no solo natal. O pensamento seria bom na medida em que não se liberta da terra, da raça, da província e dos mortos. Benda contrapõe essa visão a Plutarco e Antístenes, para quem o homem não deve ser tratado como planta presa ao solo.

8. A política dentro das atividades intelectuais

A obra intelectual contaminada pela paixão política

Os clercs não apenas adotam paixões políticas em sua vida pública; eles as introduzem em suas obras. A arte, a ciência, a filosofia e a história passam a ser atravessadas por objetivos nacionais, partidários, raciais ou de classe.

Poesia política e lirismo nacionalista

Benda admite que a poesia sempre lidou com paixões, mas vê algo novo em autores como Claudel e d’Annunzio, nos quais a paixão política aparece consciente, organizada e diretamente adaptada aos fins nacionais. A obra La Nave é apresentada como exemplo de poesia colocada a serviço de um plano nacional prático.

Romance e teatro como propaganda moral

Nos romances e dramas, a paixão política perverte a representação da alma humana. O autor passa a distribuir virtude e vício conforme sua posição: tradicionalistas nobres contra irreligiosos vis, proletários virtuosos contra burgueses desprezíveis, compatriotas superiores contra estrangeiros inferiores. Isso destrói a função civilizadora da arte, que deveria levar o leitor ao autoexame por meio de uma representação verdadeira da humanidade.

História a serviço da nação e do partido

A história também é submetida à paixão política. Benda contrasta a tradição da história desinteressada, associada a Beaufort, Fréret, Voltaire, Thierry, Renan e Fustel de Coulanges, com historiadores alemães e monarquistas franceses que defendem escrever a história a serviço da grandeza nacional ou partidária.

9. A exaltação do particular contra o universal

Moralidade particular

Benda acusa os clercs modernos de defenderem morais particulares: moral da nação, da classe, da raça, da situação histórica. Em vez de buscar o bem no homem eterno e desinteressado, como de Platão a Kant, eles afirmam que cada povo ou classe deve construir seus direitos e deveres a partir de seu gênio, história, geografia e circunstâncias.

Justiça adaptada ao interesse

O caso da Alemanha em 1914 aparece como exemplo do perigo dessa doutrina: quando um grupo se declara juiz exclusivo da moralidade de seus atos, acaba divinizando seus apetites e codificando sua violência. Benda nota a incoerência de moralistas franceses que antes defendiam uma justiça adaptada à França e depois se indignaram quando a Alemanha fez o mesmo.

Verdades locais

A crítica atinge também a verdade. Os clercs modernos afirmam que não há verdade universal, mas verdades locais: verdades lorenas, provençais, bretãs, alemãs, burguesas ou operárias. Com isso, a verdade deixa de ser critério comum e vira propriedade tribal, porque aparentemente até a lógica precisa de certidão de nascimento.

10. A metafísica do particular

Duração, contingência e desprezo pelo eterno

Benda vê nas filosofias modernas da duração, do devir, da evolução criadora, do pluralismo e da experiência concreta uma glorificação do contingente contra o eterno. A modernidade filosófica passa a adorar o particular, o único, o histórico e o móvel, desprezando a busca de formas gerais e permanentes do ser.

Germanismo contra helenismo

Benda atribui essa veneração do individual a pensadores alemães como Schlegel, Nietzsche e Lotze, enquanto o culto do universal é apresentado como legado grego. Assim, a filosofia moderna revelaria o triunfo de valores germânicos e a falência do helenismo.

11. A exaltação do prático contra o espiritual

O Estado forte contra o Estado justo

Os clercs, que antes ensinavam que o Estado deveria ser justo, passam a ensinar que ele deve ser forte. Defendem autoridade, razão de Estado, disciplina prussiana, privilégio militar, submissão civil e desprezo por instituições baseadas na liberdade e na discussão.

O clerc como ministro da guerra

Benda contrasta essa posição com Sócrates, que via arsenais, portos e muralhas como secundários diante de justiça e temperança. O moderno clerc inverte a escala: trata justiça como nuvem e considera arsenais e muralhas as coisas sérias. Benda resume essa inversão dizendo que o clerc moderno se fez ministro da guerra.

12. A moralização do realismo político

De Maquiavel aos moralistas modernos

Benda distingue Maquiavel dos realistas modernos. Maquiavel admitia que o príncipe talvez precisasse fazer o mal, mas continuava chamando o mal de mal. Os modernos, ao contrário, declaram que aquilo que fortalece o Estado torna-se moral por esse simples fato. O mal útil à política passa a ser chamado de bem.

Três doutrinas sobre política e moral

Benda resume a evolução assim: Platão ensinava que a moral decide a política; Maquiavel, que política e moral são campos separados; os modernos, representados por Maurras, ensinam que a política decide a moral. Essa inversão é uma das marcas mais graves da traição.

13. Realismo nas classes e partidos

Poder como moralidade

Os clercs pregam às classes e partidos que se tornem fortes, conquistem ou conservem o poder e desprezem apelos à justiça e à caridade. A novidade é que não dizem apenas que isso é necessário; dizem que é moralmente elevado. Nietzsche, Sorel e certas leituras de Marx aparecem como expressões desse culto da força contra doutrinas de justiça como as de Proudhon.

Admiração pelo Estado faccioso

Benda critica a admiração moderna por governos que eliminam adversários, citando o exemplo italiano. Onde Aristóteles veria infâmia num Estado organizado como facção, discípulos de Mussolini e Maurras veem modelo político.

14. História, costume e fato consumado

O passado como fonte de direito

Os clercs modernos exaltam costume, história e passado contra a razão. Direitos históricos, como o direito alemão à Alsácia ou o direito da monarquia francesa, passam a ser apresentados não apenas como argumentos políticos, mas como argumentos morais. O fato consumado é transformado em justiça.

Política experimental e culto dos fatos

Benda critica a chamada política experimental quando ela significa apenas governar segundo aquilo que torna uma sociedade forte. Ele distingue essa atitude de Spinoza, que também queria observar a realidade política, mas sem abandonar justiça, direitos dos cidadãos e direitos dos povos vizinhos. O novo culto dos fatos produz um romantismo positivista, seguro, sombrio e pretensamente científico.

15. O homem “como ele é”

A negação da perfectibilidade moral

Outra doutrina moderna afirma que a política deve ser ajustada ao homem tal como ele é e sempre será: egoísta, violento, antissocial. Benda pergunta qual seria então a função dos moralistas e educadores. Se o homem não pode melhorar, o mestre espiritual vira funcionário de manutenção da barbárie.

Romantismo do pessimismo

Esse pessimismo tem, em alguns autores, uma raiz estética: o prazer romântico de pintar a humanidade como eternamente condenada. Benda chama isso de romantismo do pessimismo, tão absoluto e falso quanto o otimismo de Rousseau e Michelet.

16. O espírito gregário e a obediência mental

Pensar como a raça, a nação e os ancestrais

Os clercs modernos ensinam que o homem é grande quando pensa como seus ancestrais, sua raça e seu meio. A independência intelectual passa a ser vista como vaidade. O pensamento gregário torna-se virtude.

O número como direito

Benda também critica a ideia de que a simples superioridade numérica de um grupo constitui direito. Nações populosas e nações de baixa natalidade passam a converter demografia em argumento moral. Para Benda, isso mostra mais uma vez a submissão do espiritual à força.

17. O pragmatismo como virada moral

Callicles contra Sócrates

Benda vê no pragmatismo uma grande virada moral: durante séculos, os clercs ensinaram que o ato moral era desinteressado e universal; agora ensinam que moral é o ato que assegura a existência contra um ambiente hostil. A vontade moral torna-se vontade de poder, e a moralidade passa a depender das circunstâncias. Os educadores da humanidade tomam o partido de Callicles contra Sócrates.

Dominar o mundo material

A nova moral declara que o homem é divino não por participar da justiça, da lei ou de Deus, mas por dominar a matéria. O homo faber, exaltado por Nietzsche, Sorel e Bergson, substitui o homem contemplativo.

18. Guerra, violência e vida militar

A guerra como purificação

Os clercs passam a louvar a vida militar, a guerra, a violência, o homem de armas e a resolução de conflitos pela força. O respeito aos contratos, a justiça e a deliberação civil são tratados como armas dos fracos.

Guerra como valor em si

Benda vê novidade na ideia de que a guerra teria uma moralidade própria, mesmo sem utilidade prática. Ernest Psichari é citado como exemplo de culto ao ideal militar por si mesmo. Os antigos moralistas franceses viam a guerra como triste necessidade; os modernos a recomendam como nobre inutilidade.

Esporte, corpo e Esparta

A moralidade do esporte e da força física também entra nessa lógica. Em vez de buscar inspiração em Platão, Praxiteles ou nos contemplativos, o educador moderno admira Esparta, ginásios e constituições robustas. A alma, coitada, perde espaço para bíceps e muralha.

19. Coragem, honra, glória e dureza

A coragem como virtude suprema

Benda não nega que a coragem seja virtude, mas critica sua transformação em virtude suprema. De Sócrates a Renan, os clercs colocavam sabedoria, justiça e temperança acima da capacidade de enfrentar a morte. Os modernos, como Nietzsche, Sorel, Péguy e Barrès, elevam a coragem guerreira ao topo da escala moral.

A honra como escola de coragem prática

A honra, entendida como busca da glória e disposição para arriscar a vida, é exaltada porque forma coragem prática. Benda critica especialmente a tentativa de pregadores cristãos de apresentar a busca de glória como caminho para Deus, em contraste com o espírito dos Evangelhos.

A dureza contra a caridade

A dureza, a ausência de piedade e o desprezo pela caridade tornam-se virtudes. Benda distingue novamente Maquiavel dos modernos: Maquiavel dizia que a caridade podia ser obstáculo prático, mas não a chamava de degradação moral. Os modernos fazem exatamente isso: declaram nobre a dureza e vergonhosa a compaixão.

Romantismo da dureza e do desprezo

A juventude “pensante” passa a venerar doutrinas de ferro, força, escravidão inevitável e guerra necessária. O amor humano vira coisa risível. Benda chama isso de romantismo da dureza e romantismo do desprezo.

20. Sucesso, ação e desprezo pela vida contemplativa

O sucesso como critério moral

Outra doutrina moderna afirma que o sucesso confere valor moral à vontade, enquanto o fracasso merece desprezo. Napoleão, Mazarin, Vauban e Mussolini aparecem como figuras associadas ao culto do êxito. Para Benda, isso educa perfeitamente para o realismo material.

O guerreiro acima do homem justo e do estudioso

Os clercs modernos exaltam o guerreiro acima do homem de justiça e do homem de estudo. Nietzsche ridiculariza o homem de erudição, o pesquisador objetivo, o amante da verdade. Outros autores desprezam os “intelectuais” como inferiores ao soldado. Surge a oposição entre inteligência-espada e inteligência-espelho.

A ação contra o conhecimento

Benda vê nessa atitude o desejo de rebaixar os valores do conhecimento diante dos valores da ação. Mesmo a metafísica moderna passa a honrar o lado ativo, voluntário e instintivo da alma, em vez do pensamento claro e distinto. A fórmula cartesiana “penso, logo existo” é praticamente invertida.

21. Inteligência prática e desprezo pela verdade

A inteligência só vale se for útil

O pensamento passa a ser estimado apenas quando serve a uma vantagem concreta. A ciência, a história e a inteligência são julgadas por sua utilidade social, nacional ou política. O amor à verdade por si mesma passa a ser visto como atividade selvagem, brutal ou irresponsável.

O mito útil contra a verdade incômoda

Benda acusa os modernos de ensinarem que aceitar um erro útil, um mito, pode ser honroso, enquanto admitir uma verdade prejudicial pode ser vergonhoso. A verdade deixa de ser norma e vira obstáculo. É a metafísica oficial do “funcionou, então cala a boca”.

22. A teologia do realismo

Deus tornado prático

Benda afirma que os clercs modernos também pregam o realismo por meio da imagem de Deus. Deus deixa de ser pensado como absoluto, infinito e separado do mundo sensível, e passa a ser representado com atributos práticos: vontade, crescimento, energia, criação, poder, batalha.

O Deus das batalhas

A religião é puxada para o mundo da força. O Deus moderno é aproximado do Estado, da energia, da expansão e da conquista. Com isso, até a teologia se torna auxiliar da política prática.

23. As causas da traição

O clerc virou cidadão

Benda reconhece causas sociais profundas para a traição. O mundo moderno transformou o clerc em cidadão comum: soldado, contribuinte, trabalhador, dependente de classe e de mercado. Isso torna mais difícil manter a vida desinteressada. Talvez o mal não seja apenas a traição dos clercs, mas o desaparecimento das condições que permitiam existir como clerc.

A nação tornou-se objeto de amor

O nacionalismo dos clercs também nasce do amor natural ao grupo de origem. A modernidade deu às nações consistência inédita, tornando-as objetos poderosos de afeto. Benda observa que a vida puramente espiritual era mais fácil quando as nações ainda não tinham essa força emocional.

Carreira, fama e burguesia

Os escritores modernos ganham fama ao assumir posições políticas. A opinião pública lhes oferece esse papel. Além disso, muitos dependem da burguesia, que distribui prestígio, honras e reconhecimento. Como a burguesia moderna teme o avanço da classe adversária, recompensa escritores que defendem ordem, autoridade e preconceitos necessários.

O público exige confirmação de seus erros

Benda observa que o público moderno quer mestres que confirmem suas paixões. O jornal que não dá aos leitores os erros que eles desejam é abandonado. O pregador que realmente censurasse o orgulho nacional ou burguês veria sua audiência fugir. Os mestres deixam de ser guias e tornam-se servidores.

O escritor torna-se burguês

O homem de letras boêmio desaparece. O escritor assume posição social burguesa e passa a adotar sentimentos políticos aristocráticos de fachada: culto da autoridade, instituições militares e sacerdotais, desprezo pela democracia, culto do passado e dureza social.

Romantismo, sensibilidade artística e declínio clássico

Benda atribui a traição também ao romantismo dos homens de letras, que preferem doutrinas capazes de produzir poses fortes. Doutrinas de autoridade, disciplina, guerra e escravidão oferecem imagens mais impressionantes que liberalismo e humanitarismo. Além disso, a sensibilidade artística passa a dominar a razão, e o declínio dos estudos clássicos enfraquece o sentido do universal humano.

Sede de sensações

Muitos escritores aderem à política porque ela oferece emoção, espetáculo, fanfarra, guerra, risco e sensação. Benda cita o entusiasmo por movimentos políticos como boulangismo e a atitude de intelectuais que viam a guerra como algo “divertido” ou pitoresco.

Declínio da disciplina intelectual

Benda recapitula as causas da traição: imposição de interesses políticos a todos, fortalecimento das paixões realistas, desejo dos escritores de atuar politicamente, dependência da burguesia, aburguesamento dos clercs, romantismo, declínio da cultura antiga e declínio da disciplina intelectual. A traição não é moda passageira; está ligada à essência do mundo moderno.

Capítulo IV

Resumo e previsões

1. O balanço moral da humanidade moderna

As massas e os clercs unidos no realismo

Benda resume a situação: as massas desenvolveram paixões realistas de classe e nação com consciência e organização inéditas; os clercs, que antes se opunham a esse realismo, passaram a adotá-lo e a proclamá-lo moralmente grande. A humanidade se entregou ao realismo com unanimidade e santificação sem precedentes.

O leigo venceu e assimilou o clerc

Se um observador medieval olhasse a Europa, veria de um lado as nações se formando e, de outro, clercs pregando uma ordem espiritual universal. Hoje, diz Benda, o jogo acabou: a humanidade tornou-se nacional. O leigo venceu, mas venceu mais do que esperava, pois assimilou o clerc. Cientistas, artistas, filósofos e ministros de Jesus estão tão presos à nação quanto trabalhadores e comerciantes.

Antes se fazia o mal honrando o bem; agora honra-se o mal

A humanidade medieval fazia o mal, mas honrava o bem. A Europa moderna, instruída por mestres que chamam seus instintos realistas de belos, faz o mal e honra o mal. Benda compara a modernidade ao bandido que não apenas confessa seus crimes, mas se orgulha deles.

2. A previsão de guerras mais perfeitas

Guerra de nações ou guerra de classes

Se cada grupo busca seus interesses particulares e seus moralistas dizem que isso é sublime, o resultado provável é a guerra mais perfeita já vista: guerra de nações ou guerra de classes. Benda menciona Itália como modelo de paixão nacional e Rússia como modelo de paixão de classe.

O ódio ao diferente

A nova humanidade está consciente de seu realismo e liberta de toda moral não prática. O espírito de ódio contra o diferente atinge grau inédito. A guerra deixa de ser mero conflito por interesses e torna-se afirmação total de identidades coletivas.

3. A insuficiência das instituições de paz

Instituições supernacionais não bastam

Benda não se anima muito com instituições supernacionais e acordos entre Estados. Elas podem impedir atos de guerra por medo do prejuízo, mas não mudam o espírito de guerra. Um país que respeita contratos apenas por conveniência os romperá quando romper parecer mais vantajoso.

Paz como estado moral

A paz verdadeira não nasce do medo da guerra, mas do amor à paz. Ela exige que os homens deixem de pôr sua felicidade em coisas que não podem ser compartilhadas e adotem um princípio abstrato superior aos egoísmos. Sem melhoria moral, a paz é apenas intervalo administrativo entre duas tragédias, porque a humanidade gosta de burocratizar até o desastre.

4. Crítica aos falsos pacifismos

Pacifismo científico

Benda critica o pacifismo que espera a paz de interesses econômicos, transformações produtivas ou cálculo racional de prejuízo. Esse pacifismo dispensa o esforço moral, justamente o único que poderia produzir a paz verdadeira.

Pacifismo vulgar

O pacifismo vulgar limita-se a denunciar o homem que mata e a ridicularizar o patriotismo. Benda considera isso simplificador, porque ignora a profundidade humana das paixões nacionais. Ele prefere autores como Renan e Renouvier, que tratam guerra e nacionalismo com seriedade moral.

Pacifismo místico

O pacifismo místico odeia cegamente a guerra sem perguntar quem atacou, quem se defende, quem violou compromissos ou onde está a justiça. Benda critica a atitude de Romain Rolland em 1914, pois condenar igualmente agressor e defensor pode apagar o sentimento de justiça.

Pacifismo patriótico

O pacifismo patriótico quer reduzir militarismo e nacionalismo sem prejudicar os interesses da própria nação. Para Benda, isso revela o erro de todo clerc que deseja tornar sua doutrina espiritual compatível com as conquistas da espada. O clerc começa a fracassar quando quer ser prático.

5. A verdadeira função do clerc

O clerc não deve governar o mundo

Benda rejeita a ideia de que os clercs devam governar. Ele não defende um “reino dos filósofos”. O mundo prático tem sua moral própria, a moral de César. O papel do clerc não é administrar impérios, mas manter viva a voz do espiritual, do universal e do desinteressado.

O clerc deve lembrar que seu reino não é deste mundo

O clerc é forte quando sabe que sua doutrina não é prática. Quando assume essa posição, pode ser crucificado, mas é respeitado. O problema moderno é que até os clercs querem ser úteis, eficientes, nacionais, realistas e aceitos. A própria noção de clericalidade espiritual se obscurece.

6. Há possibilidade de renascimento espiritual?

Um novo Renascimento é possível, mas improvável

Benda admite a possibilidade de uma futura humanidade cansada de seus egoísmos sagrados e dos massacres que eles produzem. Talvez as paixões ensinem a razão, como dizia Vauvenargues. Mas isso só parece possível após sofrimentos muito maiores, pois guerras de alguns anos e milhões de mortos ainda não bastaram para mudar os valores dos homens.

Civilização como acidente frágil

Benda não acredita que a civilização espiritual seja garantida pela natureza humana. A supremacia moral do espiritual e do universal foi um acidente feliz, associado ao milagre grego. Se a humanidade perder essa joia, talvez não a recupere.

7. Crítica às leis históricas otimistas

História curta demais para previsões seguras

Benda critica pensadores que extraem leis gerais da história a partir de poucos exemplos. Cita Vico, Saint-Simon e Marx como autores que constroem esquemas históricos amplos a partir de bases estreitas. Para ele, a história conhecida é curta demais para garantir otimismo sobre o futuro.

A luz racional é exceção, não regra

Benda observa que o racionalismo helênico iluminou o mundo por pouco tempo, depois ficou obscurecido por séculos e só voltou parcialmente. A maior parte da história humana foi de escuridão intelectual e moral. A humanidade, pior ainda, parece suportar bem longos períodos de caverna.

8. O realismo talvez seja a lei natural do homem

A inquietação final

Benda admite uma hipótese sombria: talvez a humanidade, ao adotar o realismo, tenha encontrado sua verdadeira lei. Talvez a religião do espírito tenha sido apenas um paradoxo temporário imposto por uma minoria contemplativa. A lei mais evidente da substância humana seria conquistar coisas e exaltar os impulsos que permitem essa conquista.

Orfeu virou fera

A imagem final é amarga: era possível esperar que Orfeu não encantasse as feras para sempre, mas seria desejável que ele próprio não se tornasse fera. Ou seja, talvez os clercs não pudessem espiritualizar toda a humanidade, mas não precisavam ter se convertido ao realismo que deveriam conter.

9. Progresso moral parcial e ameaça futura

Melhorias reais existem

Benda reconhece avanços concretos: maior segurança interna, tratamento melhor de prisioneiros, cuidado com feridos inimigos, caridade pública e privada. Ele não nega todo progresso moral.

Mas esses avanços vêm de outra tradição

Essas melhorias, segundo ele, derivam do século XVIII e do humanitarismo de autores como Victor Hugo e Michelet, desprezados pelos moralistas modernos. Como muitos desses atos viraram costumes sem reflexão moral, Benda teme que um realismo mais consciente possa abandoná-los como sentimentalismo inútil.

10. O imperialismo da espécie

A humanidade unida contra o resto da criação

Benda imagina uma terceira possibilidade além da guerra entre nações ou classes: a reconciliação da humanidade inteira por meio de um imperialismo da espécie. A humanidade se uniria para dominar a Terra, transferindo para a espécie o orgulho antes nacional.

Fraternidade sem espiritualidade

Essa “fraternidade universal” não seria verdadeira superação do nacionalismo, mas sua forma suprema. A nação passaria a se chamar Homem, e o inimigo seria Deus. A humanidade seria um imenso exército e uma imensa fábrica, adorando apenas a si mesma, sua força, suas invenções e seu domínio da matéria. Benda encerra com ironia trágica: a história sorriria ao pensar que foi por essa espécie que Sócrates e Jesus Cristo morreram.

Notas finais relevantes

1. As paixões políticas eram menos populares no passado

Nas notas, Benda reforça que multidões antigas muitas vezes eram indiferentes a eventos políticos que hoje inflamariam populações inteiras. Ele cita diários, relatos de viajantes e observações sobre guerras para mostrar que a paixão política popular moderna é uma novidade relativa.

2. Língua, escola e nacionalismo cultural

A nota sobre a Alsácia reforça a tese de que o conflito linguístico e cultural moderno não era inevitável. O Estado moderno, com escolas e meios de formação nacional, ajuda a inocular animosidades culturais entre povos.

3. Capitalismo, antissemitismo, antidemocracia e nacionalismo

Benda observa que a união entre capitalismo, antissemitismo, antidemocracia e nacionalismo não é absolutamente sólida, pois interesses de classe podem contradizer a pátria. Ainda assim, a burguesia conserva o nacionalismo porque ele reforça hierarquia, obediência e espírito militar.

4. Catolicismo e nacionalismo

A nota sobre os católicos alemães mostra como a política nacional pode subordinar a religião. A fórmula criticada é “política primeiro, Igreja e fé depois”. Para Benda, essa nacionalização do catolicismo não é exclusiva da Alemanha.

5. O prestígio moderno dos intelectuais

Benda observa que o prestígio público dos intelectuais é algo novo. A intervenção dos intelectuais no caso Dreyfus e o manifesto dos intelectuais alemães em 1914 mostram que o apoio ou a condenação dos clercs pode fortalecer ou prejudicar uma causa. A ordem correta, para Benda, seria: o clerc denuncia o realismo do Estado, e o Estado, fiel à sua lógica, o pune. O problema moderno é que os clercs já nem denunciam.

6. Clero e serviço militar

Benda nota a disposição moderna de eclesiásticos para aceitar o serviço militar. Ele contrasta isso com tradições antigas em que se dizia que as armas dos clercs eram orações e lágrimas, não espadas.

7. Arte e civilização

A nota sobre a arte destaca que a representação verdadeira das paixões humanas produz autoexame, objetividade desinteressada, generalização da paixão e julgamento segundo o universal. A arte moraliza indiretamente quando busca a verdade humana, não quando vira propaganda.

8. História como instrumento político

A nota sobre Napoleão mostra o uso político da história: ele queria que a história da França fosse escrita de modo favorável ao seu trono. Benda usa isso para ilustrar a concepção pragmática da história, colocada a serviço do poder.

9. Humanismo e humanitarianismo

A nota distingue humanitas de simples filantropia. A partir de Aulo Gélio, Benda associa humanismo a paideia, educação e cultivo das artes liberais, não apenas benevolência sentimental.

10. Liberdade, autoridade e arbitrariedade

A nota sobre liberdade e discussão observa que antigos defensores da monarquia absoluta ainda subordinavam o soberano à justiça e às leis. Benda cita Bossuet para distinguir governo absoluto de governo arbitrário. A defesa moderna do arbítrio é, portanto, uma novidade mais radical.

11. Nietzsche, Hegel e os usos políticos

Benda reconhece que Nietzsche e Hegel são mais complexos do que seus usos políticos, mas insiste que seus temas serviram como breviários políticos. O problema é que certas filosofias, ao aceitarem contradições internas, permitem usos bárbaros em seu próprio nome.

12. Taine e o falso realismo

Benda diferencia Taine dos realistas que ele critica. Taine iluminou a natureza do real político, mas não exaltou o real acima do universal. A crítica de Benda mira os que transformam o realismo em culto e rebaixam o universal.

13. Política como ciência

A nota sobre Maurras critica a ideia de que a política teria leis tão certas quanto as da física. Para Benda, isso é superstição científica aplicada à moral e à história, além de eliminar liberdade humana e ação individual.

14. Anti-individualismo

Na nota sobre o espírito gregário, Benda esclarece que a novidade não é reconhecer que o indivíduo é influenciado por raça, meio ou nação, mas cultuar essa servidão e desprezar qualquer tentativa de libertação. A alternativa formulada é Sócrates ou Bonald; Benda diz que Barrès e Maurras escolheram Bonald.

15. O manifesto da inteligência

A nota sobre o Manifesto da Inteligência publicado no Figaro em 1919 mostra intelectuais franceses vinculando nacionalismo, razão, humanidade e dominação espiritual da França vitoriosa. Marcel Proust critica essa atitude como uma espécie de nacionalismo intelectual arrogante.

Principais ideias recorrentes da obra

1. Realismo

O realismo é o apego ao mundo prático: poder, território, força, vantagem, sucesso, disciplina, Estado, classe e nação. A modernidade não apenas pratica esse realismo; ela o transforma em moral e religião.

2. Clerc

O clerc é o intelectual, artista, cientista, filósofo ou religioso que deveria servir valores desinteressados, universais e espirituais. Sua traição ocorre quando ele abandona essa função e passa a servir paixões políticas.

3. Layman

O layman é o homem da vida prática, do interesse material e das paixões terrestres. Benda não se espanta com seu realismo. O escândalo é o clerc tornar-se igual a ele.

4. Paixões políticas

As paixões políticas são paixões de raça, classe e nação. Tornaram-se universais, organizadas, contínuas, homogêneas, conscientes, ideologizadas e místicas.

5. Nacionalismo

O nacionalismo é a paixão política mais forte porque une interesse material e orgulho coletivo. Na modernidade, torna-se religião da cultura, da língua, da história, do solo, dos mortos e da diferença.

6. Particular contra universal

A modernidade substitui o universal por verdades locais, morais nacionais, morais de classe e critérios de circunstância. Para Benda, isso destrói a função espiritual do pensamento.

7. Prático contra espiritual

O prático passa a valer mais que o espiritual. O Estado forte vale mais que o Estado justo; o guerreiro vale mais que o sábio; o sucesso vale mais que a verdade; a força vale mais que a caridade.

8. Intelectualização do ódio

Os ódios políticos deixam de ser impulsos brutos e passam a receber doutrinas, sistemas, teorias históricas, argumentos científicos e justificações estéticas.

9. Moralidade circunstancial

A moral deixa de ser universal e passa a depender de conveniência, utilidade, circunstância e objetivo político. O útil torna-se verdadeiro; o eficaz torna-se bom.

10. Civilização como frágil exceção

A civilização, entendida como culto do espiritual e do universal, não é garantida. É uma conquista frágil, talvez acidental, que pode desaparecer se os clercs abandonarem sua função.

Referências citadas

Autores, pensadores e personagens

Julien Benda; Richard Aldington; Herbert Read; Jacob Taubes; Ludovicus Vives; Tolstoi; Renouvier; Spinoza; Bergson; Descartes; Platão; Aristóteles; Sócrates; Callicles; Maquiavel; Hegel; Nietzsche; Sorel; Barrès; Maurras; Péguy; d’Annunzio; Kipling; William James; Goethe; Malebranche; Erasmo; Kant; Renan; Leonardo da Vinci; Tomás de Aquino; Roger Bacon; Galileu; Montaigne; Newton; Leibniz; Kepler; Pascal; Frazer; Einstein; Husserl; Cohen; Rutherford; Norman Foerster; Paul Elmer More; Irving Babbitt; Pierre Lasserre; Ernest Seillière; T. E. Hulme; Mommsen; Treitschke; Ostwald; Brunetière; Lemaître; Fénelon; Massillon; Voltaire; Buckle; Vittoria; Bartolomé de las Casas; Guicciardini; Thucydides; Polybius; Virgílio; Aulo Gélio; Bossuet; Taine; Vico; Saint-Simon; Marx; La Bruyère; Rousseau; Michelet; Victor Hugo; Anatole France; Romain Rolland; Zola; Duclaux; Gerson; Fichte; Lessing; Schlegel; Goerres; Lotze; Comte; Proudhon; Mussolini; Napoleão; Mazarin; Vauban; Marcel Proust; Bonald; Maine de Biran; Brunschvicg; Maritain; Sertillanges; Cardeal Lavigerie; Santo Agostinho; Afonso de Ligório; Molina; Cardeal Gousset; Richelieu; Luís XIV; Luís XI; Bismarck.

Obras, livros e textos

The Betrayal of the Intellectuals; La Trahison des Clercs; The Great Betrayal; The Treason of the Intellectuals; Dialogues à Byzance; Mon Premier Testament; Ética, de Spinoza; Le Bergsonisme, ou Une Philosophie de la Mobilité; Sur le Succès du Bergsonisme; Belphégor; La Fin de l’Éternel; American Criticism; The Forum; La Nave; Reflexões sobre a Violência; Genealogia da Moral; Górgias; República; Laws; Zaratustra; Ação Francesa / Action Française; Manifesto da Inteligência; Essai sur les Moeurs; La France de l’Est; Le Songe du Verger; Notes Atticae; Origines de la France Contemporaine.

Conceitos fundamentais

Clercs; laymen; realismo; idealismo; paixões políticas; paixão nacional; paixão racial; paixão de classe; interesse; orgulho; egoísmo sagrado; realismo divinizado; universal; particular; humanismo; humanitarianismo; paideia; pragmatismo; vontade de poder; razão de Estado; moralidade circunstancial; moral nacional; verdades particulares; espírito gregário; nacionalização do espírito; xenofobia intelectual; cultura clássica; helenismo; germanismo; romantismo do pessimismo; romantismo da dureza; romantismo do desprezo; romantismo positivista; inteligência-espada; inteligência-espelho; mito útil; Estado forte; Estado justo; civilização; paz; pacifismo científico; pacifismo vulgar; pacifismo místico; pacifismo patriótico; imperialismo da espécie.

Lugares, povos e culturas

França; Alemanha; Itália; Rússia; Inglaterra; Estados Unidos; Grécia; Roma; Alsácia; Lorena; Bretanha; Provença; Béarn; Berry; Fiume; Holland / Holanda; Cuba; Bélgica; China; Extremo Oriente; Novo Mundo; Império Romano; Sacro Império Romano-Germânico; mundo asiático; mundo germânico; mundo greco-romano.

Eventos, instituições e movimentos

Caso Dreyfus; Guerra dos Bôeres; intervenção americana em Cuba; Primeira Guerra Mundial / guerra de 1914; violação da Bélgica; Revolução Francesa; Revolução Russa; fascismo italiano; bolchevismo russo; Liga das Nações; Igreja Católica; Centro Católico Alemão; Action Française; monarquismo francês; pangermanismo; antissemitismo; anticlericalismo; socialismo; capitalismo; antidemocracia; nacionalismo democrático; humanismo americano; neo-humanismo; neo-tomismo; positivismo; romantismo; classicismo.


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