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14 janeiro, 2021

[Livro] A Bíblia (2007)/ Karen Armstrong - Parte 2




A destruição do primeiro templo em 586 a.C. havia inspirado uma assombrosa explosão de criatividade entre os exilados na Babilônia. A destruição do segundo templo estimulou um esforço literário similar entre os cristãos. Em meados do século II, quase todos os 27 livros do Novo Testamento estavam concluídos. Comunidades já citavam cartas de Paulo como se fossem Escritura, e leituras de uma das biografias de Jesus que estavam em circulação haviam se tornado costumeiras durante o culto de domingo. 

Os evangelhos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João acabariam sendo escolhidos para o cânone, mas havia muitos outros. O evangelho de Tomás (c. 150) era uma coleção de ditos secretos de Jesus que dariam um “conhecimento” (gnosis) redentor a seus discípulos. Havia evangelhos, agora perdidos, dos ebionitas, nazarenos e hebreus, que alimentavam as comunidades cristãs judaicas. Havia também muitos evangelhos “gnósticos”, representando uma forma de cristianismo que enfatizava a gnosis e distinguia um Deus inteiramente espiritual (que mandara Jesus como seu enviado) e um demiourgos, que criara o mundo material corrupto. Outros Escritos não sobreviveram: um evangelho conhecido pelos estudiosos como Q, porque foi a fonte (alemão: quelle) para Mateus e Lucas; várias antologias de ensinamentos de Jesus; e um relato de seu julgamento, tortura e morte.


As Escrituras cristãs foram redigidas em momentos diferentes, em regiões diversas e para audiências muito díspares, mas compartilhavam uma linguagem e um conjunto de símbolos, derivados da Lei e dos Profetas, bem como de textos do final do período do Segundo Templo. Elas reuniam idéias que originalmente não tinham conexão umas com as outras – Filho de Deus, Filho do Homem, Messias e reino – numa nova síntese. Os autores não demonstravam isso de maneira lógica, mas simplesmente justapunham essas imagens de forma tão repetida que elas se fundiam na mente do leitor. Não havia uma visão uniforme de Jesus. Paulo o chamara de “Filho de Deus”, mas usara o título em seu sentido judaico tradicional. Jesus era um ser humano que gozava de uma relação especial com Deus, como os antigos reis de Israel, e fora elevado por ele a uma condição singularmente alta. 

Paulo nunca afirmou que Jesus era Deus. Mateus, Marcos e Lucas, conhecidos como os “sinóticos”, porque “vêem as coisas juntas”, também usaram o título “Filho de Deus” dessa maneira, mas eles sugeriram igualmente que Jesus era o “Filho do Homem” de que falara Daniel, o que lhe dava uma dimensão escatológica. João, que representou uma tradição cristã diferente, viu Jesus como a encarnação da Palavra e Sabedoria de Deus, que existira antes da criação do mundo. Quando os editores finais do Novo Testamento reuniram esses textos, não ficaram incomodados com as discrepâncias. Jesus havia se tornado um fenômeno demasiado imenso nas mentes dos cristãos para ser preso a uma única definição.


Como todos os Escritos joaninos, o Apocalipse é deliberadamente obscuro, e seus símbolos seriam ininteligíveis para os estranhos. É um livro tóxico e, como veremos, atrairia pessoas que, como as igrejas joaninas, sentiam-se excluídas e ressentidas. Era também controverso, e alguns cristãos relutaram em incluí-lo no cânone. Mas quando os editores definitivos decidiram inseri-lo no fim do Novo Testamento, ele se tornou o término triunfante de sua exegese pesher das Escrituras hebraicas. Transformou o relato histórico da origem do cristianismo num apocalipse orientado para o futuro. A Nova Jerusalém substituiria a velha: “Não vi templo algum na cidade, pois seu templo era o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro.” O judaísmo e seus símbolos mais sagrados haviam sido substituídos por um vitorioso cristianismo militante.


Hoje as Escrituras têm má reputação. Terroristas usam o Corão para justificar atrocidades, e alguns afirmam que a violência de suas Escrituras tornam os muçulmanos cronicamente agressivos. Os cristãos fazem campanha contra o ensino da teoria evolucionista porque ela contradiz a história bíblica da Criação. Judeus sustentam que, por Deus ter prometido Canaã (Israel moderno) para os descendentes de Abraão, medidas agressivas contra os palestinos são legítimas. Houve um revival das Escrituras que se intrometeu na vida pública. Oponentes secularistas da religião afirmam que as Escrituras geram violência, sectarismo e intolerância; impedem as pessoas de pensar por si mesmas e estimulam a ilusão. Se a religião prega compaixão, por que há tanto ódio nos textos sagrados? É possível ser um “crente” hoje, quando a ciência solapou tantos ensinamentos bíblicos?


O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananéias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio nas cidades cananéias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.


A religião israelita posterior iria se tornar apaixonadamente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas. Originalmente Jeová fora membro da Assembléia Divina dos “santos”, que El, o poderoso deus de Canaã, havia presidido com sua consorte Aserá. Cada nação da região tinha sua própria divindade padroeira, e Jeová era “o santo de Israel”. No século VIII, Jeová havia expulsado El da Assembléia Divina e reinava sozinho sobre uma multidão de “santos”, guerreiros do exército celeste. Nenhum dos outros deuses podia se igualar a Jeová na fidelidade a seu povo. Nisso ele não tinha pares, não tinha rivais.


Um número significativo dos Escritos pertencia a uma escola distinta tanto da Lei quanto dos profetas. No Oriente Médio antigo, sábios ligados à corte como mestres ou conselheiros tendiam a ver toda a realidade moldada por um vasto princípio subjacente de origem divina. Os sábios hebreus chamavam isso de Chochmá, “Sabedoria”. Todas as coisas – as leis da natureza, a sociedade e os eventos nas vidas das pessoas – se conformavam a esse projeto celeste, que nenhum ser humano poderia jamais apreender em sua totalidade. Mas os sábios que devotavam suas vidas à contemplação da Sabedoria acreditavam que, ocasionalmente, a viam de relance. Alguns expressavam sua visão com máximas vigorosas como: “Um rei dá estabilidade a um país pela justiça, um extorsionário o leva à ruína”, ou “O homem que agrada ao vizinho estende uma rede sob seus pés”. A tradição da Sabedoria tinha originalmente pouca relação com Moisés e o Sinai, mas era associada ao rei Salomão, reputado por esse tipo de argúcia, e três dos Kethuvim foram atribuídos a ele: os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Os Provérbios eram uma coleção de aforismos de senso comum, semelhantes aos dois citados acima. O Eclesiastes, uma meditação flagrantemente cínica, via todas as coisas como “vaidade” e parecia solapar toda a tradição da Torá, ao passo que o Cântico dos Cânticos era um poema erótico sem conteúdo espiritual aparente.


O autor do Primeiro Livro de Henoc imaginou Deus rasgando em pedaços a terra e a mosaica revelação no monte Sinai para começar de novo com uma tabula rasa. O autor do Livro dos Jubileus, amplamente lido no século II d.C., foi perseguido em razão da crueldade de alguns dos Escritos. Havia Deus realmente tentado exterminar a raça humana no Dilúvio, ordenado a Abraão que matasse o próprio filho e afogado o exército egípcio no mar dos Juncos? Ele concluiu que Deus não intervinha diretamente em assuntos humanos e que o sofrimento que vemos por toda parte à nossa volta era a obra de Satã e seus demônios.


Jesus e seus discípulos vinham da Galiléia, no norte da Palestina. Depois de sua morte, mudaram-se para Jerusalém, provavelmente para estar a postos quando o reino chegasse, já que todas as profecias declaravam que o templo seria o pivô da nova ordem. Os líderes de seu movimento eram conhecidos como “os Doze”: no reino, governariam as 12 tribos de Israel reconstituído. Os integrantes do movimento liderado por Jesus participavam, juntos, de cultos, todos os dias, no templo, mas encontravam-se também para refeições comunais em que afirmavam sua fé na chegada iminente do reino. Continuavam a viver como judeus ortodoxos e devotos. Como os essênios, não tinham propriedade privada, partilhavam seus bens de maneira igualitária e dedicavam suas vidas aos últimos dias. Parece que Jesus recomendara pobreza voluntária e zelo especial pelos pobres; que a lealdade ao grupo devia ser mais valorizada que laços de família; e que o mal devia ser enfrentado com não-violência e amor. Os cristãos deviam pagar seus impostos, respeitar as autoridades romanas e não deviam nem cogitar em luta armada. Os seguidores de Jesus continuavam a reverenciar a Torá, a guardar o Shabat, e a observância das leis dietéticas era uma questão de extrema importância para eles. Como o grande fariseu Hillel, contemporâneo mais velho de Jesus, eles ensinavam uma versão da Regra de Ouro, que acreditavam ser o alicerce da fé judaica: “Assim, trate sempre os outros como gostaria que eles o tratassem; esta é a mensagem da Lei e dos Profetas.”

Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas. Era considerado um mestre consumado, mas tinha plena consciência de que seu temperamento explosivo significava que não era apreciado em toda parte.


Mas Paulo nunca sugeriu que os judeus devessem cessar de observar a Torá, porque isso os teria posto fora da aliança. Israel recebera a preciosa dádiva da revelação no Sinai, do culto no templo, e o privilégio de serem “filhos” de Deus, desfrutando uma intimidade especial com Ele – e Paulo prezava tudo isso. Quando ele invectivava amargamente contra os “judaizantes”, não estava condenando os judeus ou o judaísmo em si mesmos, mas aqueles cristãos judeus que queriam que os gentios fossem circuncidados e observassem integralmente a Torá. Como outros sectários no final do período do Segundo Templo, Paulo estava convencido de que somente ele possuía a verdade.


A destruição do primeiro templo em 586 a.C. havia inspirado uma assombrosa explosão de criatividade entre os exilados na Babilônia. A destruição do segundo templo estimulou um esforço literário similar entre os cristãos. Em meados do século II, quase todos os 27 livros do Novo Testamento estavam concluídos. Comunidades já citavam cartas de Paulo como se fossem Escritura, e leituras de uma das biografias de Jesus que estavam em circulação haviam se tornado costumeiras durante o culto de domingo. Os evangelhos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João acabariam sendo escolhidos para o cânone, mas havia muitos outros. O evangelho de Tomás (c. 150) era uma coleção de ditos secretos de Jesus que dariam um “conhecimento” (gnosis) redentor a seus discípulos. Havia evangelhos, agora perdidos, dos ebionitas, nazarenos e hebreus, que alimentavam as comunidades cristãs judaicas. Havia também muitos evangelhos “gnósticos”, representando uma forma de cristianismo que enfatizava a gnosis e distinguia um Deus inteiramente espiritual (que mandara Jesus como seu enviado) e um demiourgos, que criara o mundo material corrupto. Outros Escritos não sobreviveram: um evangelho conhecido pelos estudiosos como Q, porque foi a fonte (alemão: quelle) para Mateus e Lucas; várias antologias de ensinamentos de Jesus; e um relato de seu julgamento, tortura e morte.



Como todos os Escritos joaninos, o Apocalipse é deliberadamente obscuro, e seus símbolos seriam ininteligíveis para os estranhos. É um livro tóxico e, como veremos, atrairia pessoas que, como as igrejas joaninas, sentiam-se excluídas e ressentidas. Era também controverso, e alguns cristãos relutaram em incluí-lo no cânone. Mas quando os editores definitivos decidiram inseri-lo no fim do Novo Testamento, ele se tornou o término triunfante de sua exegese pesher das Escrituras hebraicas. Transformou o relato histórico da origem do cristianismo num apocalipse orientado para o futuro. A Nova Jerusalém substituiria a velha: “Não vi templo algum na cidade, pois seu templo era o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro.” O judaísmo e seus símbolos mais sagrados haviam sido substituídos por um vitorioso cristianismo militante. 


Nos primeiros anos do século I, o grande sábio fariseu Hillel viera da Babilônia para Jerusalém, onde pregou ao lado de seu rival Shamai, cuja versão do farisaísmo era mais rigorosa. Diz-se que um dia um pagão aproximou-se de Hillel e prometeu converter-se ao judaísmo caso ele conseguisse resumir toda a Torá enquanto se equilibrava numa perna só. Equilibrando-se numa perna só, Hillel respondeu: “Não faz a teu próximo o que for odioso para ti mesmo. Esta é toda a Torá, e o restante não passa de comentário. Vai estudá-la.” Esse foi um espantoso e deliberadamente controverso exemplo de midrash. A essência da Torá era a recusa disciplinada de infligir dor a outro ser humano. Tudo mais que estava nas Escrituras era meramente “comentário”, uma glosa à Regra de Ouro.


____________________________________________ continua...