Resumo estruturado — La rebelión de las masas
1. Prólogo à edição francesa
I — Linguagem, destinatário e limites do livro
O autor começa explicando que o livro não foi escrito originalmente para um público abstrato ou universal, mas para leitores espanhóis concretos, em artigos publicados em jornal. Por isso, insiste que todo dizer depende de uma relação entre quem fala e quem escuta. A palavra não transmite ideias de modo absoluto: ela é sempre diálogo, contexto, ocasião e tentativa imperfeita de chegar ao outro.
O prólogo critica o hábito dos intelectuais de falar “à humanidade” como se o pensamento pudesse dispensar destinatário real. O exemplo de Víctor Hugo, que responde solenemente a representantes de diversos países e termina evocando “a humanidade” diante da Mesopotâmia, serve para ironizar essa pretensão universalista. O autor afirma que não escreveu para “a Mesopotâmia” nem para uma humanidade abstrata.
II — Europa como convivência histórica
A circulação do livro em várias línguas europeias é apresentada como sinal de uma situação comum no Ocidente. Os povos europeus aparecem como diferentes entre si, mas ligados por uma mesma convivência histórica. A unidade europeia não é simples uniformidade: é uma homogeneidade fecunda, feita de diversidade, emulação, guerras internas, influências mútuas, tradições comuns e equilíbrio.
A Europa é descrita como um espaço social antes de ser apenas um espaço geográfico. O autor distingue sociedade de associação: sociedade nasce automaticamente da convivência prolongada, enquanto associação é um acordo voluntário. Por isso, a Europa existe como uma realidade social histórica, uma espécie de equilíbrio dinâmico entre povos diversos.
III — A má homogeneidade e o homem-massa europeu
O autor distingue a boa homogeneidade europeia, plural e criadora, de uma nova homogeneidade empobrecedora. O homem-massa surge como tipo humano “vazio” de história própria, formado por abstrações pobres, inclinado a fórmulas internacionais e hostil à singularidade dos destinos nacionais e pessoais. Essa uniformização ameaça destruir a riqueza da pluralidade europeia.
O texto defende que o liberalismo europeu, embora velho e discutível, contém uma intuição profunda: a Europa cresceu porque nenhum princípio, classe ou grupo venceu de modo absoluto. A comparação com o Baixo Império Romano serve de advertência: a homogeneidade excessiva pode produzir estupidez coletiva, repetição mental e perda de vitalidade histórica. O exemplo do latim vulgar ilustra uma uniformidade linguística que, para o autor, revela empobrecimento social.
IV — O problema é anterior à política
O autor afirma que o livro não é propriamente político. Seu tema está no subsolo da política: trata da estrutura espiritual, moral e intelectual do homem contemporâneo. Ele critica o politicismo integral, isto é, a absorção de toda a vida pela política. Para ele, reduzir o homem a direita ou esquerda é empobrecer a inteligência e esconder questões mais profundas: o que são o homem, a sociedade, o Estado, o direito, o indivíduo e a coletividade.
A política aparece como consequência de formas mais profundas de vida. A massa rebelde tende a substituir religião, conhecimento e sabedoria por política frenética. O exemplo da monarquia inglesa mostra outro caminho: a continuidade histórica, o símbolo e a tradição podem conservar função social mesmo quando parecem não governar materialmente.
V — Alcance e limite do ensaio
O autor explica que analisará o homem dominante de seu tempo começando por seus aspectos externos e avançando para sua constituição interna. Reconhece que os primeiros capítulos pertencem ao contexto de 1926-1928, antes do agravamento da crise europeia e ainda sob a impressão da prosperidade americana.
Ele afirma ter isolado apenas um fator do problema europeu: a caracterização do homem médio que se apodera da vida pública e sua capacidade — ou incapacidade — de sustentar a civilização moderna. O livro é apresentado como um ensaio de serenidade em meio à tormenta.
Primeira Parte — A rebelião das massas
2. I — O fato das aglomerações
O primeiro fato decisivo é o advento das massas ao pleno poder social. As cidades, hotéis, trens, cafés, praias, teatros e espaços públicos aparecem “cheios”. Esse “cheio” não é apenas demográfico: indica que os instrumentos e lugares criados pela civilização foram ocupados por multidões que antes permaneciam fora deles.
O autor define massa não como classe econômica, mas como tipo humano: aquele que não se distingue por qualificação especial e se reconhece como igual ao comum. Em oposição, as minorias são indivíduos ou grupos especialmente qualificados. A novidade é que a massa deixou de aceitar ser dirigida e passou a ocupar o primeiro plano da vida social.
3. II — A subida do nível histórico
O domínio das massas tem uma face positiva: o nível médio de vida subiu. O que antes era privilégio de minorias — conforto, direitos, acesso a bens, circulação, participação social — torna-se experiência comum. A massa passa a viver com possibilidades antes reservadas a grupos superiores.
Mas essa elevação produz um problema: o homem médio passa a comportar-se como senhor sem ter adquirido a disciplina, a responsabilidade e a cultura correspondentes. A vida média se eleva, mas a consciência histórica e moral não acompanha necessariamente essa subida.
4. III — A altura dos tempos
O autor investiga a ideia de altura dos tempos, isto é, o modo como uma época sente a si mesma em relação ao passado e ao futuro. Há épocas que se sentem inferiores ao passado, outras que se veem como plenitude, e outras que se percebem como superiores ao passado, mas incertas quanto ao futuro.
O tempo presente é descrito como poderoso e inseguro. Ele possui mais recursos e possibilidades que épocas anteriores, mas carece de direção clara. Não se trata simplesmente de decadência nem de plenitude: trata-se de uma época que vem depois de uma plenitude e não sabe ainda que destino inventar.
5. IV — O crescimento da vida
O mundo cresceu, e com ele cresceu a vida. O homem médio passa a viver em contato com o planeta inteiro: acontecimentos distantes entram na vida cotidiana por jornais, comunicações e circulação global. O exemplo dos sevilhanos acompanhando notícias do Polo mostra essa presença do distante no cotidiano.
A vida é definida como relação com a circunstância, isto é, com o repertório de possibilidades disponíveis. Quanto maior o mundo, maior o conjunto de possibilidades; mas isso também aumenta a complexidade da escolha. O crescimento da vida exige decisão, orientação e invenção de destino.
6. V — Um dado estatístico
O autor introduz o dado populacional de Werner Sombart: a Europa levou muitos séculos para chegar a 180 milhões de habitantes, mas entre 1800 e 1914 saltou para cerca de 460 milhões. O crescimento vertiginoso da população europeia é usado para explicar a irrupção quantitativa das massas.
A multiplicação humana foi possibilitada por democracia liberal e técnica. Esses princípios produziram uma forma superior de vida pública, mas também criaram o homem-massa rebelde: um tipo beneficiado pela civilização, mas incapaz de reconhecer as condições que a sustentam. O risco é que a abundância se converta em barbárie.
7. VI — Começa a dissecação do homem-massa
O homem-massa nasce de um mundo que lhe oferece facilidade material, segurança, conforto, ordem pública e ausência de barreiras sociais rígidas. Ele aprende que todos são juridicamente iguais e que não existem castas ou estados que limitem sua ascensão.
Essa experiência gera dois traços centrais: expansão ilimitada dos desejos e ingratidão radical diante das causas de seu bem-estar. Como o mundo organizado lhe parece natural, ele não percebe que a civilização é construção frágil. O homem-massa é comparado ao menino mimado, que recebe tudo e acredita nada dever.
8. VII — Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia
A distinção central do capítulo é entre vida nobre e vida vulgar. Vida nobre não significa nobreza de sangue, mas vida esforçada, orientada por exigência superior, sempre tentando superar a si mesma. Vida vulgar é vida inerte, fechada em si, que só se move quando pressionada por necessidade externa.
O homem-massa atual é vulgar porque não reconhece instâncias superiores. Ele não apela a normas, pessoas, fatos ou deveres além de si mesmo. Ainda que possua mais instrumentos de civilização, não compreende sua estrutura. Por isso, sua indocilidade política nasce de uma indocilidade mais profunda: intelectual e moral.
9. VIII — Por que as massas intervêm em tudo e por que só intervêm violentamente
O homem-massa acredita ter opiniões sobre tudo, mas suas “ideias” não são verdadeiras ideias, pois não se submetem à verdade, à discussão, às normas ou à cultura. A cultura exige princípios comuns aos quais se possa recorrer; quando isso falta, há barbárie.
A violência surge porque a massa não reconhece mediações. Ela rejeita trâmites, normas, cortesia, justiça, razão e usos intermediários. A civilização é definida como vontade de convivência; seu ponto político mais alto é a democracia liberal, porque permite que a maioria deixe espaço para a minoria. A massa, porém, odeia o que não é ela.
10. IX — Primitivismo e técnica
A situação moderna é ambígua: a rebelião das massas pode abrir uma nova organização humana ou produzir catástrofe. O progresso não é seguro; a história admite avanço e retrocesso. Por isso, o autor pede uma consciência mais aguda de responsabilidade.
O homem-massa usa automóveis, anestésicos, remédios e produtos técnicos, mas não se interessa pelos princípios científicos que os tornam possíveis. A técnica é consumida como se fosse natureza. O exemplo da ciência mostra a contradição: as massas dependem dela para viver, mas não lhe dedicam gratidão, vocação ou serviço.
11. X — Primitivismo e história
A natureza se sustenta sozinha; a civilização, não. Ela é artifício e exige manutenção permanente. O homem-massa a confunde com a selva, como se seus benefícios estivessem simplesmente dados. O exemplo da chumbera na Austrália, que invade o território se não for contida, ilustra a força da natureza quando a civilização relaxa.
O capítulo insiste que a civilização europeia é complexa demais para ser governada por mentes simplificadas. O problema não é falta de meios, mas falta de cabeças capazes de estar à altura dos problemas. O autor critica gestos anacrônicos, tanto conservadores quanto revolucionários, e afirma que a Europa precisa de homens verdadeiramente contemporâneos, capazes de sentir a história inteira.
12. XI — A época do “senhorito satisfeito”
O senhorito satisfeito é a figura central do homem-massa: herdeiro das vantagens da civilização, comporta-se como se tivesse direito natural a elas. Ele deseja fazer o que quer, como o filho mimado que age fora de casa como se ainda estivesse protegido pelo ambiente familiar.
A civilização do século XIX criou um mundo de instrumentos, direitos, medicamentos, segurança e Estado organizado. Mas o homem-massa percebe apenas os benefícios, não as dificuldades de produzi-los e conservá-los. O autor compara esse tipo ao cínico do helenismo, que sabotava a civilização sem criar nada.
13. XII — A barbárie do especialismo
A técnica moderna nasce da união entre capitalismo e ciência experimental. Ela possibilitou o crescimento europeu e a multiplicação das massas. Mas também gerou um novo tipo de barbárie: o especialista, que conhece muito uma pequena área e ignora o conjunto da cultura.
O homem de ciência especializado torna-se protótipo do homem-massa quando perde visão geral, consciência histórica e compreensão das condições sociais que permitem a ciência existir. A especialização foi necessária ao progresso científico, mas ameaça a própria ciência se não for integrada por uma cultura mais ampla.
14. XIII — O maior perigo: o Estado
A massa, segundo o autor, deve ser dirigida, influenciada, representada e organizada; quando pretende agir por si mesma, rebela-se contra seu próprio destino. Sua forma espontânea de ação é a violência, simbolizada pelo linchamento e pela “ação direta”.
O maior perigo, porém, é o Estado contemporâneo. Criado pela sociedade como instrumento para viver melhor, o Estado se fortalece até sobrepor-se à sociedade. A massa tende a usar o Estado para resolver tudo, sem perceber que isso pode destruir a espontaneidade social. O crescimento da Polícia aparece como exemplo da expansão do aparelho estatal.
Segunda Parte — Quem manda no mundo?
15. XIV — Quem manda no mundo? — Seção 1
O autor afirma que mandar não é apenas exercer força; é comandar por meio de uma opinião pública e de um programa de vida. Nunca alguém mandou de modo estável apenas pela violência. O mando exige aceitação, vigência social e orientação histórica.
A pergunta central é quem sucederá a Europa no comando do mundo. A Europa criou uma forma de civilização que se tornou planetária, mas já não está segura de continuar mandando. Essa incerteza desorganiza não só a Europa, mas também os povos que dela dependiam como centro de orientação.
16. XIV — Seção 2
O autor explica que toda interpretação do presente exige esquemas conceituais. Não se pode apreender diretamente a totalidade do real; é preciso construir uma grade de leitura. A tese proposta é que, durante três séculos, a Europa mandou no mundo, mas agora duvida de sua própria autoridade.
A chamada decadência da Europa é tratada com cautela. O problema não é apenas perda material, mas perda de confiança no sistema de normas que a própria Europa criou. A crise é, antes de tudo, desmoralização.
17. XIV — Seção 3
O texto examina possíveis substitutos da Europa. Nova York e Moscou são citadas como centros aparentes, mas o autor afirma que não representam algo verdadeiramente novo em relação à Europa: uma é prolongamento técnico e econômico; a outra, derivação de ideias europeias.
A questão não é simplesmente que a Europa deixe de mandar, mas que ninguém pareça apto a substituí-la. A crise pode ser decadência ou oportunidade: talvez permita que a Europa se torne literalmente Europa, isto é, supere suas antigas divisões nacionais.
18. XIV — Seção 4
A função de mandar e obedecer é decisiva em toda sociedade. Quando não se sabe quem manda e quem obedece, a vida pública e privada se desorganiza. O mando autêntico dá aos homens uma tarefa, um programa e uma direção.
A vida sem programa torna-se vazia. O europeu do pós-guerra aparece sem empresa histórica. Obedecer, para o autor, não significa aguentar passivamente, mas reconhecer legitimidade, estimar quem manda e aderir a uma bandeira comum.
19. XIV — Seção 5
O autor retorna ao tema da decadência europeia e conclui que as dificuldades não provêm da incapacidade dos europeus, mas do tamanho insuficiente das estruturas nacionais. Alemães, ingleses e franceses sentem-se capazes de produzir mais, pensar mais e organizar melhor, mas esbarram nas fronteiras políticas dos Estados.
A Europa tornou-se pequena para si mesma. O exemplo da indústria automobilística mostra que a escala nacional limita a produção europeia diante da americana. Assim, a crise nasce do fato de que a vida europeia cresceu além das velhas nações.
20. XIV — Seção 6
O autor faz uma comparação histórica com o mundo greco-romano. A polis e a cidade antiga nasceram da superação da dispersão rural: o Estado é apresentado como convivência estabilizada, mas também como resultado de um movimento criador.
O Estado não é dado pela natureza, como a tribo ou a consanguinidade. Ele exige imaginação histórica. Grécia e Roma conseguiram imaginar a cidade, mas não superaram plenamente seus limites. A Europa moderna estaria diante de desafio semelhante: superar a forma estatal que ela mesma criou.
21. XIV — Seção 7
A figura de César é apresentada como exemplo de cabeça clara em política, capaz de perceber a realidade em meio ao caos. Roma possuía instituições municipais inadequadas para um império vasto; seu sistema político não correspondia mais à sua dimensão histórica.
O Estado é definido como movimento: vem de algo e vai para algo. O Estado nacional é superior à cidade antiga porque não se funda apenas em sangue, território ou idioma, mas em projeto comum. Ele tende à fusão de povos e classes em uma empresa política mais ampla.
22. XIV — Seção 8
O autor discute a definição de nação a partir de Renán, especialmente a fórmula do “plebiscito cotidiano”. Ele corrige a leitura retrospectiva da nação: não basta passado comum, sangue, língua ou tradição. A nação existe sobretudo como programa de futuro.
O exemplo de Espanha e dos povos da América Central e do Sul reforça a tese: apesar de passado, raça e língua comuns, não formam uma só nação porque faltou um futuro compartilhado. A nação está sempre se fazendo ou se desfazendo, conforme atraia ou perca adesões.
23. XIV — Seção 9
O autor afirma que chegou a hora de a Europa converter-se em ideia nacional. As nações europeias compartilham grande parte de seu conteúdo mental, moral, artístico, religioso e científico. O francês, o espanhol, o inglês ou o alemão possuem mais elementos europeus comuns do que imaginam.
A desmoralização europeia nasce da dispersão do poder e da falta de uma nova empresa. O nacionalismo extremo é visto como reação final de um princípio esgotado. O autor contrapõe a possível atração do bolchevismo à necessidade de uma nova moral ocidental: a construção de uma Europa como grande Estado ou empresa comum.
24. XV — Desemboca-se na verdadeira questão
A verdadeira questão é moral: Europa ficou sem moral. O homem-massa não substituiu uma moral antiga por outra nova; ele quer viver sem se submeter a nenhuma norma. O discurso da “nova moral” é apresentado como disfarce para a recusa de obrigações.
O homem-massa sente-se sujeito de direitos ilimitados e de nenhuma obrigação. Seja reacionário ou revolucionário, usa sua posição como pretexto para não respeitar cortesia, verdade, indivíduos superiores ou normas comuns. A aparente amoralidade é, na verdade, imoralidade, pois negar toda moral já é adotar uma moral negativa.
Epílogo e textos complementares
25. Epílogo para ingleses
O autor retoma o “Prólogo para franceses” e dirige-se aos ingleses. A Inglaterra é apresentada como povo sociologicamente estranho e admirável, dotado de missão europeia, mas também de defeitos irritantes e dificuldade de compreender outros povos.
O epílogo prepara o ensaio sobre o pacifismo. O autor sugere que a incompreensão entre os povos do Ocidente, antes habituados a conviver numa mesma “casa europeia”, tornou possível o erro inglês do pacifismo. O texto é escrito com cautela, adaptando-se ao destinatário inglês, e visa colaborar com a reconstituição da Europa.
26. Em quanto ao pacifismo
O pacifismo inglês é criticado por tratar a guerra apenas como mal, crime ou vício, esquecendo que ela foi historicamente um esforço para resolver conflitos. Para abolir a guerra, não basta desejar não fazê-la; é preciso substituí-la por uma técnica de paz mais complexa e eficaz.
O autor afirma que não existe ainda um verdadeiro direito dos povos capaz de resolver os conflitos internacionais. A Sociedade das Nações é criticada como aparato jurídico criado para um direito inexistente. A paz exige direito dinâmico, plástico, instituições eficazes, opinião pública internacional e formas reais de convivência social entre povos.
O texto também critica a incongruência da opinião pública estrangeira quando julga outros países sem informação suficiente. A opinião de um povo sobre outro tende ao erro porque parte de experiências próprias e desconhece a vida interna do outro. A solução positiva proposta é a construção de uma forma mais avançada de convivência europeia: não uma “inter-nação”, mas uma ultra-nação europeia.
27. Apêndice — Dinâmica do tempo: os escaparates mandam
O autor discute a ideia de que o dinheiro é o principal poder social. Ele não nega sua importância, mas recusa a explicação puramente econômica da história. O dinheiro não seria poder primário; torna-se dominante quando outros prestígios — religião, política, raça, ideias — perdem vigor.
O poder do dinheiro aumenta em épocas de crise moral, quando faltam princípios sociais firmes. O exemplo dos escaparates mostra que, no mundo moderno, há muito mais coisas prontas para comprar; por isso, o dinheiro parece mais poderoso. O homem rico pode adquirir rapidamente objetos de prestígio sem precisar criar desejos, escolher artesãos ou participar de processos culturais complexos.
28. Juventude — I
O texto afirma que a história não é movida apenas por causas externas, mas por forças vitais internas. Entre essas forças estão as oposições juventude/senectude e masculino/feminino. Cada época manifesta um predomínio diferente dessas potências biológicas e espirituais.
O tempo presente é caracterizado pelo predomínio extremo dos jovens. O autor compara essa situação com outras épocas: o Renascimento aparece como tempo jovem; o século XVIII, como tempo velho; o século XVII, como tempo de maturidade. O presente, porém, destaca-se por uma afirmação inédita da juventude como estilo dominante.
29. Juventude — II
O autor distingue gestos de domínio e de servidão. Servir é viver a partir do outro; dominar é viver a partir de si. A juventude anterior vivia em servidão da maturidade, imitando os mais velhos e esperando sua aprovação.
No presente, a juventude se torna dona da situação. As modas, os prazeres, os costumes e os usos sociais passam a ser organizados para corpos e estilos juvenis. O autor vê grandeza nesse gesto de domínio, mas também perigo: a juventude é uma etapa transitória e não pode cortar completamente os vínculos com a maturidade.
30. Masculino ou feminino? — I
O autor afirma que não basta dizer que a época é jovem; é preciso perguntar se é jovem de modo masculino ou feminino. Para isso, rejeita uma definição superficial de masculinidade ligada apenas ao culto da mulher. Quando o homem se define principalmente por sua relação com a mulher, isso indica, para o autor, predomínio de valores femininos.
Ele compara épocas históricas: o século de Péricles seria masculino, centrado na vida pública dos homens, na ágora, no ginásio, na guerra e na beleza varonil. A primeira Idade Média também seria masculina, marcada por guerra, caça, cavalo, bebida e vida entre homens. A partir do século XII, porém, a entrada da mulher na vida pública transforma o estilo europeu.
31. Masculino ou feminino? — II
A partir do século XII, a cortezia vence a clerezia: surge um novo estilo de vida orientado pelo entusiasmo pela mulher. O cavaleiro passa a servir a dama, a poesia se volta ao louvor feminino, e o culto à Virgem Maria expressa a elevação simbólica da feminilidade.
O presente, contudo, é definido como tempo de juventude masculina. O jovem afirma seu corpo, seus esportes, seus gostos e sua autonomia sem servir a nada além da própria mocidade. A moda feminina também se aproxima do modelo do rapaz jovem. A perda do predomínio feminino é associada à diminuição da cortesia e ao aumento de uma convivência mais áspera.
Ideias principais recorrentes da obra
Homem-massa
O homem-massa é o tipo humano central da obra: vulgar, satisfeito consigo, beneficiário da civilização, mas ingrato às suas causas. Ele não é uma classe social específica; aparece em todas as classes. Seu traço decisivo é sentir-se completo sem esforço, sem submissão a normas superiores e sem consciência histórica.
Civilização como construção frágil
A civilização não é natureza. Ela é artifício, construção, disciplina, técnica, normas, ciência, direito, cortesia e convivência. Pode desaparecer se os homens que dela se beneficiam não a sustentarem. A obra repete que o homem moderno usa os frutos da civilização como se fossem espontâneos.
Liberalismo e convivência
O liberalismo é apresentado como forma superior de convivência porque permite à maioria limitar seu próprio poder e deixar espaço para a minoria. Seu valor não está em ser uma doutrina perfeita, mas em expressar a vontade de conviver com o diferente, inclusive com o adversário.
Técnica, ciência e especialização
A técnica moderna, fundada na ciência experimental, elevou o nível de vida e multiplicou a população. Mas o especialismo ameaça criar sábios parciais, competentes em um setor e bárbaros no conjunto. A ciência depende de condições históricas e morais que o especialista muitas vezes ignora.
Estado e massa
O Estado contemporâneo é visto como instrumento poderoso criado pela sociedade, mas capaz de dominá-la. Quando a massa usa o Estado para tudo, a vida social espontânea se enfraquece. O perigo é a absorção da sociedade pelo aparelho estatal.
Europa como projeto
A obra apresenta a Europa como unidade histórica de convivência plural. A crise europeia nasce do esgotamento das pequenas nações como forma suficiente de vida. A saída sugerida é uma empresa europeia maior: uma Europa capaz de tornar-se projeto político, moral e histórico comum.
Moral, obrigação e serviço
A crise final é moral. O homem-massa quer direitos sem deveres. Para o autor, toda moral envolve submissão a algo, consciência de serviço e obrigação. A recusa de qualquer norma não é amoralidade, mas uma forma negativa de moral: imoralidade.
Referências citadas
Autores, pensadores e figuras intelectuais
José Ortega y Gasset, Víctor Hugo, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Job, Robertson, Montesquieu, Balzac, Guizot, Royer-Collard, Alcuino, De Bonald, De Maistre, Benjamin Constant, Saint-Simon, Ballanche, Macaulay, Tocqueville, Posidônio, Cícero, Pascal, Herbert Spencer, Stuart Mill, Dante, Werner Sombart, Rathenau, Einstein, Newton, Kant, Hegel, Marx, Augusto Comte, Nietzsche, Schiller, Dawson, Luchaire.
Personagens históricos, políticos, religiosos ou simbólicos
César, Temístocles, Milcíades, Alexandre, Bruto, Tácito, Renan, Napoleão, Mussolini, Sócrates, Péricles, Aspásia, Diógenes, Aristipo, Aristóteles, Tolstoi, Luzbel, Adão, Minerva, Carlos V, Francisco I, Otão II, Dante, Voltaire, Descartes, Ninón, San Ignacio, San Francisco Javier, Santa Teresa, Virgem Maria, Cid, Alcibíades.
Obras, textos e publicações mencionadas
La rebelión de las masas, The Revolt of the Masses, El Sol, Histoire de la civilisation en Europe, L’Avenir, El individuo contra el Estado, Memorias, Odas, Syllabus, El hombre y la gente, além de referências ao Tratado de Versalhes e à Sociedade das Nações.
Lugares, povos e espaços históricos
Europa, Ocidente, Oriente, França, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália, América, Estados Unidos, Rússia, Nova York, Moscou, Roma, Grécia, Atenas, Cartago, Gália, Tingitânia, Dalmácia, Hispânia, Rumânia, Hipona, Lutécia, Mesopotâmia, Mediterrâneo, África, Oceanía, Austrália, Málaga, Sicília, Paris, Versalhes, Holanda, Oegstgeest, Milão, Urales, Rin, Gibraltar, Provença, Borgonha, Centro e Sudamérica, Hélade, Spania, Numância.
Instituições, formas políticas e eventos
Estado, Estado nacional, Estado-cidade, polis, Império Romano, Baixo Império, Parlamento, Polícia, monarquia inglesa, Sociedade das Nações, British Commonwealth of Nations, Tratado de Versalhes, Revolução, Renascimento, Idade Média, Primeira Guerra / pós-guerra, plano quinquenal soviético, bolchevismo, fascismo, comunismo, democracia liberal, capitalismo, industrialismo.
Conceitos fundamentais
massa, homem-massa, rebelião das massas, minorias excelentes, homem médio, vida pública, poder social, aglomeração, altura dos tempos, nível histórico, circunstância, decisão, mundo como repertório de possibilidades, vida nobre, vida vulgar, esforço, inércia, hermetismo intelectual, indocilidade, menino mimado, senhorito satisfeito, ação direta, ação indireta, civilização, barbárie, cultura, normas, cortesia, razão, liberalismo, técnica, ciência experimental, especialismo, primitivismo, Estado, opinião pública, mando, obediência, nação, plebiscito cotidiano, programa de futuro, pacifismo, direito dos povos, convivência, sociedade, ultra-nação europeia, juventude, senectude, masculino, feminino, cortezia, clerezia, dinheiro, crise moral.
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