3 de setembro de 2026

[Aula] 031 - Instinto da verdade (2009)

 








COF 031 — Forma, matéria e instinto da verdade
Guia COF · Curso Online de Filosofia

Forma, matéria e instinto da verdade

Percepção, responsabilidade intelectual e formação filosófica

AULA 031OLAVO DE CARVALHO7 DE NOVEMBRO DE 200935 TÓPICOS

Como ler: acompanhe as sínteses na ordem da aula. Abra a transcrição de cada tópico para ler todas as falas e exemplos.

Os títulos e as sínteses são editoriais. As ideias, os juízos e as atribuições pertencem à exposição do professor. O trabalho utiliza exclusivamente a transcrição revisada da aula 031, sem consulta ao áudio.

1 · Título provável do tópico

O eixo da aula

Forma, matéria e instinto da verdade

Percepção, responsabilidade intelectual e formação filosófica.

2 · Transcrição organizada

Resumo por tópicos,
na sequência da fala

A exposição completa foi distribuída em 35 unidades de leitura. As perguntas e contribuições dos alunos estão separadas e não exibem nomes.

35 tópicos disponíveis · a busca também consulta as falas completas.

01

Patamares filosóficos e estado da questão

Síntese do tópico

A distinção aristotélica entre forma e matéria é apresentada como um patamar: uma descoberta que pode ser desenvolvida, mas não ignorada. Conhecer o status quaestionis exige também situar-se na civilização. Os exemplos de reinventar a roda, descobrir novamente as bactérias ou a circulação do sangue ilustram o atraso dos Colombos retardatários, expressão atribuída a Mário Ferreira dos Santos.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Boa tarde a todos. Sejam bem-vindos.

Esta aula será dividida em tópicos separados: coisas que eu já queria falar desde há muitas aulas e que escaparam.

A primeira — que eu queria lembrar a vocês como uma espécie de exercício e de prática — é a seguinte: todos já ouviram falar da distinção que Aristóteles fazia entre forma e matéria: o que eu considero um dos patamares da filosofia! Eu chamo de "patamares" as coisas que são descobertas e que, daí para adiante, ninguém tem o direito de ignorá-las, porque isto seria voltar a uma etapa mais baixa, mais grosseira, do raciocínio. Seria deixar de perceber um aspecto da realidade que já foi suficientemente iluminado.

O que não quer dizer que se tenha de parar aí: claro que outras coisas podem ser descobertas na mesma direção, e que às vezes podem alterar fundamentalmente aquilo. O que não se pode é ignorar esse patamar.

Essa distinção entre forma e matéria — que frequentemente é mal compreendida, inclusive por historiadores da filosofia, ou por um grande número de comentadores — é absolutamente essencial, não só para a compreensão da história da filosofia, mas para o exercício da filosofia e até para a orientação da sua vida em geral.

Então, o primeiro tópico da aula de hoje é algo sobre a doutrina aristotélica de forma e matéria, que é uma coisa importante para se compreender, não só do ponto de vista da história da filosofia, mas efetivamente como uma prática e como uma espécie de aprimoramento da percepção.

Quando Aristóteles descobriu essa distinção de forma e matéria, ele alcançou o que eu chamo "patamares da história da filosofia". Patamar é uma coisa de importância extraordinária: uma vez descoberta, não se pode mais ignorá-la, pois se o fizer, estar-se-á tomando o assunto abaixo do status quaestionis. Você estará ignorando algo fundamental que foi descoberto naquela linha de investigações antes que você entrasse em cena.

É claro que, como qualquer outra, essa distinção pode ser aprimorada: podem-se descobrir muitas coisas na mesma direção. O que não se pode é ir abaixo daquilo que já se sabe.

O que eu estou dizendo não implica nenhuma noção de progresso filosófico necessário, do ponto de vista histórico, mas implica certo compromisso com o conhecimento do status quaestionis. Quando falo em status quaestionis, não estou me referindo só ao conhecimento do desenvolvimento histórico de certa discussão, mas do conhecimento do próprio contexto histórico no qual você está, não só como um estudante de filosofia, mas como um habitante da nossa civilização.

Há certos conhecimentos que já foram alcançados e que, de algum modo, se incorporaram à civilização, e que se você realmente não os absorve, estará em descompasso com a situação histórica real, o que faz com que todo o seu enfoque dos problemas perca muita importância; perca muito valor. É como se o sujeito estivesse tentando reinventar a roda; tentando descobrir a existência de bactérias; ou descobrir a circulação do sangue de novo, e publicasse aquilo como se fosse uma grande novidade. É o que o Mário Ferreira dos Santos chamava os "Colombos retardatários": os caras que descobrem a América de novo!

02

Consciência histórica e ampliação da percepção

Síntese do tópico

O professor distingue a consciência da situação histórica da submissão às ideias do momento. Recorda sua percepção da topografia da Baixada do Glicério, ao caminhar pela Rua Conde de Sarzedas, e a relaciona à ampliação do horizonte temporal. A travessia de uma rua exige segundos de atenção; compreender a própria existência exige referências históricas incorporadas à percepção habitual.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Claro que isto não é só um erro do ponto de vista da erudição. Isto se torna um descompasso existencial extremamente perigoso! É muito importante que toda a sua vida intelectual — e até a sua vida pessoal — se desenrole dentro de uma consciência alerta do momento e da situação real na qual você vive. Essa situação real, tomada no sentido histórico mais amplo, tem de se incorporar à sua vida consciente, ou seja: você tem de saber onde e quando está vivendo.

Não se trata do famoso "ser um homem do seu tempo"; você não precisa ser um homem do seu tempo. Na verdade, ser um homem do seu tempo seria ser apenas o homem do dia, semana ou mês, e ter sua visão do mundo circunscrita àquilo de que se fala em certo momento. Não é disto que eu estou falando. Estou falando em abranger certa dimensão de tempo na qual você possa se situar com certa clareza.

Lembro-me de uma experiência infantil que tive e que me marcou para sempre: eu morava ali na Baixada do Glicério e estava, inocentemente, descendo a Rua Conde de Sarzedas. Eu estava olhando para a rua e, de repente, tive uma visão de toda a topografia do local: de todas as ruas, esquinas, monumentos, edifícios etc.; a estrutura inteira de um raio de um quilômetro. Eu percebi que não estava andando somente na Rua Conde de Sarzedas, mas em tudo aquilo ao mesmo tempo: é neste mapa que eu estou! Mas normalmente nós não prestamos atenção nisto; prestamos atenção apenas na rua na qual estamos andando imediatamente e acreditamos: "Nós estamos aqui." Sim, mas o que você quer dizer com aqui? Onde termina o aqui?

Do mesmo modo, do ponto de vista temporal: "eu estou nesta fase; nesta etapa; nesta época." Mas, onde começa e onde termina esta época? Ela dura duas horas, um dia, três, quatro, um século, dez séculos? O seu horizonte temporal, para fins práticos imediatos, concentra-se apenas na temporalidade imediata. Mas não se esqueça de que essa temporalidade imediata não existe em si mesma: ela é, verdadeiramente, um recorte subjetivo.

Eu não acredito que o tempo seja uma dimensão subjetiva, como dizia Kant, mas acredito que a imagem que temos do tempo, esta sim, é subjetiva, e você a recorta de acordo com as suas necessidades. Qual é a necessidade que o seu recorte do tempo está atendendo? Por exemplo: para a necessidade de atravessar uma rua, basta você saber o que se passou nos últimos cinco segundos: os carros que vêm vindo, a velocidade em que eles estão trafegando, com que velocidade você precisa atravessar a rua para não ser atropelado; esse é o seu horizonte histórico naquele momento.

Se você quer ter uma compreensão existencial: quem sou eu? Onde é que estou vivendo? O que eu estou fazendo aqui? Quais são as correntes históricas das quais estou participando? Quais aquelas das quais desejo participar? Quais aquelas de que quero me abster? E quais aquelas a que quero me opor? É claro que você precisa ter uma visão mais ampliada. Para tê-la, não basta saber as coisas. É preciso que essas várias informações sobre a corrente do tempo tenham se incorporado na sua percepção habitual. O recuo de tempo com que você enxerga as coisas tem que se incorporar na sua percepção do que está acontecendo naquele momento: saber quais os pontos de comparação; saber os pontos de referência no passado próximo e remoto que podem ajudá-lo a compreender o que está se passando. Quando você não tem isto, a própria visão do passado — o próprio conhecimento histórico que você tem — aparece na sua mente de maneira totalmente desconjuntada: não tem um sentido de forma; não tem um sentido de hierarquia; dá a impressão de que qualquer coisa pode ter qualquer coisa a ver com qualquer coisa, a qualquer momento! Daí você começa a fazer aquelas comparações estapafúrdias que são o usual na mente brasileira hoje em dia.

03

Analogias históricas sem hierarquia

Síntese do tópico

Uma leitura da história sem forma produz associações arbitrárias. O professor critica um artigo que relacionava Hitler, catolicismo e Lutero, discutindo instituição, doutrina e heresia e mencionando também Calvino. Evoca uma observação de Rui Barbosa sobre o sucesso da estupidez. Sua advertência é contra transformar o próprio erro em critério de conhecimento.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Quando você lê comentários de mídia — até em trabalhos acadêmicos [10:00] isto aparece com uma frequência enorme — você repara que a história da qual essas pessoas falam, e na qual elas pensam, não tem forma, absolutamente: é constituída de explosões mais ou menos aleatórias; fatos que, por um momento, adquirem uma importância hipnótica para aquele sujeito e suscitam analogias, as quais espocam na cabeça do sujeito como se fossem uma iluminação!

Ontem mesmo um sujeito me mandou um artigo que algum idiota escreveu a meu respeito — não era bem a meu respeito, mas a respeito de uma questão histórica que eu discutia —, no qual o sujeito dizia que Hitler era um sujeito católico e que o antissemitismo dele era inspirado em Lutero; que ele era católico, mas um "católico anticlerical".

O que pode ser um católico anticlerical, se um católico é eminentemente um membro da Igreja? Não é simplesmente um crente, como o protestante, que acredita em uma doutrina independente de qualquer incorporação institucional. A essência do catolicismo é a incorporação da doutrina e da fé em uma determinada instituição criada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Claro que o católico não institucional não é um católico: é um heresiarca. Agora, se além de ser um católico não institucional, o sujeito ainda foi inspirado por Lutero, cadê o catolicismo dele? Ele é tão católico quanto Lutero, evidentemente! Mas como o sujeito que escreveu isto é mais ou menos anticristão, tudo o que vem, seja de Lutero, seja de Calvino, seja da Igreja, para ele tudo é cristão na mesma medida. Ele não é capaz de distinguir uma coisa da outra! Isto significa que uma heresia, para ele, é uma coisa tão católica quanto a doutrina católica. O que é isto? É uma monstruosidade mental fora do comum! Mas isto, no Brasil, é comum! No Brasil isto é o usual! É uma deficiência de educação que acaba se transformando numa deficiência de percepção e, no fim das contas, numa deficiência de personalidade, numa deformidade pessoal que o sujeito não consegue medir!

Note que errar todos nós erramos, todos nós somos humanos, todos nós somos pecadores, todos nós somos idiotas no fim das contas. Disto não resta a menor dúvida! O problema é que as nossas idiotices são idiotices realmente, os nossos pecados são pecados realmente, agora, quando você começa a tomar idiotice como se fosse uma ciência — Rui Barbosa dizia que estava começando a desconfiar que a estupidez fosse uma ciência, de tanto ver idiotas com tanto sucesso! — na hora em que você começa a consagrar a estupidez como uma ciência, o pecado como uma virtude etc., você chegou a uma situação desesperada de onde você não pode mais voltar atrás.

04

Participação na história e responsabilidade moral

Síntese do tópico

Não basta conhecer fatos: é necessário compreender as opções morais reais dos personagens e perguntar o que se faria em suas situações. A posição de observador exterior é comparada a um desenho animado e à ideia infantil de uma fábrica de batatas. A doutrina de forma e matéria deve tornar-se uma capacidade presente de percepção, exercida na própria vida.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Esta falta de perspectiva histórica real — perspectiva histórica real não é você conhecer todos os fatos e conhecer a história muito bem. Você pode conhecer a história todinha de cor e não ter a perspectiva, porque você não se situa dentro do quadro; você está olhando a história como se fosse uma coisa que se passa na tela e você está observando a história de fora. Ora, ninguém pode observar a história de fora! Isto não existe! Nós estamos sempre comprometidos com a história. A história é a nossa própria história. Sempre!

Qualquer acontecimento histórico do passado você só pode compreendê-lo na medida em que consiga apreender quais eram as opções morais reais que se colocaram àqueles personagens, e na medida em que consiga incorporar esse drama em você, para saber, de certo modo, o que faria se estivesse lá. Se você não é capaz de se colocar deste ponto de vista, você simplesmente não está compreendendo aqueles personagens como seres humanos: está compreendendo como se fossem figuras em uma tela; como se fosse um desenho animado! Não chega sequer a ser um filme com atores reais: são figuras esquemáticas de desenho animado! Daí o sujeito olha tudo aquilo de cima e ele sentencia. Se ele percebesse o quanto isto é ridículo, irreal e psicótico, na verdade, é claro que ele pararia de fazer; mas no momento em que a coisa se consagrou como um direito e até um dever da inteligência humana, o sujeito continuará raciocinando assim o tempo todo.

A simples pergunta: o que eu faria se estivesse lá? Se você não é capaz deste nível de identificação com os personagens, você nunca vai entender nada. Você está tratando aqueles personagens como se fossem máquinas; como se fossem figuras de ficção; como se fossem um programa de computador, ou coisa assim! Você não é capaz de sentir o peso da responsabilidade real com que os indivíduos estavam jogando. É como uma criança que dá palpite nos assuntos dos pais sem entender absolutamente nada.

Eu me lembro de quando os meus filhos me perguntavam onde ficava a fábrica de batatas! Eu tentava compreender quais eram os princípios da ciência econômica nas cabecinhas deles; como é que isso funcionava. Eles achavam que tudo era fabricado: que tinha uma fábrica de árvores, uma fábrica de bananas, de macacos, e assim por diante.

Muitas pessoas têm uma visão da história que é exatamente assim. Não é a história real! É realmente uma história da carochinha; e essa história da carochinha você tem a impressão que você a domina mentalmente; e quanto mais fatos você souber, mais terá esta impressão. Se você quer saber: esta impressão é praticamente a origem de todos os erros do pensamento humano. Acreditar que você está vendo o desenrolar das histórias das ideias, da história humana inteira, como se você fosse Deus; como se não fosse parte daquilo; como se você não tivesse um comprometimento pessoal com a coisa. Aí tudo se torna muito fácil!

É neste sentido que eu digo que vocês têm de incorporar esta doutrina da forma e matéria, não como algo que se passou no passado, algo que foi descoberto, algo que pertence à história da filosofia, mas como a descoberta de uma possibilidade humana que é atual, que é presente, e que você pode redescobrir em você mesmo, na sua vida, todos os dias.

05

Forma como princípio de funcionamento

Síntese do tópico

A forma não se reduz à figura exterior: uma mão cortada conserva a aparência, mas perdeu sua função. O copo, a xícara e a cuia mostram a unidade de função em matérias diferentes. O professor contesta a objeção de que a distinção seria apenas uma projeção da fabricação humana sobre a natureza.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Quando Aristóteles dizia forma e matéria, a noção de forma não é, evidentemente, a forma exterior. Ele dizia, por exemplo: uma mão cortada tem figura de mão, mas não tem forma de mão, porque não tem função de mão. Nós podemos dizer que a forma, para Aristóteles, seria, antes, a fórmula: o princípio de funcionamento; o princípio que dá unidade e sentido àquela entidade e que pode ser concebida independentemente da matéria que confere existência àquilo.

Se você concebe uma xícara, um copo, ou um recipiente qualquer, você vê que o que define o copo é a função que ele exerce: ele é um recipiente; ele pode receber certo líquido em certa quantidade e mantê-lo lá, e você pode se servir daquilo. Esta ideia, evidentemente, é anterior à existência de qualquer copo. O sujeito não pode ter feito um copo antes de ter pensado um copo. No momento em que ele pensou, o copo não existia ainda; mas ele já tinha a forma de copo, ainda que não se incorporasse em matéria alguma.

Dizer — como muitos idiotas dizem — que isto é uma projeção da ação humana sobre a natureza: nós, quando fazemos alguma coisa, temos primeiro a ideia e a fórmula, e depois nós a incorporamos em alguma matéria. Alguns dizem: Não, mas Aristóteles está fazendo como se a natureza fosse criada do mesmo modo que os objetos humanos. Nos objetos humanos a distinção entre a forma e a matéria é até bastante evidente,[20:00] mas nos seres da natureza a coisa não se aplicaria. Isso é absolutamente errado!

Eu duvido muito que o primeiro sujeito que teve a ideia do copo tenha criado um copo. Não, ele achou algo que servia de copo, algo que atendia uma necessidade cuja forma lógica ele compreendia. Pode ser até que, por casualidade, ele tenha encontrado uma cuia qualquer, então a cuia já tinha forma e matéria de copo e podia ser usada como tal. Mas, se o indivíduo não fosse capaz de distinguir forma e matéria, cada nova cuia que ele descobrisse na natureza seria uma coisa totalmente alheia à anterior; não teria nada a ver uma coisa com a outra; ele não poderia pegar a unidade de função entre várias coisas diferentes.

06

Espécies, indivíduos e localização material

Síntese do tópico

Árvores e gatos distintos podem ser reconhecidos como pertencentes à mesma espécie. A diferença entre os indivíduos envolve suas porções de matéria e seus lugares no espaço. A cachorra e os filhotes, os círculos concêntricos e os exemplos de gatos, tartarugas e tomates esclarecem o argumento. O professor delimita a exposição à matéria macroscópica, deixando de lado os problemas das partículas subatômicas.

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Também ele não poderia pegar a noção de espécie, porque se você vê uma árvore e vê outra árvore, é claro que as duas não ocupam o mesmo lugar no espaço: elas são numericamente diferentes e espacialmente separadas. Como é que você poderia ter a noção de espécies se você não fosse capaz de separar forma e matéria? O que um gato tem em comum com outro gato que faz dele membro da mesma espécie? Certamente não é a matéria que os compõe. Se fosse, não poderia haver dois gatos: os dois teriam de estar no mesmo lugar no espaço e você não conseguiria discerni-los. Para haver dois gatos é necessário haver duas porções de matéria vivente, dois aglomerados diferentes de moléculas de carbono: um que ocupa um lugar e o outro que ocupa outro lugar, mas que têm a mesma forma.

Vamos supor que você tem uma cachorra e a cachorra teve cachorrinhos. Você sabe perfeitamente que os cachorrinhos se formaram a partir do sangue da mãe, então como é que você sabe que eles não são a mãe? É porque eles ocupam diferentes lugares no espaço. Se você disser: " Ah! Mas eles estão dentro da mãe!" Sim, mas essa é uma diferença substancial entre eles e a mãe, porque a mãe não está dentro da mãe. Então, eles não estão no mesmo lugar no espaço: um está fora e o outro está dentro. Eles não estão separados por uma distância, mas estão separados como círculos concêntricos estão separados: um está em volta e o outro está dentro. Então, a distinção de lugar no espaço é inerente à matéria — estou falando de matéria macrocósmica, não de partículas subatômicas; partículas subatômicas colocam certos problemas específicos que nós até poderemos discutir mais tarde. Mas quando falo de matéria no sentido macroscópico, é evidente que só se pode falar que existem duas ou três coisas se elas não estiverem exatamente no mesmo lugar no espaço. Se você tiver mil gatos comprimidos no mesmo lugar, você verá só um gato! Se você vê dois é porque não estão no mesmo lugar. Como você sabe que são gatos e não tartarugas ou tomates? Isto é o que se chama forma: você reconhece a mesma forma. Se você não fosse capaz de separar forma e matéria, você não teria um único nome de espécie; só teria nomes de indivíduos. Cada gato seria uma coisa totalmente diferente, com um nome específico; e você jamais perceberia que dois gatos pertencem à mesma espécie, ainda quando você visse os gatinhos nascendo de dentro da gata! Ou seja: você seria um idiota completo!

A distinção de forma e matéria é uma coisa absolutamente essencial para a inteligência humana. Praticamente tudo que nós podemos descobrir a respeito do que quer que seja depende de que se tenha esta distinção muitíssimo aprimorada.

07

Pergunta de aluno: música como matéria para a filosofia

Síntese do tópico

Um aluno pergunta se o estudo de canto e teoria musical pode contribuir para a filosofia. O professor responde afirmativamente e recomenda Sound and Symbol, de Victor Zuckerkandl. Diferentes gravações de uma canção, ária ou sinfonia permitem perceber a mesma estrutura em execuções distintas. A 5ª Sinfonia de Beethoven exemplifica a diferença entre a obra e os sons de cada execução.

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Por exemplo: quando você ouve duas execuções da mesma composição musical… Um aluno me enviou aqui uma pergunta e vou usar esta carta como mote.

Pergunta de aluno

gosto muito de música, estudei o básico de teoria musical e, apesar de não ter sido agraciado por Deus com uma bela voz, canto no coral da minha igreja. Há muito tempo tenho vontade de fazer canto e me aprimorar na teoria musical, mas me preocupo com o tempo que deixará de ser gasto em outros estudos. Em uma das aulas do curso o senhor disse que precisamos estudar outras áreas do conhecimento para termos material para pensar filosoficamente. Minha dúvida é: será que a música pode ser uma dessas fontes de material ou será apenas um hobby?

Não! Não é apenas um hobby! A música é uma fonte de material absolutamente maravilhosa para a filosofia! Leiam o livro do Victor Zuckerkandl, "Sound and Symbol", e verão que algumas descobertas fundamentais para a filosofia vêm diretamente da música.

Mas, voltando a este nosso exemplo — que é evidentemente grosseiro em relação às coisas que o Zuckerkandl diz no "Sound and Symbol" — como você poderia distinguir duas execuções da mesma música?

A minha mulher sabe que eu tenho esta mania: se eu ouço uma canção, eu gosto de pegar várias gravações da mesma canção, interpretada por inúmeros cantores diferentes. Uma ária de ópera, ou uma sinfonia, regida por vários maestros diferentes, com várias orquestras diferentes. Como é que nós poderíamos perceber esta diferença se nós não pudéssemos distinguir entre a forma e a matéria da música? Entre sua estrutura interna e os sons concretos em que ela se incorpora nesta ou naquela execução? É claro que nós podemos fazer esta distinção. Nós podemos e a fazemos habitualmente. Se nos tornássemos incapazes de fazê-la, nós jamais poderíamos distinguir a execução de uma música, de outra. Nós acharíamos que são duas músicas completamente diferentes! Isto quer dizer que toda vez que um maestro anunciasse que tal dia, num concerto, será tocada a 5ª sinfonia de Beethoven, isso seria uma fraude! Ele não pode tocar a 5ª Sinfonia de Beethoven: só pode tocar outra coisa completamente diferente, e outra, e outra, e outra… A simples ideia de uma história da música se tornaria absolutamente impossível!

08

A forma da teoria e suas diferentes exposições

Síntese do tópico

O professor aplica a distinção à própria teoria: os escritos de Aristóteles e suas exposições posteriores diferem, mas podem comunicar a mesma doutrina. Assim, argumenta que quem discute ou nega a distinção entre forma e matéria já a utiliza ao reconhecer uma teoria em textos diversos. É nesse contexto que introduz a paralaxe cognitiva.

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Quando as pessoas começam a reclamar da teoria aristotélica da forma e matéria, eu digo: a teoria aristotélica da forma e matéria tem uma versão que Aristóteles lhe deu nos escritos de Aristóteles: aquilo que você leu lá tal como ele explicou. Como é que você pode se referir a essa teoria sem ter de repetir de novo todo o texto de Aristóteles? Você consegue reconhecer a mesma teoria em várias exposições dela, tanto que você a está discutindo, e você tem até a sua própria exposição. Como você pode fazer isso sem a distinção de forma e matéria?

Ou seja: quando o sujeito coloca em discussão, ou questiona a distinção de forma e matéria, ele está usando a mesma distinção. Sem ela, ele jamais poderia se referir a uma teoria: ele só poderia se referir a um escrito determinado. Nós somos capazes de distinguir entre o que é a teoria aristotélica da forma e matéria e o que são os escritos históricos nos quais Aristóteles expôs isto. Essa teoria foi exposta muitas vezes por muitos autores diferentes e continua sendo a mesma teoria. Portanto, a teoria da forma e matéria tem também uma forma e uma matéria, e se você não é capaz de discernir isto, não pode discutir a teoria da forma e matéria. Na hora em que a coloca em discussão, você está confirmando a teoria. É incrível como as pessoas não percebem que, na hora em que elas fazem isto, elas estão se colocando num mundo irreal. Aí começa a paralaxe cognitiva! Você não percebe que o fato de estar dizendo determinada coisa, prova que essa coisa é falsa, [0:30] porque se ela fosse verdadeira não poderia ser dita.

09

Paralaxe cognitiva, eternidade e responsabilidade

Síntese do tópico

A paralaxe cognitiva é descrita como a pretensão de observar a totalidade de fora, esquecendo a própria participação. O professor propõe o experimento de confrontar essa atitude com o Juízo Final. Define a filosofia pela unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa e relaciona o reconhecimento dos próprios erros à eternidade. Critica ainda a expressão das ideias como produto de uma época, atribuída a Gramsci.

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Se você disser que a distinção entre forma e matéria é apenas um formalismo lógico, que não tem correspondência na realidade, eu pergunto: você não percebe que está usando esta mesma distinção de forma e matéria para dizer exatamente esta frase que você está dizendo? Em que mundo você está? Você está falando de um mundo de história da carochinha, da qual você é o Deus! Isso é eminentemente psicótico! A paralaxe cognitiva é doença mental: ela consiste em um sujeito conceber um mundo que ele enxerga como totalidade desde fora e desde cima! Ou seja: no instante mesmo em que ele se coloca nessa posição, ele está se tornando totalmente irresponsável pelo que está dizendo, porque não há autoridade acima dele. Se ele enxerga o universo todo desde fora e desde cima, ele é Deus, e acima dele nós não temos a quem recorrer! É claro que isto é doença mental. Isto não é só um erro histórico ou um erro de lógica. Não! Isto é um erro de percepção que, quando se torna habitual, deforma toda a sua vida intelectual, toda a sua vida moral, e transforma você num palhaço! Claro que o último a perceber a sua palhaçada é você mesmo: você acha que está agradando! Pegue essa sua conduta e faça um experimento mental como na geometria descritiva: rebata isso para o plano da eternidade e imagine que você está diante do Juízo Final; diante do Deus verdadeiro — que não é você — e que sabe tudo a seu respeito: aquilo que você sabe e aquilo que você não sabe; e veja como essa sua atitude aparece perante o Juízo Final; e aí você vai ver que você é um palhaço!

A filosofia consiste em muitas coisas. Para resumir as coisas eu digo que ela consiste na unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa, mas dessa mesma definição decorrem muitas exigências metodológicas. A filosofia é você assumir a plena responsabilidade do que está dizendo perante a realidade das coisas, e não só perante o seu mundinho mental. De certo modo, a filosofia é um vexame intelectual perpétuo, porque você estará sempre, de novo, e de novo, e de novo, se submetendo ao vexame de se olhar no espelho da eternidade e dizer: "Epa! errei outra vez! Perdi o senso das proporções!", "estou inventando historinha!" e assim por diante.

Essa confissão do seu fracasso cognitivo é o que dá a você a força, a energia, de você conhecer mais e mais, e mais! É claro que isto não vem do ser humano, não vem de você. Isto vem da própria dimensão da eternidade. Se não existisse a dimensão da eternidade, não haveria uma medida real do ser humano. Todas as medidas seriam absolutamente subjetivas. Tudo aquilo que um sujeito diz vale para o momento em que ele está, para o lugar onde ele está, mas ninguém pode definir que momento é esse. Quando o Antônio Gramsci reduz todo o esforço cognitivo humano à "expressão da época", eu pergunto: Mas quanto tempo dura essa época? Um século, meio século, dois dias, três segundos? Essas palavras "expressão da sua época" são uns flatus vocis: não querem dizer nada! E, no entanto, quando as pessoas leem isso, acham que estão lendo uma coisa muito profunda: "as ideias são expressões da sua época." Experimente medir a época. Uma época é uma fração de tempo. Se a fração de tempo não é mensurável, não há diferença entre um segundo, um século, um milênio ou a eternidade. Se você não tem, portanto, a noção de eternidade — ou seja, da simultaneidade de todos os momentos e de todas as épocas — a palavra época deixa de significar qualquer coisa para você.

10

Aprender com autores sem segui-los como gurus

Síntese do tópico

A lista de meus gurus indica autores com quem o professor aprendeu, não adesão integral a doutrinas. São Tomás de Aquino, Julius Evola e Aristóteles exemplificam a diferença entre aprender e seguir. Ao mencionar L’Enfer, de Monseigneur de Ségur, e os Dez Mandamentos, distingue seguir uma pessoa de reconhecer a realidade criada por Deus. Aprender exige compreender com a própria inteligência.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Para vocês verem como isso é importante, eu queria lembrar para vocês um autor que é como dizer…

Antes, um parêntesis: nem todos os livros que eu considero importantes — por exemplo: na minha página há uma lista daqueles que eu chamo de "meus gurus", que são as pessoas com as quais eu aprendi alguma coisa. Mas tem pessoas que leem livros ou ouvem aulas, não é para aprender alguma coisa, é para seguir. Elas não querem um conhecimento: elas querem uma ordem; elas querem uma instrução: "Faça isto; faça aquilo!" Então, elas acham que eu leio como elas. Se eu digo que um livro foi importante para mim, primeiro: elas acreditam que eu estou recomendando este livro para todo mundo; segundo: acreditam que eu acredito em cada palavra daquele livro; e terceiro: acreditam que eu sigo aquilo como se fossem os Dez Mandamentos. Isso é uma coisa tão infantil, tão idiota; é coisa de analfabeto! Na minha página há os livros de São Tomás de Aquino e os de Julius Evola: como eu poderia seguir os dois ao mesmo tempo? Não dá para fazer isto: é como chupar cana e assobiar! É claro que eu estou apenas dizendo que são livros com os quais eu aprendi alguma coisa de extremamente importante. Se eu coloquei lá uma lista de vários gurus contraditórios, significa que eu não estou "seguindo" nenhum. Eu não estou seguindo nem sequer São Tomás de Aquino. Ele acreditava, por exemplo, que as órbitas planetárias eram estritamente circulares. Eu posso segui-lo nisso? Não posso, por mais que eu adore São Tomás de Aquino — sou louco por ele e morreria por ele — mas eu não posso segui-lo numa coisa dessas. Assim como Aristóteles: todo mundo sabe que eu sou louco por Aristóteles, mas quando ele diz que as mulheres têm mais dentes que os homens eu digo: "Oh professor! não dá! Aí o senhor cochilou!" Mas há pessoas cuja mentalidade é de sectário. Sectário é o seguidor: ele tem que encontrar alguém para seguir; uma autoridade que o mande fazer isso ou aquilo. E quando o sujeito é assim, ele pensa que todo mundo é assim, e que eu também sou assim!

Olha: eu estou aqui há 62 anos nesta porcaria deste planeta, tentando entender alguma coisa. Isto é tudo o que eu quero na minha vida! Seguir? Não dá para seguir ninguém! Dá para seguir a Deus, que é o autor de todas as coisas. Ele é a Verdade última, então é Ele a quem você vai seguir; querendo ou não! Eu já expliquei que os Dez Mandamentos não são coisas que você deve fazer: são coisas que você faz querendo ou não! Amar a Deus sobre todas as coisas. Quando você é condenado para o inferno — há um famoso livro chamado L'Enfer, do Monseigneur de Ségur: é uma obra prima, onde ele conta vários casos de aparições de pessoas que haviam sido condenadas ao inferno e que voltavam para contar aos seus entes queridos como era. Todas elas diziam a mesma coisa: "Eu estou aqui por uma sentença justa." O que o sujeito está fazendo é colocar Deus acima de todas as coisas. Até o Diabo faz isto! Então, não é que você deve amar a Deus acima de todas as coisas: você ama! Querendo ou não! Mesmo quando você O odeia você está, esperneando, confessando o seu amor. O próprio Diabo faz isto; ele não tem como escapar disto. Seguir a Deus é como seguir a realidade mesma; a estrutura da realidade. [0:40] Não é como seguir uma pessoa! Não é seguir São Tomás de Aquino, Julius Evola, Olavo de Carvalho, ou então Orlando Fedelli, ou Rodrigo Constantino. Não é a mesma coisa! Deus não Se coloca neste plano. Deus não é o autor de doutrinas: doutrinas são coisas do ser humano. Deus faz a realidade!

Essa coisa de você procurar um guru para seguir é uma coisa terrível! Isto impede você de aprender qualquer coisa. A minha atitude ao longo dos tempos tem sido exatamente esta: você não tem que me seguir coisa nenhuma! Você pode obedecer algumas instruções práticas que eu lhe dou para você aprender. O que é o aprendizado? Onde vai estar o aprendizado? Se for para você seguir a mim, você não vai aprender nada. Para aprender alguma coisa, você tem que vê-la com os seus próprios olhos; compreendê-la com a sua própria inteligência, e não com a minha.

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Disciplina, conteúdo e argumento de autoridade

Síntese do tópico

Horário de aula, silêncio para escutar e luvas numa academia de boxe são exemplos de exigências disciplinares. O conteúdo do aprendizado exige compreensão, observação e verificação. Elefantes e Napoleão Bonaparte ilustram a distinção entre palavras e seus referentes. O argumento de autoridade, associado a São Tomás, aparece como recurso limitado quando não é possível verificar diretamente.

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Qualquer filósofo, qualquer professor, qualquer formador de opinião que tenha o mais mínimo de honestidade, distingue, no que ele está lhe ensinando, o que é uma exigência disciplinar necessária para o aprendizado e o que é o conteúdo do aprendizado. É exigência disciplinar, por exemplo, o horário marcado para as aulas. Se você não estiver presente ali você não vai assistir a aula. Se a aula é às 5 horas do sábado e você chega às 7 horas da quinta-feira: não há aula! O que isso tem a ver com o conteúdo do que você está ensinando? Nada! É apenas uma exigência disciplinar necessária, sem a qual não há aula. Neste ponto é claro que você tem que obedecer ao professor senão não vai dar! Se ele diz: "Na hora de assistir à aula, você senta aí e escuta o que eu estou falando!", e o sujeito não para de falar enquanto está assistindo à aula, então o professor o manda calar a boca: "Fica quieto e escuta!" Esta é uma exigência disciplinar. Esta você tem de obedecer mesmo, senão não funciona. É como você entrar na academia de boxe, o instrutor o manda colocar a luva e você diz: não! Você não vai aprender boxe coisíssima nenhuma. Esta é a parte disciplinar da coisa.

Agora, com relação ao conteúdo, este não pode ter elemento autoritário nenhum — é zero! — senão não há aprendizado. O aprendizado consiste em você se tornar inteligente o bastante para você entender, não só o que o sujeito está falando, mas o do que ele está falando. Entender a coisa, e não somente as palavras. Na aula eu posso lhe dar as minhas palavras, mas não posso lhe dar as coisas para você observar. Estas você tem de observar por si mesmo. Se eu digo aqui alguma coisa a respeito de um elefante, eu não posso trazê-lo aqui. Se eu digo alguma coisa a respeito de Napoleão Bonaparte, eu não posso trazer Napoleão aqui. No entanto, o que eu estou falando de elefante se refere a elefantes da realidade, não a elefantes do meu discurso. E o que eu estou falando a respeito de Napoleão Bonaparte se refere a um sujeito que existiu historicamente, e não à palavra que eu estou usando para designá-lo. Tudo o que um professor pode fazer é lhe dar as palavras; as coisas você vai ter que buscar por conta própria. Não tem outro jeito!

Se eu tiver muita certeza do que eu estou dizendo, eu posso dizer para você: "vá lá e verifique e você vai ver se eu não tenho razão." Quando eu não tenho certeza, eu digo: "vá lá e verifique: e depois me avise se a coisa é do jeito que eu disse, ou se é de outro jeito." E se se trata de alguma coisa na qual não é possível certeza, eu posso dizer: "Olha, eu acho que é assim, mas eu não tenho certeza nenhuma; é apenas uma opinião e enquanto opinião a minha não vale mais do que a de qualquer outro." É claro que as coisas têm que ser assim — sempre foram! Todo e qualquer ensino é sempre assim!

São Tomás de Aquino sempre dizia que o argumento de autoridade é o mais fraco dos argumentos. Ele é importante, às vezes. Às vezes você tem de apelar à autoridade de quem estudou o assunto e diz: "Olha, neste assunto aqui não existe a certeza, mas as pessoas mais inteligentes, mais sérias, mais devotadas, que estudaram, dizem que deve ser assim; portanto há certa probabilidade de que seja assim mesmo." Não é impossível que todos os sábios errem, mas isso não acontece todo dia, porque senão não seriam sábios, seriam idiotas. Se disserem: "Os sábios sempre erraram!" Mas então, porque você os chama de sábios? Então, eu só apelo ao argumento de autoridade quando não há possibilidade de verificação.

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Verificação pessoal, testemunho e apresentação de Bion

Síntese do tópico

O professor diferencia a verificação científica, dependente de procedimentos coletivos, da certeza pessoal de quem presencia um acontecimento. O exemplo é o testemunho de um homicídio na esquina. Apresenta Wilfred Bion, suas conferências no Brasil e um vídeo no canal WRBion, no qual critica a expressão paciente terminal. Valoriza sua observação clínica e comenta a dificuldade técnica de seus escritos.

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Por outro lado, a ideia de verificação é muito mais complexa do que as pessoas normalmente imaginam. Se você falar de verificação científica — tal como se entende nas ciências naturais — você estará limitando o campo de verificação de uma maneira brutal, porque a verificação científica supõe um consenso em toda uma classe científica. Um sujeito que faça uma verificação em laboratório não provou nada cientificamente enquanto todos os outros não verificarem a mesma coisa. O que nós chamamos de verificação científica é um consenso que envolve um montão de gente; e a possibilidade de que milhares de pessoas vejam exatamente a mesma coisa, do mesmo jeito e ao mesmo tempo é nula. Na maior parte dos casos a verificação não pode ser científica: tem de ser uma verificação direta e pessoal. Por exemplo — eu já dei esse exemplo várias vezes e vou voltar a ele —: você viu um sujeito matar o outro na esquina. Só você viu. Você pode provar isso cientificamente? Não, porque você mesmo é o instrumento da prova.

Com relação aos conhecimentos mais importantes do mundo, nós só temos acesso a este tipo de verificação, onde a certeza direta e inegável é de natureza estritamente individual e intransferível. E se você abdicar disto e disser: eu vou pegar todas as minhas certezas individuais, jogar no lixo, e agora eu só acredito em ciência! Você acabou de virar um psicótico! O psicótico não enxerga o que os seus olhos enxergam: só enxerga o que a comunidade científica mandou acreditar. Ele está totalmente descentrado; está fora de si. É claro que isto é uma doença mental. Quando nós apelamos à autoridade da ciência e pedimos que ela substitua as nossas próprias percepções diretas por alguma coisa que a comunidade científica diz, o sujeito que faz isto está absolutamente louco! Deveria ser internado!

Quando eu digo "deveria ser internado", isto é apenas uma opinião minha? Não! Aqui eu vou apelar para a experiência de uma autoridade. Essa autoridade é um dos maiores psiquiatras e psicanalistas de todos os tempos: um inglês chamado Wilfred Bion. Um sujeito altissimamente respeitado nos meios psicanalíticos, especialmente no Brasil, onde ele esteve várias vezes fazendo conferências — eu sempre achei uma pena que as ideias do Bion não tivessem uma influência cultural mais ampla, como mereciam ter, porque esse foi um dos grandes sábios do século XX. Quando você ouve as conferências do Bion (infelizmente só existe um trechinho de dez minutos do Bion no canal WRBion do YouTube, onde ele critica a expressão 'doente terminal': ele diz que ninguém é terminal, pois se você está tratando do sujeito é porque está supondo que ele vai durar pelo menos mais cinco minutos!) percebe que ele é uma pessoa de uma modéstia muito grande, de uma simplicidade muito grande, muito convincente; mas, escrevendo, ele é muito técnico [0:50] e por isso os escritos dele não tiveram uma influência cultural maior — mas a formação dele foi de psicanalista: começou aprendendo com o Dr. Freud.

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Prazer, realidade e instinto da verdade

Síntese do tópico

Na exposição da aula, Freud distingue o princípio do prazer do princípio da realidade. Ao explicar Bion, o professor acrescenta o instinto da verdade: a disposição de reconhecer uma verdade desagradável sem imposição exterior. A descoberta de uma antiga mentira pessoal e o exemplo do lobo sem carne, obrigado a passar fome ou comer uma banana, distinguem uma capacidade natural de seu exercício efetivo.

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O Dr. Freud dizia que existem dois princípios formadores básicos da psique humana: um que ele chamava de "o princípio do prazer", e outro que ele chamava de "o princípio da realidade". O princípio do prazer, evidentemente, rege todas as nossas iniciativas quando somos pequenininhos. Representa aquilo que é o mundo do desejo: aquilo que vem de dentro de nós e determina a nossa conduta no sentido de buscar uma satisfação. E existe, por outro lado, um princípio de realidade: que é a adaptação do ser humano às exigências do ambiente externo; não só o ambiente físico, mas às realidades do mundo social. Por exemplo: reconhecer que você vai ter que trabalhar e pagar as suas dívidas, certamente não é pelo princípio do prazer que você faz isso. Se fôssemos regidos somente pelo princípio do prazer, nós ficaríamos tão desadaptados do mundo exterior que acabaríamos morrendo. Existe, então, o princípio oposto, que é o princípio de realidade, que me obriga a engolir as imposições do mundo externo que contrariam o meu princípio do prazer. O Dr. Freud dizia que a cura psicanalítica consiste em você ir gradativamente adaptando o seu princípio do prazer ao seu princípio da realidade, até você ir encontrando meios de satisfação que são compatíveis com as exigências do mundo exterior: mundo natural e social.

O Dr. Bion começou praticando isso: inocente e sinceramente seguindo os preceitos do Dr. Freud — no curso da psicanálise, o paciente é obrigado a engolir muitas verdades que ele não quer engolir — só que um dia ele se perguntou: por que eles aceitam isso? É pelo princípio de realidade? Não pode ser, porque essas coisas que o paciente descobre a respeito de si mesmo não lhe são impostas desde fora. Por exemplo: se o sujeito entrou numa conduta mentirosa e falsa anos atrás, e — como diria o Dr. Muller — ele se esqueceu da sua própria mentira e continua agindo como se ela fosse verdade, criando então uma neurose, como é que se vai desfazer essa neurose? Vai-se conversando com o sujeito até ele mesmo perceber como é que a coisa começou. Ora, a origem dessa neurose está colocada há muitos anos atrás; a mentira interior também está colocada há muitos anos atrás. O que, na situação presente, pode forçar o sujeito a recordar aquilo e reconhecer que ele mentiu para si mesmo? Nada pode forçá-lo. Então o Bion descobriu que além dos princípios do prazer e do princípio da realidade, deve haver um princípio superior aos dois, e isto se chama "princípio da verdade" ou "instinto da verdade". (ele usa a palavra drive, que nós podemos traduzir como "impulso" ou "instinto" da verdade.) Esta foi a primeira grande descoberta do Dr. Bion. Ele falou: "Às vezes, o que eu quero mostrar para eles a respeito deles mesmos — que eu estou percebendo, mas eles não estão percebendo, e que eles acabam percebendo — eu não os estou forçando a aceitar isso; não há nada externo forçando. A coisa, por um lado, é uma verdade desagradável e, por outro lado, não é imposta pela realidade exterior. Por que é que o fulano aceita isto? Aceita porque ele tem o 'instinto da verdade'."

Eu acho essa uma das grandes descobertas da psicologia de todos os tempos! Aristóteles dizia que "conhecer a verdade é natural no ser humano". Isto não quer dizer que nós sempre conhecemos a verdade. É a mesma coisa que você dizer que comer carne é natural para os lobos. Isso quer dizer que os lobos sempre comem carne? E se não tiver carne alguma? Ele procura um veado, não tem; procura um coelho, não tem; procura uma galinha, não tem; procura uma ovelha, não tem; procura um cabrito não tem: então hoje eu não como carne; vou dormir com fome! Quando Aristóteles diz que é normal no ser humano conhecer a verdade, o que ele quer dizer? Não que o ser humano sempre conheça a verdade, mas que ele tem um instinto da verdade. A palavra "instinto" não ocorreu a Aristóteles. Ou seja: uma função que é natural, não quer dizer que ela seja sempre cumprida. Ela pode falhar uma infinidade de vezes, como por exemplo, o lobo que não encontrou carne e tem de sofrer a humilhação de comer uma banana.

Conhecer a verdade é natural no ser humano, mas, como toda função natural, ela pode falhar infinitas vezes. Quer dizer: você pode viver contra a sua natureza. É claro que isso vai lhe fazer um mal; mas não vai matar você na primeira. Se você obrigar um lobo a comer só comida vegetal, ele vai passar muito mal, provavelmente vai ficar magro, vai durar menos, mas ele não vai morrer na primeira. Do mesmo modo, quando nós somos privados da verdade, a longo prazo isso nos prejudica. E justamente o que o Bion descobriu é que, do ponto de vista da saúde mental, a privação da verdade é a origem dos grandes danos. E não adianta nada você falar em princípio da realidade, porque ele é apenas uma necessidade exterior. O princípio de realidade por si mesmo não tem poder de persuasão. O fato de que seja necessário fazer alguma coisa, não o convence de que você deveria fazer aquilo. É preciso algo mais! É preciso que esta imposição da realidade exterior seja absorvida, transformada e valorizada interiormente. Ou seja: você precisa ter vontade de fazer aquilo. Esta transfiguração da realidade em vontade não seria possível se não houvesse um terceiro elemento que é independente do princípio do prazer e do princípio da realidade. E é precisamente esse terceiro elemento que o Bion chamava de "princípio da verdade".

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Verdade, generalização e referência ao absoluto

Síntese do tópico

O professor atribui a Bion a necessidade de uma referência ao absoluto eterno e imutável para que a busca da verdade ultrapasse prazer e adaptação. Generalizar exige transcender a situação particular. Menciona neuroses de guerra e pacientes terminais como contextos clínicos. Retoma Aristóteles: a forma da verdade percebida ultrapassa a situação material que a exemplifica.

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Aprofundando um pouco mais as suas investigações, ele viu que o funcionamento do instinto da verdade dependia da referência a um absoluto eterno e imutável, porque se você sai disto, então você cai de novo no jogo do princípio do prazer e princípio da realidade. Por exemplo: se a situação externa lhe impõe determinada coisa, obriga você a reprimir o seu princípio do prazer e adaptar-se a ela? De maneira alguma! Você pode continuar negando a realidade pelo tempo que você queira! Para que o instinto da verdade se sobreponha ao princípio da realidade e ao princípio do prazer é necessário que ele tenha um ponto de apoio fixo, que seja superior tanto às exigências da própria subjetividade, quanto às exigências da situação exterior. Portanto, a verdade não pode ser conhecida, nem por um impulso subjetivo — um impulso da pura subjetividade em busca do prazer; ou seja: não pode ser conhecido na pura clave do prazer e dor — nem pode ser conhecida apenas como uma imposição do mundo externo, porque toda e qualquer verdade que você apreenda sempre transcende a situação concreta que você está vivendo. [1:00] A situação concreta se compõe de situações de fato. Se você só compreende a situação de fato, você não é capaz de generalizar. Para que você generalize, é preciso que você transcenda o estado de fato momentâneo e apreenda aquilo como uma verdade que vai além da situação.

É por isto que Bion disse: existe o instinto da verdade, sem o qual a análise não funcionaria. Nenhum paciente aceitaria nada do que eu estou querendo mostrar para ele; não aceitaria nada a respeito da sua verdade interior. Sobretudo não aceitaria a verdade das suas próprias emoções; não aceitaria a sua própria história; não aceitaria sua verdade interior. Por outro lado, esse instinto da verdade não poderia funcionar jamais, se ele não transcendesse todas as situações de fato impostas pelo princípio da realidade. Então, qual é o resultado final das observações? — isto não é uma teoria: são observações clínicas que ele fez! Ele tratou de casos muito graves: o primeiro trabalho dele foi com neurose de guerra, com soldados, e também com os chamados pacientes terminais, que são pacientes terminais que não terminam nunca, porque se eles terminarem não são mais meus pacientes, e aí está resolvido o problema. Estas são observações clínicas.

Estas observações nos remetem de volta àquilo que dizia Aristóteles: conhecer a verdade é natural no ser humano. Natural como um instinto e uma potência que o ser humano tem. Não natural como um estado de fato do qual você desfruta no primeiro momento. E quando o Dr. Bion dizia que o instinto da verdade só pode funcionar se ele transcender a situação de fato imposta pelo princípio da realidade, note bem que a distinção de forma e matéria está subentendida aí. A forma da verdade percebida se sobrepõe à situação material de fato que a exemplifica. Então temos aí de novo e estamos sempre voltando… voltando… voltando ao bom e velho Aristóteles em todas estas coisas.

15

Três tipos de distinção e exercício consciente

Síntese do tópico

A distinção de forma e matéria deve ser praticada junto com uma distinção entre as próprias distinções. O professor apresenta três modalidades: real-real, entre camelo e elefante; real-formal, entre o elefante e seu tamanho; e formal, entre tamanho e cor. A filosofia aperfeiçoa conscientemente operações que já se realizam de maneira espontânea.

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De tanto ver isto acontecer, de tanto ver que a distinção de forma e matéria está subentendida e está atuante em toda e qualquer descoberta da verdade a respeito do que quer que seja, eu acabei por chegar à conclusão de que isto deveria se incorporar no ensino como uma prática usual, e você se acostumar a fazer esta distinção a respeito de tudo o que você percebe; mas lembrar sempre que essa teoria também nada vale se você não a acoplar com a teoria aristotélica das distinções.

Quando você faz uma distinção você pode estar fazendo várias coisas diferentes. Existem distinções diferentes. É preciso distinguir as distinções. Quando você distingue entre duas coisas separadas — por exemplo — você distingue um camelo de um elefante: esta distinção corresponde à separação real de duas substâncias; de dois entes. Mas quando, por exemplo, você distingue entre o elefante e o tamanho do elefante! O tamanho do elefante não é a mesma coisa: quando ele era pequenininho ele já era um elefante. Você sabe que o elefante não se identifica com o seu tamanho. Primeiro, porque há elefantes de vários tamanhos; segundo, todos os elefantes tiveram vários tamanhos à medida que foram crescendo. A distinção é real. Quer dizer: o elefante não é o tamanho do elefante, mas o elefante não é fisicamente separável do seu tamanho, porque ele sempre tem algum tamanho. O elefante sem tamanho nenhum seria apenas uma ideia de elefante. Por exemplo: a palavra elefante, o conceito de elefante, não tem tamanho nenhum, mas não é um elefante! Então, nesses dois tipos de distinções, não é a mesma coisa o que você está distinguindo. Por um lado você está distinguindo entre coisas e, por outro lado, entre uma coisa e suas qualidades.

Mas você também pode distinguir entre duas qualidades. Por exemplo: o tamanho e a cor do elefante. O elefante sempre tem algum tamanho e ele tem alguma cor. E pior: ele tem as duas ao mesmo tempo! Mas você sabe que elas não são, de maneira alguma, a mesma coisa. Ora, onde está o tamanho do elefante? Está no elefante. Onde está a cor do elefante? Está no próprio elefante. Agora, a cor está no tamanho? O tamanho está na cor? Não! Então você vê que esse é um terceiro tipo de distinção. Os escolásticos deram a esses três tipos de distinção o nome de distinção real-real, real-formal e formal. Primeiro, a distinção é real real, isto é: decididamente um camelo não é um elefante. A segunda distinção distingue entre uma coisa e a sua qualidade; a terceira distingue entre qualidades. Então: distinção real-real, real-formal e distinção formal.

Isto também tem que virar uma prática. É claro: nós fazemos instintivamente estas distinções. De certo modo nascemos sabendo fazer estas distinções. Se nós não tivéssemos o instinto de fazê-las, nós jamais poderíamos apreendê-las. [1:10] Mas, todo o segredo da filosofia consiste em você começar a fazer conscientemente — portanto, mais aprimoradamente, e mais atentamente — as distinções que você já fazia espontaneamente.

16

Pergunta de aluno: linguagem, compreensão e realidade

Síntese do tópico

O professor critica distinções verbais que se afastam da experiência e o ideal de uma linguagem filosófica sem ambiguidades. Um aluno pergunta em que língua compreende frases em inglês. A resposta invoca uma fronteira entre línguas, ilustrada pelo artista sobre dois cavalos. Na crítica a Ferdinand de Saussure e ao desconstrucionismo, o salame da mercearia exemplifica a diferença entre uma coisa e suas relações conceituais.

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Hoje em dia a tendência é o contrário: é você criar distinções e procedimentos mentais que de certo modo vão contra toda a sua espontaneidade. Isto é terrivelmente perigoso e destrutivo! Por exemplo: eu vejo que quase 90% do que eu leio aqui, de publicações técnicas de filosofia, tratam de distinções formais entre palavras e conceitos, mas levada a um tal grau de minúcias que já não tem nenhuma correspondência real com a experiência; já não tem mais importância nenhuma real na experiência; você não tem mais como relacionar uma coisa com outra.

Isto tudo foi inaugurado, evidentemente, com a escola analítica, cujo ideal era uma línguagem filosófica perfeita e sem ambiguidades. Mas para que serve uma línguagem filosófica perfeita e sem ambiguidades? Primeiro: será que nós precisamos disto? Segundo: será que uma línguagem perfeita e sem ambiguidades corresponderia a um conhecimento perfeito e sem ambiguidades?

Por exemplo: aqui alguém me escreve:

Pergunta de aluno

quando eu estava nos Estados Unidos estudando inglês, ao ler frases simples ou conversando com alguém em inglês, eu conseguia entender as frases instantaneamente; inclusive algumas nuanças em piadas etc. A questão que me surgiu foi a seguinte: eu estava entendendo aquilo em inglês ou em português?

Nem em uma e nem em outra, evidentemente! Você estava entendendo uma fronteira entre duas línguas que não pertence nem a uma e nem à outra. Quer dizer: as relações semânticas entre português e inglês não fazem parte nem da gramática portuguesa, nem da gramática inglesa. São coisas que você percebeu, de certo modo, como o sujeito que está montado em dois cavalos ao mesmo tempo. Está com um pé num cavalo e o outro pé no outro cavalo, como no circo. Ele não está montado em nenhum cavalo e está nos dois ao mesmo tempo. Se não fosse possível fazer isto, o nosso pensamento estaria de tal modo amarrado à línguagem que nós nunca conseguiríamos distinguir entre palavras e coisas.

Veja que a tentativa de você estudar — por exemplo — a língua como um sistema de signos, que é independente do conhecimento da realidade, leva, evidentemente, a uma psicose. E leva àquele famoso negócio do Ferdinand de Saussure de que o sentido de uma palavra é apenas a diferença entre ela e todas as outras. Eu digo: pode ser que funcione assim no sistema linguístico considerado em si mesmo e fora de sua conexão com a realidade. Ou seja: você está falando de uma língua que ninguém fala! Porque no uso efetivo da línguagem, cada palavra que você fala se refere a algo da realidade, a não ser que seja uma discussão maluca. Por exemplo: se eu entro na mercearia e peço um salame. Entre as inúmeras coisas que tem lá dentro — tem o salame, tem o queijo, tem o bacalhau, tem azeitona — quando eu peço um salame eu quero o salame e não apenas a diferença entre o salame e todos os outros objetos. Se o sujeito somar todas as diferenças entre o bacalhau, a azeitona, o queijo etc. ele obterá um conceito, e não um salame efetivo. Um salame ocupa um lugar no espaço e ele é absolutamente indiferente, absolutamente independente, das diferenças entre ele e um bacalhau. Você pode comer a diferença? Não!

Isto significa que se a línguagem for considerada como um sistema, ela deixa de ser línguagem imediatamente! Ela se torna um jogo que só existe para os linguistas. E daí se seguirão inumeráveis consequências que vão terminar no tal do desconstrucionismo. E tudo isto é uma gigantesca perda de tempo; uma gigantesca parasitagem da inteligência humana. Isto é uma espécie de AIDS mental. É um vírus de computador que entra na sua cabeça tornando o seu pensamento cada vez mais complicado, mais pedante e mais burro. Estas coisas nós temos de evitar de qualquer maneira!

17

Kipling, seis perguntas e o sétimo eixo

Síntese do tópico

O professor cita, em inglês e em tradução, os versos de Rudyard Kipling sobre seis servidores: o quê, por quê, quando, como, onde e quem. Relaciona-os às perguntas do jornalismo. Na passagem atribuída a Bion, os sete pilares incluem um eixo não enumerado: o instinto da verdade, que permite reconhecer também os fatos da própria existência.

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Antes de entrar nas perguntas, mas de certo modo já respondendo a algumas delas, eu queria lembrar mais algumas coisas.

Existe um trecho do Bion em que ele diz: os sete pilares da sabedoria são: e aí ele cita um versinho do Rudyard Kipling. [1:15] O versinho começa assim:

I keep six honest serving-men (They taught me all I knew); Their names are What and Why and When And How and Where and Who.

Quer dizer:

Eu tenho seis honestos servidores

Que me ensinaram tudo o que eu sei;

Os nomes deles são O QUE, POR QUE, QUANDO,

COMO, ONDE e QUEM.

Estas seis palavrinhas se tornaram depois consagradas como as regras básicas do jornalismo: uma boa reportagem tem que dizer para você o que, quem, quando, onde, como e por que. (É a regra mais infringida do jornalismo! Pelo menos uma delas tem que ser escondida!)

Mas o curioso é por que o Bion disse sete pilares da sabedoria, se ele só cita seis? Este sétimo, que está ausente, é o eixo ao redor do qual tudo gira. E é justamente ali que o Bion vai colocar o instinto da verdade. Tem algo em você que é capaz de reconhecer o que, quem, quando, onde, como e por que, a respeito não só das coisas externas, mas daquilo que você mesmo fez, daquilo que você vivenciou, ou seja, a sua realidade existencial, por assim dizer.

18

Pergunta de aluno: Naná e a compreensão de situações humanas

Síntese do tópico

Um aluno relata a dificuldade de amigas em aceitar Naná, de Émile Zola, como referência para compreender o pai viúvo envolvido com uma mulher que o espoliava. Menciona uma divindade babilônica, sem identificá-la. O professor responde que o próprio Zola reconheceu uma referência mitológica antiga numa situação contemporânea e relaciona essa compreensão aos arquétipos.

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Pergunta de aluno

Se entendi bem o que o senhor falou sobre estar alguém fora da história, queria lhe expor brevemente uma situação para ver se cabe no contexto. Umas amigas minhas vivem a angústia de ver seu velho pai viúvo estar caído e babando por uma mulher que o vem, gostosamente, espoliando. Manifestaram, as amigas, o desejo de entender a situação. Enquanto conversávamos, aconselhei-as a ler Naná, de Emile Zola, romance no qual, como o senhor sabe, há uma corista sedutora e tirânica que atrai os homens e lhes devora a fortuna e a vida no final das contas. Comentei ainda algo a respeito da insaciável divindade babilônica em que Zola se inspirou. Elas receberam com ceticismo a minha sugestão de que uma chave explicativa para o caso poderia ser encontrada aí. Por sua resposta entendi que lhes parecia pouco crível que uma coisa tão antiga pudesse explicar algo que ocorre agora, e isto porque não são analfabetas. Com paciência lhes aconselhei que, se achassem melhor, que se instruíssem com uma psicóloga.

Resposta do professor

Mas a coisa já era antiga para Emile Zola. Foi porque ele conseguiu reconhecer, numa situação usual do mundo contemporâneo, uma referência mitológica embutida, de milênios antes, é que ele conseguiu escrever o romance. Toda a compreensão de situações humanas se reporta a esses arquétipos.

19

Jung, antecipações e capacidade divinatória

Síntese do tópico

A partir de uma entrevista de Carl Gustav Jung, o professor aborda relatos de sonhos premonitórios e experiências que, segundo sua exposição, transcendem espaço e tempo. Recorda uma observação do Dr. Müller sobre a adivinhação e a vincula às antecipações necessárias para orientar-se nas situações. Emprega a expressão despersonalização epilética ao tratar da perda dessa orientação.

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Por falar em arquétipo, lembrei-me de algo mais que queria lhes dizer: esses dias eu vi no YouTube uma entrevista do Carl Gustav Jung, na qual ele usava mais ou menos o mesmo método do Bion, neste sentido de simplesmente relatar a sua observação clínica sem tirar necessariamente consequências de valor filosófico. Mas uma dessas observações — que acabou depois se tornando muito importante para toda a continuação da carreira do Jung — foi a de que a mente humana é capaz de explorações que transcendem espaço e tempo. Por exemplo, quando as pessoas têm sonhos premonitórios! Como é que o sujeito pode sonhar hoje uma coisa que vai acontecer amanhã, ou no mês que vem? E ele diz, com muita razão: "Só os ignorantes negam esses fatos". Quer dizer: a experiência clínica mostra que isto é uma coisa [01:20] comum e corrente.

O Dr. Müller costumava dizer o seguinte: uma das funções principais da mente humana é a adivinhação. Se você perde a capacidade divinatória, praticamente todas as situações para você tornam-se incompreensíveis. Aliás, eu me reportei a isto — não com esta referência específica, mas de modo mais genérico — aulas atrás, quando eu falava das antecipações: aquilo que você antecipa nas situações. Se você perde a capacidade de antecipar, você já está com um quadro psicótico chamado "despersonalização epilética": você perde a orientação no mundo social.

20

Kant, Swedenborg e os limites da experiência

Síntese do tópico

O professor examina Sonhos de um Visionário, de Immanuel Kant, em relação a Emanuel Swedenborg e O céu e o inferno. Relata episódios da trajetória de Swedenborg e critica a restrição da experiência ao espaço e ao tempo. Evoca a imagem do peixe na água e aproxima as observações atribuídas a Jung do referencial absoluto mencionado na exposição de Bion.

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Ouvindo isto, eu me lembrei do livro do Immanuel Kant: "Sonhos de um Visionário". (Eu acho esta uma obra extremamente importante do Immanuel Kant, a que as pessoas não prestam a suficiente atenção. A prova de que não prestam a suficiente atenção é a de como é difícil encontrar esse livro. Aqui, eu só acabei achando numa edição fac-símile.) Então, os estudiosos do Kant, às vezes, não prestam muita atenção. Não os grandes estudiosos: não estou falando de um Roger Danneau, de um Cassirer, camaradas desse tipo. Estou falando de um estudioso vulgar, que não presta atenção nesse livro. Mas eu acho que ali está todo o segredo da obra do Kant.

Ele tinha lido Emmanuel Swedenborg — que era o grande visionário sueco — e ficou louco da vida com aquilo! Então, foi a partir dali que ele cria a sua noção restritiva do que é a experiência humana. Experiência para ele é o que está dentro do espaço e tempo. Ora, essa doutrina kantiana é desmentida por toda observação clínica, acho que de todos os psicólogos do mundo. E eu acho que a substância da ignorância e da estupidez kantiana está toda colocada nesse livro. Tudo o que ele escreveu depois, eu acho que foi para provar que ele tinha razão contra o Emanuel Swedenborg.

O Emanuel Swedenborg disse que teve visões do céu e do inferno — pode ser que tenha tido, pode ser que não. (Eu não sou um grande conhecedor do Swedenborg. Eu li alguma coisa dele muitos anos atrás e me impressionou muito, mas mais pela carreira do sujeito do que pelo conteúdo das visões. O Swedenborg teve uma vida absolutamente extraordinária! Primeiro, ele virou um grande escritor; poeta; o maior poeta da Suécia! Depois, aos 25 anos, ele largou tudo e foi se dedicar às ciências e à engenharia, e fez coisas tão extraordinárias! Uma das coisas extraordinárias que ele fez foi criar uma ferrovia que transportou toda a marinha sueca de um mar para outro, por terra. Depois, quando tinha 50 anos, falou: "Não! Desisti! Tudo isto é bobagem! Agora vou fazer outras coisas." E começou nesse negócio de religião, mística, essa coisa toda, e escreveu o livro "O céu e o inferno", que foi justamente o livro que tanto impressionou mal o Kant.)

Então, o Kant escreveu esse livro praticamente proibindo as pessoas de perceber qualquer coisa para além do espaço e do tempo. Quando o fato é que se não percebêssemos nada além de espaço e tempo, não perceberíamos sequer espaço e tempo. Estaríamos imersos em espaço e tempo como um peixe está imerso na água, e não poderíamos jamais nos sobrepor a isto. Ou poderíamos fazê-lo só por meio de uma abstração intelectual, que não teria para nós nenhum significado existencial real; quer dizer: seria um flatus vocis também! A noção de eternidade nada significaria para nós. A noção de infinito também não. Claro que nós não podemos captar o infinito, mas nós podemos transcender espaço e tempo e quantidade, por momentos e sob certos aspectos, e por isso nós sabemos que existe um "para lá".

Essa observação do Jung vem por uma coincidência: foi uma coincidência ver isto justamente nesta semana! Também vi aquele vídeo do Bion e me lembrei daquelas conferências memoráveis que ele fez no Brasil nos anos 70 — que já tinham me impressionado tanto, na época — e eu vi que uma coisa contribuía enormemente para a outra. Se não fosse possível aquilo que o Jung observou nos pacientes dele, ou seja: sonhos premonitórios e experiências que, de algum modo, transcendem a experiência espaço-tempo, não seria possível existir o instinto da verdade, porque você não teria o referencial do absoluto e infinito, a que se refere o Bion.

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Narrativa, lógica, fatos e testemunho

Síntese do tópico

A mente teórica deve respeitar capacidades que a psique já exerce. O professor distingue lógica, entendida como estrutura do possível, e narrativa, que permite retornar à experiência. Reafirma o valor de fatos primários e do testemunho, contrapondo-os a construções teóricas. Cita a frase contra fatos não há argumentos, atribuída a São Tomás, e apresenta sua crítica ao discurso sobre aquecimento global.

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Isso quer dizer que há muitos assuntos, que na esfera das discussões filosóficas e teóricas podem virar um bicho de sete cabeças, que não se consegue resolver de maneira alguma, mas que, espontaneamente, a psique já resolve na prática. E daí eu sempre me lembro — alguém me ensinou isso, não lembro quem foi — que na prática tudo é mais fácil do que na teoria. Evidente: há coisas que nós sabemos fazer, mas nós não sabemos o como! Isto quer dizer que, se a nossa mente teorizante — a nossa mente filosófica — não trata com infinito respeito essas habilidades que a psique já tem por si mesma, o que ela vai fazer? Ela vai inventar outra psique, construída à imagem e semelhança da mente teorética — da mente lógico-construtiva — e vai passar a acreditar que esta é a mente verdadeira, em vez de o sujeito observar como a sua mente real funciona.

E aí você vai acabar pensando como Ferdinand de Saussure, que em vez de pedir um salame ou um bacalhau, ele pede a diferença entre um salame e um bacalhau e todas as outras coisas. E aí você está muito louco!

Eu não creio que o estudo da filosofia possa ser realmente separado duma espécie de prática psicoterapêutica. A atividade filosófica é tremendamente arriscada para o ser humano, porque a mente construtiva é tremendamente ambiciosa: ela gosta de construir um universo inteiro e depois observá-lo de cima e de fora. Tudo o que sua mente construtiva criou foi você quem criou, foi você quem inventou. É um mundo inventado. E, quanto maior forem as suas habilidades puramente lógicas, mais você vai fugir da realidade. O sujeito que acha que a lógica ensina a pensar corretamente está completamente fora da realidade. O que ensina a pensar corretamente é contar a realidade; narrar a realidade. A lógica é uma operação de segundo grau que só tem alguma validade quando baseada nisto. Lógica não tem relação alguma com a realidade. Lógica é apenas a estrutura do possível. Isto quer dizer que o que quer que você pense por lógica é apenas possível. Como se dá o retorno à experiência? Dá-se através da narrativa.

E daí eu vi o que estavam fazendo esses dois grandes psicólogos (Eu não levo muito a sério o Jung como teórico, mas como clínico: ele era sem dúvida grande nas experiências clínicas! As experiências clínicas dele são absolutamente fantásticas!). O que esses dois grandes psicólogos fizeram? Eles não criaram uma teoria para contestar outras teorias! Eles não estão contestando Kant, filosoficamente. Eles estão provando o movimento, andando! É como se dissessem: "Você diz que a experiência é aquilo que está dentro do espaço e do tempo, mas nós temos experiências que transcendem o espaço e o tempo." Como é que eu sei? Eu sei porque eu tive, e porque eu vi outras pessoas terem! Então o que vale a sua teoria? Não vale nada! Você tem uma teoria, mas nós estamos contando um fato. Esse fato, por si, ainda que somado em grande número, não tem o vigor argumentativo de uma teoria, mas ele vale mais do que a teoria.

Nesta altura, talvez nós não possamos provar filosoficamente o que estão dizendo Bion e Jung, mas nós sabemos que eles têm razão. Nós sabemos por quê? Porque essas coisas já aconteceram a nós. [01:30] E se não aconteceram a nós, nós vimos acontecer a outras pessoas. Os fatos são absolutamente soberanos. São Tomás de Aquino ensinava assim: "contra fatos não há argumentos". Esta é uma frase de São Tomás de Aquino. Aconteceu: então não adianta você fazer uma teoria de que não acontece.

Agora, o que eu estou dizendo aqui — "contra fatos não há argumentos" — pode parecer, por sua vez, um argumento em favor da observação científica e contra o exercício da crítica filosófica, mas não é isso o que eu estou falando. Fatos científicos são fatos que foram depurados através de toda uma metodologia que se baseia numa fileira quase interminável de pressupostos metodológicos. Não é destes fatos que estou falando.

Eu estou falando de fatos primários, acessíveis à sua observação direta. Fatos contra os quais nenhuma ciência ou filosofia pode alegar nada. Volto à questão do testemunho: toda ciência, em última instância, é baseada em testemunho. Então, não há uma ciência que possa, por si, invalidar todos os testemunhos e se sobrepor a eles. A tendência de criar uma ciência assim é o que permite inventar essas empulhações, como aquecimento global. E aí o negócio vai parar longe! Ou seja: a línguagem — e, sobretudo, a línguagem lógica — são instrumentos temíveis dos quais o ser humano é dotado. São esses instrumentos que permitem inventar mundos e submundos intermináveis, e acreditar neles mais do que na realidade.

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Kafka e a autonomia do símbolo literário

Síntese do tópico

Ao discutir O Processo, de Franz Kafka, o professor contrasta a inspiração que atribui ao caso de Otto Gross com a capacidade do romance de representar os processos de Moscou. Menciona Bertold Brecht, Roman Polanski, André Gide e Si le grain ne meurt. O eixo do argumento é que uma obra pode produzir um símbolo válido para situações diferentes daquela que a inspirou.

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Quando você faz isto, como artista, não há um grande problema, porque o seu equívoco pode ser interpretado analogicamente de outra maneira. Por exemplo: o caso do Franz Kafka, no livro "O Processo". Quando nós lemos o livro do Franz Kafka, "O Processo", a imagem que nos ocorre, imediatamente, é a dos famosos processos de Moscou, onde pessoas inocentes eram tão pressionadas que acabavam confessando o crime que não tinham cometido. Quer dizer: a norma processual se sobrepôs de tal maneira à verdade dos fatos que a própria lógica do processo cria o crime, põe o crime na sua boca e você o confessa. E, no entanto, no que Kafka se inspirou para escrever essa história? Ele se inspirou num caso onde não houve injustiça alguma: que foi o caso de um processo movido contra um amigo dele que se chamava Otto Gross. Otto Gross era um psiquiatra pedófilo; um monstro! E o cara foi acusado do que fez e preso por causa do que fez. Agora, como era um sujeito de talento, pessoa talentosa, tem direitos excepcionais! Então, o Kafka fez aquilo tudo como uma imagem da justiça burguesa da Áustria, que tinha injustamente punido um gênio. Como se um gênio tivesse direito de ser pedófilo! Está aí o Roman Polanski!

A inspiração do Kafka foi totalmente perversa, mas o símbolo que ele produziu serve para designar — não aquele fato a que ele se referiu —, mas outros fatos completamente diferentes que justamente encontra o objetivo ideológico que ele tenta descrever. Por causa desse livro, "O Processo", Bertold Brecht — que era um bom safado — disse que o Kafka era o único romancista verdadeiramente bolchevique, porque tinha feito o processo da justiça burguesa. Mas o que ele disse não reflete a justiça burguesa, e muito menos a justiça burguesa deste caso, mas justamente a justiça que vocês criaram: que é a justiça que inventa o crime, gruda-o num suspeito qualquer, que já está condenado de antemão! O que não foi o caso de Otto Gross. Ali era pedofilia mesmo! E, não é preciso dizer que Otto Gross tem uma multidão de admiradores; assim como o Polanski tem uma multidão de admiradores; e que qualquer pedófilo que tenha um pouquinho de originalidade, as pessoas acham lindo e maravilhoso! André Gide era um! André Gide ia para a Argélia para comer os menininhos. No famoso "Si le grain ne meurt" — "Se o grão não morre" —, livro de memórias, ele conta isso como se fosse uma coisa assim de nada! As pessoas naturalmente acham lindo! E, baseados nesses exemplos, nós podemos prever que a partir do momento em que a experiência efetiva e direta da realidade começa a ser preterida em função de teorias científicas, em seguida ela pode ser preterida em função de meras modas intelectuais, deixando prever que a pedofilia será legalizada e até obrigatória dentro de alguns anos. É claro que quando chega nesse ponto as pessoas perderam totalmente a noção de senso da realidade. O famoso instinto da verdade definhou!

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Extensão analógica e consequências das ideias

Síntese do tópico

O professor apresenta seus juízos sobre o conceito de casamento, a Reforma e o emprego de analogias como identidades. Cita As ideias têm consequências, de Richard Weaver, e a história de um personagem de filme de Clint Eastwood que se joga num cacto. Retoma Lutero e menciona Emir Sader ao criticar usos que considera abusivos das palavras.

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Mas, a perspectiva que eu vejo, por exemplo, em inúmeras pessoas de religião evangélica, protestante, chocadas com essas coisas que acontecem: chocadas com "same-sex marriage", e essas coisa. Elas ficam chocadas que as pessoas apliquem o nome de "casamento" a isto. O casamento é um sacramento da Igreja. Se você fala em casamento do mesmo sexo, você está fazendo um contrassenso, um oximoro. É como falar de um quadrado redondo ou água seca, e assim por diante. No entanto, se você estudar a história direitinho, você vai ver que os primeiros a estender analogicamente o conceito de casamento foram os protestantes. Por quê? Porque na época da Reforma havia uma infinidade de padres que tinham concubinas: alguns tinham três, quatro, ou cinco; e aquilo era tido como uma imoralidade. E os camaradas que praticavam isso sabiam que estavam vivendo em pecado, e eles tinham lá os seus problemas e se acertavam com Deus do jeito deles. O que fizeram os protestantes? Exigiram que estas coisas fossem reconhecidas como casamento. Então, deram um significado analógico estendido à palavra casamento, ou seja, esculhambaram com a noção de casamento. Agora, quando eles veem o pessoal gay fazer a mesma coisa, eles ficam escandalizados. Aí eu digo: "Ah, meu filho, quem começou com essa coisa foi você! Você chamou concubinato sacerdotal de casamento, meu filho!". Agora, se o sujeito, amanhã ou depois, quiser casar com um hipopótamo e chamar isso de casamento, você não pode reclamar muito. Foram vocês que inventaram essa coisa!

Tudo no mundo tem consequências! É o negócio do Richard Weaver: "As ideias têm consequências". É como na história do filme do Clint Eastwood em que o sujeito se jogou num cacto: daí estavam os amigos lá tirando os espetos e perguntaram para ele: "Porque você fez isso?", e ele disse: "É, na hora me pareceu uma boa ideia!".

Tem muita coisa que na hora parece uma boa ideia, mas, a longo prazo, o sentido do que você quis fazer se vira contra você. Esses oportunismos que aparecem em movimentos políticos, religiosos, ideológicos, proclamando mutações da natureza das coisas e legitimando o que é errado, acabam, às vezes, sendo usados mais tarde para outras finalidades que vão muito além do que se poderia prever.

Claro que, na época, se você chegasse para o Lutero e falasse: "Você está esticando a noção de casamento, e depois vai ter uns caras que vão esticar isto para justificar que eles podem casar com outro homem, ou três homens, ou com uma vaca". Vão usar a mesma palavra "casamento" porque estão usando no sentido não estrito, mas no sentido analógico. E estão tomando o analógico como se fosse lógico. E este é sempre o truque! Tem pessoas que tudo o que escrevem e falam na vida, tudo, praticamente tudo, é só isto! O sujeito pega uma analogia e transforma numa identidade lógica. Obras completas do Dr. Emir Sader! Todo argumento que o Dr. Emir Sader usa é abuso do sentido de uma palavra para fazer uma analogia parecer uma identidade. [1:40]

24

Logica brasiliensis, conjecturas e discussão pública

Síntese do tópico

A expressão logica brasiliensis designa, na aula, erros recorrentes: transformar analogia em identidade e usar conjecturas para invalidar fatos. O professor compara debates no Brasil e nos Estados Unidos e desenvolve exemplos sobre nome social, personagens históricos e objetos imaginados. Também comenta a controvérsia sobre casamento no Maine, como parte de sua crítica à discussão do que considera indiscutível.

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Eu falei, outro dia, num artigo, da logica brasiliensis: existem vários princípios da logica brasiliensis. Um deles é este: uma analogia é uma identidade! Outro princípio é: uma conjetura invalida um fato. Você cita um fato, mas o fato não convence muito, então o sujeito diz: "E se…" Pronto! O "e se…" fica valendo mais do que o fato! Existem vários princípios! Como em toda psicose, existe um sistema lógico organizado. A psicose é um sistema lógico feito para você se enganar sempre.

Eu acho — depois de ter observado durante mais de vinte anos esses modos de argumentação que são comuns e correntes no Brasil — que é possível sistematizá-los e fazer um Tratado da Lógica Psicótica Brasileira. Só funciona no Brasil!

Aqui [nos Estados Unidos], se o sujeito quer enganar as pessoas, ele tem que enganar falsificando os fatos, porque a lógica ele não consegue falsificar. Aqui, a molecada é treinada em debates desde a escola; eles estão muito afiados nestas coisas. Você não os engana facilmente. Se você quiser enganar os americanos, vai ter que comprar a mídia inteira para que ela não noticie o fato, ou noticie trocado para dar às pessoas a premissa errada. Porque eles só vão tirar a conclusão errada se eles tiverem a premissa errada. Pensar, eles sabem! No Brasil, não precisa: você dá a premissa certa e coloca uma conjetura, que o sujeito segue a conjetura. Eu não estou brincando! Parece piada, mas não é! A piada virou realidade no Brasil!

Agora as Secretarias de Educação estão recomendando que, se houver um aluno traveco, ele deve ser chamado pelo seu nome social. Eu digo: muito bem! Nós sabemos que o fato do sujeito imaginar que é mulher, ou querer ser mulher, não o transforma em mulher. Mesmo que ele faça uma cirurgia de mudança de sexo, isso não vai transformá-lo em mulher, no sentido anato-fisiológico pleno: ele vai ser uma coisa que se parece. É uma coisa que está na imaginação do sujeito. É claro que a imaginação tem um poder imenso: se o sujeito começa a imaginar que ele é um tomate, por exemplo, vai ser difícil convencê-lo de que não é. Agora, por que esta fantasia de sexo deve ter um poder autoritativo maior do que qualquer outra fantasia? Por exemplo: se eu fantasio que eu sou Napoleão Bonaparte, ou Júlio César, eu tenho que ser chamado pelo meu nome social de Júlio César, ou Napoleão Bonaparte? Por que só a fantasia sexual? Por que não qualquer outra? Por exemplo, eu me convenci de que sou uma jaca: agora você tem de me chamar de "jaca", senão você vai estar me insultando, violando a minha identidade!

É claro que quando um assunto desses chega ao ponto de ser objeto de discussão pública é porque todo o instinto da verdade já acabou. Nós estamos no pleno reino da fantasia! E o resultado da discussão, pensando bem, pouco importa. " Ah! Aqui no Estado do Maine, conseguimos vencer o casamento gay." Mas isto é uma vergonha, meu filho! O problema não é você vencer o casamento gay! O problema é que tenha sido preciso fazer isso! Imagine quanta estupidez o cérebro humano é capaz de inventar só para tomar o seu tempo, e você ainda vai ser obrigado a discutir cada uma delas, juntar dinheiro para fazer uma campanha e eleger um candidato… Mesmo que todas essas propostas fracassem, elas já terão esgotado você até o fim, terão habituado você a discutir o indiscutível, terão estupidificado você até o último!

25

Condições e limites da discussão

Síntese do tópico

Com referência aos Tópicos, de Aristóteles, o professor afirma que a discussão exige compreensão comum do problema e dos princípios de argumentação. Alega distinguir debate, ensino e demonstração de erros. Menciona Charcot, Emir Sader, Rodrigo Constantino e O Imbecil Coletivo, explicando como entende seus próprios escritos polêmicos.

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É aí também que nós vemos que o preceito das discussões democráticas falha miseravelmente, por ignorar aquela advertência de Aristóteles — o primeiro grande codificador da arte da discussão, no livro dos Tópicos — de que não se pode discutir com quem ignora os princípios da argumentação. Se o sujeito ignora os princípios da argumentação, você não pode discutir com ele; você pode fazer duas coisas com ele: (a) tentar ensinar alguma coisa para ele; ou (b) se ele não for ensinável, você pode usar aquele sujeito como o Dr. Charcot usava as histéricas: para mostrar à plateia como elas eram malucas. Ele dizia: eu vou falar uma palavra e esta mulher vai ficar paralisada imediatamente. Eu digo para ela: você não pode andar mais. Pronto! Ela para na cadeira! Vocês estão vendo como é doida? Então, você pode usar essas pessoas de duas maneiras: se você vê que ainda tem uma chance de recuperar, você pode tentar ensinar; se não, você pode usá-las como mostruário. Eu, praticamente, em todos os casos — eu nunca acreditei que eu pudesse ensinar alguma coisa ao Dr. Emir Sader ou ao Rodrigo Constantino — só fiz o que o Dr. Charcot fez: estão vendo como eles são malucos?

Há anos eu estou coletando esse mostruário da logica brasiliensis e o pessoal imagina que estou discutindo com eles. Mas eu não posso discutir com eles; isso é impossível! Não dá realmente para discutir: a discussão pressupõe um objeto, uma questão clara que seja compreendida igualmente pelas duas partes e onde haja duas respostas divergentes. Se o sujeito não compreendeu nada da questão e, mais ainda, se o que ele está dizendo expressa apenas uma deficiência de percepção dele, não há discussão. Pode haver ensino, psicoterapia ou, ao contrário, uma exemplificação de uma doença mental. Praticamente tudo o que eu escrevi n'O Imbecil Coletivo e em artigos similares é um mostruário de loucuras. Não há discussão alguma. Neste sentido, até o Dr. Emir Sader tem razão ao dizer que jamais discutiu comigo. Quer dizer: ele discutiu comigo, eu é que não discuti com ele. Eu apenas mostrei como ele é maluco.

26

Talento, presença real e consequências das ações

Síntese do tópico

O talento para uma questão acadêmica não basta, segundo a aula, para compreender a realidade. A formação exige consciência da presença no mundo, responsabilidade pelo que se diz também na vida doméstica e observação das consequências das ações. O instinto da verdade deve orientar a imaginação e a lógica, cujos mecanismos podem funcionar independentemente dessa orientação.

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Vocês estão num meio social muito mais baixo, estúpido e mesquinho do que vocês mesmos imaginam. A quantidade de gente burra que está nos altos postos no Brasil é uma coisa monumental! E mesmo quando você vê pessoas que demonstram alguma capacidade… Por exemplo: de vez em quando eu leio alguma tese universitária brasileira — eu sempre acompanho o que está se fazendo em filosofia no Brasil, até onde é possível, através de publicações das universidades — e às vezes eu vejo uma pessoa de talento. Bom, você ter o talento para tratar de uma determinada questão filosófica, em nível acadêmico, não significa sequer que você é inteligente; muito menos, significa que você está habilitado a tratar da realidade no que quer que seja. Isto demanda muito mais do que talento. Isto demanda anos e anos de uma consciência de sua presença real no mundo, e responsabilidade pelo que você fala. Não é pelo que você fala em classe; é pelo que você fala na sua casa, para a sua mulher, para o seu filho; é você observar a consequência de suas ações ao longo de muito tempo.

Tudo isto é para nós conseguirmos fazer com que o nosso instinto da verdade se sobreponha aos instrumentos que a mente tem para pensar; sobreponha-se à imaginação, à lógica e assim por diante. Mas, em geral, esses instrumentos têm uma dinâmica própria. A imaginação, por exemplo, imagina as coisas sozinha; não é preciso você forçar a imaginação: enquanto você dorme, ela está imaginando coisas! A lógica também: é mais ou menos um processo mecanístico, que se repete. Em geral, essas dinâmicas da mente humana têm mais poder sobre o indivíduo do que o seu instinto da verdade. Principalmente quando esses mecanismos são alimentados e sustentados pela educação, ao passo que o instinto da verdade não é. [1:50]

27

Sinceridade, confissão e narrativa de si

Síntese do tópico

A psicoterapia e a confissão são apresentadas como situações que exigem narrar a própria história com sinceridade. O professor diferencia o resumo feito ao sacerdote da intencionalidade dirigida a Deus. Comenta uma discussão entre Caio Fábio e Silas Malafaia, menciona as Farcs e critica a condenação dos outros. Defende reconhecer a banalidade do próprio pecado, sem exagerá-lo nem escondê-lo.

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Onde você vê — em alguma universidade — ser ensinado o instinto da verdade para as pessoas? Não tem! Elas vão ter experiência disto, por exemplo, na psicoterapia: onde se você não aprender a ser sincero consigo mesmo, você não vai se curar! Você tem aí, então, uma espécie de experiência limite. Ah, estou fazendo psicanálise há 32 anos e estou tão ruim quanto antes! Bom, o jogo inteiro depende de você ser capaz de contar a sua história como ela realmente aconteceu; se você não faz isso, dançou! Mas nós sabemos como isso é difícil! É difícil contar a sua história como ela realmente aconteceu. Muito bem, mas você sabe quantas pessoas confessam e comungam na Igreja? São milhões! E de que vale essa confissão? Se você não é capaz de confessar para você mesmo, como é que vai ser capaz de confessar para Deus? Nós sabemos que a confissão verdadeira feita num confessionário para um padre é apenas um resumo da confissão verdadeira feita a Deus. Daquilo que você fala para o sacerdote existe toda uma intencionalidade interior que você não seria capaz de verbalizar, mas que você supõe — e supõe corretamente — que Deus está percebendo. Eu não consegui explicar tudo para o padre, até porque a própria Igreja manda não ser detalhado, mas sintético. Então, eu não disse para o padre tudo que estava na minha alma, mas eu falei o resumo simbólico daquilo, e Deus sabe a coisa inteira. A confissão é baseada nisto.

Agora, eu vejo todas essas pessoas supostamente religiosas no Brasil — tanto católicas como protestantes — que tão logo entram na igreja, a igreja serve para elas de porrete para condenar os pecadores. Eu vi outro dia uma discussão entre o pastor Caio Fábio e o pastor Silas Malafaia e fiquei horrorizado, porque cada um dizia assim: "Eu não dou ouvido a adúlteros!" Eu digo: ah, não! E a você mesmo? Quer dizer: cada um tentando mostrar que ele é puro e que o outro é pecador. Meu Deus! Mas que mentira terrível! Primeiro: você tem certeza do adultério dele, como você teria do seu próprio? Eu, se cometo um, sei o que eu fiz. Agora, o vizinho, não! Eu só ouvi falar! Só tem um sujeito adúltero que nós podemos conhecer de fato: somos nós mesmos! Nem a nossa mulher sabe: ela pode supor. Mas você sabe o que você fez. Então, quando o sujeito entra na igreja, veste a camiseta, e já sai condenando os pecadores, é porque ele já perdeu o instinto da verdade. Eu hoje sei que a maior parte dos cristãos fica mais indignada de saber que um garoto se trancou no banheiro para tocar uma, do que quando veem esse negócio das Farcs, cinquenta mil brasileiros mortos por ano! Aí eles não falam nada! Por quê? Porque o que eles entendem por pecado é uma listinha, é um formulário. Não é o senso verdadeiro.

Cada pecado que cometo — e vou confessar a Deus — eu tenho um trabalho miserável para obter a certeza de que eu não estou exagerando. A característica mais eminente do seu pecado é a tremenda banalidade dele: você fez pela trilionésima vez aquela porcaria que todo mundo já fez, e você está agoniado por causa daquela coisa! E você faz um drama para Deus, que já sabe que você fez tudo aquilo e já viu todo mundo fazer a mesma coisa! A gente tem que tentar dar a medida certa. Eu costumo pedir perdão a Deus à minha banalidade, à minha vulgaridade, ao meu pouco valor: isso não vale nada, é um monte de merda, com o perdão da palavra. Eu não sei por que Tu prestas atenção a mim; eu não consigo entender, porque eu mesmo não prestaria. Desculpa eu tomar o Teu tempo com essa coisa. Eu sei que Teu tempo é infinito, mas cada bilionésimo de segundo de Deus é infinitamente precioso!

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Primeiro mandamento, hierarquia e tímese parabólica

Síntese do tópico

Ao refletir sobre amar a Deus sobre todas as coisas, o professor trata esse mais como uma orientação crescente, e não uma quantidade fixa. Recorre à tímese parabólica, de Mário Ferreira dos Santos, à parábola e à assíntota. Distingue pecados materiais de disposições espirituais anteriores e sustenta que a confissão deve respeitar essa hierarquia.

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Este processo interior da confissão é muito mais complicado do que as pessoas podem imaginar. Mas eu vejo que a maior parte desses cristãos, pastores, padres etc., têm uma visão totalmente coisificada do negócio. É uma imoralidade! Por exemplo: há muitos anos eu venho tentando entender os mandamentos um por um. O primeiro mandamento diz "Amar a Deus sobre todas as coisas". Veja que coisa: é sobre todas as coisas. Quanto mais que as outras coisas? Você não sabe. Eu amo a Roxane, eu amo a Leilah, mas é para amar a Deus mais. Quanto mais? Onde termina esse mais? Não é algo quantitativo definido. Então é o quê? É um "mais" que está sempre crescendo. Então, é que o Mário Ferreira dos Santos chamava a tímese parabólica. É uma avaliação que funciona como uma parábola, ou como uma assíntota: uma curva que tende a chegar, mas nunca chega. Isto quer dizer que essa noção "amar a Deus sobre todas as coisas" é eminentemente uma noção escalar. Não é uma coisa que tem dois andares: aqui estão as coisas; aqui está Deus. Não! Você sabe onde estão as coisas, mas Deus termina onde? Eu entendo que o senso de hierarquia — eu posso estar errado; eu não sou teólogo, não sou bispo, cardeal, eu não sou coisa nenhuma, mas apenas um idiota que está tentando pensar e me livrar dos meus próprios pecados; tentando achar um pretexto para Jesus Cristo me perdoar no Juízo Final — então, eu entendo que esse senso de hierarquia é inerente ao primeiro mandamento. Ele é o próprio primeiro mandamento. É como dizem os americanos: first things first: as primeiras coisas, primeiro. O pecado material que você cometeu, às vezes é o resultado de pecados espirituais que você vem cometendo há trinta e tantos anos e que você nem percebeu. Quer dizer: você está mentindo para você mesmo; mentindo para Deus; e daí um dia você faz uma besteira que é o resultado daquilo! Qual dos dois você vai confessar primeiro? Se confessar o material, você estará escondendo a realidade; você estará perdendo esta grande chance! Você abrir seu coração para Deus é uma grande chance! É muito bom! Você estará perdendo esta grande chance da confissão.

29

Três eixos do primeiro ano do curso

Síntese do tópico

O professor retoma o programa do primeiro ano: moralidade da vida intelectual, elementos de cultura geral e técnicas de estudo e de cuidado interior. A imagem de limpar as lentes expressa a preparação para filosofar. Sua advertência sobre os danos possíveis das filosofias reforça a responsabilidade pelo próprio pensamento antes de iniciar a leitura das cartas.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Eu disse para vocês que este primeiro ano do curso seria constituído de três coisas: (a) a moralidade da vida intelectual; (b) a sugestão de como vocês adquirirem certos elementos de cultura geral que são indispensáveis ao estudo da filosofia; e, (c) terceiro, algumas técnicas, que se referem tanto ao estudo, quanto a uma técnica que se refere a uma higiene interior. Eu não sei se a palavra "higiene" é boa; eu não gosto dessas analogias médicas. É como "limpar as lentes"! Eu acho que se você entrar na filosofia sem essas pré-condições, você vai virar mais um bocó de mola; se não virar um monstro. Tenham cuidado! Esse negócio de filosofia é ruim! Vocês não imaginam o dano que as filosofias fazem para as pessoas! [2:00] Praticamente todos os grandes crimes do século XX começaram com os filósofos; então preste atenção no que fala! Cuidado com isto! É por isso que estou dando estas dicas.

Vamos responder aqui algumas cartas:

30

Perguntas de aluno: literatura, voz própria e crítica prática

Síntese do tópico

Um aluno descreve sua formação em música e literatura e a busca de uma voz própria. O professor distingue imitação consciente de imitação involuntária e relaciona sinceridade literária à própria história. Recomenda o curso Como Encontrar Sua Própria Voz, de Arthur Joseph, e The Living Principle, de Frank Raymond Leavis, valorizando o exercício da crítica prática.

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Pergunta de aluno

tenho duas perguntas sobre literatura, e outra à parte: 1ª) Desde meus 13 anos estou ligado a duas artes: música e literatura. Quanto à música estou, digamos, bem resolvido e em plena forma dentro do que me propus. Quanto à literatura, desde essa época leio muito, ininterruptamente, e escrevo outro tanto, sem, no entanto, ter nenhum material publicado por editoras. (…)

Resposta do professor

Graças a Deus! Você não sabe como eu fico orgulhoso e satisfeito de não ter publicado nada antes dos 45 anos de idade, e de ter poupado a humanidade dos meus escritos juvenis! Eu sou um benemérito! Cada vez que penso nisto eu concluo: mas eu sou bom mesmo! Eu poupei às pessoas este sofrimento horroroso!

Pergunta de aluno

Na verdade, ainda não tive vontade de publicar nada, pois acho que ainda preciso encontrar minha voz de fato (…)

Resposta do professor

Isto é realmente importante! Se vocês soubessem como eu me sinto mal quando leio meus escritos de juventude! Eu leio e falo: "mas quem é esse cara?" Que palhaço que eu era! Era imitação inconsciente. Imitação consciente é um exercício, mas você precisa imitar muito até chegar a uma hora que você encontra… E diz: "eu quero falar deste jeito aqui, porque falando assim eu sinto que eu sou eu, que estou sendo sincero!" A busca da sinceridade é a coisa essencial.

Pergunta de aluno

falta-me algo ainda, algo que acredito estar a caminho através do seminário. Entendo, ao menos até este momento, que a minha vocação está ligada diretamente à literatura: romances, contos e poesias; e por isso fiquei especialmente interessado no que foi dito pelo senhor nas aulas sobre o imaginário; sobre a experiência que transcende ao texto e suscita o drama interior no leitor (…)

Resposta do professor

essa experiência está ligada ao instinto da verdade; à busca de uma verdade sobre a sua própria história. Sem isto não tem obra de ficção que valha a pena.

Pergunta de aluno

Tendo isto em vista, gostaria de obter ajuda a respeito de alguma bibliografia básica sobre estes aspectos. (…)

Resposta do professor

Não lhe posso dar isto imediatamente; se eu tivesse lido a pergunta antes, eu teria pensado em alguma coisa. Mas eu creio que já recomendei o curso do Arthur Joseph, "Como Encontrar Sua Própria Voz". Eu tenho uma gravação do curso — na verdade não o fiz: ouvi uma vez e falei: "epa! já estou fazendo isso tudo aí, faz tempo!". Vou ver uma lista disto. Um autor que lhe recomendo muito é o Frank Raymond Leavis: um grande professor de Literatura! Sobretudo, o que o distingue de todo mundo é que ele não era um teórico: ele visava ensinar às pessoas o exercício da crítica prática, que consiste em saber distinguir uma obra, de uma melhor e de uma pior. Não necessariamente para escrever crítica literária, mas para desenvolver a sensibilidade de percepção do leitor para essas coisas. E ele consegue isso como ninguém! É o Leavis, sobretudo no livro "The Living Principle", "O Princípio Vivente". Um dia, gostaria de publicar este livro no Brasil, mas o Leavis é tão difícil de traduzir, o inglês dele é tão fino e tão caracteristicamente inglês, que fica mais difícil de traduzir…

31

Pergunta de aluno: finalidade da literatura de ficção

Síntese do tópico

Perguntado sobre a meta do escritor, o professor retoma Aristóteles: a ficção explora o possível para esclarecer a experiência real por analogias. Volta a O Processo, de Kafka, e à imagem de um mecanismo processual que se torna autônomo em relação à intenção humana que o criou.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Pergunta de aluno

2) Qual seria a finalidade, ou meta principal, de um escritor, ao término deste curso? (…)

Resposta do professor

A função de toda a literatura de ficção é aquilo que disse Aristóteles: é a exploração do possível, de modo que isso esclareça a experiência real de algum modo, através de analogias. Aristóteles disse que era isto e até hoje não consegui descobrir outra coisa. O poder da analogia é tão grande que mesmo quando se escreve baseado numa falsidade — como é o caso do Kafka, como expliquei anteriormente: a falsidade foi o fato que desencadeou a inspiração, mas a inspiração em si é extremamente verdadeira. Se você pegar a ideia de uma mecânica processual que começa a funcionar como uma máquina autônoma em relação à intenção humana que a criou, é exatamente como funciona "O Processo" do Kafka. Isto não estava na realidade onde o Kafka viu, mas aquilo existia realmente.

32

Pergunta de aluno: viagens do professor

Síntese do tópico

Um aluno pergunta sobre visitas ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro, e a Portugal. O professor informa que, na data da aula, seu visto de jornalista nos Estados Unidos dificultava a saída e o retorno e que buscava autorização da imigração. A referência ao Tio Sam aparece nessa resposta circunstancial.

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Pergunta de aluno

3) Gostaria de saber se o senhor pretende vir ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro, ou a Portugal, em breve.

Resposta do professor

Eu pretendo ir a muitos lugares do mundo, mas não posso sair daqui, pois estou com visto de jornalista. Se eu sair daqui, terei que fazer toda a papelada de novo, e levam uns seis meses. De modo que sou um prisioneiro do Tio Sam! Já estou tentando obter uma autorização da Imigração para poder transitar pelo mundo, mas por enquanto não a obtive.

33

Pergunta de aluno: filosofia, tecnologia e método científico

Síntese do tópico

Um aluno pergunta se teorias filosóficas podem contribuir para uma tecnologia por meio dos instrumentos intelectuais que a tornam concebível. O professor responde afirmativamente. Apresenta o método científico como especialização histórica da dialética aristotélica, citando Bacon, Galileu, Claude Bernard e Karl Popper. A busca e confrontação de hipóteses tornam explícitos procedimentos humanos naturais.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Pergunta de aluno

supondo que se abstraia de um objeto tecnológico a sua forma aristotélica — o princípio de funcionamento que lhe confere sua unidade — se ao acompanharmos uma determinada sequência de percepções referentes a uma história das ideias, for possível compreender a forma deste objeto na sua expressão intelectual como um conjunto de tais percepções, e se estas percepções corresponderem ao ato cognitivo gerador de teorias filosóficas, então podemos dizer que estas filosofias contribuíram para o desenvolvimento daquela tecnologia?

Resposta do professor

Claro! Mas é óbvio! Se você não tem os instrumentos intelectuais para pensar determinadas coisas, você não as pensa. Estes instrumentos intelectuais são laboriosamente criados. Por exemplo: quando Aristóteles codifica a arte da dialética, claro que já existiam discussões; Aristóteles tentava pegar os princípios que estavam subjacentes a estas e que fazem com que a conclusão da discussão seja legítima ou não. As pessoas já sabiam discutir, e Aristóteles depura criticamente essa arte da discussão levando-a na direção da arte da prova; a dialética ainda não é a arte da prova, mas ela é a busca dos meios de prova adequados.

Quando, mil e novecentos anos depois, começam as discussões sobre método científico moderno, que se prolongam desde o tempo de Bacon e Galileu até Karl Popper, passando por Claude Bernard e outros tantos, tudo isso que eles estão fazendo é uma especificação da Dialética de Aristóteles para um determinado campo restrito. Isso quer dizer que se não existisse arte dialética, não existiria método científico algum! O que é "método científico"? É a confrontação de hipóteses: é primeiro você encontrar as hipóteses, e depois as premissas teóricas e factuais nas quais estas hipóteses possam ser confrontadas, e confirmadas ou negadas.

O que é isso? É a arte dialética.

A Dialética de Aristóteles é o puro método científico, mas quanto tempo levou para que aqueles preceitos criados por Aristóteles pudessem se especializar para determinados campos, muito específicos e determinados, onde toda uma coletividade pudesse chegar simultaneamente às mesmas verificações? Foi um longo trajeto! Deu muito trabalho! E hoje as pessoas arrotam "método científico" como se isso tivesse nascido em árvore, mas deu um trabalho miserável, alguém teve que pensar. Não que o método científico e a lógica sejam inaturais ao ser humano: eles não são propriamente invenções. São, por assim dizer, extrusões de procedimentos que são naturais ao ser humano, mas que se tornam mais translúcidos quando exercidos conscientemente com um senso de fiscalização crítica.

34

Pergunta de aluno: unidade dos estudos e maturação

Síntese do tópico

Um aluno concilia romancistas portugueses, transcrições do curso e a Gramática Latina do Prof. Napoleão, mas busca unidade no Trivium. O professor aconselha tolerar a insegurança e não cristalizar prematuramente os estudos. A anedota de Goethe no museu e a sequência alquímica Mercúrio, Enxofre e Sal ilustram a passagem das possibilidades à forma definida.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Pergunta de aluno

Neste momento todo o meu esforço intelectual se concentra em três atividades: 1ª) a leitura atenta e vagarosa dos grandes romancistas portugueses (…)

Resposta do professor

Grande coisa que você faz! Mas grande coisa que você faz!

Pergunta de aluno

2ª) o estudo das transcrições do nosso curso e 3ª) o estudo da Gramática Latina do Prof. Napoleão; isso, não obstante — o senhor não fique bravo — devo confessar que minha insegurança juvenil tem me forçado a procurar mais unidade para os estudos, por isso pensei no Trivium…

Resposta do professor

Não se preocupe com isto! Tem que pensar como aquele guia de museu, na Itália, disse para Goethe — que lá estava e viu que os quadros estavam com épocas e autores misturados e daí ele perguntou: "mas por que isto é assim?" — ao que o guia respondeu : "queste cose hanno bisogno di un po’ di confusione" — estas coisas precisam de um pouco de confusão. Fica mais interessante! Isto é como na Alquimia: têm os três elementos, que são: o Mercúrio, o Enxofre e o Sal. O Mercúrio é o "caldo das possibilidades"; é a confusão; é o caos. É de onde sai tudo. Depois vem o Enxofre, que fixa aquilo, dando uma forma definida. E daí sai o Sal, que é o cristal perfeito. Do mesmo modo, a cristalização prematura é o que mata a inspiração das pessoas. Deixe desorganizado assim mesmo; acostume-se com a insegurança; não fique perturbado com ela, pois esta mesma insegurança é o sinal da sua própria vitalidade! Chegará um tempo em que as coisas se condensarão naturalmente; inclusive certas conclusões, certas convicções que você vai adquirir; quando finalmente você dirá: "opa! isto aqui eu entendi!" Mas, deixa que isto venha sozinho; não se preocupe com isto!

35

Contribuição de aluno e produção de obras para a cultura brasileira

Síntese do tópico

Um aluno indica Rua do Ouvidor 110, de Lucila Soares. O professor acrescenta A vida literária no Brasil em 1900, de Brito Broca, e 1968: O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura. Evoca Carpeaux, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Bandeira e Drummond. Encerra conclamando à produção de obras literárias, científicas e conferências gravadas, com uma citação atribuída a Machado de Assis.

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Falas do professor · perguntas e contribuições identificadas abaixo

Aqui, não é uma pergunta, é um lembrete de um aluno:

Contribuição de aluno

Há um livro interessante que ilustra bem como era o ambiente cultural brasileiro nos anos 40 e 50, escrito pela jornalista Lucila Soares, neta do José Olympio, contando a história da livraria: "Rua do Ouvidor 110: Uma história da Livraria José Olympio".

Resposta do professor

Ah, isto é uma maravilha! Junta isto com o livro do Brito Broca: "A vida literária no Brasil em 1900" e então você vai ver como era a atmosfera das duas épocas. A atmosfera que veio depois nem vale a pena contar, mas estaria retratada, de algum modo, no livro do Zuenir Ventura: "1968: O Ano que Não Terminou". Mas, entre o tipo de vida intelectual que você tinha nos anos 40 e 50 e o que veio a ter depois — a atmosfera que o Zuenir Ventura já descreve — é uma queda vertiginosa! Um negócio abissal! Em 68 já estava ruim, mas depois nós só viemos caindo, caindo… parece ser um poço sem fundo! Nós estamos hoje no ponto mais baixo que eu consigo conceber — deve ser possível piorar um pouco mais para adiante — mas o nosso esforço deve ser para que isto não aconteça. Temos que criar outro patamar da cultura brasileira. Não é somente dando palpites ou entrando em discussões coletivas… Não! Temos que criar um patamar com obras. Obras que não precisam ser necessariamente escritas: uma série de conferências gravadas é uma obra. Se não existisse hoje em dia este modo de comunicação, toda a minha atividade seria proibitiva, não conseguiria fazer nada.

Obras a que me refiro podem ser obras de literatura, de ciência, etc., vocês vão fazer tudo isto, e espero que esta geração realmente marque sua presença na vida do Brasil de modo que tudo o que veio neste período de 1960 até agora seja esquecido: temos que jogar tudo isso no lixo, porque nada se fez, nada, só lixo por toda parte! Leiam este livro da Lucila Soares. Temos que nos tornar dignos do que o Brasil foi nesse período! No mínimo isto! Um período em que estavam vivos, ao mesmo tempo, Otto Maria Carpeaux, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade: era uma coisa maravilhosa, quase paradisíaca em comparação com o que temos hoje! Como é que nós chegamos lá e depois… É como se diz:"chegada de leão, saída de cão"! Temos que devolver a cultura ao nível que ela tinha antes. É nossa obrigação estrita. Isto ninguém pode nos impedir de fazer: não há PT; ou PSDB; ou MST; ou PQP que possa nos impedir de fazê-lo. Só há uma coisa que pode nos impedir: nós mesmos! Nossa própria ignorância; nossa própria covardia; nossa própria preguiça! Mas eu acho, sinceramente, que vocês não padecem desse defeito. Vocês estão se esforçando muito; eu estou muito contente com os alunos deste curso. Vejo muita sinceridade, muito esforço, uma coisa que realmente, como dizia Machado de Assis: "fica, eleva, honra e consola".

Até a semana que vem, e muito obrigado.

3 · Principais tópicos abordados

Ideias para retomar

  1. Forma e matéria: reconhecer a mesma estrutura ou função em indivíduos, objetos, execuções musicais e exposições teóricas diferentes.

  2. Consciência histórica: ampliar o horizonte da percepção e reconhecer a própria participação nas situações e responsabilidades humanas.

  3. Aprendizado e autoridade: distinguir disciplina necessária, compreensão pessoal, argumento de autoridade e verificação.

  4. Instinto da verdade: reconhecer verdades sobre si, inclusive desagradáveis, e relacioná-las à referência ao absoluto exposta na aula.

  5. Tipos de distinção: tornar conscientes e precisas as distinções real-real, real-formal e formal.

  6. Linguagem, lógica e narrativa: relacionar palavras às coisas e fazer o pensamento retornar à experiência narrada.

  7. Analogia e identidade: distinguir o poder esclarecedor do símbolo de seus usos indevidos na argumentação.

  8. Sinceridade e hierarquia: contar a própria história, reconhecer as consequências das ações e examinar a vida interior.

  9. Formação literária e filosófica: encontrar a própria voz, desenvolver crítica prática, tolerar a maturação dos estudos e produzir obras.

4 · Nomes, livros, artigos, colunas, autores e referências citadas

Mapa de referências

As menções têm funções diferentes: recomendação, exemplo, crítica ou referência circunstancial. Dados ausentes não foram completados com fontes externas. A coluna tópico remete à numeração das 35 unidades.

4.1. Obras e referências documentais

Obra ou referênciaAutor ou responsávelTipoTópicoContexto
Sound and SymbolVictor ZuckerkandlLivro7Recomendado como exemplo de descobertas filosóficas provenientes da música.
5ª Sinfonia de BeethovenBeethovenComposição musical7Exemplo da identidade de uma obra em execuções diferentes.
Lista ‘meus gurus’, na página do professorOlavo de CarvalhoLista na internet; sem endereço indicado na fala10Reúne autores com quem aprendeu; não representa adesão integral a cada doutrina.
L’EnferMonseigneur de SégurLivro10Relatos de aparições de condenados, no argumento sobre amar a Deus e reconhecer sua justiça.
Dez Mandamentos; primeiro mandamentoTradição religiosa citada na aulaReferência religiosa10, 28Amar a Deus sobre todas as coisas; realidade, hierarquia e exame interior.
Conferências e escritos de Wilfred BionWilfred BionConferências, escritos e observações clínicas12–14, 17, 20–21Conferências no Brasil nos anos 1970; nenhum título específico de livro é fornecido.
Vídeo de Bion no canal WRBionWilfred Bion; canal WRBionVídeo no YouTube; sem título ou endereço12, 20Trecho descrito como tendo cerca de dez minutos; comentário sobre doente terminal.
Versos sobre os seis servidoresRudyard KiplingPoema; título não informado na aula17Citação em inglês e tradução; o quê, por quê, quando, como, onde e quem.
NanáÉmile ZolaRomance18Indicado por um aluno para interpretar uma situação familiar; referência a uma divindade babilônica não nomeada.
Entrevista de Carl Gustav JungCarl Gustav JungVídeo no YouTube; sem título ou endereço19–20Observações clínicas sobre sonhos premonitórios e experiências além de espaço e tempo, segundo a aula.
Sonhos de um VisionárioImmanuel KantLivro20Discussão da experiência e da reação a Swedenborg; título mantido como aparece na fonte.
O céu e o infernoEmanuel SwedenborgLivro20Visões, trajetória do autor e relação estabelecida pelo professor com Kant.
O ProcessoFranz KafkaRomance22, 31Autonomia do símbolo literário; Otto Gross, processos de Moscou e mecanismo processual.
Si le grain ne meurt / Se o grão não morreAndré GideLivro de memórias22Citado na passagem sobre Gide e sua conduta, conforme os juízos do professor.
As ideias têm consequênciasRichard WeaverObra citada pelo título23Consequências duradouras das ideias e de extensões de sentido.
Filme com a história do homem que se joga num cactoClint Eastwood, associado ao filme na falaFilme; título não informado23Exemplo de uma ação que parece boa no momento e produz consequências ruins.
Artigo sobre logica brasiliensisOlavo de CarvalhoArtigo; título, veículo e data não informados24Analogia tomada como identidade; conjectura usada para invalidar um fato.
Tratado da Lógica Psicótica BrasileiraOlavo de CarvalhoProjeto ou hipótese de sistematização mencionado na fala24Não é apresentado como obra publicada.
TópicosAristótelesLivro25Princípios da discussão e condições para uma controvérsia.
O Imbecil ColetivoOlavo de CarvalhoLivro25Descrito pelo professor como mostruário de erros e comportamentos intelectuais.
Discussão entre Caio Fábio e Silas MalafaiaCaio Fábio; Silas MalafaiaDiscussão; suporte e data não informados27Exemplo usado na crítica à condenação moral dos outros.
Como Encontrar Sua Própria VozArthur JosephCurso gravado; título como citado30Recomendação relacionada à voz própria e à sinceridade.
The Living Principle / O Princípio ViventeFrank Raymond LeavisLivro30Crítica prática, distinção de qualidade e sensibilidade do leitor.
Gramática Latina do Prof. NapoleãoProf. Napoleão; nome incompleto na fonteGramática34Uma das frentes de estudo mencionadas pelo aluno.
Transcrições do Curso Online de FilosofiaAulas de Olavo de Carvalho; transcrição coletivaMaterial de estudo34Estudo citado pelo aluno; também há remissões a aulas anteriores durante a exposição.
Rua do Ouvidor 110: Uma história da Livraria José OlympioLucila SoaresLivro35Ambiente cultural brasileiro dos anos 1940 e 1950; contribuição de aluno.
A vida literária no Brasil em 1900Brito BrocaLivro; título como citado na fonte35Comparação com a atmosfera cultural de outra época.
1968: O Ano que Não TerminouZuenir VenturaLivro35Usado na comparação entre fases da vida intelectual brasileira.
Artigo enviado ao professor sobre Hitler e religiãoAutor não identificadoArtigo; título e veículo não informados3Afirmações sobre catolicismo, anticlericalismo e Lutero, criticadas pelo professor.
Escritos de Aristóteles; livros de São Tomás e de Julius EvolaAristóteles; São Tomás de Aquino; Julius EvolaConjuntos de escritos; sem títulos individuais nessa passagem8, 10–11Identidade da teoria em exposições diversas e aprendizado sem adesão integral.
Publicações técnicas e teses universitárias de filosofiaAutores não identificadosPublicações acadêmicas; sem títulos16, 26Crítica a distinções desligadas da experiência e ao talento acadêmico isolado.
Obras completas do Dr. Emir SaderEmir SaderExpressão genérica empregada na fala23Não há indicação bibliográfica de uma edição de obras completas.
Escritos juvenis do professor; futuros trabalhos dos alunosOlavo de Carvalho; alunos não identificadosEscritos e projetos de obras30, 35Imitação, maturidade, sinceridade e produção cultural. Não são fornecidos títulos.

4.2. Nomes citados na exposição

Nome como citadoTópicoContexto
Aristóteles1, 5–9, 14–15, 25, 31, 33Forma e matéria, patamares, distinções, discussão, ficção e dialética.
Mário Ferreira dos Santos1, 28Colombos retardatários; tímese parabólica.
Kant / Immanuel Kant2, 20–21Tempo, experiência e Sonhos de um Visionário.
Hitler; Lutero; Calvino; Rui Barbosa3Exemplo de interpretação histórica e comentário sobre a estupidez; Lutero reaparece no tópico 23.
Jesus Cristo; Deus; Diabo; Tio Sam3, 9–10, 27–28, 32Referências religiosas e, no último caso, personificação usada na resposta sobre viagens.
Victor Zuckerkandl; Beethoven7Música, filosofia, estrutura e execução.
Antônio Gramsci9Ideias como expressão da época, conforme a crítica da aula.
São Tomás de Aquino; Julius Evola; Monseigneur de Ségur10–11, 21Aprender com autores, autoridade, fatos e L’Enfer.
Olavo de Carvalho; Orlando Fedelli; Rodrigo Constantino10, 25Exemplos sobre seguir autores; Constantino reaparece nas polêmicas.
Napoleão Bonaparte; Júlio César11, 24Referentes históricos e exemplos imaginários; não confundir com o Prof. Napoleão da gramática.
Wilfred Bion; Dr. Freud; Dr. Muller / Müller12–14, 17, 19–21Psicanálise, verdade, mentira interior e antecipação; Freud e Müller aparecem sem nomes completos na fonte.
Ferdinand de Saussure; Rudyard Kipling16–17, 21Linguagem e realidade; poema dos seis servidores.
Émile Zola; Carl Gustav Jung18–21Naná e arquétipos; observações clínicas e sonhos.
Roger Danneau; Cassirer20Estudiosos de Kant mencionados assim na fonte; grafia do primeiro nome não confirmada.
Emanuel / Emmanuel Swedenborg20O céu e o inferno; variantes de grafia presentes na transcrição.
Franz Kafka; Otto Gross; Bertold Brecht; Roman Polanski; André Gide22, 31Referências da discussão sobre O Processo e juízos morais expressos pelo professor.
Richard Weaver; Clint Eastwood; Emir Sader; Dr. Charcot23–25Consequências, anedota do filme, analogias e demonstração de erros.
Caio Fábio; Silas Malafaia; Roxane; Leilah27–28Discussão religiosa e exemplos pessoais no exame do primeiro mandamento.
Arthur Joseph; Frank Raymond Leavis30Voz própria e crítica prática.
Bacon; Galileu; Claude Bernard; Karl Popper33Discussões sobre método científico; os dois primeiros aparecem sem nomes completos.
Prof. Napoleão; Goethe34Gramática latina e anedota do museu; identificação incompleta do professor na fonte.
Lucila Soares; José Olympio; Brito Broca; Zuenir Ventura35Memória da vida literária brasileira e obras indicadas.
Otto Maria Carpeaux; Gilberto Freyre; Graciliano Ramos; Manoel Bandeira; Carlos Drummond de Andrade; Machado de Assis35Autores evocados no encerramento; grafia de Manoel Bandeira conservada como na fonte.

4.3. Outras referências da aula

GrupoReferências
LugaresBaixada do Glicério; Rua Conde de Sarzedas; Brasil; Estados Unidos; Suécia; Áustria; Moscou; Argélia; Maine; Rio de Janeiro; Portugal; Itália.
Correntes, instituições e acontecimentosEscolásticos; escola analítica; desconstrucionismo; catolicismo; protestantismo; Reforma; Igreja; psicanálise; processos de Moscou; alquimia; Trivium; jornalismo; comunidade científica; Secretarias de Educação; imigração.
Organizações e siglasFarcs, PT, PSDB e MST são mencionados na exposição. A sequência final inclui também a expressão PQP, empregada retoricamente.
Referências não nomeadasDivindade babilônica em Naná; guia de museu que fala com Goethe; autor da observação de que, na prática, tudo é mais fácil do que na teoria; alunos, amigos e familiares de relatos.
ColunasNenhuma coluna é identificada por título. Os artigos mencionados estão relacionados acima.
5 · Trechos incertos ou inaudíveis

Limites e marcas da fonte

  • Inaudíveis: a transcrição fornecida não contém marcações explícitas de trechos inaudíveis. Não houve acesso ao áudio. A marca [inaudível] não foi aplicada a passagens que são apenas elípticas ou duvidosas.

  • Reticências e omissões indicadas na fonte: há interrupções e trechos com (…), especialmente nas cartas do tópico 30 e do tópico 34. Foram preservados, sem preenchimento. A fonte não esclarece se representam cortes de leitura, cortes de transcrição ou simples pausa.

  • Roger Danneau: a grafia aparece no tópico 20, na enumeração de estudiosos de Kant. Foi mantida como fornecida, sem atribuir outra identidade.

  • Prof. Napoleão, Dr. Müller e Cassirer: a fonte não fornece identificação completa. Não foram acrescentados prenomes, sobrenomes ou dados bibliográficos externos.

  • Variantes de grafia: a fonte alterna Muller/Müller e Emanuel/Emmanuel Swedenborg; também registra Bertold Brecht e Manoel Bandeira. Esses nomes não foram corrigidos por inferência histórica.

  • Passagem sobre os dentes: no tópico 10, lê-se que Aristóteles teria dito que as mulheres têm mais dentes que os homens. A formulação foi preservada como fala transcrita; não foi invertida ou corrigida sem consulta ao áudio e à referência original.

  • Frase truncada sobre Kafka: no tópico 22, a construção ‘que justamente encontra o objetivo ideológico que ele tenta descrever’ apresenta ligação sintática pouco clara. Foi preservada; não se inseriu uma negação ou outro complemento por conjectura.

  • Citações e anedotas: mantiveram-se as atribuições a Rui Barbosa, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Goethe, Brecht e Machado de Assis, bem como os relatos sobre Swedenborg, Gross e Kafka. A aula não apresenta referências documentais suficientes para verificar cada formulação.

  • Obras sem identificação completa: não há título para o filme associado a Clint Eastwood, os vídeos de Bion e Jung, o artigo sobre Hitler, o artigo sobre logica brasiliensis ou a divindade babilônica mencionada na pergunta sobre Naná. Não foram inventados títulos, datas ou links.

  • Seis servidores e sete pilares: a diferença é explicitamente discutida pelo professor, que situa o instinto da verdade como sétimo eixo. Não foi tratada como erro numérico.

  • Marcações de tempo: os marcadores disponíveis foram conservados como aparecem na fonte, inclusive a alternância de formatos como 10:00, 0:30 e 01:20. Não foi deduzida uma cronometragem nova.

  • Revisão editorial: foram corrigidos erros tipográficos evidentes e marcas de formatação; preservaram-se ordem, repetições relevantes, exemplos, juízos e citações. Nenhum nome de aluno é apresentado.

Créditos da transcrição de origem
Transcritores: Maurício B. Doval, Eduardo Afonso de Aguiar, Eduardo Garcia de Queiroz, Conrado Miscow Machado, Gilberto Luiz B. Edson.
Revisor: Eduardo Garcia de Queiroz.

Revisão editorial em duas passagens: fidelidade ao texto e apresentação. As incertezas documentadas acima permanecem assinaladas.

COF 031 · Forma, matéria e instinto da verdade
Material de estudo baseado na transcrição de 7 de novembro de 2009.
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