Em 2046 (2004), o protagonista é um escritor decadente viciado em comer putas e dar festas, mas se lamenta de não conseguir mudar de vida.
Filme divertido e com lindas atrizes chinesas.
abs!
P.s.: comprei o DVD. Vi em outubro de 2026.
Resenha cinematográfica · Drama · Romance · Ficção científica
2046 (2004)
O amor como prisão da memória
Direção: Wong Kar-wai | Produção: Hong Kong | Duração: 128 minutos
Elenco: Tony Leung, Zhang Ziyi, Gong Li, Faye Wong e Takuya Kimura
Em 2046 (2004), Wong Kar-wai realiza uma das mais sofisticadas meditações cinematográficas sobre o amor perdido, a passagem do tempo e a impossibilidade de recuperar o passado. Continuação espiritual de Amor à Flor da Pele (2000), o filme acompanha Chow Mo-wan (Tony Leung), um escritor que, após uma desilusão amorosa, transforma suas experiências sentimentais em matéria literária. O resultado é uma obra melancólica, visualmente exuberante e narrativamente fragmentada, na qual memória, desejo e imaginação se confundem.
Ambientada principalmente na Hong Kong dos anos 1960, a narrativa acompanha os relacionamentos de Chow com diferentes mulheres, entre elas a cortesã Bai Ling (Zhang Ziyi), a jovem Wang Jing-wen (Faye Wong) e uma misteriosa mulher chamada Su Li-zhen (Gong Li). Cada encontro revela uma possibilidade de felicidade, mas também a incapacidade do protagonista de estabelecer vínculos duradouros. Marcado pela lembrança de seu amor anterior, Chow procura nas novas companheiras aquilo que perdeu, condenando-as a competir com uma imagem idealizada e irrecuperável.
O número 2046 possui múltiplos significados. É o quarto de hotel associado às experiências amorosas do protagonista, mas também o destino de um trem imaginário descrito em seu romance de ficção científica. Nesse universo futurista, 2046 é um lugar onde as lembranças permanecem intactas e nada parece mudar. A metáfora é central: preservar o passado significa, paradoxalmente, impedir a própria vida de avançar.
A relação com Bai Ling constitui o núcleo emocional mais doloroso da narrativa. Inicialmente construída sobre atração física e encontros ocasionais, transforma-se em um sentimento verdadeiro por parte dela. Chow, entretanto, recusa a reciprocidade, reproduzindo em outra pessoa o sofrimento que anteriormente experimentara. O homem outrora vulnerável converte-se em alguém emocionalmente inacessível. Essa transformação confere ao filme uma dimensão moral particularmente amarga: a dor não conduz necessariamente à compreensão do sofrimento alheio; pode produzir indiferença e crueldade.
A extraordinária elaboração visual reforça essas questões. Corredores estreitos, espelhos, enquadramentos oblíquos, iluminação saturada e movimentos em câmera lenta criam uma atmosfera de confinamento afetivo. A fotografia de Christopher Doyle e seus colaboradores, associada à música nostálgica de Shigeru Umebayashi e outros compositores, transforma a experiência cinematográfica em uma sucessão de lembranças fragmentárias. A beleza das imagens, longe de oferecer consolo, intensifica a sensação de perda.
As sequências futuristas, com seus trens e androides incapazes de responder prontamente aos sentimentos humanos, representam a dificuldade de correspondência amorosa. O problema não é simplesmente amar, mas encontrar alguém capaz de corresponder no momento adequado. Em 2046, os sentimentos frequentemente chegam tarde demais.
A principal fragilidade do filme está em sua estrutura excessivamente intrincada. As constantes mudanças temporais, os personagens duplicados e as histórias sobrepostas podem produzir distanciamento emocional. Ainda assim, essa complexidade corresponde à própria experiência de um homem incapaz de organizar suas recordações ou conferir sentido definitivo às suas perdas.
Em última análise, 2046 é uma tragédia sobre a fidelidade ao que já não existe. Chow pode conhecer outras mulheres, mudar de cidade e inventar mundos futuros, mas permanece prisioneiro de um amor encerrado. Wong Kar-wai sugere que a verdadeira tragédia não consiste apenas em perder alguém, mas em permitir que essa ausência determine todas as relações posteriores. O passado torna-se, assim, um lugar do qual o protagonista jamais consegue regressar.


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