Na prática eles cometem erros como qualquer ser humano. Além disso ainda sem falar em iatrogenia, danos causados no paciente pela aplicação de um tratamento médico.
Um exemplo inesquecível do livro: houve uma época em que os mesmos médicos faziam necrópsias e partos, um depois do outro e tudo isso sem lavar as mãos, pois a Ciência não havia evoluído ao ponto de reconhecer a existência de seres microscópicos. Ninguém tinha inventado o microscópio ainda. Imagine a quantidade de infecções hospitalares existente na época.
- http://scienceblogs.com.br/vqeb/2010/02/terminei_de_ler_a_assustadora/
- http://renatopompeu.blogspot.com/2011/09/historia-da-cirurgia.html
- http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI124628,51045-Iatrogenia+e+a+responsabilidade+do+medico
Resumo capítulo por capítulo - A assustadora história da medicina
Obra-base: A assustadora história da medicina, de Richard Gordon, tradução de Aulyde Soares Rodrigues, 7ª edição.
Critério adotado: resumo objetivo, estruturado e fiel à ordem do texto, sem acréscimo de informações externas. O texto foi condensado de forma detalhada, privilegiando as ideias principais, repetições relevantes, exemplos secundários e observações explicativas presentes na obra.
1. Capítulo 1 - Hipócrates e tudo o mais
1.1. Visão geral da história da medicina
O capítulo começa rejeitando uma visão heroica da medicina. A história médica não é apresentada como marcha pura de idealistas em busca da saúde e da vida, mas como uma sequência irregular de ignorância, erros, mentiras úteis, becos sem saída e raros momentos de lucidez. O autor insiste que muitos avanços surgiram não de instituições respeitáveis, mas de indivíduos curiosos, teimosos, intuitivos, habilidosos ou obsessivos.
A medicina aparece como atividade que, durante séculos, vestiu o manto da realização antes de possuir descobertas realmente sólidas. O texto ironiza a tendência médica a parecer grandiosa mesmo quando sabia pouco, lembrando que as descobertas essenciais são poucas e que muitas delas chegaram acompanhadas de perigos, efeitos inesperados, doenças novas e mortes. A ideia central é que o progresso médico foi menos uma linha reta gloriosa e mais uma travessia confusa, movida por observação, acaso e correções tardias.
1.2. A medicina antiga e seus dragões
A narrativa passa rapidamente por tradições antigas. Imhotep, no Egito, é citado como figura que combinava medicina e construção monumental, ligado ao faraó Zoser e à pirâmide de Sakkarah. Na China antiga, Fu-Hsi aparece associado à acupuntura e às forças Yang e Yin, que explicavam vida, morte, masculino, feminino, força, fraqueza, sol e lua. Huang Ti é lembrado como figura envolta em lenda, supostamente antecipando a circulação do sangue muito antes de William Harvey.
O autor trata esses relatos com ceticismo. A medicina chinesa antiga é apresentada como uma mistura remota de práticas possíveis, lendas e especulações: vacinação nasal contra varíola, uso de tireoide de carneiro, cannabis, massagens, banhos frios e diagnóstico pelo pulso. A única certeza, segundo o texto, é que a humanidade antiga viveu majoritariamente sob a terapêutica da feitiçaria tradicional, amparada por ópio e vinho quando nada mais havia.
1.3. Humores, Galeno e Celsus
Os gregos substituíram os esquemas chineses por uma teoria dos quatro humores: sangue, muco, bile amarela e bile negra. A saúde dependeria da harmonia entre esses elementos. O médico dominante desse mundo foi Galeno, descrito como autoritário, seguro de si e fundador involuntário de um modelo profissional arrogante. Galeno percebeu que as artérias continham sangue, atuou como cirurgião de gladiadores e observou fenômenos que sugeriam possibilidades futuras, mas seu dogma dominou a medicina por quinze séculos.
Entre os romanos, a medicina profissional era vista como atividade inferior. Celsus, nobre e médico amador, é valorizado por sua enciclopédia De Medicina, por descrições cirúrgicas, pela atenção a sinais como calor, rubor, tumor e dor, e por intuições sobre circulação e doença mental. Outros nomes antigos, como Charaka, Susruta, Alcmeon, Empédocles, Pitágoras e Aristóteles, são citados como figuras distantes, importantes demais para ignorar, mas não desenvolvidas no capítulo.
1.4. Hipócrates e a invenção da medicina clínica
Hipócrates é apresentado como figura conhecida sobretudo pelo Juramento de Hipócrates, embora poucos médicos o conheçam integralmente. O texto menciona preceitos sobre cobrança, aparência, perfume, unhas, cabelo e conduta diante do paciente, mostrando uma preocupação antiga com a imagem profissional e com a atitude à beira do leito.
A importância de Hipócrates está na medicina clínica: observar o doente, não apenas teorizar sobre a doença. O paciente deve ser visto como um todo, incluindo seu ambiente, numa forma antiga de atenção integral. O capítulo destaca a ausculta do tórax em casos de pleurisia, a descrição da facies hippocratica, a observação da respiração de agonizantes, o uso de alcatrão como antisséptico, o tratamento de pus, fraturas e deslocamentos, além do princípio de que a própria natureza funciona como médica das doenças.
1.5. Aforismos, tradição hipocrática e custo da medicina
Hipócrates é associado a numerosos aforismos, entre eles a ideia de que a vida é curta, a arte é longa, a experiência é perigosa e o julgamento é difícil. O texto também menciona observações sobre jejum, fezes, sono, delírio, velhice, morte súbita nos obesos e gravidez em mulheres com interrupção da menstruação e enjoo.
O autor, porém, critica a tradição hipocrática como origem de uma postura corporativa segundo a qual o leigo não deveria interferir no trabalho médico. Essa tradição é confrontada com o crescimento do custo da medicina moderna: se os médicos não aprenderem também economia, a doença pode tornar-se luxo inviável para pacientes e contribuintes. Hipócrates, nesse sentido, deixa de ser apenas símbolo de sabedoria clínica e passa a representar uma tensão entre ideal médico e viabilidade social.
1.6. Esculápio, religião e a impopularidade da morte
Hipócrates é ligado iconograficamente ao cajado de Esculápio, deus da cura, filho de Apolo e Coronis. A medicina antiga é aproximada do mito, da arte e da religião, mas o capítulo logo passa ao medo da morte. A frase latina Timor mortis conturbat me resume o pavor humano diante da finitude, pavor que teria gerado tanto a religião quanto a medicina.
A Igreja antiga é descrita como hostil aos médicos porque estes interferiam no domínio da morte. A doença era explicada como pecado, e o tratamento recomendado era oração, jejum e arrependimento. O corpo era dividido entre santos especializados: São Brás para garganta, Santa Brígida para olhos, Erasmo para entranhas, Dympna para loucura, Lourenço para dores nas costas, Fiacre para dores no traseiro, Roque para pragas, Vito para a dança e Santo Antônio para o fogo causado por infecção ou ergotismo.
1.7. Anatomia proibida e Renascimento
A proibição da dissecação manteve o conhecimento anatômico superficial. Galeno lamentava a falta de anatomia, mas teve de dissecar animais. Trotula, de Salerno, associada às “damas obstetras”, também recorreu a porcos, consolando-se com a semelhança interna entre porcos e homens. Em contraste, a escola de Alexandria teria dissecado criminosos vivos, método brutal apresentado como eficaz para o aprendizado.
Com o Renascimento, a anatomia renasce. Leonardo da Vinci aparece como anatomista ocasional, autor de desenhos de corpos em corte, incluindo uma representação equivocada, mas curiosa, da relação sexual e da anatomia reprodutiva. Andreas Vesalius é o verdadeiro divisor de águas: sua obra De Humanis Corporis Fabrica corrige erros de Galeno, mostra a mandíbula como um osso único, o esterno como três ossos e desfaz a ideia de que os homens teriam uma costela a menos por causa de Eva.
1.8. Vesalius, Servetus, Harvey e o microscópio
O capítulo enfatiza que a liberdade de investigação enfrentava acusações de heresia e blasfêmia. Michael Servetus foi queimado por Calvino após descobrir a circulação pulmonar. Vesalius abandonou a anatomia, tornou-se médico da corte em Madri e acabou punido pela Inquisição após dissecar um nobre que teria se movido sob o bisturi. Eustáquio e Falópio aparecem associados às trompas que levam seus nomes.
A tradição universitária passa por Salerno, Montpellier, Leyden e Pádua. Em Pádua estudou William Harvey, que demonstrou, em 1628, que o sangue circula em circuito. A dúvida sobre como o sangue voltava ao coração foi resolvida com o microscópio, associado a Antony van Leeuwenhoek e a Marcello Malpighi, que revelou os capilares, unindo artérias e veias.
1.9. Corpo, alma e morte
O capítulo conclui com a permanência do corpo humano: o corpo moderno é o mesmo corpo primitivo, sujeito a doenças antigas. Crânios trepanados, múmias com apendicite, artrite e dentes estragados, além de dinossauros com problemas de coluna, servem para mostrar a antiguidade do sofrimento físico.
A anatomia avançou sobre cadáveres, criminosos e corpos roubados, como no caso de Burke e Hare, que vendiam mortos ao professor Robert Knox. Os anatomistas gravaram seus nomes em estruturas corporais, como Lieberkühn, Willis, Vater, Rolando, Schwann, Douglas, Alcock, Bell, Santorini, Poupart e Scarpa. A busca pela alma passa por René Descartes, que a situou na glândula pineal. O texto encerra contrapondo a linguagem orgânica de Harvey à descrição elétrica moderna do coração, reduzindo o corpo a química, eletricidade e pane final, enquanto lembra que o ser humano, ao contrário dos animais, sabe que vai morrer.
2. Capítulo 2 - Homem, micróbios e história
2.1. Micróbios como força histórica
O capítulo começa com a imagem de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells: os marcianos vencem os homens, mas morrem por não resistirem às bactérias terrestres. Essa abertura estabelece a ideia central: os microrganismos são mais antigos, numerosos e persistentes que os seres humanos. Eles moldaram prazeres, medos, guerras, ideias, hábitos de limpeza e rumos históricos.
O texto sustenta que a descoberta dos micróbios, na segunda metade do século XIX, materializou antigos medos de demônios e forças invisíveis. Antes de saber o que eram bactérias, vírus e parasitas, a humanidade já percebia vagamente que doenças podiam passar de pessoa a pessoa, por contato, ar, objetos, roupas ou convivência.
2.2. Contágio antes da teoria microbiana
O Levítico é apresentado como manual antigo de saúde pública, com normas de isolamento para lepra e quarentena para gonorreia. A febre, porém, ainda era atribuída aos deuses ou ao ar impuro, como no caso da palavra malária, ligada às emanações dos pântanos.
Em 1546, Hieronymus Fracastorius propôs que epidemias se espalhavam por sementes invisíveis, transmitidas pela respiração, pelo ar, por copos, relações sexuais, roupas, pentes, moedas e objetos contaminados, chamados fomites. Ele não descobriu que essas sementes eram seres vivos, mas antecipou a lógica do contágio.
2.3. Leeuwenhoek, Redi e a vida invisível
Em 1683, Antony van Leeuwenhoek observou, com seus microscópios, pequenos organismos nos resíduos retirados dos dentes. Esses animalículos eram bactérias em cadeias e agrupamentos. Mesmo assim, persistiu a ideia de que pequenos seres surgiam por geração espontânea em matéria putrefata.
Francesco Redi contestou essa visão ao mostrar que larvas não surgiam da carne se as moscas fossem impedidas de chegar a ela. A máxima Omne vivum ex ovo resume essa virada. O capítulo também menciona uma intuição parecida em Homero, ao falar das moscas que poderiam depositar vermes nos ferimentos de Pátroclo. Curiosamente, as larvas, antes vistas como repulsivas, reaparecem como úteis na limpeza de ferimentos sépticos.
2.4. Pasteur e a medicina pasteurizada
Louis Pasteur, químico e não médico, é apresentado como o maior médico do século XIX. Sua investigação começou com problemas econômicos: vinho avinagrado e cerveja estragada na França. Ele descobriu que a deterioração era causada por organismos microscópicos vindos do ar, e que estes podiam ser mortos pelo aquecimento, origem da pasteurização.
Pasteur também estudou doenças do bicho-da-seda, salvando a indústria da seda, e depois voltou-se para o antraz, cuja vacina reduziu drasticamente a mortalidade em ovelhas e bovinos. No caso da cólera das galinhas, uma cultura bacteriana esquecida e enfraquecida revelou a possibilidade de inoculação. Com medula de cães raivosos, Pasteur criou a vacina contra a raiva, associada ao menino pastor Juptile e ao Instituto Pasteur.
2.5. Koch e a identificação dos assassinos invisíveis
A organização alemã da bacteriologia aparece em Robert Koch, clínico rural que estudou o bacilo do antraz, suas cadeias e esporos. Koch vinculou micróbio e doença como causa e efeito, estabelecendo seus postulados: o germe deve estar presente nos casos da doença, deve crescer em cultura pura e deve reproduzir a doença em animal suscetível.
A partir daí, uma sequência de micróbios é identificada: Albert Neisser descobre o gonococo; Armauer Hansen, o bacilo da lepra; Pasteur, estreptococo e estafilococo; Karl Eberth, o bacilo do tifo; Koch, o da tuberculose e o da cólera; Friedrich Loeffler e Edwin Klebs, o da difteria; Albert Fränkel, o da pneumonia; Arthur Nicolaier, o do tétano; Theodor Escherich, o bacilo coli; David Bruce, a febre de Malta; Anton Weichselbaum, a meningite; Richard Pfeiffer, o bacilo equivocadamente associado à gripe; William Welch, a gangrena gasosa; Shibasaburo Kitasato e Alexandre Yersin, a peste bubônica.
2.6. Vírus, salmonela e doenças modernas
O capítulo passa então aos vírus, percebidos quando doenças como mosaico do tabaco e febre aftosa atravessavam filtros que barravam bactérias. Os vírus são menores, dependem de células vivas e podem ser extremamente simples, quase substâncias químicas vivas. Eles causam poliomielite, pneumonias, resfriados e verrugas; até as bactérias podem adoecer por bacteriófagos.
A salmonela ilustra a proliferação das classificações bacterianas e sua relevância moderna. O autor ironiza como inovações humanas, como fornos de micro-ondas, comida congelada, ar-condicionado e práticas econômicas na criação de galinhas, criaram condições novas para inimigos invisíveis. A doença dos legionários e o pânico britânico com ovos contaminados exemplificam a continuidade do problema.
2.7. Malária, medicina tropical e mosquitos
A investigação das doenças tropicais é ligada ao império britânico. Susruta já suspeitava dos mosquitos na malária; Marco Polo observou mosquiteiros; Alphonse Laveran descobriu o plasmódio no sangue de doentes; Patrick Manson mostrou a transmissão de filárias por mosquitos; Ronald Ross, orientado por Manson, encontrou o parasita da malária no estômago do mosquito anófeles.
A febre amarela no Canal do Panamá mostra a importância prática dessa descoberta. A tentativa francesa fracassou com milhares de doentes e mortos. Os americanos, com James Carroll, Jesse Lazear, Walter Reed e William Gorgas, atacaram o mosquito transmissor com métodos militares, reduzindo drasticamente a mortalidade. A doença do sono é ligada à mosca tsé-tsé, ao tripanossoma, a David Bruce e às observações de David Livingstone.
2.8. Quinino, sol, sal e imunização
O quinino é apresentado como remédio tradicional contra a malária, associado à história da condessa Chinchon, à casca de quina-quina, aos jesuítas e à difusão europeia. O capítulo menciona também medicamentos preventivos modernos, inseticidas e a resistência dos parasitas.
O medo britânico da insolação é tratado com ironia: capacetes de cortiça, guarda-sóis, pavilhões de críquete sem sol e a crença equivocada de que a insolação viria da luz solar. O exemplo de Victor Horsley reforça a ideia de que a insolação estava ligada à deficiência de sal, não ao sol em si.
A imunização aparece em Almroth Wright, que previu o médico do futuro como imunizador. Sua vacina contra a febre tifóide foi inicialmente ridicularizada, mas tornou-se importante na Primeira Guerra. O capítulo menciona ainda antissoros produzidos em cavalos, especialmente contra a difteria, e o atraso em aplicar de modo amplo medidas preventivas eficazes.
2.9. Tifo, peste, gripe e ameaças futuras
O capítulo amplia o papel dos vetores: mosquitos, ratos, pulgas e piolhos. O tifo exantemático, estudado por Howard Ricketts e associado às rickettsias, devastou exércitos, cruzadas, guerras e campos de concentração. Virchow surge como figura médica e política, associada à patologia celular e à organização sanitária.
A peste bubônica é narrada a partir de Camus, Procópio, Boccaccio, Chaucer, Pepys, Thomas Sydenham, Nathaniel Hodges e Daniel Defoe. O capítulo percorre a Morte Negra, a peste de Londres e a tentativa de purificar o ar com fogueiras. No fim, as ameaças futuras são associadas à gripe de 1918, ao vírus de Marburg, à AIDS e a vírus importados sem cura. O fechamento lembra que nem todas as bactérias são inimigas: algumas sustentam plantas, pastos e alimentos.
3. Capítulo 3 - Descobertas no escuro
3.1. Descobrir antes de compreender
O capítulo parte da ideia de que grandes descobertas médicas ocorreram “no escuro”: práticas eficazes foram encontradas antes de seus mecanismos serem compreendidos. O autor aproxima Jenner, Lister, Lind, Withering, Semmelweis, Fleming, Florey e Domagk por um traço comum: todos tocaram em soluções decisivas sem que a teoria completa estivesse disponível no primeiro momento.
A ordem do capítulo mostra a medicina passando de observações empíricas para explicações posteriores. Vacinação, antisepsia, nutrição, farmacologia cardíaca, higiene obstétrica e antibióticos aparecem como avanços que começaram com sinais práticos, acidentes, tradições populares ou experiências incompletas.
3.2. Jenner, ordenhadoras e varíola
A seção inicial recria, com referência a Thomas Hardy e à figura da ordenhadora, a lenda segundo a qual a varíola bovina protegia contra a varíola humana. As ordenhadoras de Gloucestershire teriam pele admirada porque, ao lidar com vacas infectadas, desenvolviam uma forma leve da doença e ficavam imunes à varíola humana.
Antes de Edward Jenner, já existiam práticas de inoculação, inclusive com pus de varíola humana. O método podia produzir imunidade, mas também podia causar a própria doença e matar. Jenner formalizou a observação regional por meio de casos como o de Sarah Nelmes e do menino James Phipps, demonstrando que a vacinação com material de varíola bovina era mais segura que a inoculação humana.
3.3. Terror da varíola e triunfo da vacinação
O século XVIII é descrito como dominado pelo medo da varíola. A doença matava, desfigurava, atravessava famílias e até servia como marca de identificação. John Evelyn, Dick Turpin, Thomas Dimsdale, Catarina, a Grande, e membros da realeza aparecem como exemplos do impacto social da doença e da difusão da inoculação.
A vacinação substituiu a inoculação porque não transmitia varíola humana. Mesmo assim, Jenner enfrentou resistência da Royal Society, medo popular de que os vacinados se tornassem vacas, disputas médicas, rejeições e, mais tarde, movimentos antivacinação. O capítulo acompanha a vitória gradual da vacinação, sua adoção em massa, sua obrigatoriedade, os protestos contra ela, sua utilidade durante guerras e, finalmente, o momento em que a varíola se tornou rara o suficiente para questionar a vacinação rotineira.
3.4. Lister, hospitalismo e limpeza
A infecção hospitalar, chamada no capítulo de hospitalismo, é apresentada como ameaça devastadora nas cirurgias. Antes da aceitação bacteriana, pacientes morriam de infecção, septicemia e gangrena em proporções aterradoras. Joseph Lister, influenciado pela ideia de germes e pelo ácido carbólico, procurou matar o inimigo invisível antes que ele infectasse feridas cirúrgicas.
O burro mecânico de Lister, aparelho para vaporizar ácido carbólico, simboliza a fase antisséptica da cirurgia. Com o tempo, a antissepsia de matar germes na operação foi substituída pela assepsia, isto é, impedir a entrada dos germes por meio de autoclaves, água fervente e limpeza rigorosa. O texto ressalta que a cirurgia não foi resolvida por um único homem, mas por uma mudança progressiva de mentalidade.
3.5. Escorbuto, limões, limas e vitaminas
O escorbuto é descrito por sintomas brutais: gengivas inchadas, sangramentos, dentes amolecidos, fraqueza, feridas que não cicatrizavam e morte. A doença devastou marinheiros, exploradores e frotas. Vários remédios tradicionais foram tentados, mas o ponto decisivo foi o uso de limão e lima, associado a James Lind e a práticas navais anteriores.
O capítulo mostra que a eficácia do limão foi percebida antes de se conhecer a vitamina C. A explicação veio depois, com Frederick Gowland Hopkins, a noção de vitaminas e a cristalização da vitamina C por Szent-Györgyi. O autor aproveita para combater exageros modernos: vitaminas previnem e corrigem deficiências, mas não tornam pessoas já saudáveis mais inteligentes, mais fortes ou milagrosamente resistentes.
3.6. Digitalis, hidropsia e doença renal
A digitalis, ou dedaleira, entra pela medicina popular. William Withering identificou a planta como elemento ativo numa mistura usada contra hidropsia, isto é, acúmulo de líquido no corpo. Withering percebeu que, em certos casos, a melhora dependia do coração estimular a eliminação do excesso de líquido.
O texto distingue depois hidropsia como sintoma, não doença única. Richard Bright relacionou inchaço, albumina na urina e alterações renais, deixando seu nome na doença de Bright. Assim, o capítulo mostra outra passagem do remédio empírico para a compreensão fisiopatológica.
3.7. Semmelweis e a febre puerperal
Ignaz Semmelweis aparece como figura trágica. Na Primeira Clínica Obstétrica de Viena, mulheres morriam de febre puerperal em índice muito maior que na Segunda Clínica, onde atuavam parteiras. Semmelweis percebeu que estudantes vinham de autópsias e levavam partículas infecciosas às mulheres em trabalho de parto.
A solução foi lavar as mãos com solução clorada antes dos exames. A mortalidade caiu, mas Semmelweis foi rejeitado, ridicularizado e terminou num asilo, morrendo de infecção após ferimento. O capítulo contrasta seu fim com as honras dadas a Lister, reforçando a injustiça frequente na história das descobertas.
3.8. Penicilina, sulfas e crédito científico
A parte final desloca-se para Oxford durante a Segunda Guerra. Howard Florey, com Ernst Chain e equipe, revisou o trabalho de Alexander Fleming sobre o bolor Penicillium, que destruía estafilococos em placas de Petri. Fleming observou o fenômeno, mas Florey percebeu seu potencial terapêutico dentro do corpo.
A produção inicial era improvisada, com equipamentos domésticos e hospitalares, e a primeira aplicação importante ocorreu em paciente com septicemia. A penicilina foi depois fabricada em escala pelos americanos. O capítulo também destaca Gerhard Domagk, Heinrich Hörlein, a sulfonamida, a indústria I. G. Farben, a descoberta da sulfanilamida e a transformação das sulfas em medicamentos eficazes contra infecções. A conclusão discute o crédito: quem deve ser chamado de pai da penicilina, quem teve a ideia, quem a tornou prática e quem convenceu o mundo.
4. Capítulo 4 - A conquista da dor
4.1. Anestesia como descoberta de dentistas
O capítulo apresenta a anestesia como conquista decisiva da medicina, mas nascida de dentistas e espetáculos de entretenimento, não de instituições solenes. A dor cirúrgica, antes inevitável, foi atacada por experiências com óxido nitroso, éter e depois clorofórmio.
O ponto de partida é Horace Wells, dentista de Hartford, que percebeu o potencial do gás hilariante após demonstrações de Gardner Quincy Colton. Wells tentou aplicar o óxido nitroso em extração dentária, mas sua apresentação pública fracassou, arruinando sua carreira e obscurecendo seu mérito inicial.
4.2. Éter, Morton e disputas de prioridade
William Morton surge como figura central na difusão do éter. O éter, conhecido desde Valerius Cordus e estudado por Michael Faraday, já era usado em “farras” recreativas. Morton buscou transformá-lo em negócio, disfarçando-o sob o nome Letheon, tentando patenteá-lo e vendê-lo por meio de inaladores.
A operação pública com éter transformou a cirurgia, mas também abriu disputas de prioridade. Charles Thomas Jackson reivindicou participação; Crawford Long afirmou ter usado éter anos antes; Henry Hill Hickman havia realizado experiências com animação suspensa por dióxido de carbono. O capítulo enfatiza que a glória da anestesia ficou cercada de ambição, rancor, oportunismo e finais pessoais infelizes, especialmente o de Wells.
4.3. Simpson, clorofórmio e religião
James Young Simpson, professor de obstetrícia em Edimburgo, descobriu o uso anestésico do clorofórmio ao experimentá-lo com assistentes após o jantar. O clorofórmio substituiu rapidamente o éter em muitos contextos por ser mais potente, agradável e fácil de administrar, embora mais perigoso.
O uso do clorofórmio no parto gerou objeções religiosas, pois a dor do parto era vista por alguns como punição bíblica. A resistência diminuiu quando Rainha Vitória aceitou anestesia no nascimento de Leopoldo. O capítulo também lembra a utilidade militar da anestesia e a crítica de George Bernard Shaw, segundo a qual o clorofórmio permitiu que cirurgiões medíocres se aventurassem onde antes só a coragem e a velocidade importavam.
4.4. Morte pelo clorofórmio e evolução dos aparelhos
O clorofórmio tinha um defeito fatal: podia matar de forma rápida e inesperada por parada cardíaca. O caso de Hannah Greener, morta durante a remoção de uma unha, inaugura a preocupação com a síncope do clorofórmio. Discussões médicas, experimentos com animais e controvérsias em Hyderabad mostram que a anestesia também criou novos riscos.
A técnica anestésica evoluiu com aparelhos complexos. John Snow tornou-se o primeiro anestesista profissional, inventou inaladores e aplicou método científico à administração do éter e do clorofórmio. Depois vieram sistemas de máscaras, tubos, câmaras de pressão, bolsas, bexigas de porco e dispositivos nasais. Ivan Magill, trabalhando com Harold Gillies, aperfeiçoou a intubação para cirurgias faciais, evitando que cirurgião e anestesista disputassem o mesmo campo.
4.5. Profissionalização da anestesia
Apesar de sua importância, o anestesista foi por muito tempo visto como auxiliar menor, o homem do pano e da garrafa. O capítulo acompanha a passagem dessa função desprezada para uma especialidade acadêmica. Em 1937, Oxford criou a primeira cátedra europeia de anestesia, financiada por Lord Nuffield e ocupada por Robert Macintosh, inventor de laringoscópio aperfeiçoado.
O capítulo termina com anestesia local, curare, paralisia muscular e anestesia moderna. Walter Raleigh é lembrado por ter encontrado o veneno paralisante usado por povos sul-americanos. Harold Randall Griffith, em Montreal, experimentou a combinação de anestesia e paralisia em 1942. A conclusão reconhece uma ironia persistente: a anestesia revolucionou a medicina, mas ainda não se sabe plenamente como os anestésicos funcionam, assim como não se sabe plenamente por que dormimos.
5. Capítulo 5 - A bengala com cabo de ouro
5.1. O médico decorativo e a autoridade profissional
O capítulo abre com o médico do século XVII como figura inútil, mas elegante: roupas refinadas, peruca e bengala com cabo de ouro contendo vinagre aromático contra infecção. A bengala torna-se símbolo de prestígio e de autoridade, mais decorativo que terapêutico.
A biografia da bengala reúne médicos da moda, como John Radcliffe, Richard Mead, Anthony Askew, David Pitcairn e Matthew Baillie, além de nomes como William Heberden, James Parkinson, William Gowers e Hans Sloane. O capítulo mostra uma medicina socialmente poderosa, ligada a reis, aristocratas, clubes, universidades, coleções e grandes fortunas, mas ainda limitada na capacidade de curar.
5.2. Diagnóstico sem tratamento
A medicina vitoriana é descrita como brilhante para diagnosticar doenças que não sabia curar. O capítulo enumera instrumentos e métodos: percussão, com Leopold Auenbrugger e Corvisart; auscultação, com Laënnec e o estetoscópio; termômetros clínicos reduzidos por Thomas Clifford Allbutt; gráficos de temperatura de Wunderlich; e exames como o oftalmoscópio.
A descoberta dos raios X por Röntgen e do rádio por Pierre e Marie Curie amplia a capacidade de ver o invisível. O capítulo ressalta a nobreza e a tragédia: Röntgen recusou exploração comercial e morreu pobre; Marie Curie morreu de efeitos ligados à exposição ao rádio. O diagnóstico avança, mas o tratamento ainda fica atrás.
5.3. Gota, clubes e doenças crônicas
A gota é apresentada como doença de cavalheiros, ligada a clubes, banquetes, vinho do porto e privilégio social. O capítulo descreve a banqueta para o pé inflamado, a sensibilidade dolorosa do dedo e as descrições clínicas de Thomas Sydenham, que também sofria da doença.
A narrativa transforma a gota em símbolo de uma medicina de sociabilidade: doenças crônicas criam clubes, hábitos, identidades e comunidades. O Tratado de Methuen, o consumo de vinho do porto e a cultura masculina inglesa aparecem como pano de fundo para uma doença que deixou de ser apenas aristocrática e tornou-se mais democratizada.
5.4. Florence Nightingale e a enfermagem
Florence Nightingale é tratada como um dos grandes eixos não médicos da medicina, ao lado de Darwin e Pasteur. O autor desmonta a imagem sentimental da “dama da lâmpada”, destacando sua capacidade política, administrativa e estatística. Em Scutari, ela organizava informações, cartas, enterros, suprimentos e reformas, mais do que simplesmente consolar pacientes.
A enfermagem profissional nasce nesse ambiente de guerra, sujeira, burocracia e disciplina. Notas de Enfermagem aparece como obra prática, e Florence é descrita como figura autoritária, eficiente, peculiar e resistente a sentimentalismos. Sua sexualidade é mencionada como debate literário, mas o texto conclui que isso é irrelevante diante de suas qualidades e de sua obra.
5.5. Mulheres médicas
O capítulo aborda a resistência masculina à entrada de mulheres na medicina. William Jenner preferiria enterrar a filha a vê-la estudante de medicina; Lister também demonstrava reservas quanto ao ensino médico feminino. Contra isso, surgem Elizabeth Blackwell, primeira da classe em Genebra, Elizabeth Garrett Anderson e Sophia Jex-Blake.
O texto mostra que as mulheres passaram de presença rejeitada a maioria entre estudantes de medicina na Grã-Bretanha. Ainda assim, algumas especialidades, como cirurgia, permaneceram marcadas por barreiras práticas e sociais. O autor compara a resistência médica à resistência da Igreja da Inglaterra às mulheres sacerdotes, vendo em ambas o temor masculino de substituição.
5.6. Medicina experimental, endocrinologia e medicamentos
O início do século XX ainda era pobre em armas terapêuticas: mercúrio para sífilis, digitalis para o coração, iodo para bócio, colchicina para gota, cloral para nervos e poucos recursos efetivos. A virada aparece com Claude Bernard, que estabelece a importância do laboratório, do meio interno, do fígado, do pâncreas e da fisiologia experimental.
Pavlov entra pelo reflexo condicionado. A endocrinologia surge com Graves, Cushing e Addison, associada à tireoide, pituitária, suprarrenais e anemia perniciosa. O capítulo passa então ao arsenal moderno: insulina de Banting e Best, vitaminas de Hopkins, antibióticos, anti-hipertensivos, antiarrítmicos, antidepressivos, anticonvulsivos, diuréticos, broncodilatadores, esteróides, drogas contra úlcera, Parkinson e câncer. A medicina enfim passa a curar mais, mas isso gera novas tensões econômicas.
5.7. ADN, genética e Darwin
O capítulo apresenta a hélice dupla do ADN por meio de Watson e Crick, em Cambridge, com referência ao Eagle Pub e à cerveja Abbot. A corrida científica envolve Maurice Wilkins, Rosalind Franklin e Linus Pauling, marcada por vaidades, rivalidades e injustiças. Rosalind Franklin é tratada como peça decisiva e pouco reconhecida.
A genética é explicada por cromossomos, genes, ADN, ARN e herança. Em seguida, o texto retrocede a Darwin, ao HMS Beagle, às Galápagos, à seleção natural e a Mendel, que estudou ervilhas em Brno. O capítulo encerra com o futuro inquietante da medicina genética: identificar genes de anemia falciforme, hemofilia, fibrose cística, Huntington, diabetes, câncer, hipertensão e arteriosclerose pode permitir prevenção, aborto, seleção e manipulação, mas também cria dilemas morais que a inteligência humana talvez não saiba resolver.
6. Capítulo 6 - Os barbeiros demoníacos
6.1. Pólvora e nascimento da cirurgia moderna
A cirurgia moderna é apresentada como filha da pólvora. As armas de fogo produziram ferimentos mais complexos que lâminas e flechas: carne queimada, chumbo, tecidos rasgados e infecção. A violência técnica obrigou cirurgiões a aprenderem mais.
Ambroise Paré surge como Pai da Cirurgia Moderna. Durante campanha militar, sem óleo fervente para tratar ferimentos a bala, usou uma emulsão mais suave e percebeu que os pacientes se saíam melhor. Paré abandonou práticas brutais, ligou artérias, valorizou observação prática e aboliu a castração rotineira como cura de hérnia. Mesmo huguenote em tempos perigosos, sobreviveu por proteção real.
6.2. Guerra, ambulâncias e sobrevivência
A guerra continua sendo estímulo cirúrgico. Dominique Jean Larrey, cirurgião de Napoleão, criou a ambulância voadora, retirando feridos do campo de batalha. Atuou em campanhas como Abukir, Borodino e Waterloo, realizando grande número de amputações e organizando socorro em escala militar.
O capítulo mostra que a cirurgia tornou a guerra menos letal. A tala de Hugh Owen Thomas, adotada na Primeira Guerra para fraturas do fêmur, reduziu a mortalidade. Comparações entre guerra civil americana, Primeira e Segunda Guerras Mundiais indicam queda progressiva de mortes entre feridos. A mesma lógica se aplica aos acidentes de automóvel: a cirurgia melhora a chance de sobrevivência, embora a humanidade continue inventando maneiras confortáveis de se matar.
6.3. De barbeiros a cirurgiões
A história social da cirurgia é mais linear que a da clínica porque os cirurgiões começaram como barbeiros-cirurgiões. Em Paris, Londres e Escócia, barbeiros, guildas e cirurgiões acadêmicos disputaram status, privilégios e cadáveres para dissecação. O poste vermelho e branco dos barbeiros remete a curativos e sangrias.
Com o tempo, os cirurgiões se afastaram dos barbeiros, conquistaram autonomia institucional e construíram salões, companhias e colégios. A passagem do ofício manual para profissão respeitada acompanha a ascensão da anatomia, da técnica e da ambição social.
6.4. Pott, fraturas e antigos mestres
Percival Pott ilustra a importância de imobilização e transporte cuidadoso. Ao fraturar a perna, evitou amputação graças ao manejo prudente; depois escreveu sobre fraturas. Seu nome permanece ligado à fratura de Pott, ao aneurisma, à gangrena e ao câncer dos limpadores de chaminés. Abraham Colles é lembrado pela fratura do rádio que leva seu nome.
Entre os antigos mestres aparecem John Abernethy, rude e hábil; Astley Cooper, cortês e rico; Benjamin Brodie, primeiro presidente do Conselho Geral de Medicina; James Syme, associado a amputações; Guillaume Dupuytren, “bandido” do Hôtel Dieu; Philip Syng Physick, pai da cirurgia americana; e William Worrall Mayo, ligado à futura Clínica Mayo.
6.5. Civilização cirúrgica e pedras da bexiga
James Paget representa a civilização da cirurgia. O cirurgião antigo precisava de coração de leão, olhos de falcão e mãos de mulher; o cirurgião moderno reorganiza o interior do corpo com ciência, luz, anestesia e assepsia. Cavidades corporais deixam de ser territórios proibidos.
A seção sobre litotomia mostra o terror das pedras de bexiga. Desde múmias egípcias até litotomistas ambulantes, a extração de pedras foi uma arte perigosa. William Cheselden fazia o procedimento em segundos. O caso de Napoleão III, escondendo uma pedra enorme na bexiga sob diagnóstico de reumatismo, mostra como política, vergonha e cirurgia se misturavam.
6.6. Cirurgia doméstica, apendicite e o rei
Até a década de 1930, grandes operações podiam ocorrer em casas, clínicas adaptadas ou mesas de cozinha. O capítulo contrasta isso com a cirurgia moderna, cheia de monitores, equipes e aparelhos. Lister circulava por Londres com seu aparelho antisséptico; cirurgiões operavam fora de teatros especializados.
A apendicite ganha visibilidade com Frederick Treves, Charles McBurney e o caso de Eduardo VII, operado pouco antes da coroação. A operação real popularizou o diagnóstico e salvou vidas ao substituir termos vagos como peritiflite. Treves também é lembrado por sua relação com Thomas Hardy e com o Homem Elefante.
6.7. Cirurgia plástica e transplantes
A cirurgia plástica é associada a narizes cortados por adultério na Índia, a Gasparo Tagliacozzi e à restauração facial com enxertos. A Primeira Guerra dá novo impulso com Harold Gillies e cirurgias de reconstrução de rosto, seguidas por McIndoe e pela cirurgia estética.
O capítulo chega aos transplantes. Christian Barnard realiza o primeiro transplante cardíaco; antes disso, transplantes renais entre irmãos já haviam mostrado possibilidade de substituir órgãos. A rejeição imunológica é o grande obstáculo. A colheita de órgãos de pacientes com morte cerebral é descrita com crueza, mas o texto insiste que o doador já está morto e que o cartão de doador pode transformar morte em vida para outros.
7. Capítulo 7 - O sexo e seus inconvenientes
7.1. Sexo, prazer, gravidez e doença
O capítulo parte da tensão entre prazer sexual, gravidez e doença. James Boswell é usado como exemplo cômico e desagradável: teve múltiplas crises de gonorreia, muitos filhos e relação ambígua com a camisinha, que via como proteção necessária e incômodo no prazer.
As camisinhas antigas eram feitas de tripa de carneiro ou linho, laváveis e vendidas discretamente. A prevenção era associada tanto a doenças venéreas quanto à gravidez indesejada. O texto apresenta o sexo como campo onde saúde pública, moralidade, comércio e hipocrisia se encontram.
7.2. Controle de natalidade e moralidade
A contracepção é situada contra a moral religiosa, especialmente católica, que opunha resistência ao controle artificial da reprodução. Métodos como ritmo menstrual, amamentação prolongada e coito interrompido são descritos como incertos. Thomas Malthus entra como teórico do risco populacional, listando miséria, guerra, epidemia e doenças como freios naturais ao crescimento humano.
Charles Bradlaugh, Annie Besant e o panfleto Frutos da filosofia aparecem na luta pela divulgação contraceptiva. A perseguição judicial, a venda de obras confiscadas e o sucesso editorial mostram que a repressão estimulou a circulação. O capítulo também ressalta a mutabilidade da moral social, comparando costumes britânicos, holandeses, franceses, polinésios e fijianos.
7.3. Camisinha, Marie Stopes e AIDS
A vulcanização da borracha tornou a camisinha mais resistente e prática. No século XX, ela continuou cercada de vergonha e compras discretas. Marie Stopes popularizou a discussão sexual com Amor no casamento e abriu uma clínica de controle de natalidade, enfrentando disputas, processos e oposição católica.
O nome inglês condom é tratado como incerto, talvez ligado a um doutor, coronel ou cortesão inexistente. O capítulo encerra a seção lembrando que a camisinha voltou a ser objeto sanitário central com a AIDS, diante da qual a oposição moral se tornou menos confortável.
7.4. Pílula, aborto e começo da vida
A pílula anticoncepcional é apresentada como libertação feminina comparável à calandra no século XIX. A pílula do dia seguinte reacende controvérsias porque parece deslocar a questão da prevenção para algo próximo do aborto.
O capítulo lembra Regnier de Graaf, a descoberta do folículo ovariano e a longa demora humana em compreender a concepção. A legislação sobre aborto é discutida por meio de Alec Bourne, que operou uma jovem vítima de estupro e enfrentou julgamento, levando o tribunal a considerar não apenas a vida, mas a saúde da mulher. A Lei de Fertilização e Embriologia Humanas e o limite da 24ª semana mostram como o Parlamento assumiu o papel de definir juridicamente o começo da vida humana.
7.5. Sífilis e nomes nacionais da doença
A sífilis aparece após a viagem de Colombo à América. Nicolo Leoniceno, Giovanni di Vigo e Hieronymus Fracastorius são citados na descrição da doença: pústulas, úlceras, bolhas, dores, febre, cegueira, decomposição da carne e morte. A doença recebeu nomes nacionais conforme a rivalidade política: francesa, napolitana, alemã, polonesa, turca.
A sífilis atravessava moralidade e vergonha. Muitos negavam contato com prostitutas, e Dupuytren respondia com ironia. A doença podia iniciar com cancro, seguir com erupções e retornar anos depois com aneurismas, desequilíbrio, loucura e efeitos nos filhos.
7.6. Diagnóstico, tratamento e obstetrícia
O capítulo menciona suspeitas históricas de sífilis em figuras como Henrique VIII, Oscar Wilde e Lord Randolph Churchill, mas ressalta a dificuldade de diagnóstico antes da reação Wassermann, de 1906. O micróbio Treponema pallidum foi combatido por Paul Ehrlich com a injeção 606 e, depois, pela penicilina, adotada em massa pelo exército americano em 1944.
A obstetrícia e a ginecologia são tratadas como áreas sem história gloriosa. Partos eram tradicionalmente domínio de parteiras e manuais como The Byrth of Mankynde e Rosengarten, derivado de Eucharius Röslin e de Soranus. O século XVIII traz o parteiro masculino, como William Smellie. A ginecologia cirúrgica surge com Ephraim McDowell, J. Marion Sims, o espéculo, a posição de Sims e operações como histerectomia e clitoridectomia, frequentemente aplicadas com excesso e ideias precárias sobre o corpo feminino.
8. Capítulo 8 - Becos sem saída
8.1. Tratamentos inúteis como descoberta tardia
O capítulo defende que uma das grandes descobertas da medicina é perceber, tarde demais, que muitos tratamentos são inúteis. A história médica é cheia de modas terapêuticas defendidas com convicção e abandonadas depois como absurdas.
A ideia central é que o entusiasmo profissional pode ser tão perigoso quanto a ignorância. Quando uma explicação se torna moda, cirurgiões e médicos passam a ver a mesma causa em todos os pacientes, e a terapêutica vira culto.
8.2. Arbuthnot Lane e a obsessão pelo cólon
Sir Arbuthnot Lane transforma o cólon em centro de uma teoria sobre intoxicação e doença. O intestino grosso é descrito em sua anatomia e função, mas Lane passa a vê-lo como origem de males amplos, recomendando intervenções radicais e esvaziamento permanente.
Influenciado por ideias sobre bactérias intestinais e longevidade, inclusive por Ilya Mechnikoff, Lane defendeu dietas, cirurgias e remoções intestinais. O capítulo mostra que sua obsessão, mesmo bem-intencionada, poderia causar dano comparável ao de um criminoso, pois aplicava uma ideia estreita a pacientes diversos.
8.3. Cirurgias da moda
O capítulo enumera outras modas: rins flutuantes, aderências abdominais, amígdalas e adenoides, focos sépticos, raspagens, remoções e operações sobre nervos simpáticos. Muitas dessas intervenções eram feitas para sintomas vagos e só mais tarde se percebeu que as causas eram raras, inofensivas ou criadas pela própria cirurgia.
A conclusão é amarga: operações inúteis continuam existindo, mas só serão reconhecidas como inúteis quando forem abandonadas e substituídas por outras modas. A crítica não é à cirurgia em si, mas à confiança excessiva em diagnósticos elegantes demais.
8.4. Uroscopia e diagnóstico teatral
A uroscopia, exame da urina em frascos, é apresentada como prática antiga e pictórica, presente em quadros de Jan Steen, David Teniers e Gerard Dou. Médicos interpretavam cor, sedimento e aparência da urina como se fossem enólogos examinando vinho.
O capítulo associa a uroscopia à clorose, doença verde das adolescentes, e a diagnósticos por observação social. Um curandeiro adivinha dados de uma família não pela urina, mas por pistas externas; Joseph Bell, professor de Arthur Conan Doyle, diagnostica pela observação, inspirando Sherlock Holmes. A uroscopia desaparece quando a urina passa a ser entendida como solução química, menos romântica e mais objetiva.
8.5. Sanguessugas e sangria
As sanguessugas foram usadas durante séculos para sugar doenças. O capítulo menciona Wordsworth, o apanhador de sanguessugas, a palavra inglesa leech, a tradição de sangrar, purgar, provocar vômito e suor. A sanguessuga era vista como modo suave de sangria, adequado a mulheres, crianças e pacientes pagantes.
Broussais representa o excesso sanguinário: diagnosticava quase tudo como gastroenterite e aplicava jejuns e dezenas de sanguessugas. John Coakley Lettsom resume a medicina antiga no ciclo de purgar, sangrar e suar o paciente, deixando a morte por conta do destino. A sanguessuga reaparece modernamente em usos específicos, como cirurgia plástica e hematomas, agora sem a pretensão de curar tudo.
8.6. Pneumonia, tuberculose e sanatórios
A pneumonia lobar é tratada como exemplo de impotência médica. Livros de 1904 recomendavam repouso, leite, caldo, gelo, mostarda, terebintina, brandy, sanguessugas e soros pouco eficazes. Almroth Wright tentou prevenir e tratar pneumonia com vacinas e soros, mas fracassou diante das variedades de pneumococos.
A tuberculose aparece como doença literária e familiar, ligada a John Keats, às irmãs Brontë, Robert Louis Stevenson, D. H. Lawrence, George Orwell e Somerset Maugham. Tratamentos em sanatórios, ar frio, repouso e pneumotórax artificial buscavam descansar o pulmão, mas a transmissão infecciosa era percebida antes de ser plenamente aceita. Villemin suspeitou da transmissibilidade, mas foi ignorado antes de Koch identificar o bacilo.
8.7. Antibióticos e vivissecção
O capítulo termina com o desaparecimento de antigas terapias inúteis diante dos antibióticos. Pneumonia, septicemia, difteria, febre tifóide, tifo, gonorreia, erisipela e outras infecções passaram a ser tratáveis. A medicina eficaz é datada simbolicamente de 1932, quando Domagk percebeu que camundongos infectados e tratados com sulfanilamida sobreviviam.
O texto defende a experimentação animal legal e humanitária como condição para esses avanços. Critica os antivivisseccionistas por confusão moral, lembrando que medicamentos eficazes não surgiriam sem testes em animais. A discussão culmina no julgamento de Nuremberg e na ambiguidade de cientistas ligados a regimes e indústrias problemáticas.
9. Capítulo 9 - Práticas estranhas
9.1. Medicina caseira e crença popular
O capítulo reúne práticas populares e absurdas: passar crianças por galhos de freixo, transferir verrugas para pedras, usar batatas contra resfriado e reumatismo, comer misturas vegetais para vigor sexual ou contracepção. A medicina caseira aparece como campo de analogias, simpatias, objetos mágicos e confiança sem prova.
A lista inicial mostra que a medicina alternativa e doméstica prospera porque promete controle simples sobre males comuns. O tom é satírico, mas a função é clara: revelar como crenças médicas se organizam por tradição, imaginação e esperança.
9.2. Águas, banhos e lama
Bath representa a medicina das águas. O capítulo lembra Jane Austen, Northanger Abbey, Tobias Smollett, leis que garantiam banhos aos pobres e a transformação social dos balneários. As águas eram vendidas como terapêuticas, mas também como cenário literário, social e comercial.
James Graham amplia o espetáculo com banhos de terra, templos da saúde, “leito celestial”, eletricidade, fertilidade e deusas em roupas transparentes. Emma Lyons, futura Lady Hamilton, aparece entre suas assistentes. A medicina vira teatro erótico, místico e publicitário.
9.3. Toque real, mesmerismo e herbalismo
O Toque Real é apresentado como cura do Mal do Rei, praticada por reis como Carlos II, Eduardo, o Confessor, Clóvis e Carlos X. A crença sobreviveu durante séculos, mesmo em épocas de avanço científico.
O mesmerismo surge com Franz Mesmer, magnetos, fluidos, crises e teatralidade terapêutica. Após investigações e expulsões, sua prática deixou traços no hipnotismo, ainda usado para influenciar hábitos como fumar.
O herbalismo é tratado com mais ambivalência. Ervas podiam aliviar dores ou envenenar; por isso precisavam de classificação. Dioscórides e Nicholas Culpeper aparecem na tradição de catalogação e popularização das ervas, enquanto o autor ironiza a mistura de conhecimento útil e crença astrológica.
9.4. Osteopatia, homeopatia e medicina alternativa
A seção sobre ossos menciona a “Louca Sally” Mapp, Herbert Barker, lordes médicos, Parlamento e a disputa sobre licenciamento da osteopatia. O texto reconhece em Barker um “dom de curar”, mas rejeita a transformação desse dom em autoridade médica ampla.
A homeopatia aparece com John Brown, Samuel Hahnemann e a tradição real britânica. A crítica central é a diluição extrema: para o autor, sua vantagem está menos na ciência e mais no mistério, no consolo e na esperança do paciente. A medicina alternativa é comparada à astrologia diante da astronomia: persiste porque o ser humano em sofrimento agarra qualquer possibilidade.
10. Capítulo 10 - Freud, a governanta inglesa e o cheiro de pudim queimado
10.1. Freud e os casos exemplares
O capítulo começa com Sigmund Freud e seus quatro casos famosos: Dora, Pequeno Hans, Homem-Rato e Homem-Lobo. Esses casos são apresentados como tentativas de convencer um mundo médico indiferente da importância da personalidade, da sexualidade e do inconsciente.
O autor reconta os casos com ironia, especialmente a interpretação sexual do medo de cavalos do Pequeno Hans, os conflitos familiares de Dora e as construções simbólicas de Freud. A psicanálise aparece como força intelectual imensa, mas também como campo de interpretações ousadas, às vezes excessivamente confiantes.
10.2. A governanta inglesa e a paródia freudiana
As seções datadas em setembro e outubro apresentam uma narrativa ficcional com Miss Robinson, governanta inglesa que consulta Freud em Viena. O cenário inclui a rua de Freud, o Allgemeines Krankenhaus, o canal do Danúbio e o ambiente intelectual vienense.
A consulta satiriza o método freudiano. Freud busca pai, sexualidade, guarda-chuva, sonhos e símbolos fálicos; Miss Robinson responde com espírito inglês, minimização e inversões irônicas. A paciente acaba compreendendo e usando a lógica do próprio Freud, fazendo da análise um jogo de interpretação no qual terapeuta e paciente se espelham.
10.3. O fantasma de Freud
O capítulo afirma que todos conhecem Freud como conhecem Deus, embora sua obra extensa repouse em porões da psiquiatria. Sua importância está em ter aberto a percepção de que há muito mais na mente humana do que aparece à superfície.
O texto também sugere que a psicanálise perdeu espaço como doutrina dominante. Freud permanece como fantasma cultural: mesmo contestado, envelhecido e parcialmente abandonado, mudou a linguagem com que se fala de desejos, sonhos, sintomas e personalidade.
10.4. Loucura como doença
A conclusão amplia a discussão para a história da loucura. Antes do século XIX, insanos eram acorrentados, exibidos e confinados. Philippe Pinel, no Bicêtre, simboliza a retirada das correntes e a transformação dos loucos em pacientes.
Os asilos tornam-se hospitais mentais, depois hospitais, e finalmente muitos pacientes são devolvidos à comunidade, um mundo que o autor descreve como cruel. Os casos perigosos permanecem em prisões mentais. A contribuição de Freud, nesse contexto, é acelerar a passagem da loucura de pecado, desvio ou espetáculo para doença da mente, ainda que a solução institucional continue problemática.
11. Capítulo 11 - Alunos estudiosos, alunos faltosos e favoritos dos professores
11.1. Estudantes de medicina e falta de boas maneiras
O capítulo abre com George Bernard Shaw e a imagem do estudante de medicina como figura desagradável, irreverente e pouco delicada. A dissecação e a convivência com corpos geram uma insensibilidade cômica e socialmente incômoda.
Charles Dickens, com Bob Sawyer e Pickwick, fornece o exemplo literário de estudantes que tratam partes de cadáveres com naturalidade grotesca. O capítulo usa humor para mostrar como o treinamento médico exige contato com aquilo que a sociedade prefere esconder.
11.2. Médicos estudiosos
O capítulo enumera médicos de grande cultura. Thomas Browne, clínico em Norwich, escreveu Religio Medici, meditando sobre ciência, religião e morte. Oliver Wendell Holmes, professor de anatomia em Harvard, é lembrado por sua literatura e por batizar a filha com o nome Anestesia, em homenagem à nova descoberta.
William Osler aparece como professor de medicina em Montreal, Filadélfia, Baltimore e Oxford, defensor de ensino clínico e autor de observações irônicas sobre velhice. John Locke, médico antes de filósofo, é citado por Um Ensaio sobre a Compreensão Humana. O tema comum é que alguns médicos ultrapassaram a clínica e entraram na literatura, filosofia e cultura geral.
11.3. Doutores em literatura
A medicina atrai escritores porque fornece drama, corpo, doença, morte, tipos humanos e tempo para observar. O capítulo cita médicos-escritores como Rabelais, Conan Doyle, Stacpoole, Francis Brett Young, A. J. Cronin, Somerset Maugham e outros.
A conclusão é ambivalente: a medicina pode gerar grandes escritores, mas também produz muitos medíocres. O contato com o sofrimento não basta; é preciso talento literário. Ainda assim, a profissão fornece material inesgotável.
11.4. Individualistas e faltosos
Lord Moynihan serve de porta de entrada para médicos individualistas, cirurgiões campeões e figuras excêntricas. O capítulo menciona nomes como Guillotin, ligado à máquina que levou seu nome; Parkinson, lembrado pela doença de Parkinson; James Startin, dermatologista e inventor de método para chapéus; Charles Wyndham, que trocou cirurgia por teatro; e Michael Arlen, que estudou medicina sem concluir.
Esses perfis mostram que a formação médica podia levar a caminhos laterais, da política à literatura, do teatro à invenção técnica. O médico aparece como personagem social, nem sempre preso ao consultório.
11.5. Malcomportados e bem-comportados
Os malcomportados incluem médicos piratas, com destaque para Thomas Dover, que combinou medicina e pirataria. O capítulo sugere que alguns médicos foram aventureiros, oportunistas ou criminosos, sem perder completamente a aura profissional.
Os bem-comportados incluem médicos da realeza, como Sir James Reid, médico da Rainha Vitória, e Lord Dawson, ligado à morte de George V. A medicina de corte é apresentada como campo de intimidade, segredo, poder político e decisões discretas. No caso de George V, a revelação posterior de que a morte fora acelerada para coincidir com o horário do The Times expõe a mistura perturbadora de compaixão, conveniência e controle público da narrativa.
12. Capítulo 12 - O corpo político
12.1. Saúde pública, pobreza e saneamento
O capítulo começa com a ideia de que a nação moderna combina democracia e encanamentos. Edwin Chadwick, com As Condições Sanitárias da População Trabalhadora na Grã-Bretanha, relaciona pobreza e doença como dois lados da mesma realidade.
As condições urbanas eram descritas como imundas, superlotadas e letais. Epidemias de tifo e cólera assustaram o Parlamento, levando à Lei da Saúde Pública de 1848. Florence Nightingale defendia limpeza contra cólera. John Snow, anestesista da Rainha Vitória, mostrou a transmissão hídrica da cólera ao remover a alavanca da bomba da Broad Street, no Soho.
12.2. Estatística vital
William Farr introduz a estatística vital como instrumento tão poderoso quanto o microscópio. Contar mortes, causas e tendências permitiu enxergar padrões invisíveis na população.
O capítulo compara quedas em mortes por bronquite com aumentos em mortes por câncer de pulmão, mostrando como o público podia reclamar de poluição externa enquanto contribuía com sua própria poluição pelo fumo. A estatística torna-se arma médica, política e moral, embora também possa ser desconfortável.
12.3. Origem do Serviço Nacional de Saúde
O Serviço Nacional de Saúde britânico é ligado inicialmente a Bismarck, que criou seguros de doença, acidente e invalidez no Império Alemão. A saúde entra no cálculo político como forma de estabilidade social e lealdade trabalhadora.
Na Grã-Bretanha, Lloyd George percebe o potencial eleitoral da saúde. Envia W. J. Braithwaite para estudar o modelo alemão e transforma saúde em evangelho político. A medicina passa a ser tratada como questão de massas, ao lado de transporte, propaganda e entretenimento de massas.
12.4. Médicos, relatórios e política de saúde
Os médicos resistiram violentamente a reformas, com comícios e cantos patrióticos. O Ministério da Saúde, criado em 1919, herdou burocracias locais e seguros. O Relatório Dawson, de 1920, propôs centros primários e secundários de saúde, antecipando ideias de atenção integrada.
O Relatório Beveridge, de 1942, postulou o Serviço Nacional de Saúde. Após a eleição de 1945, os trabalhistas implementaram o sistema, aproximando-o do Serviço Médico de Emergência criado pela guerra. O capítulo mostra que o NHS nasceu de guerra, política, burocracia, idealismo e negociação com a profissão médica.
12.5. Pacientes problemáticos e custo infinito
O paciente é descrito como parte ativa do problema. A frase atribuída a Osler sobre o desejo humano de tomar remédio resume a procura constante por tratamento. No sistema britânico, o paciente privado paga para não esperar; o paciente do NHS espera para não pagar.
O Serviço Nacional de Saúde oferece valor porque não tem escolha: precisa atender muitos com recursos limitados. Reformas sucessivas tentam consertar problemas estruturais, mas o sistema, como um carro feito numa tarde de sexta-feira, parece exigir reparos desde o nascimento.
12.6. Triunfo e desastre
O capítulo termina com a tensão central da medicina moderna. Doenças da juventude foram controladas, sofrimentos da velhice adiados, cirurgias e medicamentos multiplicados. Os velhos de hoje são os mortos de ontem. O sucesso da medicina cria novas demandas, novos custos e novos pacientes.
A conclusão é política e econômica: o potencial da medicina parece infinito, as exigências não aceitam restrições, mas os recursos são limitados. Esse é o triunfo e o desastre: quanto mais a medicina vence, mais cara, extensa e disputada ela se torna.
Referências citadas
1. Autores, médicos, cientistas e personagens históricos
Richard Gordon; Aulyde Soares Rodrigues; Hipócrates; Imhotep; Zoser; Fu-Hsi; Huang Ti; William Harvey; Galeno; Celsus; Charaka; Susruta; Alcmeon; Empédocles; Pitágoras; Aristóteles; John Cheyne; William Stokes; Platão; Marco Aurélio; Esculápio; Apolo; Coronis; Plutão; William Dunbar; Chaucer; Cosme e Damião; Trotula; Abella; Constanza; Rebeca; Ruteboeuf; Herófilo; Erasístrato; Leonardo da Vinci; Andreas Vesalius; Ticiano; Galileu; Michael Servetus; Calvino; Eustáquio; Falópio; Napoleão; Hermann Boerhaave; Paracelso; João XXI; Guilherme de Orange; James I; Charles I; Antony van Leeuwenhoek; Marcello Malpighi; Robert Knox; Burke; Hare; René Descartes; C. P. Snow; Bertrand Russell.
H. G. Wells; Hieronymus Fracastorius; Francesco Redi; Homero; Aquiles; Pátroclo; Tétis; Louis Pasteur; Flaubert; Juptile; Tobias Smollett; Robert Koch; Casimir Davaine; Albert Neisser; Armauer Hansen; Karl Eberth; Friedrich Loeffler; Edwin Klebs; Albert Fränkel; Arthur Nicolaier; Theodor Escherich; David Bruce; Anton Weichselbaum; Richard Pfeiffer; William Welch; Shibasaburo Kitasato; Alexandre Yersin; Francis Thompson; Edwina Currie; Daniel Elmer Salmon; Marco Polo; Alphonse Laveran; Patrick Manson; Ronald Ross; Osbert Sitwell; Max von Pettenkofer; Tchaikovsky; James Carroll; Jesse Lazear; Walter Reed; William Crawford Gorgas; David Livingstone; Condessa Chinchon; Oliver Cromwell; Victor Horsley; Almroth Wright; George Bernard Shaw; Howard Ricketts; Stanislaus von Prowazeki; Lenin; Virchow; Quatrefages; Albert Camus; Bernard Rieux; Procópio; Boccaccio; Chaucer; John Caius; Thomas Sydenham; Nathaniel Hodges; Samuel Pepys; Daniel Defoe.
Thomas Hardy; Edward Jenner; Benjamin Jesty; Fewster; Sarah Nelmes; James Phipps; John Evelyn; Thomas Dimsdale; Catarina, a Grande; John Hunter; Joshua Reynolds; William Osler; Joseph Lister; Samuel Taylor Coleridge; James Lind; Richard Hawkins; John Woodall; Capitão Cook; Frederick Gowland Hopkins; Szent-Györgyi; William Withering; Richard Bright; Ignaz Semmelweis; Howard Florey; Alexander Fleming; Ernst Chain; Gerhard Domagk; Heinrich Hörlein; Paul Ehrlich; Mietzsch; Klarer; Hitler; Göring.
Horace Wells; Gardner Quincy Colton; William Morton; Charles Thomas Jackson; Crawford Long; Henry Hill Hickman; Valerius Cordus; Michael Faraday; Joseph François Malgaigne; Dieffenbach; James Syme; Nikolai Pirogoff; James Young Simpson; Rainha Vitória; Príncipe Leopoldo; Pierre Flourens; Waldie; John Hall; W. E. Henley; Hannah Greener; John Snow; Louis Ombrédanne; Paul Bert; Ivan Magill; Harold Gillies; Lord Nuffield; Robert Macintosh; Walter Raleigh; Harold Randall Griffith; Joris-Karl Huysmans; Edgar Allan Poe.
John Radcliffe; Godfrey Kneller; William Heberden; James Parkinson; William Gowers; Hans Sloane; Leopold Auenbrugger; Corvisart; Laënnec; Thomas Clifford Allbutt; George Eliot; Wunderlich; Benjamin Rush; Röntgen; Pierre Curie; Marie Curie; Thomas Sydenham; Florence Nightingale; Lord Palmerston; Churchill; Jowett; Elizabeth Blackwell; Elizabeth Garrett Anderson; Sophia Jex-Blake; Claude Bernard; Pavlov; Diderot; Robert Graves; Harvey Cushing; Thomas Addison; Banting; Best; Watson; Crick; Maurice Wilkins; Rosalind Franklin; Linus Pauling; Darwin; Mendel; Erasmus Darwin; David Weatherall; Sócrates.
Ambroise Paré; Francisco I; Henrique II; Mary, rainha da Escócia; Francisco II; Carlos IX; Henrique III; Dominique Jean Larrey; Napoleão Bonaparte; Hugh Owen Thomas; Percival Pott; Samuel Johnson; David Garrick; Abraham Colles; John Abernethy; Astley Cooper; Benjamin Brodie; Guillaume Dupuytren; Philip Syng Physick; William Worrall Mayo; William James Mayo; Charles Horace Mayo; James Paget; W. S. Gilbert; John Halle; Pierre Franco; Jacques de Beaulieu; Jean de Saint Côme; William Cheselden; Napoleão III; Imperatriz Eugênia; Henry Thompson; Joseph Clover; Frederick Treves; Charles McBurney; Eduardo VII; Rainha Alexandra; Gasparo Tagliacozzi; Harold Gillies; McIndoe; Christian Barnard.
James Boswell; Samuel Johnson; Thackeray; Thomas Malthus; Charles Bradlaugh; Annie Besant; Henry Arthur Allbutt; Flaubert; Marie Stopes; Halliday Sutherland; Cardeal Bourne; Bossuet; Luís XIV; Margaret Thatcher; Regnier de Graaf; Aristóteles; Alec Bourne; Colombo; Nicolo Leoniceno; Giovanni di Vigo; Michelangelo; Hieronymus Fracastorius; Bunyan; Dupuytren; Henrique VIII; Oscar Wilde; William Wilde; Lord Randolph Churchill; William Gull; Wassermann; Paul Ehrlich; Thomas Raynalde; Eucharius Röslin; Soranus; William Smellie; Ephraim McDowell; Jane Todd Crawford; J. Marion Sims; Arbuthnot Lane.
Ilya Mechnikoff; Jan Steen; David Teniers; Gerard Dou; Johannes Lange; Joseph Bell; Arthur Conan Doyle; Wordsworth; Broussais; John Brown; John Coakley Lettsom; Stálin; John Keats; Tom Keats; Anne Brontë; Emily Brontë; Charlotte Brontë; Robert Louis Stevenson; D. H. Lawrence; George Orwell; Somerset Maugham; Villemin; Aldous Huxley.
Jane Austen; James Graham; Emma Lyons / Lady Hamilton; Lord Nelson; Carlos II; Eduardo, o Confessor; Clóvis; Carlos X; Sadi Carnot; Franz Mesmer; Maximilian Hell; Maria Theresa; Mozart; Dioscórides; Nero; Nicholas Culpeper; Sally Mapp; Herbert Barker; Lloyd George; John Brown; Samuel Hahnemann; Rainha Adelaide; Guilherme IV; Robert Keate.
Sigmund Freud; Dora; Pequeno Hans; Homem-Rato; Homem-Lobo; Miss Robinson; Dr. Schmitt; Capitão Bracewell-Gregory; Philippe Pinel; Charles Dickens; Bob Sawyer; Pickwick; Thomas Browne; Oliver Wendell Holmes; John Locke; François Rabelais; Conan Doyle; Stacpoole; Francis Brett Young; A. J. Cronin; Lord Moynihan; Guillotin; James Startin; Charles Wyndham; Michael Arlen; Thomas Dover; Drake; Rainha Vitória; James Reid; Gladstone; Lord Rosebery; William Harcourt; Lord Dawson; Rainha Mary; George V; Príncipe de Gales.
John Betjeman; Edwin Chadwick; Jeremy Bentham; Saul; Davi; John Snow; William Farr; Bismarck; Guilherme I; Lloyd George; Asquith; W. J. Braithwaite; John Tenniel; Dawson; Beveridge; William Osler.
2. Livros, obras, textos e documentos mencionados
Juramento de Hipócrates; Preceitos; De Medicina; De Mulierum Passionibus; De Humanis Corporis Fabrica; Exercitatio Anatomica de Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus; Religio Medici; A Guerra dos Mundos; Levítico; De Contagione; Ilíada; La Peste; Decameron; Canterbury Tales; Diário do ano da peste; Tess; The Rime of the Ancient Mariner; História da dedaleira; Notas de Enfermagem; Middlemarch; Nature; A Hélice Dupla; Origem das Espécies; Frutos da filosofia; A Lei da População; Amor no casamento; Pratica in Arte Chirurgica Copiosa; The Byrth of Mankynde; Rosengarten; Tratado romano de obstetrícia de Soranus; Northanger Abbey; Um Ensaio sobre o Uso Externo das Águas; Um Ensaio Prático Sobre o Uso e Abuso dos Banhos Quentes nos Casos de Gota; Diretório Médico; Pharmacopaeia; Um Ensaio sobre a Compreensão Humana; O Dilema do médico; O Sobrinho de Rameau; O Homem Elefante; 1984; Admirável Mundo Novo; As Condições Sanitárias da População Trabalhadora na Grã-Bretanha; Estatística Vital; Relatório Dawson; Relatório Beveridge; In Westminster Abbey.
3. Conceitos médicos, doenças e práticas
Humores; Yang; Yin; medicina clínica; facies hippocratica; respiração Cheyne-Stokes; pleurisia; antisséptico; supuração; trepanação; dissecação; circulação do sangue; circulação pulmonar; capilares; anatomia; alma; glândula pineal; potencial de membrana; miocárdio; bactérias; vírus; rickettsias; bacteriófagos; fomites; geração espontânea; pasteurização; vacinação; inoculação; antraz; cólera; raiva; gonorreia; lepra; tifo; tuberculose; difteria; pneumonia; tétano; meningite; peste bubônica; salmonela; doença dos legionários; malária; febre amarela; doença do sono; tripanossoma; filária; elefantíase; quinino; insolação; deficiência de sal; imunização; antissoro; difteria; Morte Negra; gripe de 1918; AIDS.
Varíola; varíola bovina; hospitalismo; assepsia; antissepsia; ácido carbólico; escorbuto; vitamina C; vitaminas A, B, D, E e K; digitalis; hidropsia; doença de Bright; febre puerperal; penicilina; sulfonamida; sulfanilamida; sulfapiridina; antibióticos; anestesia; óxido nitroso; éter; clorofórmio; curare; intubação; anestesia local; síncope do clorofórmio; percussão; auscultação; estetoscópio; temperatura corporal; raios X; rádio; gota; enfermagem; endocrinologia; tireoide; pituitária; suprarrenais; insulina; ADN; ARN; genes; cromossomos; genoma; seleção natural; doenças hereditárias; hemofilia; fibrose cística; doença de Huntington.
Ferimentos a bala; amputação; ambulância voadora; fratura de Pott; fratura de Colles; litotomia; pedras na bexiga; apendicite; ponto de McBurney; peritiflite; cirurgia plástica; enxertos; transplante cardíaco; transplante renal; rejeição imunológica; morte cerebral; contracepção; camisinha; pílula anticoncepcional; pílula do dia seguinte; aborto; fertilização; sífilis; Treponema pallidum; reação Wassermann; Salvarsan / injeção 606; obstetrícia; ginecologia; histerectomia; clitoridectomia; uroscopia; clorose; sanguessugas; sangria; pneumotórax artificial; homeopatia; osteopatia; herbalismo; mesmerismo; hipnotismo; toque real; psicanálise; inconsciente; loucura; asilos; saúde pública; saneamento; estatística vital; Serviço Nacional de Saúde.
4. Lugares, instituições e eventos
Egito; Sakkarah; China; Cos; Turquia; Roma; Alexandria; Salerno; Paris; Louvain; Bruxelas; Pádua; Madri; Jerusalém; Zante; Montpellier; Leyden; Haia; Zurique; Folkestone; Hospital São Bartolomeu; Delft; Bolonha; Gibraltar; Edimburgo; Montreal; Viena; Praga; Marselha; Londres; Broad Street; Soho; Panamá; Havana; Canal do Panamá; Zululândia; Catarata Vitória; Peru; Lima; Tailândia; Malásia; Cairo; Scutari; Criméia; Oxford; Cambridge; Birmingham; Viena; Allgemeines Krankenhaus; Oxford; Departamento de Patologia; Enfermaria Radcliffe; Hospital Santa Maria; Wuppertal; I. G. Farben; Nuremberg; Hartford; Connecticut; Boston; Geórgia; Edimburgo; Zurique; Hyderabad; Harley Street; Guy’s Hospital; Royal Society; Royal College of Surgeons; Royal College of Physicians; Museu Britânico; Instituto Pasteur; Instituto Koch; Escola de Medicina Tropical de Londres; Hospital Groote Schuur; Hospital Peter Bent Brigham; Canal de Suez; Guerra dos Cem Anos; Guerra Franco-Prussiana; Primeira Guerra Mundial; Segunda Guerra Mundial; Dia D; Guerra da Criméia; Revolução Francesa; Grande Peste de Londres; Grande Incêndio de Londres; Lei da Saúde Pública de 1848; Lei de Fertilização e Embriologia Humanas; Ministério da Saúde; Serviço Nacional de Saúde.
Nenhum comentário:
Postar um comentário