“Admitamos, assim, que há duas formas
de seres: uma visível e outra invisível” [79A]
A alma se assemelha ao que é divino, imortal, inteligível,
uniforme, indissolúvel, sempre idêntico a si mesmo, ao passo que
o corpo se assemelha ao que é humano, mortal, multiforme,
desprovido de inteligência, dissolúvel e jamais idêntico a si mesmo. [80b]
Resumo objetivo — Fédon, orfismo e imortalidade da alma
1. Informações preliminares
1.1 Cena do diálogo
Platão não está presente na reunião em torno de Sócrates em seu último dia de vida.
Essa ausência pode indicar que o diálogo não pretende ser um relato historicamente fiel.
O Fédon é um diálogo central para a doutrina platônica sobre:
a diferença entre mundo das ideias e mundo material;
a oposição entre alma/inteligência e corpo/sensibilidade.
1.2 Data
O diálogo teria sido escrito por volta de 387 a.C.
Sua composição ocorre após a fundação da Academia.
O texto pressupõe influência das doutrinas órficas.
2. Orfismo em Platão
2.1 Ideia central do orfismo
O orfismo introduz a ideia de que há no homem algo:
divino;
imortal;
proveniente dos deuses;
oposto à natureza do corpo.
O corpo é visto como algo que prende a alma.
A alma se manifesta mais livremente:
durante o sono;
no momento da morte.
2.2 Corpo como prisão da alma
Platão menciona os órficos no Crátilo.
A doutrina órfica afirma que o corpo é lugar de expiação da culpa da alma.
Essa visão está ligada à metempsicose, isto é, à transmigração ou reencarnação da alma.
2.3 Filolau e a influência pitagórica
Filolau afirma que a alma está unida ao corpo para pagar uma pena.
O corpo é comparado a uma tumba da alma.
Sócrates menciona Filolau no Fédon, associando o diálogo a esse contexto órfico-pitagórico.
3. Metempsicose
3.1 Definição
A metempsicose é a doutrina segundo a qual cada vida terrena é uma expiação de culpas anteriores.
A alma passa por várias vidas até cumprir sua carga de sofrimento e purificação.
Ao final, a alma retorna ao seu lugar próprio:
o eterno;
o divino;
a liberdade fora do corpo.
3.2 Função no Fédon
Platão usa essas imagens órficas para representar Sócrates como modelo de virtude.
O esquema central é:
corpo = prisão
vida = expiação
morte = libertação
filosofia = purificação da alma
E pronto, Platão transforma a morte em assunto de seminário metafísico. A humanidade claramente nunca escolhe caminhos simples.
4. Filosofar é aprender a morrer
4.1 Ideia principal
No Fédon, a filosofia aparece como exercício de preparação para a morte.
A morte é entendida como separação entre alma e corpo.
O filósofo busca libertar a alma das perturbações corporais.
4.2 Influência posterior
Essa concepção teve grande influência na tradição filosófica.
Cícero a reformulou nas Tusculanas.
Montaigne retomou o tema no ensaio “Filosofar é aprender a morrer”.
5. Estrutura do diálogo
5.1 Partes principais
Prelúdio: apresentação da situação.
Grande prólogo doutrinal: introdução dos temas filosóficos.
Primeira prova da imortalidade da alma.
Segunda prova da imortalidade da alma.
Mitos escatológicos: imagens sobre o destino da alma após a morte.
Objeções de Símias e Cebes.
Refutação das objeções.
Terceira prova da imortalidade da alma.
Morte de Sócrates.
6. Sócrates em seu último dia
6.1 Estado de Sócrates
Sócrates aparece sereno, nobre e confiante diante da morte.
Sua atitude sugere que sua passagem ao Hades ocorre sob uma disposição divina.
6.2 Dor e prazer
Sócrates observa a proximidade entre dor e prazer.
Ambos estão ligados ao corpo.
O corpo é instável e vive alternando estados contrários.
6.3 Elementos órficos
A cena inicial já contém temas órficos:
corpo como fonte de perturbação;
morte como possível alívio;
alma como algo que deve se libertar;
referência a Filolau.
7. Tema 01 — Disposição do filósofo para a morte
7.1 A morte e os deuses
Se os deuses são guardiões dos homens, desejar a morte poderia parecer uma fuga indevida.
Sócrates rejeita essa interpretação.
7.2 Destino das almas
O destino das almas depende de sua qualidade moral.
As almas dos bons não têm o mesmo destino das almas dos maus.
Os filósofos, por se dedicarem à sabedoria, esperam um destino melhor.
7.3 Morte como separação entre alma e corpo
A morte é definida como separação da alma e do corpo.
O filósofo não teme a morte porque, durante a vida, já procura afastar a alma do corpo.
7.4 Corpo como obstáculo ao conhecimento
O corpo perturba a alma.
Ele impede o acesso pleno à verdade.
Por isso, o filósofo procura reduzir sua dependência do corpo.
7.5 Sabedoria plena
A sabedoria plena só será alcançada quando a alma estiver liberta do corpo.
Durante a vida, o filósofo deve buscar purificação e afastamento das paixões corporais.
8. Virtude aparente e virtude real
8.1 Virtude aparente
A virtude aparente ocorre quando alguém troca um mal maior por um mal menor.
Exemplo:
o soldado que parece corajoso, mas age por medo de algo pior que a morte.
8.2 Sombra de virtude
Esse tipo de coragem não é virtude verdadeira.
É apenas aparência de virtude.
Sua motivação ainda está ligada a fraquezas, temores ou interesses.
8.3 Virtude real
A virtude real está ligada à sabedoria.
Ela nasce da purificação da alma e da libertação em relação ao corpo.
9. Tema 02 — A imortalidade da alma
9.1 Primeiro argumento: metempsicose / reencarnação
Ideia central
Tudo nasce de seu contrário.
A vida e a morte também são contrários.
Assim como o sono se alterna com a vigília, a morte se alterna com o reviver.
Conclusão
Se os mortos vêm dos vivos, os vivos também vêm dos mortos.
Logo, as almas existem no Hades.
As almas dos bons têm destino melhor; as dos maus, destino pior.
9.2 Segundo argumento: reminiscência
Ideia central
Conhecer é recordar.
O aprendizado não seria aquisição de algo totalmente novo, mas lembrança de algo já conhecido pela alma.
Exemplo
Ao comparar vários galhos, reconhecemos a ideia geral de “galho”.
Essa ideia não se confunde com os galhos concretos.
Isso sugere que já possuíamos previamente a ideia em nossa alma.
Conclusão
A alma conhecia as ideias antes do nascimento.
Portanto, a alma existia antes de assumir um corpo.
9.3 Alma como realidade indissolúvel
A alma é associada ao que é puro e não composto.
O que não é composto não se desfaz.
O corpo, por ser composto, é instável e perecível.
A alma, por ser pura, não é transitória como o corpo.
10. Pureza e impureza da alma
10.1 Alma pura
A alma pura reconhece sua própria natureza.
Ela se afasta do corpo e conserva sua liberdade.
Essa alma está mais próxima da verdade e do divino.
10.2 Alma impura
A alma impura se prende às coisas materiais e transitórias.
Ela se torna pesada por causa dos desejos corporais.
Após a morte, pode ser arrastada novamente para corpos materiais.
10.3 Reencarnação segundo os vícios
As almas impuras podem renascer em diferentes formas, conforme seus vícios.
Mesmo os obedientes, se praticam virtudes apenas por hábito e sem filosofia, não alcançam a verdadeira libertação.
Podem renascer em animais gregários, como formigas e abelhas, ou até em seres humanos.
11. Tema 03 — Afastamento do divino, da verdade e do bem
11.1 Definição de filósofo
O filósofo é aquele que contempla:
o verdadeiro;
o divino;
aquilo que está acima das opiniões.
11.2 Consequência moral
Afastar-se do divino, da verdade e do bem afasta a alma da liberdade.
A alma presa às opiniões e ao corpo permanece distante da purificação.
12. A imagem do cisne
12.1 Sentido da imagem
O cisne canta perto da morte não por tristeza, mas por alegria.
Seu canto expressa confiança e não angústia.
12.2 Relação com Sócrates
Sócrates é comparado ao cisne.
Ele raciocina e dialoga serenamente porque acredita que sua alma será libertada dos grilhões do corpo.
Síntese final
O texto apresenta o Fédon como um diálogo central da filosofia platônica sobre a alma, a morte e a sabedoria. Platão articula influências órficas e pitagóricas para construir a imagem de Sócrates como modelo do filósofo: alguém que, durante a vida, busca purificar a alma, afastando-a das perturbações do corpo.
A morte, nesse contexto, não aparece como simples fim, mas como possibilidade de libertação da alma. A filosofia é, portanto, entendida como preparação para essa libertação: um exercício de purificação, sabedoria e aproximação do verdadeiro, do divino e do bem.
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