Resumo capítulo por capítulo — White Slaves, African Masters
Resumo objetivo, estruturado e detalhado
Base usado: o PDF enviado, White Slaves, African Masters: An Anthology of American Barbary Captivity Narratives, editado por Paul Baepler, publicado pela University of Chicago Press, com Prefácio, Introdução, nove narrativas principais e um Apêndice de história editorial. O índice da obra lista: Cotton Mather, John D. Foss, James Leander Cathcart, Maria Martin, Jonathan Cowdery, William Ray, Robert Adams, Eliza Bradley, Ion H. Perdicaris e o Appendix.
1. Prefácio
A permanência histórica do conflito entre Norte da África e Ocidente
O prefácio abre com o sequestro de um avião da Air France em 1994 por militantes argelinos, episódio apresentado como um eco moderno da antiga linguagem da pirataria, agora chamada de “air pirate” pelos franceses. A comparação não serve para dizer que os contextos sejam iguais, mas para mostrar a continuidade simbólica de uma longa hostilidade entre o Ocidente cristão e o Norte da África muçulmano, hostilidade que as narrativas de cativeiro barbaresco transformaram em tema literário, religioso, político e racial.
A recuperação de uma história parcialmente perdida
Baepler afirma que os textos reunidos representam apenas uma pequena fração das experiências de milhares de pessoas mantidas como cativas ou escravas no Norte da África. A maioria dos prisioneiros jamais escreveu sua história; muitos eram analfabetos, morreram em cativeiro, contaram suas experiências oralmente ou deixaram registros dispersos em diários, cartas, jornais e manuscritos. A antologia, portanto, não pretende oferecer o quadro total, mas recuperar versões publicadas e populares de uma narrativa que já foi familiar e depois caiu no esquecimento.
A relação com outras formas de narrativa de cativeiro
O editor defende que a narrativa de cativeiro barbaresco deve ser estudada ao lado da narrativa de escravos afro-americanos e da narrativa de cativeiro indígena. A comparação é central: os textos sobre brancos escravizados na África foram usados tanto por abolicionistas quanto por defensores da escravidão nos Estados Unidos, essa espécie de ginástica moral que humanos praticam com entusiasmo olímpico quando querem justificar o injustificável.
Barbárie, civilização e raça
O prefácio sustenta que essas narrativas ajudaram europeus e americanos a formar suas primeiras imagens da África antes das grandes explorações de figuras como Richard Burton, David Livingstone e Mary Kingsley. Essas imagens participaram da construção de fronteiras simbólicas entre “barbaridade” e “civilidade”, e também entre “negritude” e “branquitude” nos Estados Unidos.
2. Introdução
A narrativa barbaresca nasce em paralelo à narrativa de cativeiro indígena
A introdução começa aproximando Mary Rowlandson, famosa por seu cativeiro entre indígenas, de Joshua Gee, considerado uma das primeiras figuras americanas ligadas ao cativeiro barbaresco. Gee partiu de Boston, foi capturado por corsários argelinos e passou anos em Argel, trabalhando inclusive em galés. Essa comparação serve para mostrar que o imaginário americano do cativeiro não se formou apenas na fronteira terrestre com povos indígenas, mas também no mar, no contato com o Magrebe.
A palavra Barbary e a ideia de barbárie
Baepler examina a etimologia de Barbary, associando-a ao grego barbaros e ao latim barbarus, termos usados para designar povos considerados estrangeiros ou incivilizados. O editor destaca que a palavra carregava, desde cedo, uma carga pejorativa e comercial: os africanos do Norte eram vistos como “bárbaros” não só por serem culturalmente diferentes, mas por resistirem à comunicação, à troca e ao domínio europeu.
Cristãos, muçulmanos e escravidão recíproca
A introdução lembra que o conflito entre cristãos e muçulmanos no Mediterrâneo incluiu captura de pessoas dos dois lados. Europeus escravizaram muçulmanos, muçulmanos escravizaram cristãos, e a guerra marítima foi frequentemente apresentada como guerra santa, seja sob o vocabulário cristão, seja sob o vocabulário islâmico. O texto, porém, observa que a expressão “Barbary captive” acabou se fixando sobretudo para designar europeus e americanos capturados por norte-africanos.
A formação histórica do gênero
O editor menciona antecedentes ingleses como John Fox, William Davis, Nicholas Roberts, John Rawlins, Francis Knight e William Okeley, mostrando que os relatos de cativeiro em terras islâmicas circulavam antes do florescimento americano do gênero. Essas narrativas já combinavam sofrimento físico, provação religiosa, descrição etnográfica, denúncia política e retórica de redenção.
A crise americana após a independência
Com a independência dos Estados Unidos, os navios americanos perderam a proteção dos tratados britânicos. Isso expôs comerciantes e marinheiros ao risco de captura por Marrocos, Argel, Túnis e Trípoli. A tomada de navios como o Betsey, o Maria e o Dauphin gerou pânico público, rumores exagerados e debates sobre a criação de uma marinha nacional.
Tributos, tratados e formação da Marinha dos Estados Unidos
A introdução mostra que os Estados Unidos foram obrigados a negociar resgates, pagar tributos e enviar presentes aos governantes barbarescos. A situação estimulou a criação da U.S. Navy e conduziu às primeiras guerras externas da nova república. A tensão entre pagar tributo ou combater militarmente aparece como um problema de honra nacional, comércio marítimo e política externa.
A guerra de Trípoli e o caso da fragata Philadelphia
O episódio decisivo ocorre quando o bashaw de Trípoli declara guerra aos Estados Unidos, corta o mastro da bandeira americana e, depois, captura a fragata Philadelphia, comandada por William Bainbridge. Mais de trezentos marinheiros americanos são aprisionados. A resposta americana envolve Edward Preble, Stephen Decatur e William Eaton, culminando numa vitória simbólica que alimenta várias narrativas de cativeiro.
As narrativas de naufrágio no Saara
Depois das grandes crises diplomáticas, surgem narrativas de marinheiros que naufragam na costa africana e são capturados por habitantes do deserto. Robert Adams, James Riley, Archibald Robbins e Judah Paddock passam a representar outro modelo: não o prisioneiro mantido por um Estado barbaresco, mas o sobrevivente convertido em propriedade de grupos nômades.
Mulheres cativas e narrativas provavelmente fictícias
Baepler observa que não há relatos femininos americanos seguramente autênticos de cativeiro barbaresco. Textos atribuídos a Maria Martin e Eliza Bradley são tratados como provavelmente ficcionais, embora tenham circulado como relatos verdadeiros. Isso revela a demanda pública por histórias de mulheres cristãs ameaçadas, especialmente em contextos de violência, escravidão e risco sexual.
Ficção, não ficção e mistura de gêneros
A introdução insiste que a fronteira entre ficção e não ficção é instável. Textos apresentados como verdadeiros podem conter invenções, exageros e empréstimos literários; textos ficcionais podem incorporar trechos de relatos reais. A obra, portanto, propõe ler os relatos lado a lado, observando como todos eles ajudaram a construir a memória cultural do cativeiro.
Temas recorrentes do gênero
A introdução identifica temas que reaparecem em toda a antologia: inversão racial, brancos escravizados por africanos, cristãos dominados por muçulmanos, ameaça de apostasia, choque cultural, trabalho forçado, resgate, honra nacional, sentimentalismo, descrições etnográficas, violência corporal, medo sexual, fantasia imperial e crítica da escravidão americana.
3. Cotton Mather — “The Glory of Goodness”
O cativeiro como prova da Providência
O texto de Cotton Mather apresenta a libertação de cativos ingleses em Barbary como prova da bondade de Deus. A narrativa não se concentra em um indivíduo, mas numa comunidade de cativos cuja sobrevivência e redenção são interpretadas dentro da teologia puritana. Para Mather, o sofrimento não é apenas político ou físico: é uma prova espiritual.
Escravidão física e escravidão espiritual
Mather compara o cativeiro africano à condição universal do homem pecador, escravizado pelas potências das trevas. A verdadeira libertação, segundo o sermão, vem de Cristo, cujo sangue é apresentado como resgate. Assim, mesmo a escravidão material em Marrocos ou Argel é subordinada a uma leitura religiosa: o perigo maior é perder a fé.
Descrição da crueldade barbaresca
O sermão descreve os cativos submetidos a trabalho extremo, alimentação miserável, falta de água, castigos e humilhações. Os senhores são descritos com linguagem demonizante: “discípulos de Maomé”, mouros infernais, monstros africanos. A função dessa linguagem é reforçar a oposição entre o mundo cristão ordenado e o mundo muçulmano representado como tirânico.
A comunidade cristã no cativeiro
Mesmo escravizados, os cativos organizam uma espécie de sociedade própria, com mestre, assistentes, regras internas, reuniões no Dia do Senhor e práticas de culto. Esse ponto é importante porque mostra que, para Mather, a verdadeira civilização cristã pode sobreviver mesmo em território hostil, desde que mantenha disciplina religiosa e ordem moral.
A ameaça da apostasia
O sermão insiste que alguns cristãos cediam à pressão para “virar mouro”, isto é, converter-se ao Islã. Mather transforma a resistência à conversão em sinal de fidelidade. Os que permanecem cristãos são apresentados como exemplos de firmeza espiritual; os que apostatam são tratados como desertores da fé.
O poder da oração
A libertação dos cativos é atribuída à oração dos fiéis na Nova Inglaterra. A ideia central é que a redenção não resulta apenas de dinheiro, negociação ou política, mas da intervenção divina provocada pela oração coletiva. Mather usa a libertação como chamado ao arrependimento, à gratidão e à vida cristã mais rigorosa.
4. John D. Foss — “A Journal of the Captivity and Sufferings of John Foss”
Captura do brigue Polly
John D. Foss embarca no brigue Polly, originalmente ligado ao comércio atlântico. Ao se aproximar de Cádiz, a tripulação avista uma embarcação que inicialmente toma por inglesa ou francesa. A revelação é brutal: trata-se de um navio argelino, o Babasera, comandado por Rais Hudga Mahomet Salamia. A tripulação é feita prisioneira e informada de que enfrentará a escravidão em Argel.
A chegada a Argel e o choque inicial
Ao chegar, Foss descreve a perda de liberdade como queda num sistema de humilhação. Os captivos são privados de roupas, alimentos adequados e autonomia. A primeira experiência é de confusão linguística, medo de castigos e desconhecimento das regras locais. Essa ignorância aumenta o terror: não saber quando se trabalha, quando se come ou quando se é punido vira parte do castigo.
Trabalho forçado e rotina dos escravos cristãos
A narrativa detalha o trabalho dos cativos: carregar juncos, mover pedras enormes, trabalhar no porto, limpar embarcações, descarregar prêmios de corso, transportar materiais e manter obras públicas. A função do escravo cristão é reduzir o corpo a ferramenta, porque aparentemente até o século XVIII já tinha descoberto a arte administrativa de transformar gente em equipamento descartável.
O bagnio como espaço de miséria
O bagnio, prisão dos escravos, aparece como espaço de horror, fome, sujeira, vermes, correntes e sofrimento coletivo. A alimentação básica inclui pão e vinagre, em quantidade insuficiente. Foss destaca que os cativos dependem de pequenas ajudas externas, subornos, compras e favores para sobreviver.
Doença, hospital e morte
O hospital dos escravos é descrito como ambíguo: oferece algum cuidado, mas os feitores retiram homens ainda doentes para o trabalho. O caso de Scipio Jackson, homem negro e cativo, ilustra a brutalidade do sistema: mesmo gravemente enfermo, pode ser forçado a sair do hospital e voltar ao labor, com risco de morte.
Castigos e execuções
Foss registra punições como bastinado, queimaduras, empalamento, decapitação, estrangulamento e mutilação. Ele também descreve castigos diferenciados conforme o crime, a religião e o status da pessoa. A narrativa usa essas cenas para construir Argel como sociedade violenta e arbitrária.
Observações sobre costumes argelinos
Grande parte do relato assume tom etnográfico. Foss descreve roupas, distinções entre turcos, mouros, árabes e judeus, regras de vestimenta, casamento, práticas funerárias, hábitos alimentares, moradias, clima, ruas, mercados e religião. O texto mistura observação concreta, preconceito cultural e julgamento moral, combinação muito humana e portanto perigosíssima.
Esperança de resgate e frustração
Os cativos recebem várias notícias sobre negociações, tratados e possíveis libertações. Muitas esperanças se frustram, o que intensifica a angústia. Foss relaciona a situação dos prisioneiros à honra dos Estados Unidos, vendo o abandono dos cativos como mancha nacional.
Libertação e retorno
A liberdade chega após negociações envolvendo figuras como Joel Barlow, David Humphreys e outros agentes diplomáticos. Foss descreve o hasteamento da bandeira americana e os sinais de paz como momento de êxtase. A liberdade é apresentada como a maior bênção humana, depois de anos de incerteza, fome, trabalho e correntes.
5. James Leander Cathcart — “The Captives, Eleven Years in Algiers”
Captura do Maria
James Leander Cathcart é capturado em 1785 a bordo da escuna Maria, perto do Cabo de São Vicente, por um xebeque argelino. A captura ocorre no contexto da abertura do Atlântico aos corsários de Argel, depois de acordos entre Argel, Espanha, Portugal e outras potências. A narrativa liga o destino individual de Cathcart à política internacional.
A frase que anuncia o mundo invertido
O capitão argelino, que fora escravo na Espanha e em Gênova, diz aos americanos que o mundo é cheio de vicissitudes. Essa frase resume a lógica da narrativa: quem era livre pode virar escravo; quem era escravo pode virar senhor; cristãos podem depender de muçulmanos; brancos podem obedecer a africanos. A ordem social se inverte.
A chegada ao sistema de escravidão argelino
Cathcart descreve a distribuição dos prisioneiros, a venda, a compra pela Regência e a classificação dos escravos conforme função. Alguns vão para o palácio, outros para o jardim, outros para o trabalho duro, outros para ofícios especializados. A experiência do cativo varia conforme sorte, habilidade, utilidade e capacidade de negociar.
O palácio, os cozinheiros e os cativos domésticos
No palácio, Cathcart conhece um sistema complexo de trabalho servil. Escravos cristãos atuam em cozinhas, jardins, serviços internos, cuidados com animais, limpeza, transporte e administração. O cativeiro palaciano é menos brutal que o trabalho público, mas continua humilhante, instável e sujeito à violência arbitrária.
A convivência com outros escravos cristãos
Cathcart encontra cativos de várias nacionalidades, alguns há décadas em Argel. O texto destaca tensões entre católicos, protestantes, espanhóis, napolitanos, americanos e outros grupos. A prisão cristã não é um bloco harmonioso; há disputas religiosas, interesses diferentes, tentativas de conversão e rivalidades internas.
O bagnio e a economia da prisão
A narrativa descreve os bagnios como prisões cheias de trabalho, comércio e violência. Existem tavernas, artesãos, vendedores, subornos, cobranças e hierarquias. Cathcart mostra que a escravidão não elimina a economia: ela cria uma economia própria, miserável e corrupta, baseada em favores, propinas e pequenas oportunidades.
Ascensão paradoxal de Cathcart
Diferente de muitos cativos, Cathcart ascende dentro do sistema. Por saber línguas, escrever, calcular e negociar, torna-se útil a autoridades argelinas. Trabalha como escrivão, administra tavernas, lida com contas e chega a posições relativamente privilegiadas. Essa ascensão, porém, não anula sua condição de escravo: ele continua dependente da vontade dos senhores.
Crítica ao governo dos Estados Unidos
Cathcart acusa os Estados Unidos de demora, negligência e incapacidade diplomática. Para ele, a retórica americana da liberdade não se traduz em ação eficaz para libertar cidadãos escravizados. Essa crítica é uma das tensões centrais da obra: a nova república proclama liberdade, mas deixa seus marinheiros em correntes.
Religiosidade, Islã e perigo de conversão
O relato menciona debates religiosos, pressão cultural e risco de conversão. Cathcart conhece o Corão o suficiente para discutir com muçulmanos, mas isso o coloca em perigo, pois pode ser acusado de inclinar-se ao Islã ou de manipular temas sagrados. A religião é campo de sobrevivência, disputa e risco.
Peste, morte e instabilidade
A peste surge como ameaça recorrente, levando à morte muitos cativos e alterando a vida nos bagnios. A doença revela a fragilidade do sistema: dinheiro, posição e habilidade pouco valem diante da mortalidade. Ainda assim, a máquina de trabalho continua funcionando enquanto os corpos aguentam.
Libertação e retorno com lucro
Cathcart acaba sendo libertado no contexto de negociações americanas. Seu caso é incomum porque, graças a suas funções e negócios em Argel, consegue comprar um navio com lucros obtidos durante o cativeiro. A narrativa termina como uma espécie de ironia histórica: o escravo que virou administrador retorna com capital, mas carregando onze anos de humilhação.
6. Maria Martin — “History of the Captivity and Sufferings of Mrs. Maria Martin”
Um relato provavelmente ficcional
O texto atribuído a Maria Martin é apresentado por Baepler como uma das narrativas espúrias de maior circulação. Deriva em parte de relatos anteriores, especialmente o de Mary Velnet/Mary Veiner, e combina cativeiro, tortura, fuga e melodrama. A obra foi publicada como relato verdadeiro, mas sua função literária parece mais forte que sua base documental.
Captura e despojamento
Maria Martin narra a captura por corsários argelinos. Ela é roubada, perde objetos pessoais como colar, anel e sapatos, enquanto os homens são despidos e recebem trapos. O início segue o padrão do gênero: a passagem da condição civilizada e protegida para a condição de objeto nas mãos dos captores.
Trabalho doméstico e humilhação
A protagonista é submetida a tarefas domésticas, como costurar e remendar roupas. Sua incompetência como costureira é narrada com sofrimento e vergonha. O trabalho não é apenas físico; é simbólico, pois marca a redução de uma mulher cristã a serva dentro de uma casa estrangeira.
O cárcere e a cela escura
O centro emocional do relato é a prisão em uma cela escura, quase sem luz, com móveis mínimos e água limitada. A descrição reforça o modelo gótico: escuridão, isolamento, ferro, paredes grossas, silêncio e medo. A cela funciona como imagem extrema da perda de liberdade.
Correntes, febre e sofrimento corporal
Maria descreve ferros no corpo, inchaço, febre, feridas e dores insuportáveis. O sofrimento físico é apresentado de modo acumulativo, como se cada detalhe reforçasse o martírio da personagem. A narrativa usa o corpo feminino como palco de inocência perseguida, resistência cristã e comoção do leitor.
Ajuda, fuga e esperança
A protagonista recebe ajuda de figuras mais compassivas, planeja escapar e experimenta alternância entre esperança e terror. A fuga é narrada como travessia para a liberdade cristã, com forte carga providencial. A estrutura é simples: captura, humilhação, prisão, sofrimento, auxílio e libertação.
Função moral e sentimental
O capítulo explora a comoção do público. Maria Martin é menos uma observadora etnográfica e mais uma figura de virtude perseguida. Seu valor na antologia está em mostrar como o mercado editorial explorava o fascínio por mulheres cristãs em perigo no mundo islâmico.
7. Jonathan Cowdery — “American Captives in Tripoli”
Contexto da Guerra de Trípoli
Jonathan Cowdery, médico da fragata Philadelphia, narra sua prisão após o navio encalhar perto de Trípoli em 31 de outubro de 1803. O episódio ocorre durante a Guerra de Trípoli, quando os Estados Unidos enfrentam o bashaw tripolitano por causa de tributos, tratados e honra nacional.
Captura da Philadelphia
A fragata encalha, troca fogo com embarcações tripolitanas e acaba se rendendo. Os prisioneiros são levados a Trípoli. Cowdery descreve confusão, pilhagem, ameaças, separação de pertences e a condução dos americanos diante do poder local. Como médico e oficial, sua experiência é menos brutal que a dos marinheiros comuns.
Condições dos oficiais e diferença social
Cowdery e outros oficiais dormem em alojamentos relativamente melhores, recebem ajuda do cônsul dinamarquês Nissen e têm acesso a comida, roupas e alguma mobilidade. Essa diferença será contestada por William Ray, mas no relato de Cowdery aparece como condição de observador privilegiado.
Atuação médica
Cowdery é chamado para tratar doentes americanos, tripolitanos, familiares do bashaw, mamelucos e membros da elite local. Sua habilidade médica lhe dá proteção relativa e acesso a espaços que outros cativos não veem. Ele observa costumes, jardins, cerimônias, casamentos, práticas religiosas e a vida palaciana.
Conversões e traições
O relato registra casos de americanos que “viram turcos”, como Thomas Prince, e a figura de Wilson, acusado de trair os americanos e servir aos tripolitanos como supervisor. A conversão aparece como tema moral e político: abandonar a fé e a pátria é tratado como degradação.
Incêndio da Philadelphia por Decatur
Cowdery narra a ação de Stephen Decatur, que entra no porto e destrói a fragata capturada para impedir que os tripolitanos a usem. O episódio é visto como ato heroico americano e como golpe moral contra Trípoli. A destruição do navio transforma a vergonha da captura em matéria de glória naval.
Bombardeios e mortes
Durante os ataques americanos, Cowdery vê corpos de marinheiros mortos, tenta conseguir permissão para enterrá-los e registra cenas de cadáveres abandonados, corpos na praia e destruição por explosões. A guerra aparece simultaneamente como espetáculo militar, drama patriótico e sofrimento concreto.
Petição dos prisioneiros
Os marinheiros reclamam de espancamentos, fome, insultos e trabalho excessivo. Cowdery registra petições ao bashaw e episódios em que os prisioneiros se recusam a trabalhar sem comida. O texto revela que mesmo dentro da mesma prisão havia uma divisão entre a relativa proteção dos oficiais e a miséria dos trabalhadores.
Superstições e práticas religiosas
Cowdery descreve o Ramadã, orações muçulmanas, jejuns, casamentos, marabus e crenças locais. Também relata a confiança do bashaw em figuras religiosas que prometiam proteger a cidade contra os americanos. O olhar é crítico e frequentemente depreciativo, mas registra costumes com atenção.
Paz e libertação
No fim, com a pressão militar americana e a instabilidade política de Trípoli, as negociações avançam. Cowdery informa os oficiais da paz, registra a alegria dos prisioneiros e encerra com observações sobre a religião muçulmana. Seu relato combina diário militar, etnografia, patriotismo e testemunho médico.
8. William Ray — “Horrors of Slavery”
Uma narrativa em disputa com Cowdery
William Ray, também prisioneiro em Trípoli após a captura da Philadelphia, escreve de forma muito mais amarga que Cowdery. Ele critica o relato do médico, acusa-o de suavizar ou distorcer fatos e reivindica a perspectiva do marinheiro comum. A diferença é essencial: Cowdery observa de cima; Ray sofre de baixo.
Crítica à rendição da Philadelphia
Ray sugere que a rendição da fragata foi vergonhosa, precipitada ou mal explicada. Ele critica oficiais, especialmente pela distância entre a retórica patriótica e a situação real da tripulação. Para ele, a captura não foi apenas tragédia militar, mas falha de comando.
Oficiais privilegiados, marinheiros abandonados
O centro do capítulo é a denúncia da desigualdade entre oficiais e tripulação. Ray afirma que os oficiais tinham comida, alojamento e proteção melhores, enquanto os marinheiros sofriam fome, nudez, espancamentos e trabalho forçado. A escravidão em Trípoli, no seu relato, reproduz também hierarquias internas americanas.
Fome, trabalho e humilhação
Ray descreve trabalhos pesados, como carregar materiais, furar canhões, lidar com fortificações e executar tarefas extenuantes sem alimentação adequada. A fome aparece como constante, e o pão preto, a carne salgada e a falta de provisões tornam-se símbolos da degradação.
Violência tripolitana
O texto mostra espancamentos, insultos, cuspidas, ameaças e punições. Ray também relata mutilações públicas, como a amputação de mão e pé de criminosos, com uso de piche quente. Essas cenas reforçam a imagem de Trípoli como espaço de crueldade legalizada.
Ataque à autoridade americana
Ray não poupa Bainbridge nem outros oficiais. Acusa-os de não cuidar adequadamente da tripulação, de se preocupar mais com roupas e objetos do que com homens famintos e de manter distância social mesmo em cativeiro. O capítulo desmonta a imagem sentimental de união nacional entre prisioneiros.
Nacionalismo popular
Apesar das críticas aos oficiais, Ray mantém forte patriotismo. Sua indignação vem justamente da ideia de que marinheiros americanos deveriam ser defendidos pelo governo e pela marinha. Ele apresenta o marinheiro comum como verdadeiro portador da coragem nacional, não os oficiais bem alojados.
Função da obra
Horrors of Slavery é menos etnográfico e mais polêmico. Seu objetivo é corrigir versões oficiais, denunciar abusos e mostrar que a escravidão barbaresca não atingia todos os americanos da mesma forma. O texto é uma acusação contra Trípoli, mas também contra a desigualdade interna dos próprios americanos.
9. Robert Adams — “The Narrative of Robert Adams”
Naufrágio do Charles
Robert Adams parte de Nova York em 1810 no navio Charles, comandado por John Horton. Após passar por Gibraltar, o navio naufraga na costa ocidental da África. A tripulação sobrevive, mas é capturada por mouros e dividida entre captores. O naufrágio transforma marinheiros em mercadoria humana.
Mediação editorial e dúvida sobre veracidade
O relato de Adams é fortemente mediado por Samuel Cook e confirmado, em parte, por carta de Joseph Dupuis, vice-cônsul britânico em Mogador. A obra se preocupa muito com a autenticidade, sobretudo porque Adams afirma ter vivido em Tombuctoo/Timbuktu, cidade cercada de mitos europeus. A narrativa é importante não só pelo cativeiro, mas pela disputa sobre conhecimento geográfico africano.
Identidade instável
Adams também é chamado de Benjamin Rose, e sua identidade racial e social é instável. Baepler destaca que ele é o único cativo afro-americano da antologia. No decorrer do relato, ele pode ser percebido como branco, negro, árabe ou cristão estrangeiro, dependendo do olhar dos outros. A obra expõe a fragilidade das categorias raciais quando deslocadas para outro contexto.
Viagem forçada pelo deserto
Depois do naufrágio, Adams e outros sobreviventes são levados pelo deserto, separados, trocados e submetidos a longas caminhadas, sede, fome e incerteza. Os captores procuram aproveitar os cativos como propriedade, moeda de troca ou força de trabalho. A travessia é marcada por desorientação geográfica e dependência absoluta dos senhores.
Chegada a Tombuctoo
Em Tombuctoo, Adams e um rapaz português são levados ao rei Woollo e à rainha Fatima, que os tratam como curiosidades. Adams descreve a casa real, o comércio, o rio, as embarcações, os animais, as marcas corporais, a alimentação, o vestuário e os costumes locais. Esse trecho é uma das partes mais etnográficas da obra.
Descrição da cidade e dos costumes
Adams fala de casas de barro e palha, mercado, escravos, armas, comércio de sal, ouro, marfim, goma, penas de avestruz, peles e cowries. Também menciona práticas de guerra e expedições para captura de escravos. A cidade é apresentada sem o esplendor fabuloso esperado pelos europeus, o que ajuda a explicar a desconfiança em relação ao relato.
Animais e exotismo
A narrativa inclui descrições de animais como elefantes, camelos, antílopes, babuínos, lobos e uma criatura chamada courcoo, de caráter quase fantástico. Esse ponto alimentou críticas posteriores: algumas descrições parecem misturar observação, boato e imaginação. Ainda assim, mostram como o texto oferecia ao público europeu e americano um inventário de maravilhas africanas.
Saída de Tombuctoo e nova travessia
Adams parte de Tombuctoo com mouros libertados e outros viajantes. O grupo passa por regiões como Tudenny, enfrenta sede e fome, e alguns morrem no deserto. A narrativa reforça a precariedade da vida saariana e a vulnerabilidade dos corpos diante do calor, da falta de água e do abandono.
Venda, fuga e novos senhores
Adams passa por vários donos, incluindo Hamet Laubed, Mahomet Laubed e Boerick. Trabalha cuidando de camelos e cabras, tenta escapar, é perseguido e vendido novamente. Um episódio importante envolve Isha, esposa jovem de seu senhor, que se aproxima dele e provoca acusação grave por envolver um cristão com mulher muçulmana.
Chegada a Wadinoon e reencontro com companheiros
Em Wadinoon, Adams reencontra antigos companheiros do Charles, como Stephen Dolbie, James Davison e Thomas Williams. Ali, os cristãos sofrem trabalho severo e pressão para se converter ao Islã. Alguns cedem; Adams resiste, mesmo com ameaças e correntes.
Intervenção de Joseph Dupuis
A libertação vem por meio de Joseph Dupuis, cônsul britânico em Mogador, que envia carta aos prisioneiros e negocia o resgate. Adams é acolhido, interrogado e tratado com bondade. Depois segue para Santa Cruz, Mogador, Tânger, Cádiz e finalmente busca retorno ao mundo atlântico.
Valor da narrativa
A narrativa de Adams é ao mesmo tempo relato de cativeiro, documento geográfico, problema de autenticidade e caso de mediação racial. A experiência pessoal do cativo muitas vezes fica subordinada ao interesse europeu por Timbuktu. Ainda assim, o texto revela como escravidão, exploração africana, curiosidade imperial e raça se cruzam.
10. Eliza Bradley — “An Authentic Narrative”
Relato feminino provavelmente ficcional
A narrativa de Eliza Bradley é apresentada como “autêntica”, mas Baepler a trata como provavelmente ficcional e dependente de relatos anteriores, especialmente o de James Riley. Mesmo assim, ela é importante porque mostra a versão sentimental e religiosa da mulher cristã capturada no deserto.
Naufrágio e captura
Eliza, esposa do capitão James Bradley, naufraga na costa da Barbária. Ela, o marido e outros sobreviventes são capturados por árabes. O grupo enfrenta sede, fome, exaustão, medo e humilhação. A protagonista se apresenta como figura de força moral, sustentando os companheiros com esperança religiosa.
Separação do marido
O drama central é a separação entre Eliza e James Bradley. Ela teme que a separação seja definitiva e interpreta tudo sob a ótica da providência divina. A perda do marido transforma o cativeiro em prova conjugal e espiritual.
A Bíblia como consolo
Eliza conserva e lê uma Bíblia, encontrando nela consolo para si e para os outros cativos. O texto cita salmos e passagens de confiança em Deus. A Bíblia não é apenas objeto religioso; é símbolo de identidade cristã, resistência interior e continuidade com o mundo civilizado.
Cativeiro no acampamento árabe
Eliza descreve o acampamento de seu senhor, composto por tendas, camelos, mulheres, crianças e tarefas domésticas. Ela observa alimentação, roupas, costumes, poligamia, trabalho feminino e hábitos de viagem. Também trabalha cuidando de camelos, recolhendo alimentos e tentando resistir a tarefas que a tornariam mais útil aos captores.
Reflexões morais sobre mulheres cristãs
A narrativa inclui longas passagens moralizantes dirigidas a mulheres de sua própria sociedade. Eliza contrasta a vaidade feminina, a preocupação com aparência e elogios sociais, com o verdadeiro valor da leitura bíblica e da piedade. É a velha mania humana de quase morrer no deserto e ainda arrumar tempo para dar sermão moral, mas dentro da lógica do texto isso reforça sua função religiosa.
Negociação do resgate
James Bradley consegue contato com Mr. Willshire, em Mogadore, que oferece dinheiro pelo resgate de Eliza. A mensagem do marido chega por intermediário, e a esperança retorna. O resgate depende da aceitação do senhor árabe e da travessia até regiões sob influência marroquina.
Travessia até a liberdade
Eliza viaja por vilas, regiões árabes e mouras, enfrentando obstáculos, fome e dependência de mediadores locais. A chegada à vista de navios e bandeiras no porto é narrada como êxtase: o mundo marítimo europeu reaparece como sinal de liberdade.
Reencontro e retorno
Eliza reencontra o marido, louva a Deus e atribui a libertação à providência. Mr. Willshire ajuda também outros cativos. O relato termina com gratidão religiosa, comunhão cristã e retorno a Liverpool. A estrutura é clara: queda, provação, fé, resgate e restauração.
11. Ion H. Perdicaris — “In Raissuli’s Hands”
O último grande eco do cativeiro barbaresco
O caso de Ion H. Perdicaris ocorre em 1904, muito depois da era clássica dos corsários barbarescos. Perdicaris, milionário residente em Tânger, é sequestrado junto com seu enteado britânico Cromwell Varley por Muali Ahmed er Raisuli. O episódio mobiliza Theodore Roosevelt, a imprensa americana e esquadras navais.
Sequestro doméstico e teatral
Perdicaris narra o ataque à sua casa em Tânger, inicialmente confundindo o barulho com conflito entre empregados. Logo percebe que homens armados invadiram a residência. Ele e Varley são amarrados, retirados de casa e conduzidos ao interior. A cena mistura violência, surpresa e uma estranha formalidade por parte de Raisuli.
Raisuli como captor ambíguo
Diferente dos captores demonizados de narrativas anteriores, Raisuli é descrito com certa admiração. Perdicaris nota sua dignidade, gentileza e autoridade natural. O sequestrador é violento e político, mas também cortês, inteligente e carismático. O resultado é um retrato quase romântico do bandido nobre.
Desconforto físico e ansiedade
A viagem pelas montanhas é difícil: calor, frio, insetos, sede, comida ruim, sela desconfortável, ferimentos e medo. Perdicaris sofre por sua saúde, pela saúde da esposa e pela possibilidade de ser mantido indefinidamente como refém. O cativeiro é menos brutal que os antigos bagnios, mas continua angustiante.
Motivações políticas de Raisuli
Raisuli explica que sequestrou um europeu para pressionar o governo marroquino. Suas exigências incluem remoção de autoridades, libertação de aliados, indenizações e reconhecimento de poder. Perdicaris entende que é usado como instrumento para constranger o sultão Abd-el-Aziz e denunciar abusos de autoridades como os Abd-el-Saduks.
Crítica ao governo marroquino
O relato apresenta Raisuli como produto de um sistema corrupto e arbitrário. Perdicaris não absolve o sequestrador, mas sugere que autoridades oficiais podem ser piores que o rebelde. A fronteira entre bandido e governante fica turva, uma descoberta nada surpreendente para quem já observou política por mais de dez minutos.
Negociação e libertação
As negociações envolvem autoridades marroquinas, mediadores, chefes locais, ameaças de outros grupos e a presença da frota americana. A libertação depende de acordos entre Raisuli e o governo, não de uma invasão militar direta. Perdicaris é finalmente solto.
Despedida quase afetuosa
O texto termina com Perdicaris admitindo que sentiu tristeza ao deixar Raisuli, a quem considera uma das personalidades mais interessantes que conheceu. Essa conclusão subverte o padrão antigo do gênero: o captor não é apenas monstro; é figura política complexa, sedutora e contraditória.
12. Apêndice — Publishing History of the American Barbary Captivity Narrative
Objetivo do apêndice
O apêndice apresenta uma história editorial das narrativas americanas de cativeiro barbaresco. Baepler afirma que não há bibliografia completa do gênero e que sua lista é tentativa, não definitiva. O objetivo é mapear publicações, reedições, versões fictícias, adaptações e textos relacionados.
Inclusão de textos autênticos e fictícios
O apêndice inclui narrativas historicamente verificáveis e também relatos aparentemente fictícios, porque ambos participaram da formação do gênero. Essa decisão segue a tese da introdução: o impacto cultural do cativeiro barbaresco depende tanto dos fatos quanto das versões literárias que circularam como verdade.
Diversidade de formatos
A lista reúne sermões, diários, relatos de viagem, narrativas de naufrágio, histórias femininas, publicações infantis, artigos, edições populares e reimpressões. O gênero não ficou preso a um formato único; ele se adaptou ao mercado editorial e ao interesse do público.
Reedições e popularidade
Autores como John D. Foss, Jonathan Cowdery, William Ray, Robert Adams, James Riley, Eliza Bradley e Viletta Laranda aparecem em múltiplas edições. Isso demonstra que o tema teve forte apelo comercial, especialmente quando combinava perigo, religião, exotismo, escravidão e sobrevivência.
Função acadêmica
O apêndice serve como ferramenta para pesquisadores. Ele mostra que a narrativa barbaresca é um corpus amplo, disperso e ainda parcialmente recuperável em jornais, diários, cartas e obras populares. A antologia, portanto, é também um gesto de reconstrução bibliográfica.
Principais ideias recorrentes da obra
Cativeiro como inversão do mundo atlântico
A obra insiste na inversão: americanos e europeus brancos, habituados a uma ordem atlântica marcada pela escravidão africana, aparecem como escravos na África. Essa inversão não elimina a escravidão negra americana, mas força comparações incômodas entre liberdade proclamada e liberdade negada.
Cristianismo contra Islã
Quase todas as narrativas tratam o cativeiro como confronto entre cristãos e muçulmanos. O medo da apostasia é recorrente: virar “turco” ou “mouro” significa, para os autores, não só mudar de religião, mas trair civilização, pátria e alma.
Escravidão como experiência corporal
A escravidão é descrita por fome, sede, nudez, piolhos, correntes, bastonadas, feridas, febres, trabalho forçado e humilhação. O corpo do cativo é o principal documento da violência.
Resgate como redenção
A libertação aparece sob três formas: redenção religiosa, resgate financeiro e vitória nacional. Mather enfatiza a oração; Foss e Cathcart enfatizam negociação e tributo; Cowdery e Ray enfatizam guerra e honra americana; Bradley e Martin enfatizam providência sentimental.
Etnografia contaminada por preconceito
Muitos relatos descrevem roupas, comidas, casamentos, orações, punições, mercados, arquitetura, animais e costumes locais. Porém essas observações quase sempre vêm acompanhadas de julgamentos morais e raciais. A obra mostra tanto o desejo de conhecer quanto a incapacidade de ver o outro sem filtros ideológicos.
A nação americana em teste
Os cativos frequentemente acusam os Estados Unidos de demora, negligência ou fraqueza. A jovem república, que fala tanto em liberdade, precisa provar se consegue proteger seus cidadãos escravizados no exterior.
Ficção e verdade misturadas
A antologia mostra que o gênero vive de uma zona cinzenta entre testemunho, propaganda, sermão, romance, diário e espetáculo editorial. Alguns relatos são documentais; outros são provavelmente inventados; todos, porém, moldaram percepções públicas sobre África, Islã, raça, escravidão e poder.
Referências citadas
Pessoas, autores e editores
Paul Baepler; Cotton Mather; John D. Foss; James Leander Cathcart; Maria Martin; Jonathan Cowdery; William Ray; Robert Adams; Eliza Bradley; Ion H. Perdicaris; Joshua Gee; Mary Rowlandson; Samuel Sewall; Samuel Cook; Joseph Dupuis; Theodore Roosevelt; Thomas Jefferson; John Adams; Joel Barlow; David Humphreys; Stephen Decatur; Edward Preble; William Eaton; William Bainbridge; James Riley; Archibald Robbins; Judah Paddock; Mary Velnet / Mary Veiner; Viletta Laranda; Richard Burton; David Livingstone; Mary Kingsley; Mary Louise Pratt; Christopher Castiglia; Gary Ebersole; Joanne Dobson.
Personagens, cativos e captores mencionados
Rais Hudga Mahomet Salamia; Hamet Laubed; Mahomet Laubed; Boerick; Isha; Woollo; Fatima; Muali Ahmed er Raisuli; Cromwell Varley; Abd-el-Aziz; Abd-el-Malek; Mulai Ahmed; Abd-el-Saduks; Mr. Willshire; James Bradley; Thomas Prince; Wilson; John Hilliard; William Anderson; Jacob Dowdesher; Thomas Williams; James Davison; Stephen Dolbie; John Horton; Charles Stillwell.
Obras e textos citados ou resumidos
White Slaves, African Masters; The Glory of Goodness; A Journal, of the Captivity and Sufferings of John Foss; The Captives, Eleven Years in Algiers; History of the Captivity and Sufferings of Mrs. Maria Martin; American Captives in Tripoli; Horrors of Slavery; The Narrative of Robert Adams; An Authentic Narrative; In Raissuli’s Hands; Publishing History of the American Barbary Captivity Narrative; The Sovereignty and Goodness of God; A Pastoral Letter to the English Captives in Africa; The Quest for Timbuctoo; Robinson Crusoe.
Lugares e regiões
Barbary / Barbária; Norte da África; Magrebe; Argel; Argélia; Marrocos; Túnis; Trípoli; Tânger; Mogador / Mogadore; Santa Cruz; Wadinoon; Tombuctoo / Timbuktu; Tudenny; Soudenny; Gibraltar; Cádiz; Lisboa; Boston; Baltimore; Newburyport; Nova York; Philadelphia; Cabo de São Vicente; Saara; Mediterrâneo; Atlântico; Roanoke; Wethersfield; Canárias; Sallee; M’zorra; Beni Arroze; Beni M’Saour; Beni Idder.
Instituições, governos e grupos
University of Chicago Press; Estados Unidos; U.S. Navy; Regência de Argel; Regência de Trípoli; governo marroquino; Império Otomano; corsários barbarescos; Dey de Argel; Bashaw de Trípoli; cônsules europeus; African Association; Republican National Convention; Marinha americana; consulado britânico em Mogador.
Navios e objetos navais
Polly; Maria; Dauphin; Betsey; Philadelphia; Charles; Babasera; xebeque argelino; fragata americana; navios corsários; galés; gun boats; pontoons.
Eventos históricos
Captura de Joshua Gee; captura do Betsey; captura do Maria e do Dauphin; tratados americanos com Argel, Túnis e Trípoli; criação e afirmação da Marinha dos Estados Unidos; Guerra de Trípoli; captura da Philadelphia; incêndio da Philadelphia por Stephen Decatur; bombardeios de Trípoli; resgate dos cativos americanos em Argel; naufrágio do Charles; sequestro de Ion Perdicaris; mobilização naval de Theodore Roosevelt.
Conceitos fundamentais
Cativeiro barbaresco; escravidão branca; narrativa de cativeiro; narrativa de escravos; narrativa de cativeiro indígena; redenção; resgate; apostasia; providência divina; guerra santa; jihad; barbárie; civilização; raça; branquitude; negritude; honra nacional; tributo; pirataria; corsarismo; bagnio; bastinado; trabalho forçado; etnografia; sentimentalismo; romance gótico; autenticidade narrativa; ficção documental; imperialismo; exotismo; orientalismo; redenção cristã; liberdade republicana; contradição entre liberdade e escravidão.
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