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12 novembro, 2025

[Curso] Crime e Castigo (2022)

 



Intro

"Publicado em 1866, Crime e castigo é a obra mais célebre de Fiódor Dostoiévski. Neste livro, Raskólnikov, um jovem estudante, pobre e desesperado, perambula pelas ruas de São Petersburgo até cometer um crime que tentará justificar por uma teoria: grandes homens, como César ou Napoleão, foram assassinos absolvidos pela História. " (sinopse)

Curso ministrado por Rodrigo Gurgel sobre o livro no Seminário de Literatura.


Tópicos Abordados


  1. Nietzsche, Turgueniev e as características do niilismo: apontamentos para entender melhor Raskólnikov, protagonista de “Crime e Castigo”.
  2.  ​As características do niilismo russo.
  3. Nietzsche: profeta e teórico do niilismo
  4. Riqueza psicológica de “Crime e Castigo" (síntese)
  5. Confusão e consciência em "Crime e Castigo" (síntese)


Conclusão


Excelente curso. Me fez lembrar de "expedições no mundo da cultura" do Monir Nasser.


Recomendo.


abs!





Aula 1


1. Propósito da obra e da análise

  • Apresentar o romance e seu contexto

  • Explorar o núcleo humano e espiritual


2. Visão de ser humano

  • Origem divina e potencial interior elevado

  • Capacidade de superar o mal

  • Sofrimento como caminho para redenção


3. Base filosófica e religiosa

  • Presença da graça divina no homem

  • Vida orientada por:

    • Amor

    • Perdão

  • Busca por redenção espiritual


4. Natureza humana

  • Ser humano dividido e em conflito interno

  • Autoconhecimento como chave de compreensão


5. Crítica à modernidade e ideologias

  • Materialismo reduz a realidade ao superficial

  • Ideologias deformam a compreensão do real

  • Transformação verdadeira é moral e interior


6. Concepção de literatura

  • Escritor como agente espiritual (sacerdote/profeta)

  • Literatura revela profundidade e transforma o leitor


7. Característica central da obra

  • Foco no conflito moral, não apenas social

  • Ênfase na transformação interior


8. Ideias centrais de Crime e Castigo

  • Raskólnikov representa o niilismo

  • Ideologias podem justificar o crime

  • Conflito entre:

    • Moral

    • Ideologia


9. Contexto histórico e social

  • Rússia:

    • Isolamento

    • Autocracia

  • Sociedade marcada por:

    • Pobreza

    • Desigualdade

    • Tensão política


10. Autor e contexto intelectual

  • Mudança ideológica:

    • Do socialismo → cristianismo ortodoxo

  • Alinhamento com eslavófilos


11. Produção e recepção

  • Escrita sob pressão financeira

  • Publicação seriada

  • Forte impacto social

  • Recepção dividida:

    • Críticas religiosas

    • Reconhecimento da profundidade psicológica


12. Ideia central final

  • O sofrimento conduz à redenção

  • A verdadeira transformação é espiritual e interior


 



Aula 2

1. Propósito da aula

1.1 Leitura aprofundada da obra

  • A proposta da aula é realizar uma leitura lenta e profunda de Crime e Castigo.

  • O foco não está em resumir superficialmente o romance, mas em perceber suas sutilezas psicológicas, morais e simbólicas.

1.2 Importância da releitura

  • O professor destaca que grandes obras revelam novos sentidos a cada releitura.

  • A releitura é apresentada como mais valiosa do que o consumo de obras superficiais.


2. Caracterização inicial de Raskólnikov

2.1 Significado do nome

  • O nome Raskólnikov remete à ideia de cisão, divisão, cisma.

  • O protagonista é apresentado como um homem interiormente dividido, entre bem e mal, certeza e dúvida, impulso e hesitação.

2.2 Ligação com uma tradição literária

  • O personagem é comparado a figuras como Rastignac, Julien Sorel e Hermann.

  • Isso mostra que Dostoiévski dialoga com uma tradição literária mais ampla, e não escreve isoladamente.


3. O ambiente como reflexo da alma

3.1 O quarto e a cidade

  • O cubículo onde Raskólnikov vive é descrito como minúsculo, opressivo e degradante.

  • A cidade de São Petersburgo aparece como um espaço de calor, sujeira, poeira, mau cheiro, barulho e decadência.

3.2 Relação entre espaço e psicologia

  • O ambiente não é apenas cenário: ele espelha o estado interior do protagonista.

  • A opressão física da cidade e do quarto corresponde à opressão psicológica de Raskólnikov.


4. A divisão interior de Raskólnikov

4.1 O “gesto de ousadia”

  • Desde o início, Raskólnikov pensa em realizar um ato decisivo, chamado de “gesto de ousadia”.

  • Ao mesmo tempo em que deseja realizá-lo, sente medo, repugnância e dúvida.

4.2 Oscilação constante

  • Ele oscila entre:

    • vontade de agir e paralisia;

    • desprezo pelos outros e compaixão;

    • nojo do mal e nojo do bem;

    • impulso de isolamento e desejo de companhia.

4.3 Personalidade contraditória

  • Raskólnikov é descrito como um homem belo fisicamente, mas internamente em ruína.

  • Sua personalidade é marcada por tensão, fome, miséria, devaneio e desprezo malévolo.


5. O simbolismo do chapéu

5.1 O chapéu como extensão da personalidade

  • O chapéu gasto, amassado e ridículo funciona como símbolo da condição interior de Raskólnikov.

  • Ele representa um homem desgastado, desordenado e destruído.

5.2 Relação com o plano secreto

  • Quando percebe que o chapéu pode chamar atenção, Raskólnikov entende que um detalhe banal pode comprometer seu plano.

  • Isso reforça que o ato que pretende cometer exige anonimato e dissimulação.


6. O encontro com a velha agiota

6.1 Visita calculada

  • Raskólnikov vai até a casa da velha agiota já tendo observado e planejado detalhes do local.

  • Ele presta atenção em objetos, chaves, luz, disposição do espaço e rotinas da casa.

6.2 Repugnância e inversão moral

  • Ao ver o apartamento limpo, ele associa esse asseio a algo moralmente suspeito.

  • Surge uma inversão de valores: a limpeza parece má, enquanto sua própria sujeira quase se torna justificável.

6.3 Horror diante do próprio pensamento

  • Ao sair, sente nojo de tudo, sobretudo do que está pensando em fazer.

  • Reconhece que o plano lhe parece sujo, baixo e monstruoso.


7. A taberna e o encontro com Marmieládov

7.1 Novo cenário de decadência

  • A taberna intensifica o clima de miséria, abafamento, sujeira e degradação.

  • Nesse ambiente, Raskólnikov conhece Marmieládov, funcionário arruinado pelo alcoolismo.

7.2 Significado de Marmieládov

  • Marmieládov simboliza a fraqueza moral, a falta de vontade e a degradação humana.

  • Ele também é um homem dividido, incapaz de sustentar uma vida digna apesar de compreendê-la.

7.3 Crítica às ideias modernas

  • Em sua fala, aparece uma crítica às ideias utilitaristas e ocidentalistas, nas quais a compaixão cede lugar à frieza econômica.


8. A história de Sônia e a miséria moral

8.1 Prostituição como fruto da miséria

  • Marmieládov conta como sua filha Sônia foi levada à prostituição para sustentar a família.

  • O episódio mostra como a miséria pode destruir a dignidade e empurrar pessoas ao extremo.

8.2 Sônia como figura central

  • Sônia é apresentada como personagem de grande importância moral no romance.

  • Sua figura já aparece associada a sacrifício, compaixão, amor e perdão.

8.3 Dimensão religiosa

  • O discurso final de Marmieládov aponta para uma visão cristã de misericórdia, julgamento e redenção.

  • Sônia é antecipada como símbolo de sofrimento redentor.


9. Contradições morais de Raskólnikov

9.1 Gestos de bondade

  • Apesar do nojo e da irritação, Raskólnikov ajuda Marmieládov a voltar para casa.

  • Também deixa dinheiro para a família sem que percebam.

9.2 Arrependimento imediato

  • Logo após agir com caridade, arrepende-se do gesto.

  • Isso reforça sua natureza cindida e instável, incapaz de sustentar de forma tranquila nem o mal nem o bem.


10. A carta da mãe

10.1 Revelação do lado afetivo

  • Quando recebe a carta da mãe, Raskólnikov demonstra emoção sincera, carinho e memória afetiva.

  • O episódio mostra que ele não está moralmente morto, mas profundamente desorientado.

10.2 Novo agravamento da crise

  • A carta informa sobre os sacrifícios da mãe e da irmã.

  • Isso intensifica o tormento interior de Raskólnikov e torna urgente a necessidade de tomar uma decisão.


11. A irmã de Raskólnikov e o paralelo com Sônia

11.1 Casamento como forma de sacrifício

  • Raskólnikov interpreta o casamento da irmã como uma forma de prostituição moralmente aceita.

  • Ele aproxima a situação da irmã à de Sônia: ambas sacrificam a si mesmas para sustentar outros.

11.2 Problema moral central

  • Esse paralelo reforça a revolta de Raskólnikov diante de uma sociedade em que a sobrevivência parece exigir humilhação e degradação.


12. A ideia central em formação

12.1 Necessidade de agir

  • A tensão interior de Raskólnikov amadurece até virar uma exigência de solução.

  • Ele sente que precisa agir imediatamente, em vez de apenas sofrer passivamente.

12.2 O pensamento perigoso

  • Surge com força a ideia de que, se o homem não é apenas um ser vil e se os limites são apenas medo e superstição, então talvez não haja barreiras reais para a ação humana.

12.3 Núcleo filosófico do romance

  • O texto sugere que o romance gira em torno da pergunta:

    • o homem tem o direito de ultrapassar limites morais em nome de uma solução?


Síntese final

13. Ideias principais da aula

  • Crime e Castigo é apresentado como um romance centrado na divisão interior de Raskólnikov.

  • O ambiente urbano e doméstico funciona como reflexo de sua degradação psicológica e moral.

  • Os encontros com a velha agiota, Marmieládov, Sônia e a carta da mãe aprofundam o conflito entre:

    • miséria e dignidade;

    • repulsa e compaixão;

    • paralisia e ação;

    • culpa e justificação.

13.1 Conclusão interpretativa

  • A aula apresenta o início do romance como a construção gradual de uma crise moral extrema.

  • Raskólnikov aparece como um personagem inteligente, sensível e profundamente deformado, que tenta encontrar uma saída para o sofrimento, mas caminha em direção a uma decisão terrível.






















Anexo - Obras indicadas

Tradução do russo:
Nina Guerra e Filipe Guerra





na biblioteca





na biblioteca 















Enfrentando o Epílogo de “Crime e Castigo


Resumo objetivo

O texto defende que o epílogo de Crime e Castigo costuma ser mal lido quando se isola a frase de que Raskólnikov “não se arrependia de seu crime”. Para a autora, essa frase descreve apenas um primeiro momento do epílogo, em que o personagem ainda permanece orgulhoso, racionalista e espiritualmente endurecido. 

A tese central é que o epílogo tem duas etapas:

  1. Persistência da soberba
    Raskólnikov ainda interpreta o crime como um fracasso de execução, não como um mal moral. Ele continua dividido entre sua teoria e sua consciência, sem reconhecer plenamente a gravidade espiritual do ato.

  2. Transformação espiritual real
    Depois, o próprio narrador indica que esse estado não é definitivo e anuncia a futura “ressurreição” interior do personagem. A mudança acontece gradualmente, sobretudo por meio de Sônia, que representa o amor cristão e a possibilidade de redenção. 

Segundo a autora, o ponto decisivo é que Raskólnikov não termina o romance no mesmo estado moral em que entra no epílogo. Sua aproximação de Sônia, sua mudança na relação com os outros presos e, no fim, sua abertura ao Evangelho mostram que Dostoiévski quis retratar uma conversão interior, não a permanência no niilismo ou no racionalismo frio.

Ideia central do artigoa

A autora rejeita a leitura segundo a qual Dostoiévski estaria afirmando que Raskólnikov não se arrepende até o fim. Para ela, isso é uma leitura truncada. O romance termina justamente apontando para o contrário: uma renovação moral e espiritual, em que a “dialética” cede lugar à vida, ao amor e à redenção cristã. 

Em uma frase

O artigo sustenta que o epílogo de Crime e Castigo não nega o arrependimento de Raskólnikov, mas mostra sua formação lenta e profunda. (Lorena Miranda Cutlak)




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  1. https://rodrigogurgel.com.br/raskolnikov-e-eu/
  2. https://lorenamirandacutlak.com.br/199/

4 comentários:

  1. A história de vida de Dostoiévski é medonha. Qualquer outro homem teria sucumbido.
    Tenho crime e castigo em dois volumes pela Abril, dentro daquela coleção que era vendida em banca, com capa de tecido.
    Eu deveria acompanhar mais Rodrigo Gurgel, mas é tanta coisa pra fazer e tão pouco tempo.
    Abraços

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    1. "A educação liberal, que consiste no constante intercâmbio com as maiores mentes, é um treinamento na mais alta forma de modéstia, para não dizer de humildade. É, ao mesmo tempo, um treinamento em ousadia: exige de nós a ruptura completa com o barulho, a pressa, a irreflexão, a mesquinharia da Feira das Vaidades dos intelectuais, bem como de seus inimigos. " (https://scantsa.blogspot.com/2025/02/discurso-o-que-e-educacao-liberal-1959.html#more)

      o importante é continuar estudando

      abs!

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    2. "ruptura completa com o barulho, a pressa, a irreflexão"
      Quanto a isso, às vezes consigo. O problema é mulher brigando com filha que tá crescendo.
      Abraços

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    3. mais alguns anos e vc sentirá saudade dessa fase e escreverá um texto melancólico no seu blog
      kkkk

      abs!

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