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Todos os diálogos de Platão – Exame completo da obra de Platão, filósofo maior do ocidente, em 50 aulas, cada uma das quais com 120 minutos de duração média. Aulas gravadas ao vivo entre maio de 2022 e junho de 2023.
Mais um curso. Vamos lá.
Resumo
O VALOR DA COERÊNCIA
1. Informações preliminares
1.1. Contexto da obra
O Críton é considerado pela crítica um escrito de juventude de Platão.
A cena ocorre na terceira madrugada antes da morte de Sócrates.
Sócrates está na prisão, aguardando o cumprimento de sua sentença.
1.2. Personagens principais
Sócrates
Está preso e condenado à morte.
Recusa a proposta de fuga feita por Críton.
Defende que a justiça deve estar acima da preservação da própria vida.
Críton
Discípulo fiel de Sócrates.
Ateniense abastado, pertencente ao mesmo demo de Sócrates.
Sempre ajudou Sócrates em circunstâncias práticas.
Não estava entre os discípulos mais inteligentes.
Participa pouco da discussão, embora dê origem ao problema central do diálogo.
1.3. Problema central
O problema central do diálogo é a natureza do dever.
A discussão gira em torno da seguinte pergunta:
É justo Sócrates fugir da prisão?
1.4. Características do diálogo
É um dos diálogos mais curtos e claros de Platão.
Apesar da brevidade, apresenta um problema central importante.
Oferece uma solução bem acabada para esse problema.
2. Estrutura do diálogo
2.1. Prelúdio
Críton vai à cela de Sócrates.
Ele está preocupado com a proximidade da execução da sentença.
Críton propõe que Sócrates fuja da prisão.
Afirma que possui todos os recursos necessários para organizar a fuga.
2.2. Proposta de Críton
Críton tenta convencer Sócrates a escapar.
Para isso, apresenta argumentos práticos, morais e afetivos.
Sua preocupação envolve:
A reputação dos amigos;
A segurança de Sócrates;
O futuro dos filhos de Sócrates;
A responsabilidade dos discípulos diante da condenação.
2.3. Resposta de Sócrates
Sócrates recusa a proposta de fuga.
Ele afirma que fugir do cárcere seria um erro.
Sua resposta se baseia na coerência entre:
Vida;
Doutrina;
Justiça;
Dever;
Obediência às Leis.
2.4. Prosopopeia das Leis
Sócrates utiliza a personificação das Leis.
As Leis aparecem como se pudessem falar e argumentar.
Por meio dessa figura, Sócrates mostra que fugir seria uma agressão à ordem da cidade.
3. Argumentos de Críton
3.1. Julgamento do povo
Críton afirma que o povo julgará mal os amigos de Sócrates.
A opinião pública poderá acusá-los de abandono.
Parecerá que eles não quiseram ajudar Sócrates, mesmo tendo condições para isso.
3.2. Facilidade prática da fuga
Críton diz que as dificuldades práticas seriam facilmente resolvidas.
Ele possui recursos financeiros e contatos suficientes.
A fuga, portanto, seria possível.
3.3. Prejuízo a Sócrates
Para Críton, permanecer na prisão seria prejudicial ao próprio Sócrates.
Ao aceitar a morte, Sócrates estaria abrindo mão da própria vida.
3.4. Prejuízo aos filhos
Críton afirma que Sócrates prejudicaria seus filhos.
Ao morrer, deixaria de educá-los e acompanhá-los.
3.5. Prejuízo aos amigos
Sócrates também prejudicaria seus amigos.
Eles perderiam sua presença, sua orientação e sua companhia.
4. Resposta de Sócrates
4.1. Coerência entre vida e doutrina
A vida de um homem deve ser coerente com sua doutrina.
Sócrates não pode defender a justiça durante toda a vida e, no momento decisivo, agir injustamente.
Fugir seria contradizer aquilo que ele sempre ensinou.
4.2. A opinião correta
A opinião de todos não deve servir como referência.
O importante não é o que a maioria pensa.
A referência deve ser a opinião daqueles que sabem.
4.2.1. Crítica à opinião pública
A opinião do povo pode ser injusta, instável e ignorante.
O julgamento da multidão não é critério seguro para decidir o que é justo.
4.2.2. Valor da opinião dos sábios
Deve-se ouvir quem conhece a justiça.
O juízo correto vem daqueles que possuem conhecimento.
4.3. Viver bem, não apenas viver
Viver por viver não é o ponto central.
O mais importante é viver bem.
Viver bem significa viver segundo:
A virtude;
A justiça;
A coerência;
O dever.
4.4. A pergunta decisiva
A questão principal não é se Sócrates pode fugir.
A questão central é:
É justo fugir do cárcere?
Eis aí Sócrates fazendo filosofia em vez de logística de fuga, porque aparentemente morrer com coerência era mais importante do que virar turista clandestino.
5. Princípio fundamental da justiça
5.1. Não cometer injustiça
Sócrates afirma que nunca se deve cometer injustiça.
A injustiça não se torna aceitável por causa das circunstâncias.
5.2. Não revidar injustiça com injustiça
Mesmo tendo sofrido uma injustiça, Sócrates não deve responder com outra.
Fugir da prisão seria revidar a injustiça da condenação com uma nova injustiça.
5.3. A justiça acima da sobrevivência
A vida não deve ser colocada acima da justiça.
Para Sócrates, é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la.
Preservar a vida à custa da justiça destruiria a coerência de sua existência.
6. Prosopopeia das Leis
6.1. Definição de prosopopeia
Prosopopeia é uma figura de linguagem.
Consiste em atribuir sentimentos, psicologia e comportamento humanos:
A seres inanimados;
A animais;
A realidades abstratas.
6.2. Personificação das Leis
No diálogo, Sócrates personifica as Leis.
Ele as apresenta como se pudessem falar diretamente com ele.
As Leis questionam Sócrates sobre a justiça de sua fuga.
6.3. Função da prosopopeia
A prosopopeia permite mostrar o ponto de vista da cidade e de sua ordem jurídica.
As Leis aparecem como fundamento da vida civil.
Fugir da prisão seria agredir essa estrutura.
7. O significado da fuga
7.1. Fugir seria destruir as Leis
Para Sócrates, fugir do cárcere não seria apenas escapar de uma pena.
Seria atacar as próprias Leis.
Ao violar a sentença, ele enfraqueceria a autoridade da ordem legal.
7.2. As Leis como fundamento da cidade
As Leis são as estruturas invisíveis da cidade.
A cidade existe porque há uma ordem que a sustenta.
Sem leis, não há verdadeira cidade.
7.3. O cidadão depende das Leis
O cidadão é quem é em virtude das Leis.
Sua existência civil depende delas.
Sua identidade está ligada à cidade e à sua ordem.
7.4. Violência contra a ordem
Fugir seria cometer violência contra as Leis.
Usar da violência não é justo em hipótese alguma.
A fuga seria uma ruptura com a ordem que sustentou a vida de Sócrates.
8. O dever de obediência às Leis
8.1. Amor de Sócrates por Atenas
Sócrates sempre teve amor e apreço pelas leis de Atenas.
Viveu toda a sua vida dentro dessa cidade.
Beneficiou-se da ordem que ela oferecia.
8.2. Impossibilidade de rejeitar as Leis no momento conveniente
Sócrates não pode aceitar as Leis quando elas lhe favorecem e rejeitá-las quando se tornam inconvenientes.
Fazer isso seria incoerente.
Seria pisotear a ordem à qual ele sempre esteve ligado.
8.3. Incoerência do exílio
Fugir levaria Sócrates a uma vida incoerente.
Ele viveria no exílio em contradição com sua doutrina.
Essa vida seria inconsistente com tudo o que defendeu.
8.4. Justiça acima da vida
Sócrates não tem a vida em maior consideração que a justiça.
Para ele, não basta continuar vivo.
É preciso viver justamente.
9. Problema de superfície
9.1. Questão imediata
O problema de superfície do diálogo é:
É justo fugir da prisão?
9.2. Violação das leis da cidade
Essa questão pode ser reformulada assim:
É justo violar as leis da cidade?
9.3. Ordem entre cidade e cidadão
Outra formulação possível é:
É correto inverter a ordem natural entre cidade e cidadão?
9.4. A cidade como origem civil do cidadão
Fazer mal à cidade compara-se a infligir injustiça ao pai ou à mãe.
O ser de alguém está ligado à sua ascendência.
Do mesmo modo, o estatuto civil de qualquer pessoa está ligado:
À sua origem;
À sua cidadania;
À cidade que a formou.
10. Problema político de fundo
10.1. Questão central
O problema político de fundo é:
Há cidade sem lei?
10.2. Valor político da ordem
A resposta de Sócrates a Críton se baseia no valor político do respeito à ordem.
A cidade depende de uma estrutura que a mantenha.
Essa estrutura é composta pelas Leis.
10.3. Natureza da lei
As Leis são as estruturas invisíveis da cidade.
Elas não são apenas regras externas.
São os fundamentos que tornam possível a vida política.
10.4. Consequência da violação das Leis
Violar as Leis é enfraquecer a própria cidade.
Quando cada cidadão obedece apenas quando lhe convém, a ordem comum se dissolve.
A cidade deixa de existir como ordem política verdadeira.
11. A questão da lei injusta
11.1. O problema
Surge então uma dificuldade importante:
E a lei injusta?
11.2. Correção das leis injustas
Leis injustas devem ser corrigidas.
Essa correção deve ocorrer enquanto os cidadãos estão vivos e atuantes.
O cidadão pode e deve agir para melhorar a cidade.
11.3. Limite da desobediência
A imperfeição das leis não justifica sua violação em benefício próprio.
Não é justo incomodar-se com a imperfeição da lei apenas quando ela se torna inconveniente em um caso particular.
Isso seria transformar a justiça em interesse pessoal, como se a cidade fosse um balcão de reclamações cósmico.
11.4. Violência contra as estruturas da cidade
Violar a lei significa cometer violência contra as estruturas invisíveis da cidade.
Essas estruturas são invisíveis, mas reais.
Elas sustentam a existência da comunidade política.
11.5. Formulação final
É justo corrigir leis injustas.
Não é justo violar a lei.
12. Cidadão, cidade e ordem
12.1. O cidadão não é uma unidade isolada
Os cidadãos não são “a menor minoria”.
Eles não existem como indivíduos absolutamente separados da ordem comum.
São partes de uma realidade política que os antecede.
12.2. A cidade antecede o cidadão
A cidade se impõe sobre o cidadão.
Ela fornece a ordem civil dentro da qual ele vive.
O cidadão deve reconhecer essa dependência.
12.3. A relação com o cosmos
A relação entre pessoas e cidades reflete a condição humana como parte de um cosmos ordenado.
Esse cosmos possui uma ordem desenhada por um ser superior.
Essa ordem se impõe sobre todas as suas partes.
12.4. Cidade e ordem superior
De modo semelhante ao cosmos, a cidade também se impõe sobre o cidadão.
A cidade representa, em nível político, uma ordem que antecede e organiza suas partes.
13. A pergunta moral decisiva
13.1. A vida de Sócrates em Atenas
Sócrates sempre viveu em Atenas.
Foi feliz dentro da cidade.
Beneficiou-se de suas Leis e de sua ordem.
13.2. A pergunta decisiva
Diante disso, surge a pergunta:
É justo derrubar a cidade para salvar a pele de alguém que sempre foi feliz nela?
13.3. Sentido da pergunta
A questão não é apenas salvar Sócrates.
A questão é saber se a salvação de um indivíduo justifica a destruição simbólica da ordem comum.
Para Sócrates, a resposta é negativa.
14. A Apologia como premissa
14.1. Relação entre Apologia e Críton
O discurso de Sócrates na Apologia é a premissa necessária para compreender sua devoção à cidade.
Sem a Apologia, não se entende plenamente sua recusa em fugir.
14.2. Sócrates como servidor da cidade
Sócrates, farol de outros homens, foi posto a serviço da cidade.
Esse serviço ocorreu por desígnio do Deus.
Sua missão não era apenas pessoal, mas ligada à ordem da cidade.
14.3. Vida e ordem superior
A vida de Sócrates é indissociável da ordem superior que governa o mundo.
Sua existência está ligada a essa ordem.
Separar-se dela seria trair o sentido de sua própria vida.
14.4. A cidade como forma aparente da ordem
A cidade aparece como expressão visível dessa ordem.
Ela se sustenta sobre os pilares invisíveis das Leis.
Romper com a cidade seria romper com essa ordem.
14.5. Separar-se da cidade seria separar-se de si mesmo
Para Sócrates, fugir seria separar-se da ordem da cidade.
Como sua vida está ligada a essa ordem, isso significaria separar-se de si mesmo.
A fuga destruiria sua integridade.
15. Conclusão
15.1. O dever como síntese
O dever sintetiza a integridade ontológica do ser humano.
Ele expressa a unidade entre:
Vida;
Doutrina;
Justiça;
Cidade;
Ordem;
Caráter.
15.2. O cerne do caráter
O dever é o centro do caráter.
Ser coerente é permanecer fiel à justiça mesmo diante da morte.
Sócrates recusa a fuga porque não aceita salvar a vida ao preço de destruir a própria coerência.
15.3. Síntese final
O problema imediato é saber se é justo fugir da prisão.
O problema profundo é saber se há cidade sem lei.
A resposta de Sócrates é que não se deve cometer injustiça, nem mesmo para reparar outra injustiça.
A vida só vale plenamente quando vivida segundo a virtude, a justiça e o dever.
Conclusão
Recomendo.
abs!
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