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01 agosto, 2025

[Palestra] O Coração das Trevas (2006)






Intro


Mais uma palestra do Grande Monir.


Resumo do Monir

 A trama do “Coração das Trevas” foi inspirada na experiência real de Joseph Conrad em 1890, contratado pela Societé Anonyme Belge para auxiliar Ludwig Koch, o capitão do vapor Florida, cujo capitão anterior, Freisleben, havia sido assassinado por nativos. O Florida subia e descia o rio Congo, entre Kinshasa e Stanley Falls. Ao chegar de Kinshasa, Conrad foi informado que o Florida estava no estaleiro e que ele serviria a bordo de outro vapor, o Rei dos Belgas. A primeira missão de Conrad era recolher rio acima em Stanley Falls o agente da companhia, George Antoine Klein, gravemente doente. O acampamento da companhia em Stanley Falls era responsável pela coleta de marfim, resina de copal e outras mercadorias valiosas. Durante a viagem, Klein morre, o capitão Ludwig Koch fica gravemente doente e Conrad, deprimido e adoentado, no lugar de permanecer os três anos previstos, volta à Europa em pouco mais de seis meses. Mais tarde, Conrad diria que, “Antes do Congo, eu era um animal”.





  1. Cinco homens, um advogado, um contador, o narrador desta parte da história, Charlie Marlowe, e o diretor da companhia e comandante da embarcação esperam no iate de cruzeiro Nellie o início da maré vazante para deixar a foz do Tâmisa, após terem deixado Londres, “a maior e mais grandiosa cidade da Terra”. Cai a tarde: “Finalmente em sua descida curva e imperceptível, o sol afundou no horizonte, passando de branco resplandecente a um vermelho fosco, sem raios e sem calor, como se estivesse prestes a apagar, ferido de morte pelo contato com a escuridão que pairava sobre uma multidão de homens”. Marlowe vê as luzes de Londres ao longe e diz: “E esse também foi um dos lugares mais sombrios da Terra”. Marlowe era dentre eles o único que “seguia o mar”, isto é, era um aventureiro. Segundo o narrador, “não existe mistério para um homem do mar, a não ser o próprio mar, que é o senhor de sua existência e inescrutável como o Destino”. Marlowe relembra aos colegas que os romanos haviam subido o Tâmisa e enfrentado todos os perigos, que ali “havia trevas antes” e que eles tinham sido “homens bastantes para enfrentar as trevas”. Sugere aos ouvintes que pensem num jovem e decente cidadão romano que naquela época, ao desembarcar, sentisse a selvageria, a mais extrema selvageria que o cercava: “toda aquela vida misteriosa que se agita no ermo das florestas, nas matas, no coração dos selvagens. Não há iniciação em tais mistérios, também. Ele tem de viver em meio ao incompreensível, que é igualmente detestável”. Conclui, no entanto, numa pose de Buda, que nenhum dos presentes sentir-se-ia assim, porque seriam salvos por sua devoção à eficiência e por serem colonizadores e não conquistadores.

Para mitigar o tédio da espera, Marlowe pede licença para contar aos companheiros sobre a vez em que havia se tornado “marinheiro de água doce por um tempo”.

  1. Marlowe havia retornado a Londres depois de mais ou menos seis anos no Oriente e precisava procurar trabalho em um navio. Lembrou-se de que quando criança costumava sonhar em conhecer lugares vazios que localizava no mapa e se havia deixado fascinar por um “lugar tenebroso” onde havia ”um rio em especial, um rio grande e poderoso que você podia ver no mapa, semelhante a uma cobra desenrolada, com a cabeça no mar, o corpo em repouso curvado à distância sobre o vasto país, e o rabo perdido nas profundezas da terra”. Sai procurando na Fleet Street a companhia de navegação que fazia comércio naquele rio: “A cobra havia me encantado”. Sentia de alguma forma que devia ir lá “por bem ou por mal”. Aquilo se transformara numa “idéia fixa”. Sem sucesso sozinho, Marlowe consegue facilmente o emprego numa companhia comercial com a ajuda de uma tia que conhecia a mulher de um alto executivo. Na verdade, ele substituiria um dos comandantes da companhia que havia sido assassinado num desentendimento com nativos. Este comandante, o dinamarquês Fresleven, apesar de ser “a mais gentil e calma das criaturas que já andara sobre duas pernas”, havia sido morto após agredir o chefe da tribo por causa de duas galinhas pretas. Após o incidente, a tribo teria se dispersado por causa de um “medo enlouquecedor”.

  2. Marlowe em quarenta e oito horas cruza o canal para a cidade que o fazia lembrar “um sepulcro esbranquiçado”, onde ficava a sede da companhia, “o maior negócio local”. Na recepção da companhia encontra duas mulheres, uma gorda e uma magra, tricotando lã preta e vê num mapa na parede o rio “mortífero como uma cobra”. Ao preencher as formalidades, Marlowe nota “algo sinistro no ar..., como se estivesse envolvido em alguma conspiração” e depois, já longe, pensaria nas duas mulheres “vigiando a porta das trevas, tricotando lã preta como para uma cálida mortalha... conduzindo para o desconhecido”. Durante a consulta de saúde, o médico examina-o superficialmente e pede-lhe licença para medir sua cabeça, o que fez com um compasso, dizendo-lhe que fazia o mesmo com todos que iam para “lá” e pergunta-lhe se havia casos de loucura na sua família.

Marlowe procura sua tia para se despedir e ouve dela a concordância em se “arrancar aqueles milhares de ignorantes de seus horríveis costumes”. Ao considerar que a companhia só queria o lucro, Marlowe conclui que as mulheres “não têm contato com a realidade” e que o seu mundo “bonito demais”, se existisse, “ruiria antes do primeiro pôr-do-sol”. Saindo da casa da tia, Marlowe tem a impressão de que em vez de estar se dirigindo “ao centro de um continente”, estava “prestes a zarpar para o centro da Terra”.

  1. Marlowe parte para a África num vapor francês que fazia escalas em muitos portos e acompanhava a costa, o que lhe permitiu “como tentar resolver um enigma”, como se a costa dissesse “venha cá e descubra”. Durante a viagem, a embarcação encontra um barco de guerra francês bombardeando ineficazmente e sem razão aparente o continente: “havia um toque de insanidade no procedimento, uma sensação de comicidade lúgubre no que estava se passando”. Na medida em que a viagem prosseguia, crescia em Marlowe “a sensação geral de vago e opressivo assombro”. Após trinta dias de viagem, Marlowe enxerga a foz do grande rio.

  2. Assim que pode, Marlowe parte para a Sede Central da companhia, cinqüenta quilômetros rio acima, num pequeno vapor capitaneado por um sueco que lhe conta ter, dias antes, transportado um compatriota que teria se enforcado no caminho por não ter “suportado o sol, ou a região, talvez”. Chegando ao posto da companhia, Marlowe se impressiona com a aparência do local: “A coisa parecia tão morta quanto a carcaça de algum animal”. Um grande estrondo indica a dinamitação próxima de um penhasco que, no entanto, não parecia estar no caminho de nada. Marlowe vê seis negros magros e acorrentados carregando, sob mira de fuzil, pesados cestos de terra sobre a cabeça. Marlowe tem a premonição de ter recebido um aviso: “No sol ofuscante daquela terra eu conhecera o demônio frouxo, de olhar débil e enganador, de uma loucura voraz e impiedosa”. Marlowe conclui ter dado “no círculo sombrio de algum Inferno”. No caminho da sede da companhia, Marlowe encontra vultos negros “com todas as atitudes de dor, abandono e desespero” e conclui que “não eram inimigos, não eram criminosos, e agora era como se fossem seres de outro mundo

não passavam de sombras, doentes e famintas, amontoadas confusamente na penumbra esverdeada”. Ao chegar ao posto, Marlowe encontra o contador-chefe vestido tão impecavelmente e contrastivamente com o ambiente que parecia “uma espécie de visão”, um “milagre em pessoa” e fica com a impressão de que a contabilidade era a única coisa organizada naquele ambiente totalmente caótico.

Conversando com o contador, Marlowe ouve pela primeira vez o nome Kurtz: “No interior, o senhor sem dúvida conhecerá o sr. Kurtz” e explicou tratar-se de um agente comercial de primeira classe, a mãe inglesa e o pai meio francês, “uma pessoa notável”, encarregado de um posto comercial muito importante na região do marfim “lá nos confins da selva” e que enviava “mais marfim do que todos os outros juntos”. O contador pede a Marlowe que, ao encontrar o sr. Kurtz, lhe dissesse que tudo estava em perfeita ordem e acrescentou ”Oh, ele vai longe, muito longe” e em breve “será alguém na Administração Geral”.

  1. No dia seguinte, Marlowe deixa o posto com uma caravana de sessenta homens numa marcha de trezentos quilômetros na direção de outro posto rio acima . Seguia com um grupo um homem branco corpulento com o “exasperante hábito de desmaiar de calor quando subia encostas quentes” e que estaria ali para “fazer dinheiro”. Mais tarde, este homem, ao ser levemente contrariado, pediria a Marlowe que matasse algum nativo... No caminho, “uma solidão, uma imensa solidão... Ninguém, nenhuma alma, nenhum casebre. A população debandara há muito tempo”. A caravana passa por diversas aldeias abandonadas. Carregadores morrem sem que ninguém se importe. No décimo quinto dia, o que sobrou da caravana chega à estação central, construída no remanso do grande rio “que ficou à vista de novo”. Surgem homens brancos com grandes cajados nas mãos e um deles informa Marlowe de que o seu vapor estaria no fundo do rio, danificado por tentativa de pilotagem desastrada. Marlowe, por causa dos cajados, apelidaria estes homens de “peregrinos”. O gerente do posto parece a Marlowe ter a “expressão indefinível e abatida nos seus lábios, algo furtiva... um sorriso... não, não chegava a ser um sorriso..”. Marlowe conclui que era um “comerciante comum, desde a juventude empregado nessas terras – nada mais” e que “Era obedecido, embora não inspirasse nem amor nem medo, nem mesmo respeito. Inspirava mal estar”.


O gerente comunica a Marlowe ser a situação “muito grave, muito grave” e que os postos rio acima precisavam ser rendidos. Havia rumores que um posto muito importante estaria em perigo e que o seu chefe, o sr. Kurtz, estaria doente, o que o deixava “muito, muito apreensivo” por se tratar “do melhor agente, de um homem excepcional”. O gerente deixa claro esperar que Marlowe conserte o barco e ele mesmo estima o prazo de três meses para a tarefa. Os peregrinos com seus cajados vagam pelo posto. Marlowe conclui que “uma nódoa de imbecil voracidade pairava sobre tudo aquilo, como o bafejo de um cadáver”. Uma noite há um incêndio no posto. Um “peregrino” aparece no rio com um balde furado para recolher água e declara que todos estavam se “comportando esplendidamente, esplendidamente”. Um nativo, injustamente acusado pelo incêndio, é espancado. Observando as chamas, Marlowe é interpelado e inicia conversação com um certo jovem agente, mal afamado por ser supostamente espião do gerente. Sua função oficial, na verdade, seria de produzir tijolos sem que, no entanto, ele os tivesse feito no ano em que já estava lá. Na prática, fazia trabalho de escritório para o gerente. Marlowe é sondado sobre a situação política da matriz pelo fazedor de tijolos, que Marlowe julga ser “um mefistófeles de papier-maché”. Visitando o quarto do “oleiro”, Marlowe repara na parede um desenho a óleo representando uma mulher vendada carregando uma tocha acesa. Marlowe é informado de que o autor era o Sr. Kurtz. O “oleiro” informa Marlowe de que Kurtz “é um prodígio”, “um emissário de piedade, da ciência, do progresso e do diabo a quatro” e que Kurtz teria vindo à África para “orientar na causa que (lhes) foi confiada pela Europa, por assim dizer, de inteligência superior, grandes gestos e unidade de propósito”. A Sociedade Internacional de Supressão de Costumes Bárbaros havia encarregado Kurtz de elaborar um relatório. Ao se dirigir para o barco em reparos, onde dormia, Marlowe deu-se conta da imensidão da selva e perguntou-se: “O que havia no seu interior? Eu sabia que de lá vinha o marfim, e ouvira dizer que o Sr. Kurtz se encontrava lá”. O “oleiro” tagarela sem parar sobre “a necessidade que todo homem tem de progredir”.


  1. Tenho a impressão de que estou tentando contar um sonho – uma tentativa vã, porque nenhum relato é capaz de transmitir a sensação onírica, onde aflora esta mistura de absurdo, surpresa e encantamento, num frêmito de emoção e revolta, essa impressão de ser capturado pelo inacreditável em que consiste a própria essência dos sonhos”.



  1. Enquanto o conserto prossegue, chega ao posto a Expedição Exploradora do Eldorado, em cinco levas de homens brancos montando burros, comandados por um homem que vinha a ser o tio do gerente. A Marlowe pareceu “conversa de sórdidos bucaneiros – temerária sem bravura, gananciosa sem audácia e cruel sem coragem”. Pareceu a Marlowe que a finalidade do grupo era “extrair tesouros das entranhas da terra, e seus propósitos morais eram tão elevados quanto os de um ladrão ao arrombar um cofre”. Todos morreriam na selva, presumivelmente. Enquanto o barco espera a chegada de rebites que nunca chegam, num certo entardecer, Marlowe, deitado no convés, ouve inadvertidamente o que o gerente e o tio conversavam na praia sob a proa: o assunto era Kurtz. Estavam tão perto que Marlowe achou que podia cuspir “sobre seus chapéus”. Marlowe fica sabendo que o próprio Kurtz tinha manobrado para “ser mandado para lá” e que a última comunicação tinha sido havia um ano, embora Kurtz tivesse enviado marfim rio abaixo neste meio tempo. E que o portador do marfim, um mestiço inglês empregado de Kurtz, havia trazido a notícia da doença do agente. Marlowe também fica sabendo de que alguém ligado a Kurtz estaria fazendo concorrência à companhia e que o gerente havia achado muito desagradável a temporada em que Kurtz esteve no posto antes de subir o rio: “(Kurtz) dizia (que) cada posto deveria ser um farol no caminho em direção a coisas melhores, um centro de comércio, é claro, mas também de humanização, progresso, instrução“. Ao final da conversa, estende “o braço curto como uma nadadeira num gesto largo que abrangia a floresta, o canal, o lodo, o rio – parecia acenar com um floreio ignóbil à face ensolarada da terra, num apelo traiçoeiro à morte que ali estava à espreita, ao mal oculto, às trevas profundas do seu coração”. Marlowe conclui que “a mata, no seu grande silêncio, confrontava essas duas figuras com sinistra paciência, aguardando o fim dessa fantástica invasão”. O interesse de Marlowe em Kurtz aumenta.

  2. Após três meses de reparos lentos e custosos, Marlowe finalmente começa a subir cuidadosamente o rio na direção do posto avançado onde estaria Kurtz: “Subir aquele rio era como viajar no tempo de volta aos primórdios do mundo”, um “estranho mundo de plantas, águas e silêncio. Mas toda essa quietude em nada lembrava paz. Era a quietude de uma força implacável pairando sobre inescrutáveis desígnios, olhando para você com um ar vingativo”. A viagem duraria dois meses. Com Marlowe, sobem o rio o gerente, seu auxiliar nativo, uma pequena tripulação, três a quatro “peregrinos” e, para a função de lenhadores, vinte canibais que haviam levado consigo uma provisão de carne de hipopótamo que apodreceria, empestando o barco. O vapor sobe lentamente o rio “penetrando cada vez mais fundo no coração das trevas”. À noite tambores ecoam fracamente, sem que se possa saber se significam paz ou guerra. De dia, o barco passa por aldeias cujos nativos, à vista da embarcação, explodem em gritos e movimentação frenética, sem que se saiba se estão dando boas vindas ou os amaldiçoando: “Uivavam, saltavam, rodopiavam e faziam caretas horrendas; mas o que mais impressionava era a idéia de que havia um remoto parentesco entre nós e aquele selvagem e apaixonado furor”. Marlowe pergunta-se: “Exerceria aquele demoníaco tumulto alguma atração sobre mim?” A cerca de sessenta e cinco quilômetros do Posto de Kurtz, o vapor encontra um barraco de junco abandonado. Ao lado dele, uma pilha de lenha com um bilhete “Lenha para vocês. Aproximem-se com cuidado”. Dentro da cabana, que parecia ter sido habitada por um homem branco,

Marlowe encontra o livro: ”Uma Investigação sobre Algumas Questões do Ofício de Marinheiro”. Anotações nas páginas parecem ter sido escritas em código. A situação parece estranha a Marlowe, mas ele está realmente ansioso e curioso para conhecer Kurtz, motivado pelos sentimentos contrastantes de inveja e admiração que se nutriam por ele. A expedição continua rio acima.

  1. A doze quilômetros do posto interior de Kurtz e já escurecendo, decide-se esperar pela manhã para cumprir o trajeto final. “O crepúsculo desceu sobre as águas bem antes de o sol se pôr”. À noite, as árvores “pareciam ter-se transformado em pedra”. “Quando o sol nasceu, havia uma neblina branca, muito quente e úmida, e mais cegante do que à noite”. De repente, ouve-se um grito “como de infinita desolação, seguido de rápida explosão de guinchos”. Para Marlowe foi “como se a própria neblina tivesse gritado”. Os “peregrinos” engatilham suas winchesters. A neblina impede qualquer visibilidade. “ ‘Será que vão nos atacar?’, murmurou uma voz amedrontada. ‘Seremos todos massacrados dentro deste nevoeiro’, murmurou outra”. ‘O chefe dos canibais pede a Marlowe que lhe entregue eles para comê-los. A carne do hipopótamo havia sido jogada fora e os canibais não conseguiram gastar seus arames de bronze, uma espécie de “moeda”, para comprar provisões nas aldeias à beira do rio, nas quais a expedição nunca parava, e por causa disso estavam todo o tempo com fome. Assustados, todos querem que o barco parta imediatamente. Marlowe, apesar dos pedidos do gerente, nega-se a navegar às cegas. O nevoeiro impede a partida. Marlowe não temia o ataque: “o perigo, se existisse algum, era o da proximidade de uma grande paixão humana posta à solta. Mesmo a dor extrema pode enfim transformar-se em violência – porém, geralmente toma a forma de apatia...”. Mais tarde, Marlowe concluiria que os gritos haviam sido apenas uma tentativa de repeli-los.

  2. Dissipada a neblina, a expedição continua. No entanto, a dois quilômetros do posto de Kurtz, quando manobrava ao longo de um canal estreito, o vapor é varejado por setas que pareciam a Marlowe “incapazes de matar um gato”. Os peregrinos disparam suas winchesters cegamente contra a mata, enchendo o convés de fumaça e tirando a visibilidade do rio. O timoneiro, um negro treinado por Fresleven, dispara a Martini-Henry que ficava na cabina contra a selva. Acaba atingido por uma lança. Morre encharcando os sapatos de Marlowe de sangue. Marlowe assume o leme e apita repetidamente. “O alvoroço dos ferozes brados de guerra cessou imediatamente. Surgiu então das profundezas da mata uma longa e receosa espera”. Marlowe atira no rio os sapatos ensangüentados e o cadáver do timoneiro, sob protesto dos canibais. Conclui que Kurtz talvez já estivesse morto e lamenta sinceramente a perda do privilégio de conhecê-lo.

  3. A expedição vê o posto à distância. À beira da água, um homem branco, vestindo roupas com remendos coloridos, acena constantemente com o braço direito. Marlowe tem a impressão de que o sujeito se parece com um “arlequim” e que, na mata, ao longe, há “vultos humanos esgueirando-se de um lado para outro”. O “arlequim” informa aos recém-chegados: “Ele está lá em cima, ... movendo a cabeça em direção a uma colina e tornando-se subitamente sombrio”. Enquanto o gerente com sua escolta armada de peregrinos dirige-se para a sede na colina, o “arlequim” sobe a bordo, apresenta-se como russo, explica ter ido parar ali após dois anos de navegação solitária financiada por um holandês de nome Van Shuyten a quem enviava marfim e recomenda a Marlowe que mantenha vapor suficiente na caldeira para acionar o apito: “Um bom apito fará mais por vocês do que todos os seus rifles. Eles são gente simples”. O russo também conta a Marlowe que não se fala com Kurtz, mas se o escuta. Durante a conversa, Marlowe também descobre que pertencia ao “arlequim” russo a casa abandonada onde encontrara o livro. Compreendeu então que o que parecia código eram anotações em russo e devolve o volume ao marinheiro. O russo explica a Marlowe que os nativos os haviam atacado por não quererem que Kurtz fosse embora e insiste: “O senhor precisa levar Kurtz rapidamente embora daqui ... o mais rápido possível, compreende?” Marlowe é informado de que Kurtz fazia freqüentes excursões pela mata à procura de marfim e que, na opinião do marinheiro, “ele saqueava a região” com ajuda de tribos que ele dominava – “eles o adoravam”, diz o russo. Marlowe pergunta-lhe se, na opinião dele, Kurtz estaria louco. Ele protesta e insiste em que Kurtz estaria

mal, muito mal”. Marlowe, enquanto conversa com a “arlequim”, investiga a casa na colina com os binóculos e descobre cabeças humanas espetadas em postes e com os rostos voltados para a casa, salvo uma. Marlowe conclui que o sr. Kurtz “não se continha na gratificação de seus vários desejos”. O russo lhe explica que as cabeças eram de rebeldes, mas que não se podia julgar o sr. Kurtz como um homem comum.

  1. Os peregrinos descem a colina na direção do barco, trazendo Kurtz numa padiola. De repente, após um grito, a selva despeja uma torrente de nativos sobre o cortejo. Os peregrinos se imobilizam. O russo murmura para Marlowe: “Agora, se ele não disser a coisa certa para eles, estamos liquidados”. Kurtz pareceu a Marlowe ter pelo menos dois metros de altura, seu corpo “emergia num estado lastimável e aterrador, como se surgisse de uma mortalha”. Marlowe vê pelos binóculos que Kurtz fala aos nativos e eles desaparecem na mata tão rapidamente como haviam aparecido. O gerente e os “peregrinos” chegam ao barco, colocam Kurtz em uma das cabinas, onde Kurtz começa a manipular a pilha de correspondência atrasada trazida rio acima: “Sacudiu no ar uma das cartas, olhando (Marlowe) diretamente no rosto, e disse: ‘Muito prazer’ “. Do barco vêem-se os nativos na praia: salientam-se duas figuras de bronze, vestidas para guerra, postadas feito estátuas. “E, da direita para a esquerda, ao longo da praia iluminada,surgiu uma selvagem e deslumbrante aparição de mulher”, com a cabeça em forma de elmo, que caminha até o vapor, para, vira-se para Marlowe e o russo e ergue os braços sobre a cabeça, “como que acometida de um desejo incontrolável de tocar o céu” e depois caminha lentamente para o matagal e desaparece. O russo conta a Marlowe que havia tido desentendimentos com aquela mulher, e que ela havia reclamado dele a Kurtz. No interior do barco, Kurtz discute com o gerente, acusando-o de só querer salvar o marfim, de só ter “ideiazinhas de mascate”. Disse ainda não estar tão doente e que voltaria... O gerente sai da cabine e comunica a Marlowe que o posto seria fechado apesar da impressionante quantidade de marfim recolhida. Marlowe tem a impressão de que Kurtz já era um homem enterrado e volta-se para a selva: “Sentia um peso intolerável oprimindo-(lhe) o peito, e o cheiro da terra úmida, da presença invisível e vitorioso da decomposição, as trevas de uma noite impenetrável”. Antes de sumir, o russo confidencia a Marlowe que fora Kurtz quem havia ordenado o ataque contra o vapor: “Ele às vezes odeia a idéia de ser levado embora...”. Marlowe dá-lhe uns cartuchos de Martini-Henry, um punhado de tabaco, um velho par de sapatos e o russo desaparece na noite com medo de represálias da companhia.

  2. Marlowe acorda pouco depois da meia-noite e vê ao longe, na floresta, uma grande fogueira, supostamente o acampamento onde os adoradores do sr. Kurtz mantinham apreensiva vigília: “As batidas monótonas de um grande tambor enchiam o ar com surdas pancadas e prolongadas ressonâncias”. Marlowe procura Kurtz na cabina, mas ele havia sumido. Marlowe desce à terra, segue a trilha de Kurtz e encontra-o perto da fogueira, mal podendo ficar em pé. Marlowe tenta “quebrar o encanto – a pesada e muda maldição da selva

que parecia arrastá-lo para seu impiedoso seio, ao despertar esquecidos e brutais instintos, pela lembrança da gratificação contra monstruosas paixões”. Kurtz o adverte: “Vá embora... esconda-se”. Estavam a trinta metros da fogueira em torno da qual estavam os nativos. “Um vulto negro levantou-se a avançou com longas e negras pernadas, acenando com longos e negros braços através da escuridão. Tinha chifres – acho que de antílope – na cabeça. Sem dúvida, algum bruxo ou feiticeiro, de aspecto bastante demoníaco”. Kurtz diz a Marlowe: “Tinha planos imensos”. “Estava no limiar das coisas grandes”. Marlowe convence Kurtz a voltar e o carrega de volta para o vapor. Conclui: “Vi o mistério inconcebível de uma alma que não conhecia limites, nem fé, nem medo, embora lutasse cegamente contra si própria. Fui capaz de manter a cabeça em ordem; mas quando afinal consegui estendê-lo sobre o sofá, enxuguei a minha testa, tremendo as pernas como se houvesse carregado meia tonelada nas costas aquele morro abaixo. E, no entanto, havia apenas apoiado, enganchando seus braços ossudos em volta do meu pescoço.. pois não pesava mais que uma criança”.

  1. Partem rio abaixo no dia seguinte ao meio-dia. A multidão flui para fora da mata. Os nativos respondem como “a uma litania satânica” a gritaria de três feiticeiros na margem do rio. A mulher com a cabeça em

forma de elmo, que havia aparecido antes, apressa-se à beira do rio, estende as mãos e grita alguma coisa. Os “peregrinos” pegam suas armas. Marlowe puxa a corda do apito e “um movimento de terror abjeto atravessou aquela massa compacta de corpos”. O grupo se dispersa apavorado. “Apenas a mulher, bárbara e soberba, não fez muito mais que recuar, estendendo tragicamente os braços nus em nossa direção por sobre o rio lúgubre e reluzente”. O barco desce o rio “para fora do coração das trevas”. Viajando deitado na cabine com Marlowe, Kurtz discursa com o resto das suas forças: “Minha Prometida, meu posto, minha carreira, minhas idéias – esses eram os objetos de suas ocasionais expressões de elevados sentimentos”. Às vezes delira esperando reis à sua espera depois de suas missões. Marlowe conclui: “Mas tanto o amor diabólico como o ódio sobrenatural dos mistérios que havia penetrado lutavam pela posse daquela alma saciada de primitivas emoções, ávida de falsa fama, de enganosa distinção, de todas as aparências de sucesso e poder”. No meio da viagem, o vapor enguiça e pára para reparos. A longa interrupção da viagem abala Kurtz que entrega a Marlowe um pacote de papéis e uma fotografia de mulher amarrados com um cadarço de sapato, com medo que o gerente os encontrasse. Entre os documentos, um relatório sobre civilização de selvagens começava dizendo que os brancos “Devemos necessariamente aparecer a eles (selvagens) como seres de natureza sobrenatural; aproximando-nos deles com a força de uma divindade; pelo simples exercício de nossa vontade, podemos exercer para sempre um poder praticamente ilimitado” etc. e terminava com o post scriptum: “Exterminem todos os bárbaros”. Uma noite, Kurtz, já incapaz de ver uma vela a um palmo, diz a Marlowe estar esperando a morte chegar: “Jamais vira algo semelhante à mudança que ocorrera em sua fisionomia, e espero não tornar a ver. Oh, não que tivesse ficado emocional. Fiquei estarrecido. Foi como se um véu tivesse sido rompido. Enxerguei naquele rosto de marfim uma expressão de orgulho sombrio, de poder implacável, de terror covarde de intenso e irremediável desespero. Estaria ele revivendo sua vida, em todos os detalhes, com seus desejos, tentações e intrigas, naquele supremo momento de total conhecimento? Gritou, então, num sussurro, para alguma imagem, alguma visão gritou duas vezes, um grito que não era mais do que um sopro: O horror! O horror!”. Marlowe apaga a vela e vai para o refeitório. Momentos depois, chega a notícia: “O sr. Kurtz ... ele morreu!” O corpo de Kurtz é enterrado num buraco lamacento pelos “peregrinos”. Marlowe em seguida cai gravemente doente e quase não sobrevive. Recuperado, conclui: “Kurtz foi um homem notável. Ele tinha algo a dizer. E disse. Como eu próprio estive à beira do abismo, compreendi melhor o significado daquele seu olhar, que não podia ver a chama da vela, mas era amplo o suficiente para abraçar o universo inteiro, pungente o bastante para penetrar todos os corações que batem na escuridão. Ele havia resumido – num juízo: ‘O Horror’ ... “Ele realmente deu aquele último passo, transpôs a borda do abismo, enquanto a mim foi permitido recuar o pé hesitante. E talvez aí esteja toda diferença, talvez toda sabedoria, toda verdade e toda sinceridade estejam apenas contidas naquele inapreciável momento em que ultrapassamos o limiar do invisível”.

  1. De volta a Europa, Marlowe traz consigo o pacote entregue por Kurtz, mas não pode entregar à mãe dele, falecida recentemente. Recusa-se a entregá-lo ao representante da companhia que o procura ameaçadoramente. No máximo, oferece-lhe o relatório que Kurtz havia feito para a Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Bárbaros com o post-scriptum arrancado. “Não é isso o que tínhamos direito a esperar”, responde o agente da companhia recusando. Também visita Marlowe um homem dizendo-se primo de Kurtz, que dá a entender que ele havia sido um grande músico. Marlowe lhe entrega algumas cartas. Aparece também um jornalista que elogia os dotes de oratória de Kurtz e recebe para publicação o relatório recusado pela companhia. Agora Marlowe já não sabe se Kurtz tinha sido músico, pintor ou jornalista. Marlowe decide entregar o resto das cartas à mulher da fotografia, a Prometida. Embora Kurtz já houvesse morrido há um ano, ela o recebe toda de preto numa residência luxuosa, “com a cabeça pálida, como se flutuasse na escuridão”. Marlowe tinha ouvido dizer que a relação dos dois não havia sido inteiramente aceita pela família dela e supõe que a aventura de Kurtz tinha sido para enriquecer até o aceitável pela família da Prometida. Ela expressa apaixonada admiração por Kurtz e pergunta-lhe se ele o

havia conhecido bem. Marlowe diz a ela que conhecia bem Kurtz e que o achava um homem notável. A Prometida lamenta a morte de Kurtz e declara “Eu me sentia muito feliz... muito afortunada... muito orgulhosa... Feliz demais por um breve período. E agora sou infeliz para o resto da vida”. Marlowe concluiu que ela “tinha maturidade para ser fiel, para confiar e para suportar o sofrimento”. Ela lhe pergunta se tinha ouvido suas últimas palavras: “A última palavra que pronunciou foi ... seu nome” mente Marlowe.


Contada a história no Nellie, ficam todos em silêncio sem se mover. Marlowe continuou sentado como um Buda. “ ’Perdemos a maré vazante’, disse o diretor de repente. Levantei a cabeça. O alto-mar estava bloqueado por uma massa de nuvens negras, e o calmo curso d’água que levava aos extremos confins da Terra fluía sombrio sob um céu encoberto... parecendo dirigir-se ao coração de imensas trevas”.


Conclusão


Recomendo.

abs!






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