1. Introdução geral
1.1. Tema da aula
A aula trata da Ilíada, de Homero.
O foco é compreender:
o gênero épico;
o estilo de Homero;
os recursos narrativos da epopeia;
a importância cultural da obra.
1.2. A Ilíada não é relato histórico exato
Homero evoca a época de Troia.
Porém, a obra não pretende ser uma narrativa histórica precisa.
Ele mistura:
elementos da época troiana;
aspectos da própria época de Homero;
elementos míticos e poéticos.
1.3. A Época dos Heróis
A Ilíada remete a uma época distante e grandiosa.
É o tempo dos heróis, quando:
deuses e homens conviviam;
os deuses interferiam diretamente na vida humana;
os homens realizavam feitos extraordinários.
2. O gênero épico
2.1. Origem da palavra “épica”
“Épica” vem do grego epos.
Epos pode significar:
verso;
palavra;
narrativa;
verso narrativo.
2.2. Epopeia
A epopeia é um poema narrativo extenso.
Normalmente apresenta:
estilo elevado;
linguagem grandiosa;
heróis;
feitos extraordinários;
intervenção de forças divinas ou maravilhosas.
2.3. Três sentidos de epopeia
A palavra “epopeia” pode indicar:
Um poema épico extenso
Como a Ilíada ou a Odisseia.
O conjunto de poemas heroicos de um povo
A tradição épica de uma cultura.
O conjunto de feitos gloriosos dignos de canto
A matéria heroica que merece ser narrada.
3. Características da epopeia homérica
3.1. Supraperspectiva do poeta
O narrador parece observar tudo de cima.
Sua voz é:
distante;
objetiva;
impessoal;
grandiosa;
quase sublime.
3.1.1. Narrador onisciente
O narrador conhece:
os fatos presentes;
acontecimentos passados;
previsões futuras;
sentimentos dos personagens;
decisões dos deuses.
3.1.2. Inspiração das musas
O poeta não fala apenas por si.
Ele se apresenta como alguém inspirado pelas musas.
A narrativa parece ter uma autoridade superior à voz humana comum.
3.2. Personagens agonísticos
A palavra agón está ligada a:
luta;
combate;
disputa;
confronto;
competição.
3.2.1. Mundo de conflito
Os personagens da Ilíada vivem em estado de tensão.
Eles estão envolvidos em:
ataques;
ameaças;
fugas;
encontros violentos;
vinganças;
disputas de honra.
3.3. Abundância de personagens
A Ilíada apresenta muitos personagens.
Há:
heróis principais;
heróis secundários;
guerreiros episódicos;
exércitos;
deuses;
animais;
forças da natureza personificadas.
3.3.1. Personagens individuais e coletivos
Alguns personagens aparecem como indivíduos.
Outros aparecem como grupos, como:
os aqueus;
os troianos;
os exércitos;
os deuses reunidos em assembleia.
3.4. Vastidão dos espaços
Mesmo concentrada em torno de Troia, a obra apresenta muitos cenários.
Aparecem:
muralhas;
palácios;
ruas;
navios;
litoral;
templos;
campo de batalha;
assembleias.
3.4.1. Espaços lembrados
Além dos lugares presentes na ação, há espaços evocados pela memória dos personagens.
A narrativa se amplia por meio de lembranças e relatos.
3.5. Grandeza do tempo
A ação principal da Ilíada dura pouco mais de cinquenta dias.
Mas o tempo da obra é muito mais amplo.
3.5.1. Tipos de tempo na obra
A narrativa envolve:
o presente da guerra;
o passado evocado;
o futuro previsto;
o tempo psicológico;
o tempo dos sonhos;
a eternidade dos deuses.
3.6. Movimento externo e interno
A epopeia possui dois tipos de movimento.
3.6.1. Movimento externo
É o movimento físico:
batalhas;
deslocamentos;
ataques;
fugas;
viagens;
assembleias.
3.6.2. Movimento interno
É o movimento psicológico:
ira;
medo;
coragem;
hesitação;
arrependimento;
desejo de vingança;
expectativa diante do destino.
4. Temas centrais da Ilíada
4.1. Variedade temática
A Ilíada trabalha muitos temas, entre eles:
guerra;
ira;
honra;
morte;
vingança;
tristeza;
prisão;
viuvez;
dor;
destino;
coragem;
glória;
sofrimento;
relação entre homens e deuses.
4.2. Universalidade
A obra trata de experiências humanas permanentes.
Por isso, continua atual.
Seus temas ultrapassam a época de Homero.
4.2.1. Experiências humanas eternas
A Ilíada fala de situações que ainda dizem respeito ao ser humano:
medo da morte;
desejo de reconhecimento;
perda de pessoas amadas;
raiva;
orgulho;
fragilidade;
busca de sentido;
conflito entre vontade e destino.
5. Os heróis
5.1. O herói épico
O herói é uma figura grandiosa.
Muitas vezes, possui origem divina ou semidivina.
Ele tem força, coragem e vitalidade juvenil.
5.2. Função do herói
O herói luta para proteger:
sua família;
seus companheiros;
sua honra;
sua cidade;
sua memória futura.
5.3. Morte gloriosa
Muitos heróis morrem jovens.
A morte, porém, pode trazer glória.
A fama do herói sobrevive por meio do canto poético.
6. Os deuses
6.1. Características dos deuses homéricos
Os deuses são imortais.
Alimentam-se de néctar e ambrosia.
Não possuem sangue humano, mas icor.
Podem:
voar;
desaparecer;
transformar-se;
proteger mortais;
interferir nas batalhas.
6.2. Deuses com sentimentos humanos
Os deuses homéricos têm emoções humanas.
Eles podem sentir:
ciúme;
raiva;
simpatia;
favoritismo;
ressentimento;
orgulho.
6.2.1. Não são onipotentes
Diferentemente do Deus judaico-cristão, os deuses gregos:
não são onipotentes;
não são oniscientes;
não são onipresentes.
Cada deus possui poderes e funções específicas.
6.3. Relação entre homens e deuses
Os homens invocam os deuses para pedir ajuda.
A oração geralmente busca:
apaziguar a cólera divina;
conseguir proteção;
obter vitória;
reparar uma culpa.
6.3.1. Estrutura da súplica
A súplica aos deuses costuma ter:
Invocação
O homem chama o deus pelo nome.
Pedido ou prece
O homem apresenta sua necessidade.
Recordação de atos piedosos
O suplicante lembra sacrifícios ou homenagens feitas ao deus.
Promessa
Às vezes, oferece algo em troca do favor divino.
7. Técnica poética de Homero
7.1. Homero escreveu em versos
Embora muitas traduções usem prosa, Homero compôs em verso.
O verso usado é o hexâmetro datílico.
7.2. Hexâmetro datílico
É uma estrutura formada por seis unidades métricas.
Baseia-se na alternância entre:
sílabas longas;
sílabas breves.
7.2.1. Dificuldade de tradução
O português não possui o mesmo sistema de sílabas longas e breves.
Por isso, é impossível reproduzir perfeitamente o ritmo grego em português.
Tentativas de preservar a métrica podem prejudicar a clareza do sentido, porque os humanos aparentemente não descansam enquanto não inventam um problema novo.
7.3. Tradução de Frederico Lourenço
A tradução usada no curso é a de Frederico Lourenço.
Ele utiliza versos livres.
Tenta preservar algo da sonoridade do original sem sacrificar completamente o conteúdo.
8. Recursos do estilo homérico
8.1. Epítetos
Epítetos são expressões que qualificam personagens, deuses ou objetos.
Exemplos:
“Aquiles de pés velozes”;
“Apolo de arco de prata”;
“Poseidon, o que sacode a terra”;
“Agamenon, senhor dos homens”.
8.1.1. Função dos epítetos
Os epítetos servem para:
caracterizar personagens;
reforçar qualidades essenciais;
facilitar a memorização;
ajudar a declamação oral;
fixar imagens na mente do ouvinte.
8.2. Fórmulas repetidas
Homero repete versos, frases e estruturas.
Essas repetições não são descuido.
São parte da técnica oral da epopeia.
8.2.1. Função das fórmulas
As fórmulas ajudam:
o poeta a recitar;
o público a acompanhar;
a narrativa a ganhar ritmo;
certas ideias a serem enfatizadas.
8.3. Comparações e símiles
Homero usa comparações longas e expressivas.
Elas aproximam o mundo heroico do mundo comum.
8.3.1. Função dos símiles
Os símiles servem para:
tornar a cena mais concreta;
ampliar a imagem narrada;
explicar o estado emocional de um personagem;
aproximar o extraordinário do cotidiano.
8.3.2. Exemplos de imagens usadas
Homero compara personagens e batalhas a:
serpentes;
javalis;
fogo;
ceifeiros;
tempestades;
animais selvagens;
fenômenos da natureza.
8.4. Repetição em espelho
Algumas cenas se repetem com pequenas variações.
Isso reforça a importância do acontecimento.
A repetição também cria paralelos dentro da narrativa.
8.5. Retardação narrativa
Homero muitas vezes atrasa o avanço da ação.
Ele intercala:
descrições;
discursos;
lembranças;
cenas menores;
monólogos;
digressões.
8.5.1. Função da retardação
A retardação serve para:
aumentar a tensão;
ampliar a grandeza do episódio;
dar profundidade aos personagens;
manter a atenção do ouvinte;
criar solenidade narrativa.
8.6. Dramatização
A Ilíada é narrativa, mas possui muitos diálogos.
Os personagens:
conversam;
discutem;
discursam;
lamentam;
aconselham;
recordam;
preveem acontecimentos.
8.6.1. Efeito dramático
Os diálogos tornam a ação mais concreta.
A narrativa se aproxima do teatro.
A obra causa emoção, piedade, tristeza e terror.
9. Estrutura narrativa
9.1. In media res
A Ilíada começa no meio dos acontecimentos.
A guerra já está quase no fim.
O poema não começa com o início da Guerra de Troia.
9.1.1. Efeito desse recurso
Começar in media res permite:
prender rapidamente a atenção;
criar senso de urgência;
apresentar o conflito já em andamento;
revelar o passado aos poucos.
9.2. Antecipações
O narrador às vezes anuncia acontecimentos futuros.
Isso cria expectativa e tensão.
O leitor sabe que certas desgraças estão por vir.
9.3. Cenas simultâneas
Homero alterna entre acontecimentos que ocorrem ao mesmo tempo.
Muitas vezes usa expressões equivalentes a “entretanto” para mudar de cena.
9.4. Presságios e destino
A obra usa muitos presságios e sinais divinos.
O destino tem papel central.
Nem Zeus pode simplesmente anular aquilo que foi determinado pelas Moiras.
10. A importância de Homero
10.1. Homero como educador da Grécia
Homero teve enorme influência na cultura grega.
Seus poemas eram lidos, memorizados e usados como formação moral e cultural.
10.2. Influência literária
Homero influenciou:
a tragédia grega;
Ésquilo;
Platão;
Virgílio;
a literatura latina;
a literatura ocidental posterior.
10.3. Platão e Homero
Platão reconhecia que Homero educou a Grécia.
Porém, discordava do modelo de educação presente nos poemas.
Mesmo assim, reconhecia a força cultural do poeta.
10.4. Alexandre Magno
Alexandre lia Homero constantemente.
A Ilíada era uma espécie de livro de cabeceira para ele.
11. Como ler a Ilíada
11.1. Ler com naturalidade
A recomendação é ler a Ilíada como se fosse um romance.
Não se deve fazer pausa artificial ao fim de cada verso.
A leitura precisa acompanhar o sentido, não apenas a quebra dos versos.
11.2. Não se assustar com os personagens
A obra tem muitos nomes.
Para não se perder, recomenda-se anotar:
nome do personagem;
característica principal;
lado a que pertence;
relação com outros personagens.
11.3. Usar uma folha como marcador
Uma sugestão prática:
dividir uma folha ao meio;
usá-la como marcador;
anotar personagens conforme aparecem;
consultar a folha durante a leitura.
11.4. Ler Homero diretamente
A melhor forma de conhecer Homero é lendo seus poemas.
Ler apenas comentários sobre Homero não substitui a experiência da obra.
12. Tradução e perda poética
12.1. Toda tradução perde algo
Na tradução, perde-se parte da sonoridade original.
Também se perdem nuances métricas e musicais.
12.2. Mas a tradução também permite ganhos
A tradução permite acesso a culturas e épocas diferentes.
Sem tradução, o leitor ficaria preso apenas à própria língua e cultura.
Portanto, mesmo imperfeita, a tradução é valiosa.
12.3. Ler traduções diferentes
Cada tradução apresenta um Homero diferente.
Comparar traduções pode enriquecer a leitura.
13. Ideia central da aula
13.1. A grandeza da Ilíada
A Ilíada é grandiosa em vários níveis:
nos personagens;
nos temas;
nos espaços;
no tempo;
na linguagem;
nos conflitos;
na relação entre homens e deuses.
13.2. A humanidade da obra
Mesmo falando de deuses e heróis, a obra é profundamente humana.
Os personagens sentem:
medo;
amor;
raiva;
orgulho;
tristeza;
desejo;
angústia;
esperança.
13.3. Síntese final
A Ilíada é uma epopeia sobre guerra, honra, ira, destino e sofrimento.
Sua força está na capacidade de transformar acontecimentos heroicos em experiências humanas universais.
Homero não apenas conta uma história: ele cria um mundo inteiro diante dos olhos do leitor. E, irritantemente para todos os escritores posteriores, faz isso bem demais.
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