A Arte de Ler — Mortimer J. Adler
Resumo do Capítulo II
O segundo capítulo de A Arte de Ler, de Mortimer J. Adler, apresenta distinções fundamentais sobre o ato de ler. O autor examina a importância da terminologia, os diferentes graus de habilidade na leitura, a natureza ativa do processo leitor e a diferença entre ler para obter informação e ler para alcançar maior compreensão.
1. A Importância da Terminologia e a Tirania das Palavras
Adler inicia o capítulo destacando que uma das regras principais da leitura é identificar as palavras mais importantes de um texto e descobrir seus significados dentro do contexto. A palavra “leitura” é apresentada como o termo central e mais ambíguo da obra, exigindo atenção especial para evitar mal-entendidos.
O autor menciona Stuart Chase para ilustrar os riscos de usar a linguagem para falar sobre a própria linguagem. Esse tipo de reflexão pode facilmente gerar confusões, pois o escritor precisa seguir as regras da escrita, enquanto o leitor deve seguir as regras da leitura para compreender corretamente o que está sendo comunicado.
2. Os Significados de “Leitura”
Utilizando o Oxford Dictionary, Adler mostra que o verbo inglês to read possui muitos significados. Ele pode se referir a interpretar sinais, conjecturar, declamar, instruir, observar fenômenos naturais ou compreender instrumentos técnicos.
Para os fins da obra, porém, Adler restringe o significado de leitura ao processo de interpretar símbolos legíveis criados para a comunicação humana: as palavras. Assim, ficam de fora expressões como “ler as estrelas”, “ler uma fisionomia” ou “ler um termômetro”.
O autor também diferencia a leitura da audição. Ambas são formas de receber comunicação, mas a leitura trabalha com palavras escritas ou impressas, enquanto a audição lida com a palavra falada.
3. Hierarquia e Habilidade na Leitura
Adler afirma que a alfabetização é apenas o primeiro passo da educação. Saber decifrar palavras não significa possuir verdadeira habilidade de leitura. Essa habilidade possui graus, que vão desde o aprendizado elementar até a leitura avançada exigida em estudos superiores.
Jacques Barzun é citado para reforçar que ler rapidamente não equivale a ter educação, julgamento ou compreensão profunda. Um leitor pode dominar jornais e revistas, mas não ser capaz de compreender obras científicas ou filosóficas complexas.
O primeiro critério para medir a habilidade de um leitor é a dificuldade do assunto que ele consegue dominar. Ler autores como Einstein, Infeld, Hogben, Euclides ou Newton exige uma capacidade muito superior à necessária para leituras informativas simples.
Adler critica a educação americana de seu tempo por obscurecer essas gradações de habilidade. Segundo ele, ao contrário do sistema francês, que valorizava a explication de texte, a formação americana não distinguia suficientemente a leitura superficial da leitura rigorosa.
4. A Natureza Ativa da Leitura
O segundo critério da habilidade de leitura é o grau de atividade exercido pelo leitor. Para Adler, não existe leitura totalmente passiva. Uma leitura chamada “passiva” é apenas uma leitura menos ativa do que deveria ser.
Para explicar essa ideia, Adler utiliza uma analogia com o beisebol. O escritor é comparado ao jogador que lança ou bate a bola, enquanto o leitor é aquele que deve capturá-la. A comunicação é bem-sucedida quando aquilo que o escritor quis transmitir se torna posse intelectual do leitor.
A analogia, porém, possui um limite. Diferentemente de uma bola, uma frase escrita é complexa. O leitor pode captá-la inteiramente, parcialmente ou quase nada. O resultado depende da habilidade mental com que ele executa os atos necessários para compreender o texto.
5. Leitura para Informação e Leitura para Compreensão
Adler distingue dois tipos principais de leitura. O primeiro ocorre quando o leitor compreende imediatamente tudo o que lê. Nesse caso, ele adquire informação, mas sua compreensão não é realmente desafiada nem ampliada.
O segundo tipo ocorre quando o leitor se depara com um livro que não compreende completamente à primeira vista. Nesse caso, a leitura exige esforço intelectual. O leitor precisa passar de um estado de menor compreensão para um estado de compreensão maior.
Essa leitura superior exige que o leitor avance sem depender de explicações externas. Adler compara esse esforço à imagem de alguém que tenta se levantar pelos próprios cordões dos sapatos. A imagem é estranha, mas eficiente, porque mostra a dificuldade de crescer intelectualmente por meio do próprio esforço.
6. Os Grandes Livros e os Limites da Compreensão
Adler afirma que a maioria dos grandes livros está ao alcance de pessoas com inteligência normal, desde que adquiram a habilidade necessária e se apliquem com seriedade. O princípio da sabedoria na leitura está em perceber a diferença entre aquilo que é inteligível e aquilo que ainda permanece ininteligível.
O autor critica os estudantes que leem livros difíceis como se fossem jornais esportivos. O problema não está apenas na compreensão superficial, mas no fato de o leitor nem perceber que não compreendeu adequadamente.
Em síntese, aprender pela leitura não significa apenas acumular fatos. Significa compreender mais do que se compreendia antes. A verdadeira arte de ler permite ao leitor elevar-se intelectualmente por sua própria atividade, entrando em contato com mentes superiores.
Síntese das Ideias Principais
- A palavra “leitura” é ambígua e precisa ser definida com precisão.
- Ler não é apenas decifrar palavras, mas compreender símbolos escritos criados para a comunicação humana.
- A alfabetização é apenas o início da formação de um leitor.
- A habilidade de leitura possui graus, conforme a dificuldade do texto e o nível de atividade do leitor.
- Toda leitura verdadeira é ativa, pois exige esforço mental do leitor.
- Ler para informação apenas acrescenta dados ao que já se sabe.
- Ler para compreensão transforma o leitor, elevando sua inteligência.
- Os grandes livros exigem esforço, mas estão ao alcance de leitores disciplinados.
Referências Citadas
Autores e Personalidades
- Mortimer J. Adler — autor da obra.
- Jacques Barzun — autor de Of Human Freedom.
- Stuart Chase — mencionado em relação ao abuso da linguagem.
- Descartes — filósofo e matemático.
- Albert Einstein — físico, coautor de A Evolução da Física.
- Leopold Infeld — físico, coautor com Einstein.
- Euclides — matemático clássico.
- Galileu — cientista clássico.
- Isaac Newton — cientista clássico.
- Lancelot Hogben — autor de Mathematics for the Millions.
- Gunther — autor de Inside Europe.
- Heiser — autor de A Odisseia de um Médico Americano.
Livros e Obras
- A Evolução da Física — Einstein e Infeld.
- A Odisseia de um Médico Americano — Heiser.
- Inside Europe — Gunther.
- Mathematics for the Millions — Lancelot Hogben.
- Of Human Freedom — Jacques Barzun.
- Oxford Dictionary — dicionário usado para análise terminológica.
- The New York Times — jornal citado como exemplo de leitura informativa.
Conceitos e Expressões
- Alfabetização — etapa inicial, distinta da verdadeira habilidade de leitura.
- Arte de ler — atividade complexa, comparável a ouvir música ou jogar tênis.
- Explication de texte — prática francesa de análise minuciosa de textos.
- Leitura ativa — leitura que exige esforço e amplia a compreensão.
- Leitura passiva — leitura menos ativa, geralmente limitada à informação imediata.
- Três R’s — leitura, escrita e aritmética como pilares da educação primária.
Instituições e Eventos
- Conferência de Chicago — evento em que Adler falou para três mil professores.
- Escola primária — fase inicial do aprendizado da leitura.
- Universidades americanas — citadas no contexto da crítica ao nível de leitura dos alunos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário