A Cidade Antiga
Introdução e Capítulo 1 do Livro Primeiro
Fustel de Coulanges
Este resumo abrange a Introdução e o Capítulo 1 do Livro Primeiro da obra A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges. O eixo central do texto é a ideia de que as instituições sociais, políticas e familiares da Grécia e de Roma antigas só podem ser verdadeiramente compreendidas a partir das crenças religiosas primitivas que lhes deram origem.
1. A necessidade de estudar as crenças antigas
As instituições sociais e políticas da Grécia e de Roma não podem ser compreendidas de modo isolado. Para Fustel de Coulanges, elas são produtos diretos das crenças religiosas mais antigas desses povos.
O erro comum das gerações modernas consiste em julgar os antigos a partir de opiniões, valores e costumes contemporâneos. No entanto, Grécia e Roma possuíam caracteres próprios, profundamente distintos das sociedades modernas.
A inteligência humana modifica-se de século em século, e essa evolução das ideias transforma também a constituição das sociedades. Por isso, leis que hoje parecem estranhas ou injustas, como a proibição de vender terras ou a exclusão de certas classes, tornam-se compreensíveis quando observadas em relação às crenças que as fundamentaram.
Para compreender as instituições antigas, é preciso antes compreender as crenças que lhes deram forma.
2. A religião como princípio constitutivo da sociedade antiga
A religião primitiva foi a força que constituiu a família grega e romana. Ela estabeleceu o casamento, a autoridade paterna, a ordem de parentesco, os direitos de propriedade e as regras de herança.
Essa mesma religião, ao ultrapassar os limites da família, formou a associação maior que é a cidade. A cidade antiga, portanto, nasceu da ampliação do culto doméstico e passou a ser regida por regras, magistraturas e práticas derivadas da religião.
Com o tempo, à medida que essas crenças se modificaram ou desapareceram, as instituições sociais e o direito privado também se transformaram. Daí surgiram profundas revoluções sociais no mundo antigo.
3. Vestígios do passado na linguagem e nos ritos
Embora não existam textos escritos das gerações mais remotas, o passado nunca desaparece completamente. Ele permanece conservado na alma humana, na linguagem, nos costumes e nos ritos.
No tempo de Cícero ou de Péricles, os homens ainda carregavam marcas autênticas de séculos anteriores. A língua preservava radicais antigos que revelavam opiniões e usos já desaparecidos. Esses elementos funcionavam como testemunhas silenciosas de crenças remotas.
O mesmo ocorria com os ritos de sacrifício, casamento e funerais. Muitas vezes, esses ritos já não correspondiam às crenças vigentes na época em que eram praticados, mas conservavam formas religiosas muito mais antigas.
4. Crenças primitivas sobre a alma e a morte
As gerações mais antigas da raça indo-europeia acreditavam que a morte não separava a alma do corpo. A alma não partia imediatamente para um mundo espiritual distante. Ela permanecia associada aos restos mortais e continuava a viver sob a terra, encerrada com o corpo no túmulo.
Essa crença é atestada pelos ritos de sepultamento, que sobreviveram por muito tempo às ideias que os originaram. Autores como Virgílio, Ovídio e Plínio, o Jovem, ainda utilizavam expressões tradicionais que falavam em “encerrar a alma no túmulo”.
Tais expressões não indicavam necessariamente a crença pessoal desses escritores, mas preservavam uma antiga concepção popular: a de que algo vivo era colocado no sepulcro juntamente com o corpo.
5. A necessidade ritual da sepultura
Da crença na permanência da alma junto ao túmulo derivava a necessidade absoluta da sepultura. Para que a alma fosse fixada em sua morada subterrânea e pudesse desfrutar de sua segunda vida, era indispensável que o corpo fosse recoberto de terra.
Além disso, os ritos tradicionais deveriam ser observados com rigor. A alma de um corpo não sepultado não possuía morada. Tornava-se errante, sob a forma de larva ou fantasma.
Infeliz, privada de oferendas e alimentos, essa alma podia tornar-se malfazeja. Passava então a atormentar os vivos com doenças, pesadelos e aparições, até que o corpo recebesse o sepultamento ritual completo.
Essa necessidade aparece em diversos exemplos antigos: o fantasma de Frixo, que exige que Pélias traga sua alma da Cólquida para a Grécia; as histórias de fantasmas em Plauto; e o relato de Suetônio sobre Calígula, cuja alma teria errado até receber sepultura adequada.
6. Contradição entre os ritos antigos e crenças posteriores
Fustel observa que os ritos fúnebres primitivos são incompatíveis com crenças posteriores, como as ideias do Tártaro e dos Campos Elísios.
A existência desses ritos prova que, na época de sua origem, não se acreditava ainda em um julgamento pós-morte baseado na conduta moral da vida. O ser humano simplesmente continuava a viver no túmulo, fixado ao solo onde seus ossos estavam enterrados.
Essa religião da morte, centrada no túmulo e no culto aos mortos, é apresentada por Fustel como uma das fontes originais das instituições domésticas e sociais dos antigos.
Síntese Geral
A principal tese do trecho é que a sociedade antiga nasceu da religião doméstica. A família, a propriedade, a herança, a autoridade paterna, o culto dos mortos e a própria cidade dependiam de crenças primitivas sobre a alma, a morte e a permanência dos mortos junto ao túmulo. Para compreender Grécia e Roma, é preciso abandonar os critérios modernos e reconstruir o universo mental dos antigos.
Referências Citadas
Autores e Escritores
Aristóteles; Cícero; Fustel de Coulanges; Heródoto; Homero; Ovídio; Píndaro; Platão; Plauto; Plínio, o Jovem; Suetônio; Tucídides; Virgílio.
Personagens e Figuras Históricas ou Mitológicas
Agamemnon; Calígula; Enéias; Epimênides; Frixo; Nícias; Pélias; Péricles; Sócrates; Sólon.
Obras e Textos
Eneida; Hinos dos Vedas; Leis de Manu; Lei das Doze Tábuas; Odisseia.
Conceitos e Termos Religiosos e Sociais
Agnação; alma; Campos Elísios; cidade; clientes; família; fogo sagrado; linguagem; larva; fantasma; patricianos e plebeus; religião doméstica; rito; sepultura; Tártaro.
Lugares e Instituições
Atenas; Cólquida; Grécia; Índia; Roma; tribunais.
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