Embora de modo conjectural, estima-se a criação de “O Livro de Jó” no século seguinte ao do exílio babilônico, que ocorreu entre 587 aC e 538 aC. A obra está estruturada como um drama em três atos, antecedidos de um prólogo e seguidos de um epílogo. O conjunto está dividido em quarenta e dois capítulos. Embora o ambiente da ação esteja impregnado de monoteísmo judaico, há boa chance de nem Jó, tampouco seus interlocutores serem judeus. A cidade de Hus, palco dos acontecimentos, estaria a leste da Palestina, possivelmente na Arábia. A tradução utilizada neste resumo é a do padre Antônio Pereira de Figueiredo (1725-1797). Segundo Northrop Frye, o “Livro de Jó” ocupa o lugar de “um Gênesis poético e profético”.
Enfim, uma ótima oportunidade de conhecer autores clássicos e de forma gratuita.
Recomendo.
Grande abraço!
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O Livro de Jó: Sofrimento, Justiça Divina e o Bode Expiatório
Resumo objetivo e estruturado. A aula apresenta o Livro de Jó como uma obra da Tradição, examinando sua estrutura literária, seu problema teológico central, a questão do sofrimento injusto, o mecanismo do bode expiatório e suas relações com a literatura moderna, especialmente Kafka, Camus e Dostoiévski.
1. Introdução geral da aula
1.1. Avisos iniciais e contexto
O professor inicia agradecendo a presença dos alunos, mencionando Gilmar, vindo de Toledo, e anuncia uma parceria com a BRH Paraná, representada por Zaida Borga, para a realização de grupos de estudo e oficinas no segundo semestre.
1.2. Grupos de leitura e oficinas
São apresentados grupos sobre Simbólica, de Mário Ferreira dos Santos; Os Criadores, de Paul Johnson; Música, Cérebro e Êxtase; além de oficinas práticas de teatro, cultura e etiqueta no Mercosul, gestão de conflitos e Business English.
1.3. Oração pela colega Roxani
Na continuidade da aula, o professor pede aos alunos que rezem uma oração ou uma Ave Maria por Roxani, colega hospitalizada em estado grave.
2. Natureza do curso e fontes do conhecimento humano
2.1. Curso de cultura, não apenas de literatura
O professor afirma que a aula não é simplesmente um curso de literatura, mas um curso de cultura. A literatura é tratada como uma das vias de acesso à realidade, mas não como a única.
2.2. Tradição
A primeira fonte do conhecimento humano é a Tradição, que inclui as grandes religiões, como Cristianismo, Hinduísmo, Budismo, Judaísmo e Islamismo, além de autores tradicionalistas como René Guénon, Frithjof Schuon e Mário Ferreira dos Santos.
2.3. Filosofia e ciência
A segunda fonte é a Filosofia, entendida como busca racional da verdade. A ciência aparece como um capítulo da filosofia, mas com metodologia mais estreita.
2.4. Literatura
A terceira fonte é a Literatura, vista como meio intuitivo de captar aspectos da realidade, da natureza humana e de Deus.
3. Introdução ao Livro de Jó
3.1. Lugar do Livro de Jó na Tradição
O Livro de Jó é apresentado como obra pertencente à Tradição, situada no Velho Testamento, e não apenas como texto literário.
3.2. Autoria e datação
A autoria é incerta. Alguns atribuem o texto a Moisés, mas o professor menciona a possibilidade de composição por volta de 400 a.C., depois do exílio na Babilônia.
3.3. Estrutura literária
O Livro de Jó possui 42 capítulos, organizados em prólogo em prosa, centro poético e dramático, e epílogo em prosa. O miolo da obra é formado pelo debate entre Jó e seus interlocutores.
3.4. Relação com a tragédia grega
A obra é comparada à tragédia grega, especialmente pela função dos amigos de Jó, que lembram o coro grego ao representar a opinião pública.
3.5. Estrutura em “U”
O professor destaca que, diferentemente da tragédia grega, que tende a terminar em queda, o Livro de Jó segue uma estrutura em “U”: o personagem começa em prosperidade, cai em desgraça e termina redimido.
4. Jó antes das provações
4.1. Virtude e prosperidade
Jó é descrito como homem sincero, reto, temente a Deus e afastado do mal. Vive na terra de Uz, possivelmente na Arábia, e possui grande prosperidade material.
4.2. Sinceridade bíblica
O professor explica que “sincero”, no contexto bíblico, significa simples, humilde e não voltado ao culto do dinheiro.
4.3. Identidade religiosa de Jó
Não há certeza de que Jó fosse judeu, mas ele raciocina de acordo com o monoteísmo judaico.
5. A aposta divina e as provações
5.1. Satanás como acusador
Satanás aparece como opositor ou acusador. Ele questiona a fidelidade de Jó, sugerindo que Jó só serve a Deus porque é próspero.
5.2. Permissão divina
Deus permite que Satanás teste Jó, mas inicialmente proíbe que sua vida seja tirada.
5.3. Primeira provação
Jó perde seus bens, incluindo bois, jumentas, ovelhas e camelos. Em seguida, perde também seus dez filhos em uma sucessão de desastres.
5.4. Reação de Jó
Jó reage com resignação, afirmando que o Senhor deu e o Senhor tirou. Ele mantém sua fidelidade a Deus.
5.5. Segunda provação
Satanás atinge a saúde de Jó com chagas malignas. Jó passa a viver na miséria, raspando suas feridas com um caco de telha no monturo.
5.6. A mulher de Jó
A esposa de Jó o incita a amaldiçoar Deus e morrer. O professor interpreta sua reação como revolta diante da perda do status social e da passividade de Jó.
6. Os amigos de Jó e o início do debate
6.1. Chegada dos amigos
Três amigos, Elifas, Bildad/Baldá e Sofar, chegam para consolar Jó, mas acabam assumindo o papel de acusadores.
6.2. Função dos amigos
Os amigos representam a opinião pública e a tendência humana de explicar o sofrimento como consequência direta de alguma culpa.
6.3. Argumento geral dos amigos
O raciocínio dos amigos parte da ideia de que Deus é justo. Logo, se Jó sofre, ele deve ter cometido algum pecado oculto.
7. Primeiros discursos dos amigos
7.1. Elifas
Elifas afirma que os inocentes não perecem e que Jó deve aceitar a correção divina. Para ele, o sofrimento indica culpa.
7.2. Resposta de Jó a Elifas
Jó afirma que a punição é desproporcional a qualquer erro que possa ter cometido. Ele quer saber qual é sua culpa.
7.3. Bildad/Baldá
Bildad reforça que Deus não perverte o juízo. Se Jó sofre, isso só pode indicar alguma iniquidade.
7.4. Resposta de Jó a Bildad
Jó afirma que Deus aflige tanto inocentes quanto ímpios e observa que a terra parece entregue aos maus.
7.5. Sofar
Sofar acusa Jó de falar demais e sugere que ele talvez mereça castigos ainda maiores por pecados ocultos.
7.6. Resposta de Jó a Sofar
Jó ironiza a suposta sabedoria dos amigos, dizendo que com eles morrerá a sabedoria. Ele os chama de forjadores de mentiras, pois tentam defender Deus por meio de acusações falsas.
8. Jó como figura do sofrimento injusto
8.1. Horror físico e social
Jó descreve sua condição física e social como extrema humilhação. Ele se torna objeto de escárnio público.
8.2. Desejo de morte
Jó manifesta desejo de morrer e menciona o sepulcro ou Sheol, mas não abandona completamente a esperança.
8.3. Esperança no Redentor
Mesmo em desespero, Jó afirma sua esperança final: ele sabe que seu Redentor vive e que verá Deus em sua própria carne.
9. A situação “kafkiana”
9.1. Comparação com Joseph K.
O professor compara Jó a Joseph K., personagem de O Processo, de Franz Kafka. Ambos vivem uma situação em que são acusados sem saber exatamente de quê.
9.2. Definição da situação kafkiana
A situação kafkiana é resumida como a experiência de não ter feito nada e, mesmo assim, ver o mundo inteiro cair sobre si.
9.3. Kafka e a Bíblia
O professor afirma que o esquema narrativo de Kafka deriva da Bíblia e que sua obra pode ser vista como interpretação dos mistérios de Jó.
9.4. Crítica às leituras modernas simplistas
O professor critica interpretações que reduzem A Metamorfose à crítica do capitalismo, considerando esse tipo de leitura infantil e insuficiente.
10. O bode expiatório
10.1. Conceito de René Girard
O professor utiliza René Girard para explicar o mecanismo do bode expiatório: a comunidade escolhe um inocente e atribui a ele seus males, para aliviar tensões sociais.
10.2. Aplicação ao caso de Jó
Os amigos de Jó agem como representantes desse mecanismo. Como não admitem que Deus possa ser injusto, concluem que Jó precisa ser culpado.
10.3. Defesa falsa de Deus
O problema dos amigos não é defender Deus, mas fazê-lo por meio da mentira, inventando culpas para Jó.
11. Terceiro ciclo de discursos
11.1. Acusação de Elifaz de Temã
Elifaz passa a acusar Jó de grandes maldades. Ele inventa pecados, dizendo que Jó teria despojado os nus, negado água aos fatigados e oprimido órfãos e viúvas.
11.2. Resposta de Jó
Jó declara que suas palavras estão em amargura e deseja encontrar o trono de Deus para expor sua causa. Ele busca um tribunal onde possa entender sua acusação.
11.3. Discurso de Baldá
Baldá afirma que o homem é como podridão e bichinho diante de Deus. Por isso, não teria direito de contestar a justiça divina.
12. O elogio à sabedoria
12.1. Inocência de Jó
Jó insiste que não admitirá mentiras sobre sua conduta. Ele mantém sua inocência até o fim.
12.2. Sabedoria e temor do Senhor
No capítulo 28, Jó faz um elogio à sabedoria. Ela não está nas riquezas nem na terra dos viventes, mas no temor do Senhor.
12.3. Limite da compreensão humana
Jó reconhece que Deus possui a sabedoria, mas continua sem compreender por que sofre injustamente.
13. A queda social de Jó
13.1. Nostalgia da prosperidade
Jó relembra o tempo em que era respeitado e ajudava os pobres, os cegos e os coxos.
13.2. Humilhação pública
Depois da queda, Jó é desprezado até por pessoas que antes ele considerava indignas.
13.3. Sofrimento físico
Jó descreve dores, doenças e padecimentos corporais. O professor compara alguns sofrimentos a agentes patológicos, mencionando o bacilo de Koch e a tuberculose.
14. Eliú e a pedagogia do sofrimento
14.1. Inserção de Eliú
O professor observa que Eliú parece ser uma personagem inserida posteriormente na narrativa original.
14.2. Irritação de Eliú
Eliú se irrita com Jó por este se considerar justo e também com os amigos, porque eles não conseguem responder adequadamente.
14.3. Argumento de Eliú
Eliú defende a ideia de uma pedagogia do sofrimento: Deus corrigiria o homem por meio da dor, para livrá-lo da soberba.
14.4. Acusação contra Jó
Eliú acusa Jó de blasfêmia por parecer querer ser mais justo que Deus.
15. A aparição divina
15.1. Deus fala do redemoinho
Deus responde a Jó do meio de um redemoinho. O professor interpreta esse fenômeno como manifestação angélica, pois a visão direta de Deus destruiria o homem.
15.2. Perguntas divinas
Deus questiona Jó sobre a criação do mundo, da neve, do granizo, das estrelas e da ordem cósmica.
15.3. Sentido da resposta divina
Deus não oferece uma explicação racional simples para o sofrimento de Jó. Em vez disso, mostra a desproporção entre a compreensão humana e a ordem total da criação.
16. Behemoth e Leviatã
16.1. Behemoth
Behemoth, ou Beimote, é apresentado como símbolo do Cosmos e da ordem criada por Deus.
16.2. Leviatã
Leviatã representa a soberba humana e o espírito usurpador que tenta ocupar o lugar de Deus.
16.3. Interpretação de William Blake
O professor usa as ilustrações de William Blake para explicar que o Behemoth, símbolo da ordem cósmica, controla o Leviatã, símbolo da humanidade soberba.
17. Desfecho do Livro de Jó
17.1. Arrependimento de Jó
Jó se arrepende de ter falado com leveza e faz penitência no pó e na cinza.
17.2. Censura aos amigos
Deus censura os amigos de Jó, afirmando que eles não falaram corretamente, ao contrário de Jó.
17.3. Oração pelos amigos
Jó ora por seus amigos, e isso marca sua restauração.
17.4. Restituição final
Deus devolve a Jó em dobro tudo o que ele possuía. Jó também recebe novos filhos e filhas.
18. Temas principais da aula
18.1. Teodiceia
A aula gira em torno do problema da justiça divina diante do sofrimento do inocente. A pergunta central é: por que o justo sofre?
18.2. Sofrimento desproporcional
Jó aceita que o ser humano possa errar, mas questiona a desproporção entre possíveis erros e castigos extremos.
18.3. Rebelião metafísica
O professor relaciona a revolta de Jó à rebelião metafísica moderna, citando Albert Camus e Ivan Karamazov.
18.4. Crítica à modernidade
A aula associa a revolta contra Deus à tentativa moderna de substituir a providência divina por estruturas políticas e estatais.
18.5. Crítica ao totalitarismo
O professor afirma que regimes totalitários usam a culpa coletiva e a exigência impossível de perfeição para dominar as pessoas.
18.6. Satanás como acusador
Satanás é entendido como opositor que exige do homem uma perfeição impossível, paralisando sua existência.
18.7. Neurose e mentira
A neurose é definida como uma mentira na qual se acredita, em paralelo com as falsas acusações feitas pelos amigos de Jó.
Referências citadas
1. Textos bíblicos e religiosos
- Livro de Jó
- Velho Testamento
- Bíblia
- Cristianismo
- Hinduísmo
- Budismo
- Judaísmo
- Islamismo
- Ave Maria
- Holocausto, no sentido bíblico de sacrifício
- Sheol
- Temor do Senhor
- Redentor
- Satanás
- Deus
2. Personagens bíblicos
- Jó
- Esposa de Jó
- Elifas / Elifaz de Temã
- Bildad / Baldá
- Sofar
- Eliú
- Behemoth / Beemote
- Leviatã
3. Autores, filósofos, críticos e pensadores
- Mário Ferreira dos Santos
- René Guénon
- Frithjof Schuon
- Paul Johnson
- Elói Zanetti
- Geraldo Cavalcante
- Mauro Zanatta
- Rita Ivoti Ortega
- Vitor Caruso Filho Júnior
- Regina Fukamachi
- Northrop Frye
- Padre Antônio Pereira de Figueiredo
- Albert Camus
- Fiódor Dostoiévski
- Franz Kafka
- William Shakespeare
- René Girard
- William Blake
- Tomás de Kempis
- Boécio
- Pitágoras
- Papa Gregório
4. Obras mencionadas
- Simbólica / Tratado de Simbólica
- Filosofia Concreta
- Os Criadores
- Intelectuais
- Música, Cérebro e Êxtase
- Código dos Códigos
- O Homem Revoltado
- O Mito de Sísifo
- Os Irmãos Karamazov
- O Processo
- O Castelo
- A Metamorfose
- Rei Lear
- Hamlet
- A Violência e o Sagrado
- O Bode Expiatório
- Coisas Escondidas desde o Princípio do Mundo
- A Imitação de Cristo
5. Personagens literários citados
- Joseph K.
- Gregor Samsa
- Ivan Karamazov
- Dom Juan
- Horácio
- Pobre Tom / Edgar
6. Conceitos principais
- Tradição
- Filosofia
- Ciência
- Literatura
- Teodiceia
- Sofrimento injusto
- Estrutura em U
- Tragédia grega
- Coro grego
- Situação kafkiana
- Bode expiatório
- Rebelião metafísica
- Providência divina
- Totalitarismo
- Culpa coletiva
- Pedagogia do sofrimento
- Lei da Reciprocidade
- Fracasso Ontológico
- Neurose
- Soberba humana
- Cosmos
- Ordem criada
7. Lugares e instituições
- Toledo, Paraná
- BRH Paraná
- Mercosul
- Terra de Uz
- Arábia
- Babilônia
- SUS
8. Figuras históricas e culturais mencionadas
- Pedro Álvares Cabral
- Robespierre
- Tony Garcia
- Tiririca
- Gugu Liberato
9. Termos e observações incertas
- Suas / Suíta, ligado a Baldá/Bildad
- Penhores, em trecho incerto sobre “tenhores”
- Zimbro / juníperos
- Cabeção de túnica, termo de vestuário antigo possivelmente inaudível
- Verguteira / vergontas
- Arcturus, referido como “Artur” na transcrição
- Saraiva, transcrita como “sarava”
- Cãs, possivelmente transcrito como “câncer”
- Expressões inaudíveis ou duvidosas indicadas nos arquivos originais

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