Intro
"Ao longo destas aulas, Padre Paulo Ricardo conta a história da ideologia que, relegando Deus a um posto secundário, colocou o homem no centro da religião."
Gostei bastante da didática do Padre.
Trechos
Lutero Revolucionário - Será sobre o princípio da sola fide, expressão mais de uma psicologia transtornada do que de uma convicção intelectual, que Lutero construirá o que poderíamos chamar sua “ideologia teológica”, e para justificá-la ele não terá o receio de deturpar o sentido da S. Escritura, adulterando-lhe a tradução, suprimindo-lhe versículos e arrancando-lhe do cânone todos os livros que não estiverem de acordo com suas próprias concepções pessoais. Todos os princípios teológicos em torno dos quais se articulará a sua ideologia, como esperamos deixar claro ao longo do curso, não serão mais do que “conclusões” à busca de premissas, quaisquer que sejam elas.
Lutero Nominalista - se renunciamos à ideia de natureza, renunciamos também a toda normatividade moral independente quer de meras convenções sociais, quer de imposições por parte de alguma autoridade reconhecida, porque tampouco haverá um ser objetivo que, de per si, aponte para um fim e reclame, por isso mesmo, certos bens e se oponha a certos males. Não é à toa, aliás, que o nominalismo de Ockham o tenha levado a uma concepção voluntarista de Deus, o qual decretaria o que é moralmente bom ou mal para o homem por simples arbítrio, e não por tê-lo criado precisamente como homem, ou seja, com uma determinada natureza.
Lutero Antimetafísico - Outro ponto crucial da filosofia nominalista e que será absorvido por Lutero é o seu conceptualismo, isto é, o princípio segundo o qual às ideias gerais (também chamadas universais) não corresponde nenhuma realidade fora da inteligência humana. Os termos universais, nesse sentido, não expressam a qüidade comum das coisas materiais apreendidas pelos sentidos, mas apenas uma noção, por assim dizer, “estenográfica”, cuja única função é designar objetos que nos parecem mais ou menos semelhantes. Para Lutero, as ideias que formamos não passam de imagens generalizadas que aplicamos a este ou àquele grupo de indivíduos, reunidos sob uma designação comum em virtude tão-somente de alguma semelhança externa; estão, portanto, muito longe de ser uma perfeição real da inteligência pela qual esta se apropria intencionalmente da realidade conhecida e se torna, em certo sentido, uma só coisa com ela.
Lutero Passional - Anos mais tarde, depois de ter desencadeado a “Reforma”, Lutero irá repudiar como satânica e imoral sua profissão religiosa, contradizendo muitas de suas cartas escritas quando ainda era monge e nas quais se mostrava contente e satisfeito com o caminho que havia decidido trilhar. As palavras duras (a até por vezes obscenas) com que Lutero irá referir-se depois à sua antiga vida monástica descobrem-nos uma personalidade não só conflitante consigo mesma, mas também bastante emocional e propensa ao dramatismo, pouco afeiçoada aos meios-termos, inclinada ora a amar com paixão, ora a odiar com ardor. Isso, é claro, torna ainda mais difícil aferir com base em seu próprio testemunho qual era a situação objetiva em que Lutero se encontrava nas diferentes etapas da vida: seu caráter genioso dava proporções enormes a problemas pequenos, colorindo-os com tons negros e pessimistas. A isso, como veremos mais adiante, virá somar-se sua tendência a “racionalizar” os próprios problemas, dando-lhe soluções heterodoxas e reformulando, se preciso for, toda a religião, não pelo desejo de a devolver à sua pureza original, mas como meio de apaziguar sua própria consciência atormentada.
Lutero em Crise - Um outro aspecto que também se manifesta nas crises de Lutero foi a sua busca incansável por aquela certeza de fé sobre a própria salvação que, segundo o Concílio de Trento, não está ao nosso alcance, por mais piedosos que nos julguemos. Com efeito, não podemos nesta vida ter uma certeza absoluta, mas apenas moral e suficiente, de que estamos na graça de Deus; tampouco podemos estar certos, a não ser por uma revelação especial, de que pertencemos ao número dos que serão salvos. Sempre inquieto, Lutero não podia contentar-se com esta certeza moral, que deveria ser suficiente para tranquilizar a consciência de qualquer fiel minimamente instruído acerca das coisas espirituais; ele queria, antes, uma garantia inquebrantável, que lhe apaziguasse de uma vez para sempre os escrúpulos. Em Lutero já parece ter lugar um fenômeno que será constante na modernidade e que irá distinguir o pensamento moderno da tradição filosófica anterior, a saber: o primado da certeza sobre a verdade e o desejo de alcançar, não um conhecimento verdadeiro, mas certo e seguro.
Lutero Antropocêntrico - Em Lutero, como se vê, a fé é o meio por que o sujeito mesmo dá origem àquilo em que crê (à justificação, ao perdão dos pecados, à salvação etc.): o modo como se crê é o modo como se possui a realidade. Ora, essa forma de pensar está por trás, como elemento comum, das ideologias que por aí circulam atualmente: para elas, a verdade não é dada ao homem nem descoberta por ele, senão que é o próprio homem que, desde si mesmo, gera a realidade. Que esse fosse o modo de Lutero pensar, comprova-se também pelo extensivo debate travado entre ele e o teólogo tomista Johann Maier von Eck. Nos dias em que teve curso a discussão, Lutero proferiu um famoso sermão na festa dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo no qual deixou claro que, para ele, a Igreja se fundamentava, não em Pedro, mas na fé de Pedro, fé esta que é a mesma para todos os fiéis, de sorte que todo e qualquer fiel — concluirá mais tarde — é Papa e fundamento da Igreja de Cristo.
Lutero Político - Entrecruzavam-se, pois, interesses não só teológicos, mas políticos e econômicos, uma mistura explosiva que faria com que a reforma que a Alemanha há tempos vinha desejando se convertesse, sob a guia de Lutero e com o apoio dos príncipes alemães, numa completa reformulação da doutrina cristã e, por isso, na criação de uma nova “igreja”. Lutero não teria feito muito, se as suas propostas não encontrassem um eco favorável no ânimo popular e nos interesses das pessoas com poder para lhe oferecerem o respaldo necessário.
Conclusão
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