Intro
Mais uma palestra do saudoso Monir.
Resumo
Thomas Mann vem de uma daquelas famílias tradicionais do norte da Alemanha, da Liga Hanseática (mais precisamente, de Lübeck). Ele vem de uma família “patrícia” (nós diríamos “burguesa”): o pai dele era um cerealista muito bem de vida, que tinha uma firma antiga, com mais de cem anos, além de ser, também, senador de Lübeck. No entanto, isso muda muito. Por causa das melhorias na comunicação no norte da Alemanha, Lübeck acabou perdendo espaço para Hamburgo e acabou decaindo imensamente – e, com isso, decaiu, também, a fortuna da família Mann. Thomas Mann nasce nessa família em decadência econômica vertiginosa.
A mãe de Thomas Mann era brasileira, fato interessantíssimo, porque em toda sua obra há algumas menções indiretas a esse fato. Júlia Mann era de Angra dos Reis, filha de um alemão com uma portuguesa. O pai dela, que era sósia do Dom Pedro II (e chegou, por isso, a conhecê-lo e tornar-se seu amigo) casou-se com a filha de um latifundiário português. Com a morte da mãe, Júlia, então com sete anos, muda-se para Alemanha.
Thomas Mann teve quatro irmãos, o mais importante dos quais (sob o ponto de vista da visibilidade pública) foi Heinrich Mann, que escreveu um livro chamado “Professor Unrat” – conhecidíssimo como o “Anjo Azul”, por causa do filme que foi feito em cima do livro. Heinrich foi um intelectual de grande envergadura no tempo dele – tanto quanto Thomas Mann. Ambos tiveram grandes divergências, mas foram dois grandes intelectuais europeus entre os séculos XIX e XX.
Em 1891, morre seu pai, com 50 anos, portanto muito jovem, e muito amargurado pelo fato de que seus dois filhos mais velhos – o Thomas e o Heinrich – não queriam tocar sua firma. Nenhum dos dois tinha vocação comercial. Das duas meninas não se esperava que fossem dirigir uma firma em 1890. E Victor, o mais novo, era muito criança. Então, o pai morre amargurado por não ter sucessores na firma. Quando ele morre, a família se dispersa. O Thomas fica em Lübeck para terminar o equivalente ao segundo grau lá, e a mãe se muda com os filhos menores para Munique – cenário do resto da vida de Thomas Mann. O irmão mais velho, nesta altura, já estava naquela vida berlinense, aquela vida de quem acha que o mundo vai acabar amanhã.
Thomas era péssimo aluno e afirma que a escola nunca lhe ensinou nada. Ele se arrastou pelos estudos e, quando os conclui, foi para Munique, onde descobre que ele só quer ser intelectual. Então, vai estudar. Se vocês lerem Thomas Mann, verão que as quatro grandes influências intelectuais dele são: Schopenhauer, Nietzsche, Goethe e Wagner. É muito interessante: você vai lendo seus livros e vai descobrindo esses quatro nos bastidores com toda facilidade - Schopenhauer e Nietzsche dando a Thomas Mann essa sensação que ele tem de um certo pessimismo existencial; o Wagner dando uma idéia da recuperação da germanidade, da mitologia; e Goethe dando a ele o modelo literário. O modelo literário de Thomas Mann é Goethe. Ele tem várias peças que são baseadas em Goethe – como “Carlota em Weimar”, inspirada no “Jovem Werther”. Além disso, ele escreveu um Fausto, do mesmo modo que Goethe.
Em 1896, vai para a casa do irmão Heinrich, que nessa época já morava na Itália, e começa a trabalhar nos “Buddenbroocks”, primeiro grande livro de Thomas Mann, publicado 1901, e que foi um sucesso de público instantâneo. Não falta quem demonstre que o livro é quase um “roman à clef”, ou seja, uma história que você conta sobre algo que aconteceu, mas com nomes falsos. Esta é uma das maneiras mais práticas de se arrumar inimigos. De todo modo, há quem diga que os Buddenbroocks é um “roman à clef” sobre os Mann. Thomas escreveu esse livro muito jovem, mas de fato deu certo. Os críticos literários vêem neste livro a utilização do “leitmotiv”, que é a idéia de criar um tema central recorrente na obra; a idéia de que a obra é construída em cima de uma espécie de vale que produz o talvegue (do alemão “Thalweg”, “caminho do vale”) e tudo gira em torno disso. Thomas Mann teria tirado isso da música, sobretudo de Wagner. Ele era um entusiasta e estudioso de música. Não há livro do Thomas Mann em que não haja alguma digressão sobre música.
Em 1905, Mann casa-se com Katharina Kátia Pringsheim, filha de um catedrático de matemática da Universidade de Munique (chamado Alfred Prignsheim), e neta de uma feminista famosa (Hedwig Dohm). Com ela, Thomas Mann teve seis filhos: Erika, Klaus (que, depois, virou escritor e compôs “Mefisto”, sua própria versão do Fausto), Golo (aliás, Angelus Gottfried Thomas), Monika, Elisabeth, e Michael.
Depois disso, começam as brigas com seu irmão mais velho, Heinrich. É preciso que vocês compreendam o grau de tensão política que se vivia nessa época. Estava-se à beira da Primeira Guerra Mundial.
Em 1910, sua irmã, Carla, se suicida. Em 1912, sua mulher, Kátia Mann, com tuberculose, fica internada no “Sanatório da Floresta”, em Davos, na Suiça. Foi esse espisódio do internamento da mulher que levou Thomas Mann a escrever “A montanha mágica”. Davos era, naquela ocasião, um local conhecido por ser voltado para a cura da tuberculose. Hoje, é a sede do “World Economic Forum”. Isso modernamente. Naquele então, Davos era um local de cura da tuberculose. Um lugar muito alto (1.600 metros): uma “montanha”, portanto. Tuberculose era uma doença comuníssima e sem remédio. Não havia terapias possíveis para essa condição. Hoje é uma doença banal, mas naquela época não era. A mulher dele fica, lá, então, vários meses.
Em 1913, é publicada “Morte em Veneza”, a mais conhecida de todas as obra de Mann, porque há um filme a respeito (de Luchino Visconti), com música de Gustav Mähler. Essa história é também baseada em episódios ocorridos com Thomas Mann em Veneza.
Nesse mesmo período, Mann começa a escrever este “Bildungsroman” que é “A montanha mágica” (“bildungsroman” ou “romance de formação” é um gênero literário criado por Goethe, em que a personagem central, passando por uma série de experiências, entende, no final, algo sobre sua própria vida; o trajeto da personagem é um trajeto de aprendizagem, como “Os anos de aprendizado Wilhelm Meister”, em que Meister, que quer ser um teatrólogo, embora seja no fundo um burguês, leva 600 páginas para concluir que sua verdadeira vocação é tocar o negócio da família, e que ele não tinha nada a ver com aquele mundo boêmio, teatral). Pois “A montanha mágica” é, também, um bildungsroman, e quem nos diz isso é o próprio Mann. A personagem central do livro – Hans Castorp, um jovem formado em engenharia naval – passa por uma série de vicissitudes, e vai parar na montanha mágica, que é Davos. Ele vai para terras altas, primeiro para cuidar de um primo, e depois porque ele mesmo ficou doente.
Em 1915, um artigo de Heinrich Mann sobre Zola, aquele escritor francês, oficializa o rompimento entre os dois irmãos. Em 1918, Thomas publica um livro chamado “Meditações de um apolítico”, em que ele tenta posicionar-se perante o problema da guerra, da Alemanha, etc. Em 1919, Thomas Mann e um grupo de intelectuais faz uma campanha para que o governo alemão não repatrie o famoso intelectual comunista chamado Georg Lukácks, que escreveu, aliás, um enorme livro sobre “A montanha mágica” (livro que notabilizou Lukácks como crítico literário marxista).
Em 1922, começa a escrever uma paródia, ou seja, um livro de natureza irônica, chamada “As confissões de Felix Krull”, que é um livro cômico (o único livro engraçado do Thomas Mann).
No mesmo ano, o irmão de Thomas adoece e por causa disso eles fazem as pazes.
Em 1923, Thomas Mann interfere numa palestra de Jacob Wassermann. Wassermann foi fazer uma palestra na Alemanha e os nazistas decidem tumultuar o evento. Quem salva o Jacob de um eventual linchamento é Thomas Mann.
Em 1924, é publicada, em dois volumes, “A montanha Mágica”. Nesse mesmo ano, ele começa a escrever seu mais ambicioso livro: “José e seus irmãos”, uma tetralogia.
Em 1927, sua outra irmã se suicida. Publica a novela “Mário e o mágico” e lê, na Academia Prussiana de Letras, a conferência “O ofício do escritor alemão nos nossos dias”, em que ele se posiciona como um defensor dos direitos democráticos. O ambiente alemão, nesse momento, já estava muito estragado por causa da superinflação, além de já se ter os primeiros movimentos nazistas.
Em 1933, por conta da subida de Hitler ao poder, muda-se para a Suiça.
Em 1936, torna-se apátrida. O governo alemão caça sua nacionalidade. Ele então se muda para os Estados Unidos, dando aula em Princeton, universidade da costa leste, perto de Nova York.
Durante a Segunda Guerra Mundial, escapa de uma tentativa de assassinato, em que um aviador alemão tenta derrubar o avião em que ele estava.
Em 1940, recebe a cidadania americana.
Em 1947, Thomas publica “Doutor Fausto”, sua própria versão do Fausto, livro monumental, em que ele faz uma espécie de síntese de toda sua obra.
Em 1949, morre Victor, o seu irmão mais novo, que também escreveu uma biografia da família – “Nós éramos cinco”. No mesmo ano, morre o filho de Thomas, Klaus, que se suicida. Mann não vai ao enterro por ter ficado furioso com aquela atitude.
Depois disso, Thomas visita Weimar, o que lhe rende uma grande hostilidade nos EUA, porque já havia, nessa época, um clima de macartismo. Quando houve, aliás, a reconstituição da Alemanha, Thomas Mann foi um dos sujeitos cogitados para ser Presidente da Alemanha. No fim, não deu certo, mas ele quase se tornou Presidente, pela dimensão e respeitabilidade extraordinárias que ele tinha.
Em 1950, morre Heinrich.
Em 1951, publica “O eleito”.
Em 1952, não agüentando mais o macartismo, volta para a Suiça.
Em 12 de agosto de 1955, morre Thomas Mann em Zurique.
Em 1958, é publicado o livro de memória de sua mãe, Júlia, “Da infância de Dodo”, em que há várias menções ao Brasil. O livro de Mann que tem mais menções ao Brasil é o “Tônio Krüeger”, livro altamente autobiográfico e maravilhoso.
Thomas Mann é, portanto, um sujeito extraordinário e que escreveu, com “A montanha mágica”, um dos livros mais importantes já escritos na história da humanidade. Perguntado sobre o que significava o livro, Thomas Mann disse: “Leia-o duas vezes que você entende”.
“A montanha mágica” conta a história de uma estada de Hans Castorp no sanatório Berghof em Davos. Hans Castorp é um jovem meio preguiçoso, burguês e com uma tendência para o macabro, que perdeu os pais e o avô muito cedo, ficando, então, com uma herança, que lhe dava uma renda anual confortável. Com isso, ele sai de Hamburgo e vai para as montanhas de Suiça, para sanar uma pequena tendência à tuberculose que ele tinha e acompanhar o seu primo, Joachim Ziemssen, um militar, que estava lá internado. Ele fica lá muito tempo (sete anos) e o livro conta o que se passou com ele durante esse período.
Hans Castorp, que é, dentre os heróis literários de Thomas Mann, aquele mais autobiográfio, tende a ver, como o próprio Mann, as coisas de um modo sombrio. Quando ele viu um hóspede tuberculoso tossindo pela primeira vez, disse que era como se se pudesse ver o interior do homem, e ele fosse lodo e cancro.
Há, no livro, uma contraposição permanente entre a planície e a montanha. Para além das diferenças óbvias entre esses dois lugares, há, de modo marcante, uma diferença radical na noção de tempo. Lá embaixo, as pessoas passam todo o tempo cercadas de atividades, mourejando e ocupando-se com rotinas diárias. Lá em cima, não. Lá, as pessoas se unificam pela tuberculose. Elas não têm nenhuma perspectiva de futuro, posto terem uma doença fatal, passível de ser, na melhor das hipóteses, contornada.
Em Berghof, Castorp conhece, entre os hóspedes, um intelectual chamado o Settembrini, uma das personagens centrais da obra. Settembrini é um escritor que encarna uma determinada corrente do pensamento humano que acha que Satanás é mais amigo da humanidade do que Deus, porque Deus, de alguma maneira, tiranizaria a humanidade estabelecendo exigências absurdas. Há, portanto, algo de prometeico em Settembrini. O prometeanismo acha que o homem tem total autonomia para fazer tudo por sua própria conta. Settembrini faz parte de uma facção de intelectuais humanistas – no sentido negativo desta palavra – exclusivamente voltados para a auto-suficiência do homem. Ele é um descrente geral, um cético, um gozador e um irônico – e compara Castorp a Ulisses no inferno (e, portanto, Berghof com o Hades).
Com o passar do tempo, percebe-se que algo de extraordinário vai acontecendo na montanha. Hans deixa de sentir, lá em cima, os prazeres que, na planície, o animavam sobremaneira (como os charutos, dos quais ele havia feito uma defesa entusiástica no início da obra). Além disso, sua saúde começa a piorar e ele deixa de ser capaz de interpretar o tempo como até então interpretava Acontecem-lhe, portanto, modificações significativas (por isso, a montanha é dita “mágica” – ela promove essas alterações em Hans). Na montanha, há, ademais, um clima caótico, sem estações definidas, diferentemente da planície.
Há, na história, um certo Edhin Krokowski, médico psicanalista, que dava uma palestra a cada 15 dias, em alemão, sobre o tema “O amor como agente patogênico”. O que o Dr. Krokowski tencionava era passar de uma abordagem, digamos, “fisicalista” da doença para uma abordagem mais “psíquica – bem ao gosto da então nascente psicanálise (estamos, aqui, em 1907). Krokowski diz: “para mim, o que é orgânico é sempre secundário”. Hans começa a achar que sua doença ainda incipiente (mas crescente) tem um fundo psíquico.
Castorp conversa bastante com Settembrini e este não gosta de ouví-lo falar que a doença é algo que enobrece alguém, por considerá-la apenas um obstáculo ainda não vencido pelo humanidade. Settembrini é um otimista e um entusiasta do progresso e do desenvolvimento. Portanto, para ele, alguém achar que a doeça é boa é um resquício obscurantista, de uma época que considerava a doença um passaporte para o céu. Settembrini nega qualquer coisa que não seja o racionalismo humano. Castorp tenta ver alguma nobreza no sofrimento, enquanto Settembrini o considera uma pura perda de tempo, para a qual ainda não encontrara-se solução. Settembrini é uma espécie de ativista da humanidade. Ele acredita na técnica, no homem. Parece muito com os positivistas. Afirma que a bagunça dos “três dias gloriosos” de 1830, que se seguiram à queda de Luis XVIII, são algo como os seis dias da criação do mundo. Segundo a maneira settembriana de ver as coisas, haviam, no mundo, dois princípios disputando a primazia: a força e o direito, a tirania e a liberdade, a superstição e a ciência, a estagnação e o movimento efervescente do progresso – o princípio asiático e o princípio europeu. Não há, portanto, segredo sobre quem é Settembrini: ele é um tipo iluminista, cientificista, que acha que não precisamos mais de Deus, porque a aspirina já resolveu nossa dor de cabeça.
Com o tempo, Hans Castorp se enamora por uma certa Mme. Chauchat, mulher de andar felino, sedutora, e por quem Hans sentira no início certa antipatia, em virtude do mau hábito da moça de bater as portas, ao invés de encostá-las como pedem os bons modos.
Quanto terminam as três semanas que Castorp planejara, desde o início, passar em Berghof, ele fica gripado e febril, sendo, então, aconselhado a continuar na montanha. Esse é o princípio de toda uma reviravolta em seus planos.
Com o tempo, nasce em Castorp, primeiro, um interesse científico pela fisiologia humana, da qual ele se torna uma pesquisador, auxiliado pelo Dr. Behrens, médico de Berghof, com uma visão objetivante e fisicalista da doença oposta à de Krokowski, vendo o sofrimento humano com uma indiferença técnica, “científica”. Na montanha, pois, Castorp quer saber coisas que, na planície, não lhe eram importantes. Que descobrir o que é a vida. Torna-se, num certo sentido, discípulo de Settembrini.
Depois, entra na história uma nova personagem, chamada Nafta, apresentado por Settembrini, jocosamente, como o “princípe dos escolásticos”. Nafta, que tem uma visão metafísica do mundo, fará uma contraposição a Settembrini, que tem das coisas uma visão puramente física. Settembrini acha que a humanidade é que o agente de todas as coisas, ao passo que Nafta diz haver no homem uma espiritualidade que é o que interessa em última análise. Settembrini é um libertário: não quer nenhuma autoridade acima do homem. Já Nafta tem uma posição antitética: ele deseja que a ditadura do proletariado instale um tal reino de terror que as almas, na marra, sejam recuperadas. Ele tem, pois, a opinião de que o homem deve se deixar dominar tiranicamente por uma idéia de Deus. Castorp não sabe como se posicionar nesse embate. Esses dois contendores duelam pela alma de Hans.
Chega a hora de Joachim, o primo de Hans, ir embora, posto ter de apresentar-se ao seu regimento. Castorp acompanha-o até a estação de trem e despede-se do primo. Hans, agora, depois de treze meses na montanha, vê com desprezo as atividades da planície para as quais retorna seu primo. O único modo de vida legítimo agora reconhecido por Hans é aquele da montanha. O que aconteceu com Hans Castorp? Ele começou a pensar em coisas nas quais até então nunca tinha pensado. Ele abriu sua mente para o mundo intelectual. Por isso, ele não quer mais voltar de planície.
Há, mais adiante, uma cena importante: Hans vê-se em meio a uma tempestade de neve, sem ter condição de escapar. Existe, aqui, uma experiência extrema e radical de desesperança completa, de perda de todos os valores, similar àquela que, por exemplo, Viktor Frankl teve nos campos de concentração nazistas. Trata-se de uma total e brutal redução do indivíduo a sua existência corporal.
Joachim, que havia ido embora, volta a Berghof. Seu estado piora e, mais tarde, ele vem a morrer.
Nafta conta a Castorp que Settembrini é maçom, o que lhe causou grande surpresa. Indagado sobre o assunto, Settembrini explica a Castorp que a maçonaria jamais deixara de ser política. “São pedreiros e ajudantes trabalhando numa construção”. O bem da totalidade é a lei básica de fraternização. Castorp pergunta a Settembrini se os maçons não são cristãos. Settembrini, em resposta, lhe diz que a metafísica é um mal e só serve para adormecer a energia que dever-se-ia empregar na construção do templo da sociedade.
Clawdia Chauchat, que havia deixado o sanatório, retorna, mas com um cônjuge, o que desanima Castorp. Com o tempo, porém, os três tornam-se amicíssimos e constituem uma espécie de menage à trois não-sexual. O companheiro de Chauchat, no entanto, termina se suicidando.
Um terrível tédio se apossa de Castorp, o qual tenta debelá-lo tirando fotos de todo mundo.
O Dr. Krokowski, cujas investigações analíticas sempre tiveram um tom subterrâneo e catacumbal, começa a dedicar-se ao estudo de fenômenos como sonambulismo, telepatia, hipnose, etc. Coincidentemente, pelo mesmo período, chega a Berghof uma moça que revela poderes paranormais. Contrariando à ordem dada por Krokowski de não fazer-se experimentos públicos com a garota, os hóspedes fazem uma sessão destinada a falar com os espíritos. Durante a sessão, o espírito de um poeta se comunica com os hóspedes, através de um copo. Krokowski interrompe a sessão. A luz do quarto apaga-se misteriosamente e quando torna a ser acendida, Hans, que participara da sessão, vê, em seu colo, a radiografia dos pulmões de Mme. Chauchat (que lhe havia sido dada por ela, como recordação, na primeira estadia dela em Beghof, mas que Castorp não havia levado ao quarto).
Em uma outra sessão espírita, liderada por Krokowski, decide-se falar com o espírito de Joachim, o qual, depois de algumas tentativas, de fato aparece. Krokowski pede a Castorp que fale com seu primo, mas ele acende a luz e sai correndo do quarto.
Vários incidentes em Berghof atestam uma degeneração geral do estado de espírito dos hóspedes. Há, por exemplo, um duelo de armas entre Nafta e Settembrini. Nafta, porém, no momento da pugna, recusa-se a atirar em Settembrini e se suicida.
Depois de passados sete anos desde a chegada de Castorp a Berghof, eclode a Primeira Guerra Mundial. Com isso, todos hóspedes são forçados a voltar para a planície às pressas.
Aqui termina a história.
Como poderíamos resumir a história? Hans Castorp é um jovem burguês, com a vida mais ou menos resolvida, mau estudante de engenharia naval, com a expectativa de ir trabalhar em um estaleiro, e que decide passar três semanas com seu primo nas montanhas (e também dar uma melhoradinha na própria saúde). Ele sobe as montanhas, e embora tenha no início tido alguma adaptação, vai se acostumando aos poucos com aquele clima, que é completamente diferente do clima da planície; vai se acostumando, também, e sobretudo, com a mudança extraordinária na noção de tempo que acontece, porque, lá, o tempo não passa. E aos poucos ele descobre coisas que lhe eram completamente inéditas. Hans Castorp não tinha, até então, nenhum interesse intelectual. Tinha sido um estudante desinteressado - tanto que escolheu engenharia, que é uma profissão sumamente técnica. No entanto, ele começa, sobretudo a partir de conversas com Settembrini e com Nafta, a fazer um esforço dialético de contraposição entre a visão prometeica do Settembrini (que é a idéia de que tudo que não é completamente humano é completamente ilusório; uma antiguidade, para dizer o mínimo) e a visão espiritualista do Nafta (que vê a necessidade absoluta e imperativa de submeter-se até mesmo a um terror, que é o destino natural da humanidade, sem o que não seria possível purificar o espírito). Esses dois são os maiores contrapontos intelectuais da história, mas, além deles, há outros: o Dr. Behres (que representa uma atitude tecnicista ao extremo, a insensibilidade da medicina objetiva), o Dr. Krokowski (que representa uma medicina contemporânea, que procura ver a psicologia como fonte dos problemas físicos; ele é nitidamente um psicanalista, embora isso não seja nunca dito com clareza), aquela moça que faz a experiência espírita de chamar o Joachim de volta (que representa um mundo parapsicológico, misterioso), o próprio primo, Joachim (que representa o militarismo, dentro de uma visão alemã, um militarismo disciplinado, de gente que é capaz de ir à guerra apenas para cumprir seu dever, sem preocupar-se em saber se deveria ou não ir), etc.
Na montanha, em suma, Hans Castorp confronta-se com, basicamente, todas as grandes tendências do mundo mundo moderno. O que nós temos aí é uma espécie de iniciação. Por isso é o livro é chamado por Mann de um bildungsroman. No livro de Goethe que sintetiza esse espírito, Whilelm Meister, o protagonista, tem sua vida dirigida, o tempo inteiro, por um grupo de pessoas misteriosas (aparentemente, representantes da maçonaria) e passa por experiências pedagógicas. Então, no final de um bildungsroman, espera-se que a personagem central, que era no início imatura e até infantil, tenha descoberto alguma coisa fundamental sobre sua vida.
À Hans Castorp não faltaram modelos intelectuais para seguir. Sobretudo, ele deparou-se com o grande debate do século: quanto a humanidade é independe e quanto ela está associada a um poder maior? O Nafta não representa, exatamente, um modo católico de pensar. Ele é um católico apenas por conveniência, porque na verdade ele é um revolucionário. Ele era um revolucionário desde o início, era alguém com uma experiência familiar trágica, e que vê no catolicismo não uma forma de ser ou uma doutrina da existência humana, mas sim a legitimação de uma espiritualidade que se justifica pelo terror. O mundo que o Nafta propõe é o mundo da ditadura do proletariado.
No fundo, as opções intelectuais à disposição de Castorp são, de algum modo, impossíveis. Porque a opção do Settembrini é a opção da existência humana independentemente de qualquer espécie de Transcendência. Uma visão portanto humanista, materialista, prometeica e auto-refente. De outro lado, você tem o terror irracionalista da ditadura do proletariado. Temos, então, a contraposição entre um racionalismo absoluto e um irracionalismo absoluto. Vocês percebem que essas duas opções não são verdadeiramente possíveis – nem uma, nem outra?
Mas o que acontece com Hans Castorp no final? Qual foi seu destino final? Ele morre, não? Embora isso não nos tenha sido contado, o autor, no final, nos diz que as esperanças que ele tem são muito pequenas. Hans Castorp está destinado a morrer na Primeira Guerra Mundial. Essa é a idéia que está implícita no fim da história. E o que terá acontecido em sua vida? Qual é o saldo final de seu período de formação? Ele era um burguês da planície, destinado a ser um funcionário, ganhar seu dinheirinho e viver num grau de inconsciência extraordinário. Ao subir para a montanha, o que ele descobre? Descobre um potencial extraordinário que ele mesmo tinha de perceber as coisas com mais profundidade, perceber o que está por trás das coisas. E essa descoberta faz com que ele perceba que há alguma coisa errada com a planície. A montanha é mágica no sentido de que ela permite transformar um sujeito inonsciente em um sujeito consciente. Na medida em que ela destrói a noção de realidade prática, de tempo, de clima, seus ares são capazes de esclarecer as brumas e os nevoeiros da planície.
No entanto, aquele mundo montanhês é um mundo artificial, dissociado da vida concreta de baixo, um mundo de pessoas moribundas que se irmanizam na desesperança. Portanto, esse mundo da montanha, embora tenha consciência e liberdade, é, também, um mundo insustentável – tanto que é destruído pela Primeira Guerra Mundial. No fim do livro, esse mundo todo desce em conjunto e mergulha na morte.
Qual é o significado da obra? Há, aí, uma clara conotação iniciática. Na iniciação, há uma ruptura mais ou menos traumática com um cotidiano cegante, inviabilizador de uma compreensão maior. No contexto burguês em que Castorp vivia, ele não podia perceber nada. O que ele faz, subindo a montanha, é perceber as grandes opções existenciais da vida. Aconteceu com vocês alguma vez isso na vida? Tem um livro chamado “A montanha dos sete palmares”, de um grande monje chamado Thomas Merton, em que também narra sua “subida à montanha”. Para haver um processo iniciático – e, portanto, literariamente, para termos um “romance de formação” – esse processo tem, de alguma maneira, de quebrar a rotina antiga. Tem de haver uma espécie de “traumatologia” no caminho, para você poder perceber o que você não enxergava antes.
No entanto, o que acontece quando você sai da planície e vai para a montanha? As coisas da planície não têm mais poder pedagógico. Elas não são mais a verdade. A montanha é mágica porque ela tira o coelho da cartola. Ela tem o poder de influenciar as pessoas para que elas tenha uma outra vida. É isso que acontece com Hans Castorp ao subir a montanha.
Porém, o que acontece quando você chega lá? Qual é o problema central do Castorp? Na montanha, não tem vida. Na montanha, não há realidade. Ela é ilusória. Ela tem o poder de modificar as pessoas, mas você não pode morar na montanha. Você tem que morar no mundo real. Então, onde uma iniciação vai parar, na verdade? Ela vai parar na capacitação da pessoa para descer, porque, no fundo, só tem sentido a iniciação se você puder descer para a realidade onde você vive. É na planície que as pessoas vivem. A montanha não é o lugar onde se vive. Lá, só há a perspectiva da morte. A montanha está distante da vida. É preciso voltar para vida real concreta e é por isso que aquele mundo todo é destruído inteiramente com a guerra, mostrando que aquilo não é sustentável como proposição de vida. Mas é preciso voltar da montanha com os conteúdos que foram obtidos lá. Na verdade, o que se quer dizer aí é que a sabedoria com que lidamos com nossa vida cotidiana e concreta é que nos torna pessoas iniciadas. Nossa capacidade de progresso pessoal depende de nós percebermos que o que aprendemos na montanha se aplica à nossa vida concreta, real, aqui em baixo, da qual participamos o tempo todo.
Há, também, uma conotação política aí. A Alemanha antes da Guerra Mundial é, também, como o Hans Castorp (embora essa conotação seja secundária e nós possamos nos relacionar com Castorp como indivíduo singular).
A montanha nos permite a descoberta do que fazer, mas a nossa missão não é na montanha. A nossa missão é tornar nossa vida real e concreta da planície mais inteligente do que a das outras pessoas. É esse o problema de quem passa a vida estudando. O sentido da vocação intelectual só se realiza se você puder transformar isso em alguma coisa real. E não transformar isso numa espécie de ilusão ou ideário abstrato – o que é feito, via de regra. A vida concreta do ser humano é, em última análise, o que interessa. É por isso que a montanha toda desaba no final, apesar de ter feito uma contribuição fundamental para Hans Castorp.
A história de Hans Castorp é uma história do heroísmo humano, no fundo. Ele produziu na sua vida uma viabilidade. Ele transformou a sia vida em uma coisa verdadeiramente humana – até mesmo na hora em que ele se sacrifica na Primeira Guerra Mundial. Essa é a idéia central do livro: não é para ficar nas nuvens; é para vir para terra e trabalhar com aquilo que você aprendeu nas nuvens. Nós não temos que viver na montanha com os valores da planície, mas, ao contrário, temos que viver na planície com os valores da montanha. Nós temos que viver na vida real, concreta, a partir de valores que são superiores a nós. Não podemos nunca deixar de descer, porque fazê-lo é negar a nossa vida. Qualquer situação de vida real – qualquer uma: você pode ser cobrador de ônibus, contabilista, guarda-livros, etc.; você pode ter as profissões mais triviais – todas elas podem ser vividas com valores da montanha. Então, nós estamos obrigados a subir a montanha, se queremos entender alguma coisa, mas, ao mesmo tempo, não podemos viver lá em cima.
Hans Castorp precisou subir a montanha para entender alguma coisa sobre a vida. Até então, ele não entendia nada. Antigamente, ele dizia assim: “a única coisa que eu gosto é de não fazer nada”. Ele vivia uma vida de planície sem ter a menor idéia do que estava fazendo. Os acontecimentos gerados por sua subida à montanha – a doença, o convívio com a morte, as pessoas que o provocam, etc. – tudo isso produziu nele um despertar de consciência. Ele nunca teria tido isso na planície. Mas, ao mesmo tempo, ele não pode continuar vivendo esse despertar como sendo o seu processo existencial. Ele precisa incorporar isso à vida da planície, porque este é único jeito de a planície funcionar (incorporando os conteúdos da montanha). A planície sozinha não consegue fazer nada. Esse é o problema central da vida. Nós precisamos produzir na nossa vida uma contaminação permanente pelos valores da montanha, independentemente de quais sejam eles. Vejam: não se trata de decidir se era o Settembrini ou o Nafta que estava certo. Os dois estão completamente errados. Essa que é a verdade. Mas não se trata de debater isso. Não é esse o sentido da história. No fundo, tudo isso terá alguma utilidade quando nós compararmos a vida de Hans Castorp com a nossa própria vida. Não é para ficar debatendo que tem razão: Nafta ou Settembrini. É para perceber o quanto sua vida fica na montanha e o quanto ela fica na planície. Essa é a questão da montanha mágica.
Vejam: podemos, também, fazer uma relação entre a subida e a descida da montanha e o episódio bíblico em que Moiséis desce do Monte Sinai com as Tábuas da Lei. O que são as Tábuas da Lei? São as regras pelas quais nós devemos construir a vida. É muito importante entender que os dez mandamentos não são dez orientações autoritárias de Deus. Os dez mandamentos representam, na verdade, dez condições, digamos, “metafísicas” para que o mundo possa existir. Eles não são uma imposição autoritária de Deus. É como se Ele dissesse: “olha, vocês aí embaixo querem construir um mundo que funcione? Então, pegue essas dez regras aqui”. Por exemplo, quando se diz assim: “honrar pai e mãe”; não é só para vocês não xingar seu pai e sua mãe (claro que também é isso), mas é sobretudo para você compreender que nós temos, nesse mundo, entre outras coisas, a missão ou obrigação de tornarmos mais nobres os nossos antepassados (e não o contrário). O que é um burguês (como o Hans Castorp parecia ser)? É aquele sujeito que herdou um dinheiro do pai ou do tio e, então, tira do banco, todo mês, 800 marcos para poder viver. O que o Hans Castorp está fazendo? Apenas fruindo da nobreza de seus antepassados. Quer dizer: ele teve antepassados que construiram alguma coisa e ele apenas usufrui. Pois o que o mandamento diz para você fazer é exatamente o contrário: não é para o herdeiro beneficiar-se da nobreza de seus antepassados, mas é para o herdeiro produzir mais nobreza nos seus antepassados. Imaginem que os seus antepassados tenham sido, por uma razão ou outra, insificientemente bons em algum ponto. A sua missão é consertar isso. É produzir uma existência para torná-los mais nobres. Essa é uma regra fundamental da vida sem a qual o mundo não pode existir. Isso está nas Tábuas da Lei. Então, os dez mandamentos não são exigências ranzinzas de Deus, mas são dez dicas de engenharia ou de arquitetura para o mundo poder funcionar. Compreenderam? Para você fazer uma casa, você tem que ter isso, isso, isso e isso. Os dez mandamentos são mais ou menos a mesma coisa.
A vida humana só é possível se você puder trazer da montanha os conteúdos com os quais você vai organizar a vida na planície, mas o problema é que você precisa aceitar que a vida humana é na planície. A vida humana na montanha é meramente fantasmagórica. Ele serve para alguns indivíduos, mas apenas acidental e excepcionalmente. Mas aqui alguém é monje? Não, nós vivemos na planície. O sentido disso tudo é que não dá para ser de outro jeito a não ser assim. A descoberta que nós precisamos fazer no nosso “bildungsroman” pessoal é a descoberta de que nós precisamos olhar para cima para poder organizar a vida aqui em baixo.
Cultura é isso: pegar um pedaço do céu e incorporar na sua vida. Só assim a vida humana na planície funciona. É isso que o Hans Castorp entende. A vida humana fora disso torna-se absurda. Quando ele pensa naquela vida que ele tinha antes, ele diz: “não, isso é anormal, é absurdo”. Mas ele não pode continuar na montanha a vida toda. Tanto é que no final da história vai havendo uma degradação progressiva de toda a vida lá em cima: começa a haver brigas, há o duelo entre o Settembrini e o Nafta, etc. Essa degradação é, mais ou menos, uma chamada para você descer. Se você não desce por bem, algo te derruba lá de cima: no caso, a Primeira Guerra Mundial.
O sentido da verdaderia educação é esse. Quando começamos a nos interessar por essas coisas, quando buscamos em uma grande obra seu conteúdo celeste para aplicar isso em nossa vida prática, estamos fazendo uma espécie de esforço iniciático. Isso é iniciação.
Você pode ler livros por três razões, basicamente: entretenimento, informação e formação. A leitura de entretenimento é, por exemplo, romance policial. Isso é Pato Donalds de adultos. As pessoas muito aficionadas por literatura, que montam clubes literários, que lêem qualquer coisa, me dão sempre a impressão de serem leitores de entretenimento. Eles gostam, na verdade, de jogos de palavras. Eles não entendem o que lêem. Eu acho uma coisa muito perigosa isso de paixão por literatura. E mais perigosa ainda é a cinefilia: o sujeito que vai assistir 80 filmes por mês e não entende nenhum. Mas ele gosta das luzes, dos efeitos especiais, etc. Você compreeendem que isso tem a ver com entretenimento?
Aí, tem uma coisa chama “leitura de informação”, que é quando você lê o manual da enceradeira que você comprou para sua casa.
E tem um terceiro tipo de leitura: a de formação. Leitura de formação é o que estamos fazendo aqui. Trata-se de, pela leitura, incorporar em sua vida um pedaço da compreensão do mundo, de modo a tornar-se, daí para frente, mais ou menos imune às ilusões normais da planície. Hans Castorp é o sujeito que perde as ilusões da planície subindo a montanha. Mas ele não pode ficar lá. Porque a vida real não é lá. Então, é preciso de alguma maneira despencar de lá. E o livro vai fazendo esse “despencamento” lentamente, pela deterioração do clima da montanha - o que devolve as pessoas à vida real. Esse me parece que é o principal sentido interpretativo da obra.
Conclusão
Recomendo.
abs!
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