9 de fevereiro de 2019

[Livro] Odisseia (VIII a.C.)

 







1 - Introdução 




Estou me esforçando para ter leituras mais profundas e difíceis.

Li a Odisseia com a tradução de Carlos Alberto Nunes: mantenho as mesmas dificuldades de quando li a tradução de Ilíada do mesmo autor - minha falta de conhecimento da cultura grega e o trabalho redobrado para linguagem culta que o tradutor emprega. Contudo, achei a leitura desse livro um pouco menos exigente, talvez por ter me acostumado um pouco com a linguagem.

Mesmo com as dificuldades acima, é prazeroso terminar de ler mais uma obra clássica - é como tocar uma outra cultura e época por alguns momentos.

O vídeo abaixo pode ajudar a entender a estória muito melhor do que eu explicando:



2 - Lições 


Nada há pior, em verdade, que ao choro, sem pausa, entregar-se.

Moderação ninguém sabe mostrar, nem tem pena de nada, quando se trata de dar o que é de outrem, de que se disponha.

Nada há pior para os homens mortais do que errar sem destino.

Tudo deve ser feito com regra. Certo, ambos são censuráveis, aquele que força a partida de quem deseja ficar e o que impede a partida a visitas.


3 - Conclusão 


Gostei bastante dos sofrimentos do herói Odisseu e principalmente da cena do massacre dos pretendentes, uma sanguinolência total e épica.


"O traçado da Odisseia é de mais fácil apreensão, e, digamos, artisticamente de melhor planejamento, pela disposição concêntrica, em que o próprio herói do poema relata suas aventuras durante os dez anos de peregrinação, no empenho de retornar para a pátria, depois de conquistada, saqueada e destruída Troia, "e de terem sido massacrados ou vendidos como escravos seus moradores.

Enfim, recomendo a leitura.

Grande abraço!  


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Abaixo está a transcrição organizada do áudio, estruturada como uma aula, conforme solicitado.


1. Título provável da aula

A Odisseia de Homero: A Jornada da Sabedoria e a Restauração da Ordem Ocidental


2. Transcrição organizada

Introdução e Agenda Cultural

A agenda para o próximo ano ficou complexa devido a fatos novos e compromissos. A Realizações promoverá novas atividades educacionais, incluindo o curso das Expedições, que contará com 10 ou 11 encontros. Os livros foram escolhidos criteriosamente. Começaremos com a Teogonia e o Gênesis. Se vocês puderem ver apenas dois, sugiro que não percam estes, pois são a chave do enigma da literatura ocidental e grega. A Teogonia explica o nascimento dos deuses sob a ótica grega, enquanto o Gênesis explica o nascimento do mundo sob a ótica judaica. Ambos são livros cosmológicos com paralelos e semelhanças incríveis quando interpretados profundamente.

Na sequência, veremos peças que aplicam a visão grega e o classicismo francês: Fedra, de Racine, uma das últimas tentativas de escrever tragédia no mundo. Veremos também A Peste (Albert Camus) e Os Noivos (Alessandro Manzoni), que abordam a ideia da peste sob perspectivas diferentes. Seguiremos com os dois Faustos de Goethe, o Dom Juan de Molière (acompanhado por trechos da ópera Don Giovanni de Mozart/Lorenzo da Ponte) e terminaremos com Dom Quixote de La Mancha.

Metodologia e Traduções

As traduções citadas na bibliografia são versões legítimas. Destaco a tradução de Carlos Alberto Nunes, cujas contribuições à cultura brasileira são monumentais: as traduções de Homero (Ilíada e Odisseia), a obra completa de Platão e o Shakespeare inteiro. O programa não exige leitura prévia, mas a indica fortemente; por isso, fornecemos resumos para destacar matizes e detalhes que possam passar despercebidos.

O Contexto da Odisseia e a Questão Homérica

O livro de hoje, a Odisseia, é fundamental para um projeto de cultura pessoal. Comparado à Ilíada, que é o livro mais importante do ponto de vista literário, a Odisseia é mais fácil de ler, sendo a base de todos os livros de aventuras posteriores.

Historicamente, não se sabe quando foram escritos, tendo existido apenas na oralidade por muito tempo. No diálogo Fedro, Platão discute a oralidade versus escrita, mencionando que a escrita torna a mente preguiçosa. Existe um choque entre a oralidade pura de Sócrates (que não deixou obra escrita), a escrita pura de Aristóteles e Platão como um ser intermediário, possuindo as chamadas doutrinas não escritas. Para Sócrates, a filosofia só existe em ato, no momento em que se filosofa, como o futebol ou uma relação sexual.

A Ilíada e a Odisseia foram compiladas por volta do ano 700 ou 800 a.C., cerca de 400 a 500 anos após a Guerra de Troia (c. 1200 a.C.). Elas não são livros de história, mas cantos de poetas.

Antecedentes: Da Ilíada à Guerra de Troia

Naquele tempo, deuses e homens conviviam. A guerra teve origem no casamento de Peleu e Tétis, onde a Discórdia (Éris) lançou o Pomo da Discórdia. Páris (Alexandre) foi o juiz que escolheu Afrodite em troca do amor da mulher mais bela, Helena, casada com Menelau. Isso gerou uma coalizão militar liderada por Agamemnon.

Um episódio crucial foi o sacrifício de Ifigênia em Áulis, exigido por Ártemis para liberar os ventos para a esquadra grega. A Ilíada narra apenas 40 dias do penúltimo ano do cerco, focando na cólera de Aquiles. A guerra termina com a morte de Heitor e os funerais de Aquiles.

Pergunta de aluno: Até que ponto a mitologia é fundamentada na história?
Resposta: São abordagens diferentes. A história busca explicar fatos; a mitologia é uma chave de enigmas que nos interpreta. Histórias mitológicas são simbólicas e condensam situações da condição humana. Exemplo: Cassandra, que tinha o dom da previsão, mas não a credibilidade, simboliza a solidão de quem tem a razão.

A Estrutura da Odisseia

A Odisseia (ou saga de Odisseu/Ulisses) narra o retorno de um dos generais gregos, que demora 20 anos para voltar para casa (10 de guerra e 10 de navegação). Enquanto isso, sua esposa Penélope espera em Ítaca, assediada por pretendentes. Ulisses é o modelo do sujeito astucioso e espertalhão, autor do estratagema do Cavalo de Troia. Na Divina Comédia, Dante o coloca no inferno como um mau conselheiro.

A obra possui 24 cantos. Os primeiros quatro tratam da Telemaquia, a jornada de Telêmaco (filho de Ulisses) que, sob a tutela de Palas Atena, amadurece e busca notícias do pai.

Análise dos Cantos e a Jornada de Ulisses

  • Canto 1: Os deuses deliberam no Olimpo. Zeus observa que os homens culpam os deuses pelas suas próprias loucuras e pelo livre-arbítrio mal utilizado. Atena vai a Ítaca incentivar Telêmaco.
  • Canto 4: Telêmaco visita Menelau e Helena em Esparta. Helena apresenta-se como inocente, alegando ter sido enfeitiçada por Afrodite.
  • Canto 5: Hermes ordena que a ninfa Calipso liberte Ulisses da ilha de Ogígia. Ela oferece a imortalidade, mas ele prefere voltar para a pátria e para a esposa.
  • Cantos 6 a 8: Ulisses naufraga na terra dos Feácios. Ele encontra a princesa Nausícaa, que representa a pureza e a inocência. Diante do rei Alcino, Ulisses humilha-se sentando-se nas cinzas, um gesto de autorreconhecimento da sua pequeneza. Pressionado, ele começa o flashback de suas aventuras.
  • Cantos 9 a 12 (As Peripécias):
    • Cícones: Saque e contra-ataque.
    • Lotófagos: O perigo do esquecimento pelo prazer.
    • Polifemo (o Cíclope): Ulisses cega o filho de Posidão e, em um ato de soberba, revela seu nome, atraindo a ira do deus dos mares.
    • Éolo: O saco dos ventos e a curiosidade dos marinheiros que os desvia de Ítaca.
    • Circe: A feiticeira que transforma homens em porcos, representando a natureza animal de cada um.
    • Descida ao Hades: Ulisses consulta o vidente Tirésias, encontra sua mãe e percebe que é necessário passar pelo inferno para recuperar a noção de Deus e da sabedoria.
    • Sereias e Monstros: O canto das sereias (superado com cera e amarras) e a passagem por Cila e Caribde.
    • Gado de Hélio: Os marinheiros comem o gado sagrado e morrem, restando apenas Ulisses.

O Retorno e a Restauração da Ordem

Ulisses chega a Ítaca disfarçado de mendigo por Atena. É reconhecido pelo cão Argos (que morre em seguida) e pela ama Euricleia através de uma cicatriz. Ele revela-se a Telêmaco e planeja a vingança. No concurso do arco, ele derrota os pretendentes e os massacra, restaurando a ordem em Ítaca. O teste final da cama de oliveira confirma sua identidade para Penélope.

Interpretação Simbólica: O Sentido da Obra

A Odisseia é a história da recuperação da ordem através da figura do pai. Simbolicamente, o pai representa o espírito e a mãe representa a terra (matéria). Na ausência do pai, instala-se a desordem. A jornada de Ulisses é um processo iniciático de purgação da soberba.

Se a Ilíada é a fonte das tragédias (onde somos marionetes dos deuses), a Odisseia é a fonte das comédias (onde as coisas dão certo através da sabedoria). Ulisses deixa de ser um "sem-vergonha" para tornar-se sábio sob a instrução de Palas Atena. A obra ensina que a autonomia humana é possível através da subordinação da terra ao espírito.

O Ocidente é a somatória de Homero com Moisés; essa estrutura é a base de toda a nossa cultura.


3. Principais tópicos abordados

  • Cronograma de cursos e bibliografia fundamental (Teogonia, Gênesis, etc.).
  • A relevância das traduções de Carlos Alberto Nunes.
  • A "Questão Homérica" e a transição da oralidade para a escrita (Sócrates, Platão, Aristóteles).
  • Resumo contextual da Guerra de Troia e da Ilíada.
  • Diferença entre História e Mitologia como formas de conhecimento.
  • A estrutura narrativa da Odisseia (Telemaquia, Flashbacks e Retorno).
  • As peripécias de Ulisses como testes de caráter e purgação.
  • Interpretação simbólica do Pai (Espírito) e da Mãe (Terra/Matéria).
  • A Odisseia como gênese da comédia e da sabedoria ocidental.

4. Nomes, livros, artigos, colunas, autores e referências citadas

  • Autores/Filósofos: Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Sócrates, Racine, Albert Camus, Alessandro Manzoni, Goethe, Molière, Miguel de Cervantes, Dante Alighieri, Giovanni Reale, Mário Ferreira dos Santos, Joseph Conrad, Ibn Arabi, William Blake.
  • Obras Literárias: Ilíada, Odisseia, Teogonia, Gênesis (Bíblia), Fedra, A Peste, Os Noivos, Fausto I e II, Dom Juan, Dom Quixote de La Mancha, A Eneida (Virgílio), As Troianas (Eurípides), Oréstia/Oresteia (Ésquilo), Coração das Trevas.
  • Traduções/Estudos: Carlos Alberto Nunes (tradutor), Lorenzo da Ponte (libretista), Mortimer Adler (Introduction to the Great Ideas), René Guénon (O Reino da Quantidade e o Sinal dos Tempos).
  • Cineastas/Ópera: Michael Cacoyannis (filme As Troianas), Andrei Konchalovsky (filme A Odisseia), Mozart (ópera Don Giovanni).
  • Personagens Mitológicos: Ulisses/Odisseu, Telêmaco, Penélope, Aquiles, Agamemnon, Menelau, Helena, Heitor, Páris, Peleu, Tétis, Ártemis, Palas Atena/Minerva, Posidão/Netuno, Zeus/Júpiter, Hermes/Mercúrio, Calipso, Circe, Polifemo, Tirésias, Nausícaa, Alcino, Arete, Orestes, Electra, Ifigênia, Cassandra, Clitemnestra.

5. Trechos incertos ou inaudíveis

  • [01:03:00] Menção a nomes de cidades/ilhas na transição para os Cíconos: "Ismaro", "Trácia".
  • [01:05:00] Referência a "Prisca" [inaudível].
  • [01:10:00] Referência a "Bagada" [inaudível] ou nome coreano.
  • [01:45:00] Comentário jocoso sobre "Sabesp" e "telefônica" em meio ao Pai Nosso.
  • [02:12:00] Detalhe mitológico sobre o sangue de Cronos: "Erínias/Fúrias" [citado como fúrias].

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