Mencionado no COF # 1.
- A percepção da música, no fim das contas, requer o mesmo tipo de compreensão necessário para você apreender uma situação dramática complexa, seja a sua própria, a de um interlocutor ou a que você lê em Hamlet, Crime e Castigo, A Montanha Mágica e assim por diante.
- Não importa do que você esteja falando, o milagre da linguagem abstrata permite que você se refira aos objetos não só sem necessidade de que eles estejam presentes fisicamente, mas sem necessidade de que você pense neles como coisas reais. Você pode até substituir o mero conceito abstrato deles por um sinal algébrico e continuar raciocinando a respeito sem nem se lembrar dos seus correspondentes reais, seguro de que, no fim do raciocínio, se formalmente correto, você encontrará conclusões que se aplicarão tim-tim-por-tim-tim a esses correspondentes. Se não fosse isso, não poderiam existir computadores. No entanto, nada de parecido se dá com a consciência. Você não pode falar dela sem que ela esteja presente e em ação naquele mesmo instante. O verdadeiro discurso sobre a consciência tem, ao contrário, o dom de intensificar a consciência no instante mesmo em que você raciocina a respeito dela, como uma luz que, tão logo acesa, acende uma série de outras automaticamente e ilumina o recinto inteiro.
- Se, em contrapartida, você reduz a consciência a um fenômeno genérico, do qual possa falar como coisa externa, o objeto escapa instantaneamente do seu horizonte de consciência, e eis que você já não está falando sobre a consciência efetivamente existente, mas só sobre algum mecanismo ou aspecto dela em particular, perfeitamente inexistente em si mesmo.
- Sound and Symbol - Victor Zuckerkandl
- Tune Deafness: Processing Melodic Errors Outside of Conscious Awareness as Reflected by Components of the Auditory ERP
Recomendo a leitura.
abs!
________________________________________________________
- fonte: https://olavodecarvalho.org/a-consciencia-sem-consciencia/
- https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0002349
Resumo — A consciência sem consciência
Olavo de Carvalho — Diário do Comércio, 13 de março de 2009
1. A dificuldade de ser compreendido
Olavo inicia o texto descrevendo situações comuns em que uma pessoa tenta se explicar a alguém que não consegue ou não quer compreender.
- O interlocutor ouve palavras e frases, mas não apreende o sentido real.
- Ele perde o foco do que está sendo dito.
- As palavras são esvaziadas de significado ou recebem um sentido deslocado.
- Isso produz irritação e desespero em quem tenta se comunicar.
O autor também menciona pessoas que, mesmo envolvidas em problemas graves, não percebem a situação real em que se encontram.
- Algumas permanecem alienadas, como se nada estivesse acontecendo.
- Outras se assustam, mas por motivos falsos ou imaginários.
- Em ambos os casos, há consciência no sentido biológico, mas falta consciência no sentido humano e existencial.
2. Consciência científica x consciência real
Olavo distingue dois sentidos da palavra consciência.
- Para a neurofisiologia e a ciência cognitiva, consciência seria a capacidade de perceber estímulos.
- Para a vida real, consciência envolve compreensão, presença, responsabilidade e apreensão do sentido das situações.
Segundo ele, a ciência consegue estudar a percepção de estímulos, mas não consegue explicar plenamente a diferença entre:
- alguém que apenas sente frio;
- e alguém que, vendo a neve, percebe ao mesmo tempo sua beleza e o sofrimento dos pobres expostos ao inverno.
Essa diferença é apresentada como algo essencial para entender a consciência em sentido forte.
3. O exemplo da tune deafness
O autor usa o exemplo da tune deafness, ou “privação melódica”, para explicar a diferença entre perceber elementos isolados e compreender um todo significativo.
A pessoa com essa condição:
- ouve normalmente;
- percebe notas separadas;
- mas não capta a melodia;
- não percebe desafinações;
- nos casos mais graves, não distingue música de ruído comum.
Olavo usa esse exemplo para mostrar que ouvir sons não é o mesmo que compreender música, assim como ouvir palavras não é o mesmo que compreender uma situação real.
4. Música como significado
A partir de Victor Zuckerkandl, em Sound and Symbol, Olavo afirma que a música não possui apenas ordem sonora.
- Um motor também pode ter ordem acústica.
- O que distingue a música é que ela possui significado.
- A música aponta para algo além dos sons isolados que a compõem.
Assim, a melodia não é apenas uma sequência de notas. Ela é uma forma significativa captada pela consciência.
5. O estudo sobre o cérebro e a melodia
Olavo menciona um estudo sobre a tune deafness que descobriu algo surpreendente:
- pessoas afetadas pela deficiência não percebem conscientemente uma nota errada;
- mas seus cérebros registram a diferença;
- ou seja, o cérebro percebe a melodia, mas a pessoa não.
Para o autor, isso confirma a tese de Zuckerkandl: existe uma diferença decisiva entre o processamento cerebral de informações e a consciência efetiva do sentido.
6. Compreender música e compreender dramas humanos
Olavo compara a percepção musical à capacidade de compreender uma situação humana complexa.
Segundo ele, o mesmo tipo de compreensão exigido para captar uma melodia também é necessário para entender:
- uma dificuldade pessoal;
- o drama de outra pessoa;
- uma situação existencial;
- obras como Hamlet, Crime e Castigo e A Montanha Mágica.
A consciência, nesse sentido, não é apenas registro de dados, mas apreensão de significado dentro de uma situação concreta.
7. Crítica ao materialismo científico
Olavo critica a tentativa de reduzir a consciência a processos cerebrais.
Segundo ele:
- a ciência ainda não explica plenamente fenômenos simples, como a sensação de frio;
- mesmo assim, muitos materialistas agem como se já tivessem explicado toda a consciência;
- eles concluem que a consciência seria apenas uma função cerebral;
- para Olavo, isso é uma forma de charlatanismo.
O autor considera ilegítima a redução da consciência a um produto do cérebro, pois isso deixaria de fora o aspecto essencial da consciência: sua presença atual, responsável e significativa.
8. A consciência não pode ser tratada como objeto externo comum
Olavo afirma que a consciência tem uma característica única: não se pode falar dela sem que ela esteja presente e em ação no próprio ato de falar.
Diferentemente de outros objetos:
- podemos falar de coisas ausentes;
- podemos raciocinar sobre objetos abstratos;
- podemos substituí-los por símbolos;
- podemos operar logicamente sem pensar diretamente nos objetos reais.
Mas com a consciência isso não acontece.
Ao falar verdadeiramente da consciência, a própria consciência se intensifica. O discurso sobre ela exige um sujeito consciente, presente e responsável.
9. Consciência forte e consciência abstrata
O autor diferencia:
- consciência em sentido forte: autoconsciência atual, concreta, responsável, existente no indivíduo real;
- consciência genérica ou abstrata: conceito vazio, tratado como objeto externo, que não corresponde à consciência efetivamente vivida.
Para Olavo, quando se reduz a consciência a um fenômeno genérico, perde-se o próprio objeto que se pretendia explicar.
10. Função política do reducionismo
No final, Olavo afirma que o esforço de reduzir a consciência a um mecanismo cerebral não possui verdadeiro alcance científico.
Ele o chama de:
- engodo hipnótico;
- instrumento de controle totalitário da sociedade.
O autor promete explicar em outro artigo a função política desse artifício.
Principais ideias
- Consciência não é apenas percepção de estímulos.
- A ciência cognitiva e a neurofisiologia estudam uma forma limitada de consciência.
- Há diferença entre ouvir palavras e compreender o sentido real de uma situação.
- A tune deafness mostra que captar partes isoladas não equivale a compreender o todo significativo.
- A música possui significado, não apenas ordem sonora.
- O cérebro pode registrar informações que a pessoa não apreende conscientemente.
- Compreender música se aproxima de compreender dramas humanos complexos.
- A consciência, em sentido forte, é autoconsciência atual, presente e responsável.
- Reduzir a consciência a uma função cerebral elimina justamente aquilo que se quer explicar.
- A consciência abstrata, tratada como objeto externo, é vista pelo autor como um fetiche lógico.
- O reducionismo materialista é criticado como falso cientificismo e como possível instrumento político de controle.
Referências citadas no texto
- Olavo de Carvalho
- Diário do Comércio
- Victor Zuckerkandl
- Sound and Symbol — 1956
- Tune deafness
- Allen Braun et al.
- “Tune Deafness: Processing Melodic Errors Outside of Conscious Awareness as Reflected by Components of the Auditory ERP”
- PLOS ONE
- Mozart
- Henry Corbin
- Esoterismo iraniano do século XIII
- Hamlet
- Crime e Castigo
- A Montanha Mágica
- Neurofisiologia
- Ciência cognitiva
- Materialismo
- Consciência
- Autoconsciência

Nenhum comentário:
Postar um comentário