Resumo completo — Aristóteles em Nova Perspectiva, de Olavo de Carvalho
Visão geral da obra
O livro defende a Teoria dos Quatro Discursos, segundo a qual Poética, Retórica, Dialética e Lógica/Analítica não são ciências separadas, mas modalidades de uma única ciência do discurso humano. O próprio sumário organiza a obra em capítulos sobre os quatro discursos, sua história cultural, sua presença no Ocidente, sua tipologia universal, seus motivos de credibilidade, os marcos dos estudos aristotélicos e uma conclusão, seguidos do suplemento polêmico Aristóteles no Dentista.
Prólogo
Contexto da edição
O autor explica que o livro é “velho e novo”: ele retoma Uma Filosofia Aristotélica da Cultura, de 1994, mas acrescenta capítulos inéditos em livro, antes usados como apostilas de cursos, além do suplemento Aristóteles no Dentista, relativo à polêmica com a SBPC e a revista Ciência Hoje.
Polêmica e finalidade
O prólogo apresenta a polêmica como um caso em que os adversários teriam atacado a pessoa do autor sem discutir o conteúdo da tese. O problema central, segundo Olavo, não era pessoal, mas filosófico: saber se há ou não uma unidade dos quatro discursos na lógica de Aristóteles e se essa unidade pode servir à busca contemporânea por um saber interdisciplinar.
Importância histórica e cultural
O autor afirma que a investigação sobre os Quatro Discursos não interessa apenas à história da filosofia, mas também à possibilidade de uma cultura global e integrada e de uma educação global e integrada. O prólogo também justifica a inclusão dos documentos polêmicos, pois neles haveria esclarecimentos adicionais sobre o argumento central.
Nota Prévia à Primeira Edição de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura
Origem da tese
A nota informa que os textos iniciais circularam como apostilas desde 1992 e 1993, mas resumem uma ideia apresentada em cursos desde 1987: em Aristóteles, Poética, Retórica, Dialética e Lógica/Analítica, por serem fundadas em princípios comuns, formam uma ciência única.
Caráter resumido da exposição
O autor reconhece que a ideia exigiria demonstração extensa, mas afirma que o livreto a apresenta em forma compacta, com indicações gerais das linhas de prova. A publicação teria também a função de registrar prioridade sobre uma interpretação que ele já desenvolvia oralmente em cursos e conferências.
I. Os Quatro Discursos
Tese central
O capítulo apresenta a ideia principal da obra: o discurso humano é uma potência única que se atualiza de quatro maneiras: poética, retórica, dialética e analítica/lógica. Como esses nomes também designam quatro ciências, o autor conclui que elas devem ser entendidas como variantes de uma única ciência do discurso.
Crítica à separação moderna entre imaginação e razão
Olavo afirma que a estranheza da tese vem do hábito moderno de separar rigidamente linguagem poética e linguagem lógica/científica. Ele associa essa separação ao dualismo entre “Letras” e “Ciências”, às “duas culturas”, ao racionalismo moderno, a leituras de Bachelard e a teorias culturais que opõem hemisfério criativo e hemisfério racional.
Reclassificação do Organon
O autor atribui parte do problema à classificação feita por Andrônico de Rodes, que separou a Retórica e a Poética das obras lógicas, colocando-as fora do Organon. Para Olavo, essa organização editorial teve consequências profundas: a tradição ocidental passou a ler Aristóteles como se sua teoria do discurso fosse composta apenas de lógica e dialética, amputada da poética e da retórica.
Papel da Dialética
A leitura tradicional, segundo o autor, reduziu a dialética a uma ciência menor diante da lógica analítica. Ele recorre a Éric Weil para afirmar que Aristóteles raramente usa a lógica analítica em seus tratados e prefere argumentar dialeticamente; a dialética seria, então, uma lógica da descoberta, enquanto a lógica formal seria instrumento de verificação.
Poética e Retórica como partes do Organon
A hipótese defendida é que Poética e Retórica, enquanto ciências do discurso, fazem parte do Organon e não devem ser tratadas como meras disciplinas técnicas ou práticas. Essa reclassificação exige rever toda a compreensão tradicional da ciência aristotélica do discurso.
Escala de credibilidade
Os quatro discursos são organizados segundo uma escala: o poético trata do possível; o retórico, do verossímil; o dialético, do provável; o analítico, do certo ou verdadeiro. Assim, a diferença entre eles é menos de natureza do que de grau de credibilidade.
Disposição psicológica do ouvinte
Cada discurso exige uma atitude própria do ouvinte. O poético requer suspensão parcial da exigência de verossimilhança; o retórico pede decisão; o dialético exige participação racional e autocrítica; o analítico exige aceitação da demonstração. Há, portanto, um estreitamento progressivo do admissível, do mundo amplo das possibilidades até a certeza científica.
Relação com a teoria do conhecimento
O capítulo termina ligando a teoria dos discursos à gnoseologia aristotélica. O conhecimento parte dos sentidos, passa pela memória, pela imaginação/fantasia, pela formação de imagens e conceitos, até chegar ao raciocínio abstrato. Do mesmo modo, a cultura chegaria à ciência passando por imaginação poética, vontade retórica, triagem dialética e demonstração analítica.
II. Um Modelo Aristotélico da História Cultural
Sucessão dos discursos dominantes
O capítulo aplica a Teoria dos Quatro Discursos à história da cultura. O autor propõe o princípio da sucessão dos discursos dominantes: em cada período histórico, um tipo de discurso tende a adquirir autoridade social predominante, seguindo a ordem da credibilidade crescente: poético → retórico → dialético → analítico.
Discurso poético
O discurso poético aparece ligado aos primeiros oráculos, às castas sacerdotais e às formas religiosas fundadoras. O autor menciona os Vedas, os poemas de Homero, o Tao-te-king e o Antigo Testamento como exemplos de discursos em que palavra, natureza, sujeito e objeto ainda aparecem envolvidos por uma potência comum.
Discurso retórico
O discurso retórico torna-se dominante com a polis, com a reforma de Sólon e com a atividade dos sofistas. Sua autoridade se mantém na Grécia e em Roma enquanto há vida política ativa. Com o fim da República Romana, a retórica perde função pública e se transforma em exercício escolar.
Discurso dialético
O discurso dialético, inaugurado por Sócrates e exemplificado nos diálogos de Platão, torna-se dominante no contexto cristão, especialmente após a Era Patrística, quando passa a servir à unificação da doutrina e à defesa contra heresias. Seu auge ocorre na Escolástica do século XIII.
Discurso analítico
O discurso lógico-analítico ganha primado com o racionalismo clássico, em autores como Spinoza, Descartes, Malebranche e Leibniz, e alcança grande autoridade na ciência moderna, nas matemáticas, na física teórica, na lógica matemática e nos modelos informáticos.
Transformação dos discursos anteriores
Quando um discurso perde predominância, ele não desaparece; muda de função. A poesia deixa de ser linguagem religiosa coletiva e torna-se expressão individual; a retórica se converte em disciplina escolar, arte epistolar e base da literatura moderna; a dialética se refugia nas humanidades e na filosofia da história, com Hegel e Marx; a poética moderna, em Mallarmé e Joyce, busca autonomia formal e simula um mistério oracular vazio.
Aplicação a outras civilizações
O autor afirma que o modelo pode ser aplicado também a outras culturas, como o mundo islâmico: revelação corânica e sentenças do Profeta no nível poético; formação de partidos e retóricas; desenvolvimento dialético com Al-Kindi, Al-Ghazzali e Avicena; sistematização dedutiva em comentaristas ortodoxos. O modelo é apresentado como descritivo, não como explicação causal rígida.
III. A Presença da Teoria Aristotélica do Discurso na História Ocidental
Aristóteles e a formação da cultura europeia
O capítulo mostra que Aristóteles influenciou profundamente a cultura europeia, junto com Platão, o Direito romano e a teologia judaico-cristã. Suas obras moldaram a educação filosófica, científica, poética, retórica e literária por mais de dois mil anos.
Gnoseologia aristotélica
O autor apresenta Aristóteles como uma posição intermediária entre racionalismo e empirismo. Contra Spinoza, que representa o racionalismo, e Locke, que representa o empirismo, Aristóteles atribui funções complementares à razão e à experiência. O conhecimento se desenvolve organicamente, e não por oposição estática entre sentidos e razão.
Imaginação como mediação
O conhecimento começa nos sentidos, mas passa pela memória e pela imaginação/fantasia, que organizam imagens em esquemas. A imaginação é a ponte entre o sensível e o lógico: sem ela, o pensamento não poderia raciocinar sobre a experiência vivida.
Unidade orgânica do conhecimento
O pensamento lógico trabalha com conceitos, gêneros e relações universais, mas só pode fazê-lo porque a imaginação já selecionou, resumiu e organizou os dados sensíveis. Assim, o conhecimento não vem isoladamente da razão nem isoladamente da experiência, mas da estruturação racional da experiência depositada na memória e depurada pela imaginação.
Organon incompleto
Se o processo cognitivo passa dos sentidos à imaginação e desta ao pensamento, o Organon deveria conter uma ciência da imaginação, uma “lógica da imaginação”. Porém, na forma tradicional consagrada por Andrônico, o Organon começa no plano racional e deixa de fora a base imaginativa. A Retórica e a Poética foram lidas como obras marginais, separadas da metodologia filosófica.
Ocidente e Oriente
No Ocidente, a Poética foi esquecida por séculos e redescoberta no Renascimento, sobretudo por literatos. A filosofia islâmica, por outro lado, preservou em Avicena a noção de uma metodologia aristotélica integral, na qual Poética, Retórica, Dialética e Lógica pertencem ao Organon.
IV. A Tipologia Universal dos Discursos
Objetivo do capítulo
O autor busca demonstrar, por via dedutiva, que os quatro discursos não são uma classificação arbitrária. Ele pretende mostrar a necessidade lógica de uma tipologia universal dos discursos, chegando ao mesmo resultado que a interpretação dos textos de Aristóteles sugere.
Conceitos de base
Todo discurso é definido como movimento entre uma premissa e uma conclusão. Ele possui unidade formal porque suas partes são articuladas em função de um propósito. O propósito de todo discurso é produzir alguma modificação no ouvinte, e a aceitação dessa modificação chama-se credibilidade.
Acreditado e acreditável
O discurso é definido como trânsito do acreditado ao acreditável. A credibilidade inicial consiste em aceitar provisoriamente as premissas; a credibilidade final consiste em aceitar a conclusão e suas consequências.
Possibilidade de uma tipologia universal
Como todo discurso parte de algo já acreditado e tenta levar a algo que deve ser acreditado, há necessariamente uma escala de credibilidade. Essa escala vai do maximamente crível ao minimamente crível. Por isso, uma tipologia dos discursos é não apenas possível, mas necessária.
Escala das premissas
O grau máximo da escala é o absolutamente verdadeiro ou tomado como certo. O grau mínimo não é o falso, pois o falso está fora da escala de credibilidade; o mínimo é o meramente possível. Assim, a escala vai do certo/verdadeiro ao possível.
Os quatro discursos
A escala linear precisa ser cruzada por uma segunda polaridade, ligada à decisão humana sobre quanta certeza se deseja ou se pode obter. Daí surgem quatro graus: certo, provável, verossímil e possível. O analítico parte do certo; o dialético, do provável; o retórico, das convicções do público e do verossímil; o poético, dos hábitos imaginativos e do possível ficcional.
V. Os Motivos de Credibilidade
Introdução
O capítulo aprofunda os motivos psicológicos que tornam cada discurso crível. A diferença entre os quatro discursos não está apenas em seus graus de verdade, mas também no modo pelo qual conquistam a adesão do ouvinte.
Discurso Poético
O discurso poético obtém credibilidade por sua “magia”: ele faz o ouvinte participar de um mundo de percepções, sentimentos e evocações. Sua condição básica é a suspensão da descrença, isto é, a aceitação provisória da vivência contemplativa proposta pelo poeta.
A experiência poética exige comunidade de língua e de linguagem. Quando uma obra antiga ou distante já não fala diretamente ao leitor, a filologia, a interpretação e a cultura literária podem restaurar parcialmente o acesso à vivência original. O autor critica o subjetivismo do gosto literário e afirma que a educação deve abrir o leitor a novas possibilidades de compreensão.
O discurso poético também depende de um tipo especial de estranhamento. O estranhamento intelectual distancia criticamente; o estranhamento mágico fascina e permite participação. A credibilidade poética não é arbitrariedade subjetiva, mas efeito identificável de certas condições culturais, linguísticas e psicológicas.
Discurso Retórico
O discurso retórico visa persuadir alguém a agir: aprovar uma lei, rejeitar uma proposta, votar, condenar, absolver, eleger, mover guerra ou estabelecer paz. Diferentemente do poético, que atua em profundidade e sem finalidade prática imediata, o retórico busca decisão concreta.
Sua linguagem deve ser literal, clara e unívoca, pois um comando ou pedido ambíguo não produz ação determinada. Sua credibilidade consiste em fazer o ouvinte querer algo, criando uma identificação entre a vontade do orador e a vontade do auditório. A verdadeira retórica não se baseia em engano permanente, mas em captar e orientar a vontade real do público.
Discurso Dialético
O discurso dialético pretende convencer racionalmente, mesmo contra a vontade do ouvinte. Para funcionar, exige que o ouvinte aceite a arbitragem da razão e compartilhe algumas premissas com o interlocutor. Sua credibilidade depende de dois fatores: compromisso com a lógica do argumento e existência de um terreno comum de premissas.
Discurso Analítico
O discurso analítico parte de premissas consideradas evidentes ou inquestionáveis e busca conclusões necessárias. Sua credibilidade depende da capacidade do ouvinte de acompanhar raciocínios rigorosos e de reconhecer a veracidade das premissas. Ele funciona melhor com verdades muito gerais diante de público amplo ou verdades técnicas diante de público especializado.
VI. Marcos na História dos Estudos Aristotélicos no Ocidente
Etapas principais
O capítulo apresenta grandes momentos da recepção de Aristóteles: a edição dos textos por Andrônico de Rodes no século I a.C.; as traduções de Boécio no século VI; os comentários de Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino no século XIII; a redescoberta da Poética no século XVI; e a edição de Bekker no século XIX.
Século XX e disputa interpretativa
O autor destaca a escola genética de Werner Jaeger, que propôs um Aristóteles em desenvolvimento, e a radicalização de Pierre Aubenque, que apresenta um Aristóteles mais trágico e quase cético. Em resposta, Ingemar Düring, Augustin Mansion e Eugenio Berti reforçam a unidade do pensamento aristotélico, especialmente a inseparabilidade entre Física e Metafísica.
Weil, Dumont e a Dialética
Éric Weil inaugura uma linha decisiva ao afirmar que a dialética, e não a lógica formal, é o método científico por excelência em Aristóteles. Jean-Paul Dumont aprofunda essa tese, mostrando a força criadora dos Tópicos. Olavo situa seu próprio trabalho nessa evolução, radicalizando a visão de um Aristóteles sistêmico e orgânico.
A tese de Olavo nesse processo
Olavo afirma que a Retórica e a Dialética se desenvolveram em íntima associação, e que a Poética é a ponte entre o mundo sensível e o discurso, correspondendo ao “primeiro andar” do método. Sem ela, o aristotelismo ficaria amputado de sua raiz sensível.
Unidade sistêmica do saber
A tese busca resgatar o caráter sistêmico, orgânico e até “ecocósmico” do aristotelismo. O discurso não seria um mundo separado, mas parte do esforço do ser vivo para elevar-se à concepção do universal. O autor aproxima essa preocupação da busca contemporânea, em Edgar Morin, por reorganizar a estrutura do saber.
VII. Notas para Uma Possível Conclusão
A chave da unidade aristotélica
A ideia dos Quatro Discursos não aparece explicitamente formulada por Aristóteles, mas, segundo Olavo, atravessa sua obra e seu modo de argumentar. A unidade do aristotelismo não deve ser procurada apenas nas teses explícitas ou em fases biográficas, mas no movimento interno de seu método.
Sistema e aporia
O objetivo de Aristóteles seria a constituição do saber como sistema demonstrativo, mas esse ideal nunca se realiza inteiramente, pois o conhecimento humano precisa manter suas raízes no sensível. O sábio aristotélico não abandona as coisas singulares; ele retorna a elas guiado pela fronesis, sabedoria prática.
Unidade dinâmica
A oposição entre um Aristóteles sistemático e um Aristóteles aporético é resolvida por uma circularidade: ele sobe ao ideal do sistema pela via dialética e retorna à variedade da experiência. A unidade aristotélica é uma unidade do diverso, orientada por uma enteléquia, e não uma coerência mecânica entre partes.
Unidade no diverso
O autor liga essa ideia à formação de Aristóteles em ambiente médico e biológico: a noção de organicidade teria impregnado sua forma de pensar. O sistema das categorias, portanto, não seria apenas lógico-linguístico, mas expressão de um olhar orgânico sobre pensamento e linguagem.
Relação com Platão
Olavo identifica na Linha dividida de Platão uma possível origem remota da teoria dos quatro discursos. As faculdades platônicas — eikasia, pistis, dianoia e noesis — corresponderiam, respectivamente, aos discursos poético, retórico, dialético e analítico. Aristóteles teria conservado o esquema, mas o transformado em sentido mais orgânico e realista.
Ideal do conhecimento
O saber supremo seria a união entre evidência intuitiva e prova racional, mas esse ideal é impossível de realizar plenamente e impossível de abandonar. Ele orienta o conhecimento sem se esgotar em sistema fechado. Por isso Aristóteles seria simultaneamente sistemático e aporético, voltado ao universal, mas sempre a partir dos entes sensíveis.
Aristóteles no Dentista — Polêmica entre o Autor e a SBPC
I. De re aristotelica opiniones abominandæ
Antecedentes
O suplemento narra a polêmica envolvendo a avaliação de Uma Filosofia Aristotélica da Cultura pela revista Ciência Hoje, da SBPC. O texto teria sido recusado com justificativa estranha, associando-o a educação em Odontologia; depois, a revista enviou um parecer e uma avaliação crítica que Olavo examina ponto por ponto.
Da bibliografia
O parecerista acusa o autor de desatualização bibliográfica. Olavo responde que o crítico não indica nenhum título pertinente que refutasse sua tese e que o tema da unidade dos quatro discursos é raro na bibliografia. O autor também acusa o parecerista de contradizer-se: diz que a tese dualista está superada, mas logo a defende.
Originalmente velho
O parecerista teria chamado a tese de original, mas ao mesmo tempo sugerido que ela contestava posições já superadas. Olavo aponta a incoerência: se a tese apenas repetisse uma discussão antiga, não poderia ser original no sentido forte atribuído pelo crítico.
Muito assunto para um livro só
O crítico afirma que Aristóteles tratou do discurso também no livro IV da Metafísica. Olavo contesta, dizendo que esse livro trata da filosofia primeira, não de uma análise dos discursos dos sofistas, poetas, juristas e cientistas.
As ciências introdutórias
O parecerista rejeita a inclusão da Retórica e da Poética entre as ciências introdutórias. Olavo responde que o Organon não introduz apenas à Metafísica, mas ao sistema das ciências aristotélicas em geral, incluindo ciências teoréticas, práticas e técnicas.
Apofântico
Olavo acusa o parecerista de confundir apofântico com apodíctico. Para ele, todos os quatro discursos são apofânticos porque afirmam e negam algo; o discurso científico se distingue não por ser o único apofântico, mas por ser o único apodíctico, isto é, demonstrativo.
A função da Dialética
O parecerista diz que Olavo ignora a função da Dialética na fundação da Analítica. Olavo responde que sua própria tese pressupõe essa função: cada discurso prepara o seguinte. Ele reforça a posição de Éric Weil, segundo a qual a Dialética é método central em Aristóteles, e não mero complemento secundário.
Valha-me S. Gregório!
Olavo critica erros históricos do parecerista, especialmente a confusão entre São Gregório Magno e Santo Alberto Magno, e rejeita a ideia de que Aristóteles só teria sido conhecido no Ocidente a partir do século XII. Ele enumera autores patrísticos e cristãos anteriores que citaram ou discutiram Aristóteles.
Não acerto uma / Novamente a Dialética
O autor acusa o parecerista de atribuir a ele uma opinião que ele rejeita: a de que a Dialética teria sido absorvida pela Analítica. Em seguida, esclarece que a Dialética tem três funções: lógica do provável, treinamento pedagógico e método para encontrar os princípios de novas ciências.
Do saber desinteressado
Olavo rejeita a oposição entre “influenciar a mente” e “manifestar a verdade”. A ciência teorética é desinteressada porque não visa fins práticos, mas a demonstração da verdade ainda exerce influência sobre quem compreende a cadeia demonstrativa.
Poética e mímese
O parecerista afirma que a Poética trata da tragédia e não do possível. Olavo responde que a tragédia é apenas uma modalidade da poesia e que, para Aristóteles, a obra do poeta trata do que poderia acontecer, isto é, do possível. A mímese poética não imita o fato histórico particular, mas o possível universal.
Verossímil
Olavo distingue o verossímil poético do verossímil retórico. Na poesia, trata-se de aceitar a possibilidade dos eventos; na retórica, trata-se de persuadir o ouvinte de que algo é real ou conveniente. Confundir esses níveis é, para o autor, erro básico de interpretação.
Tragédia e metafísica
O parecerista rejeita a ideia de uma abertura ilimitada do possível. Olavo responde que, em Aristóteles, as potências de um ente finito delimitam seu desenvolvimento normal, mas não esgotam os acidentes possíveis. A tragédia nasce justamente do encadeamento de acidentes que revelam uma necessidade paradoxal.
Evolução histórica
O parecerista afirma que não há como falar em história em Aristóteles porque os gregos teriam uma concepção circular do tempo. Olavo rejeita essa generalização, dizendo que Aristóteles introduz o princípio genético e histórico nas questões filosóficas e científicas.
Os Quatro Discursos no tempo
Olavo responde à crítica de que os quatro discursos coexistem em todas as culturas. Ele admite que a potência para os quatro discursos existe simultaneamente no ser humano, mas afirma que isso não significa que todos se manifestem historicamente com a mesma autoridade. O modelo trata da sucessão das formas dominantes, não dos conteúdos.
Conclusão da polêmica
O autor conclui que a ideia da sucessão dos discursos é uma hipótese descritiva, não causal, e não deve ser confundida com teorias teleológicas como as de Comte ou Marx. Para ele, a cronologia cultural torna plausível a sequência: mitopoético, retórico, dialético, analítico.
II. Desafio aos usurpadores corporativistas
O texto acusa figuras da intelectualidade brasileira de opinarem sem ter lido o trabalho. Olavo critica Carlos Henrique Escobar, Gilberto Velho, Ênio Candotti e Antônio Callado, acusando-os de corporativismo, argumento de autoridade e incapacidade de discutir Aristóteles com base nos textos. O autor desafia publicamente os críticos a debaterem as objeções documentais ao parecer.
III. Cartas a Ênio Candotti
Primeira carta
A primeira carta apenas encaminha a Ênio Candotti o documento enviado à revista da SBPC, por sugestão de Ivan da Costa Marques, pedindo que ele tome conhecimento do episódio.
Segunda carta
A segunda carta critica Candotti por tentar deslocar o debate da imprensa diária para uma revista especializada. Olavo argumenta que a SBPC, por receber dinheiro público, deve prestar contas ao público e não esconder falhas sob o pretexto de proteger o leitor leigo. O autor acusa a entidade de corporativismo e de proteger a pseudo-intelectualidade.
Leituras Sugeridas
A seção final lista traduções de Aristóteles consideradas úteis para o tema, comentários e estudos aristotélicos, além de obras de apoio sobre retórica, literatura, argumentação, história medieval e teoria do discurso. Entre as traduções recomendadas estão Categorias, Metafísica, Organon, Poética, Retórica e The Complete Works of Aristotle.
Nos comentários e estudos, aparecem autores como Pierre Aubenque, Jonathan Barnes, Franz Brentano, Jean-Paul Dumont, Ingemar Düring, Octave Hamelin, Werner Jaeger, Sir David Ross, Segismundo Spina, Santo Tomás de Aquino e Éric Weil.
Entre as obras complementares para o estudo dos Quatro Discursos, aparecem Curtius, Feyerabend, Hugo Friedrich, Northrop Frye, Heinrich Lausberg, Jacques Le Goff, Erwin Panofsky, Chaim Perelman, Mary Louise Pratt e Bruno Snell.
Principais ideias recorrentes da obra
Unidade dos discursos
A ideia mais repetida é que Poética, Retórica, Dialética e Analítica são formas articuladas de uma única potência discursiva. Elas não devem ser isoladas em campos autônomos, pois cada uma prepara ou complementa as demais.
Escala de credibilidade
A obra organiza os discursos segundo uma escala: possível, verossímil, provável e certo. Essa gradação sustenta a passagem da imaginação à ciência, da experiência sensível à demonstração.
Crítica ao dualismo moderno
O livro combate a separação moderna entre imaginação e razão, letras e ciências, poesia e lógica. Para o autor, essa separação distorce Aristóteles e empobrece a compreensão da cultura.
Imaginação como fundamento da razão
A imaginação/fantasia é apresentada como mediação indispensável entre sentidos e pensamento lógico. Sem imagens, esquemas e memória, não há passagem orgânica para o conceito.
Aristóteles como pensador orgânico
O autor insiste que Aristóteles pensa em termos de unidade no diverso, potência e ato, enteléquia, desenvolvimento orgânico e continuidade entre níveis do real.
Cultura como desenvolvimento dos discursos
A história cultural é lida como sucessão de formas dominantes de credibilidade: primeiro o mitopoético, depois o retórico, depois o dialético, por fim o analítico-científico.
Crítica à vida intelectual brasileira
No suplemento polêmico, a obra passa da tese filosófica à crítica institucional. A SBPC, a revista Ciência Hoje e certas figuras públicas são acusadas de corporativismo, pseudo-erudição e incapacidade de debate filosófico sério.
Referências citadas
Autores, filósofos e pensadores
Aristóteles; Olavo de Carvalho; Platão; Sócrates; Martin Heidegger; Avicena; Santo Tomás de Aquino; Santo Alberto Magno; Boécio; Andrônico de Rodes; Octave Hamelin; Éric Weil; Sir David Ross; Werner Jaeger; Pierre Aubenque; Jean-Paul Dumont; Ingemar Düring; Augustin Mansion; Eugenio Berti; Franz Brentano; Félix Ravaisson; Immanuel Bekker; Francesco Robortelli; Edgar Morin; Spinoza; Descartes; Malebranche; Leibniz; John Locke; Gaston Bachelard; C. P. Snow; Ezra Pound; Ernest Fenollosa; Fritjof Capra; Marilyn Ferguson; Shirley MacLaine; Paul Feyerabend; Chaim Perelman; Thomas Kuhn; Erwin Panofsky; Northrop Frye; Ernst-Robert Curtius; Jacques Le Goff; René Wellek; Eduard Zeller; Josiah Royce; Ortega y Gasset; Claude Lévi-Strauss; Hugo Friedrich; Samuel Taylor Coleridge; Carlos Bousoño; Abraham Lincoln; Karl Marx; Hegel; Maurice Pradines; Jean Piaget; Noam Chomsky; Benedetto Croce; Ricardo de São Vítor; Hugo de São Vítor; Dante Alighieri; São Boaventura; Umberto Eco; Segismundo Spina; Giambattista Vico; Nietzsche; Ulrich von Wilamowitz-Möllendorf; Jonathan Barnes; Rudolf Carnap; Edmund Husserl.
Autores e personagens históricos mencionados no suplemento
Ênio Candotti; Yonne Leite; Ivan da Costa Marques; Carlos Henrique Escobar; Gilberto Velho; Antônio Callado; Fernando de Mello Gomide; Dante Augusto Galeffi; Miguel Reale; Milton Vargas; Romano Galeffi; Gaston Duval; Evandro Carlos de Andrade; Elizabeth Orsini; Bruno Tolentino; Daniel Brilhante de Brito; Rosângela Nunes; Cláudio Ribeiro; Herberto Sales; Josué Montello; Jacob Klintowitz; Karl Kraus; Lima Barreto é evocado indiretamente pela figura do “homem que sabia javanês”.
Obras de Aristóteles citadas ou discutidas
Poética; Retórica; Tópicos; Analíticas Primeiras; Analíticas Segundas; Categorias; Da Interpretação; Metafísica; Física; Ética; Política; Sobre a Alma / De Anima; De Caelo; De Generatione Animalium.
Outras obras citadas ou mencionadas
Uma Filosofia Aristotélica da Cultura; Aristóteles em Nova Perspectiva; O Imbecil Coletivo; O Jardim das Aflições; A Nova Era e a Revolução Cultural; Bandidos & Letrados; A República, de Platão; Nadjat / A Salvação, de Avicena; Comentários às Segundas Analíticas, de Santo Tomás; Le Système d’Aristote, de Hamelin; Aristoteles: Bases para la Historia de su Desarrollo Intelectual, de Jaeger; Le Problème de l’Être chez Aristote, de Aubenque; Introduction à la Méthode d’Aristote, de Dumont; La Place de la Logique dans la Pensée Aristotélicienne, de Weil; The Structure of Scientific Revolutions, de Kuhn; Contra o Método, de Feyerabend; Traité de l’Argumentation, de Perelman; Architecture Gothique et Pensée Scolastique, de Panofsky; Literatura Europeia e Idade Média Latina, de Curtius; Le Grand Code, de Frye; Estrutura da Lírica Moderna, de Hugo Friedrich; A Crise das Ciências Europeias, de Husserl.
Obras literárias, religiosas e culturais mencionadas
Vedas; poemas de Homero; Tao-te-king; Antigo Testamento; Alcorão; À Sombra do Corão, de Said Qutb; Édipo Rei, de Sófocles; Ars Poetica, de Horácio; A Divina Comédia, de Dante; O Nome da Rosa, de Umberto Eco; O Silêncio dos Inocentes; O Crime da Madre Agnes; Os Gêneros Literários; Quarup, de Antônio Callado; Zelig, de Woody Allen.
Conceitos fundamentais
Teoria dos Quatro Discursos; discurso poético; discurso retórico; discurso dialético; discurso analítico; Organon; possível; verossímil; provável; certo; credibilidade inicial; credibilidade final; premissa; conclusão; apofântico; apodíctico; mímese; catarse; fantasia; imaginação mediadora; eidos; species; logos; gnosis gnoseos; sophia; episteme; fronesis; doxa; eikasia; pistis; dianoia; noesis; potência; ato; enteléquia; unidade no diverso; ciência buscada; lógica da descoberta; suspensão da descrença; retórica forense; retórica deliberativa; retórica epidíctica.
Instituições, lugares e eventos
SBPC — Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência; Ciência Hoje; O Globo; Jornal do Brasil; Instituto de Artes Liberais — IAL; Casa de Cultura Laura Alvim; Universidade Católica do Salvador; Instituto de Filosofia e Ciências Humanas; V Congresso Brasileiro de Filosofia; Academia Platônica; Academia de Berlim; Escola de Tradutores de Toledo; polis grega; Roma; República Romana; Era Patrística; Escolástica; Renascimento; mundo islâmico; Ocidente; Grécia; Europa cristã; Brasil.
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