UNESCO: seus propósitos e sua filosofia
Autor: Julian Huxley Título original: UNESCO: Its Purpose and Its Philosophy Publicação: Comissão Preparatória da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 1946. A obra está organizada em dois capítulos: “Um fundamento para a UNESCO” e “O programa da UNESCO”. fileciteturn0file0L2-L4
A síntese abaixo mantém o caráter histórico do documento e atribui diretamente a Huxley as concepções, juízos e propostas normativas apresentadas, inclusive suas formulações sobre eugenia, desigualdade biológica, governo mundial e controle populacional.
Capítulo I — Um fundamento para a UNESCO
1. Os objetivos estabelecidos para a UNESCO
Dupla finalidade da organização
A UNESCO estaria comprometida com dois conjuntos de objetivos. Em primeiro lugar, deveria servir às finalidades internacionais das Nações Unidas, orientadas para a humanidade como um todo. Em segundo lugar, deveria promover a educação, a ciência e a cultura, entendidas no sentido mais amplo possível.
A paz deve ser construída na mente humana
A Constituição da UNESCO parte da ideia de que as guerras começam na mente dos homens e de que, portanto, as defesas da paz também precisam ser construídas intelectualmente e moralmente. A ignorância, a incompreensão dos modos de vida alheios, a suspeita e a desconfiança entre os povos são apresentadas como causas recorrentes de conflitos.
A guerra recente teria sido possibilitada pela negação da dignidade, da igualdade e do respeito mútuo, substituídos pela doutrina da desigualdade entre homens e raças. Por isso, a simples celebração de acordos políticos e econômicos entre governos não seria suficiente para produzir uma paz duradoura.
Solidariedade intelectual e moral
A paz deveria apoiar-se na solidariedade intelectual e moral da humanidade. Para isso, os Estados precisariam assegurar oportunidades educacionais, a busca livre da verdade objetiva, a circulação de ideias e o intercâmbio do conhecimento.
A comunicação entre os povos não deveria limitar-se à transmissão de informações. Sua finalidade seria proporcionar compreensão mútua e um conhecimento mais verdadeiro das diferentes formas de vida.
Três grandes meios de atuação
O primeiro meio seria a promoção do conhecimento recíproco entre os povos mediante a comunicação de massa e acordos que garantissem a livre circulação de ideias por palavras e imagens.
O segundo seria o impulso à educação popular e à difusão da cultura. Huxley destaca o ideal de igualdade das oportunidades educacionais, independentemente de raça, sexo ou posição econômica e social, e a preparação das crianças para as responsabilidades da liberdade.
O terceiro seria a conservação, ampliação e difusão do conhecimento. Isso incluiria a proteção de livros, obras de arte, monumentos históricos e científicos; a cooperação internacional entre intelectuais; o intercâmbio de professores, pesquisadores, publicações e materiais artísticos; e a criação de mecanismos que permitissem o acesso universal às publicações.
Lacunas do projeto inicial
Huxley observa que os objetivos constitucionais ainda eram genéricos. O documento não esclarecia, por exemplo, se a UNESCO deveria apenas coordenar instituições nacionais ou criar centros de pesquisa verdadeiramente internacionais.
Também haveria uma ênfase maior na conservação das obras antigas do que no estímulo à criação de novas obras artísticas e literárias. Essas lacunas, segundo ele, deveriam ser resolvidas progressivamente durante a execução concreta do programa. fileciteturn3file0L16-L17
2. Uma filosofia para a UNESCO
Necessidade de uma filosofia de trabalho
A UNESCO não poderia atuar apenas com objetivos administrativos. Necessitaria de uma filosofia de trabalho, isto é, de uma hipótese geral sobre a existência humana, seus objetivos e suas possibilidades.
Sem uma orientação comum, suas ações correriam o risco de se tornar fragmentárias, contraditórias ou desprovidas de inspiração. A filosofia deveria funcionar como critério para selecionar problemas, estabelecer prioridades e julgar os resultados.
Impossibilidade de adotar uma religião exclusiva
A organização não poderia fundamentar-se exclusivamente em uma das religiões concorrentes, como islamismo, catolicismo romano, cristianismo protestante, budismo, unitarismo, judaísmo ou hinduísmo.
Uma escolha sectária seria incompatível com o caráter internacional da organização e provocaria a oposição ou retirada de grupos religiosos e nações que não aceitassem a doutrina escolhida.
Impossibilidade de adotar uma ideologia político-econômica exclusiva
Da mesma forma, a UNESCO não poderia identificar-se inteiramente com o capitalismo de livre iniciativa, o comunismo marxista, o planejamento semissocialista ou qualquer outra doutrina político-econômica particular.
Também não poderia basear-se exclusivamente no existencialismo, no élan vital, no racionalismo, no espiritualismo, no determinismo econômico, nas teorias cíclicas rígidas da história, na supremacia do Estado ou numa rígida teoria de classes.
Rejeição do racialismo e da supremacia do Estado
A ênfase constitucional na democracia, na dignidade humana, na igualdade e no respeito mútuo impediria a adoção de uma teoria segundo a qual o Estado fosse superior ao indivíduo.
A Constituição também rejeitaria o racialismo e as crenças na superioridade ou inferioridade essencial de raças, nações ou grupos étnicos.
Humanismo mundial e científico
A filosofia positiva da UNESCO deveria ser uma forma de humanismo mundial, pois deveria abranger todos os povos e reconhecer a igualdade de dignidade, respeito e oportunidade educacional.
Deveria igualmente ser um humanismo científico, porque a ciência fornece grande parte da base material da cultura humana. Entretanto, não poderia reduzir-se ao materialismo: precisaria incluir os aspectos mentais, espirituais e materiais da existência numa visão unitária.
Humanismo evolucionário
Huxley acrescenta que esse humanismo precisaria ser evolucionário, e não estático ou idealista. A teoria geral da evolução ofereceria um quadro intelectual capaz de mostrar a posição humana na natureza, identificar tendências desejáveis ou indesejáveis e reconhecer a possibilidade de progresso.
A humanidade seria, nesse esquema, a única portadora consciente do progresso evolutivo futuro. A filosofia geral proposta para a UNESCO seria, portanto, um humanismo científico mundial, global em sua extensão e evolucionário em seu fundamento. fileciteturn3file0L17-L19
3. A UNESCO e o progresso humano
Os três setores da evolução
Huxley divide a evolução em três grandes setores. O primeiro é o inorgânico, constituído pelos processos físicos e materiais do universo. Esse setor ocupa a maior extensão do cosmos, mas suas transformações fundamentais ocorrem muito lentamente.
O segundo é o biológico, no qual surgem a reprodução, a variação e a seleção natural. Esses mecanismos aceleram a mudança e possibilitam o aparecimento de novas espécies, órgãos e formas de adaptação.
O terceiro é o humano ou social, no qual a linguagem, o pensamento conceitual e a tradição acumulada introduzem um novo mecanismo evolutivo. A herança social passa a transmitir conhecimentos, técnicas, valores e instituições entre indivíduos e gerações.
Tradição cumulativa e seleção consciente
A evolução social baseia-se na tradição cumulativa. O ser humano não transmite apenas características biológicas, mas também ideias, técnicas, conhecimentos, finalidades e sentimentos.
A luta pela existência deixa de ser determinada exclusivamente pela seleção natural e passa a incluir uma seleção consciente entre ideias, valores e projetos. A mudança social torna-se mais rápida porque os seres humanos podem escolher, planejar e conservar aquilo que aprenderam.
Aceleração da mudança histórica
A passagem da evolução física para a biológica e desta para a humana é apresentada como uma aceleração crescente. Enquanto grandes mudanças naturais exigiam milhões de anos, transformações humanas fundamentais passaram a ocorrer em séculos, décadas ou períodos ainda menores.
Como exemplos, Huxley menciona a fotografia, a teoria da evolução, a teoria eletromagnética, a iluminação e a energia elétrica, a teoria microbiana das doenças, o cinema, a radioatividade, as novas teorias da matéria e da energia, o rádio, a televisão, o motor de combustão interna, os materiais sintéticos e a fissão atômica.
Onde se manifesta a evolução humana
As capacidades mentais herdadas não teriam mudado radicalmente desde os antigos habitantes das cavernas. A evolução humana recente manifesta-se sobretudo nas formas de organização social, nas máquinas, nos instrumentos e nos modos de utilizar as capacidades naturais.
O texto menciona o homem de Pequim, os neandertais, os habitantes aurignacianos das cavernas e os povos da Grécia antiga para ilustrar diferentes estágios do desenvolvimento humano.
Crescimento da complexidade
A evolução produziria um aumento progressivo da complexidade organizacional. Átomos formam moléculas; moléculas orgânicas possibilitam a vida; organismos desenvolvem estruturas cada vez mais elaboradas; e o ser humano acrescenta máquinas, instituições e organizações sociais.
Uma sociedade moderna ou uma fábrica mecanizada possuiria uma organização incomparavelmente mais complexa que a de uma pequena comunidade tribal dotada apenas de instrumentos de pedra e madeira.
Controle do ambiente e individualização
O progresso biológico teria aumentado o controle dos organismos sobre o ambiente e diminuído sua dependência das mudanças externas. Também teria favorecido a individualização e a expansão das capacidades mentais.
No setor humano, essas tendências continuariam de maneira acelerada. O conhecimento, a emoção, a finalidade consciente e a apreciação de valores poderiam tornar-se componentes deliberados do próprio processo evolutivo.
Valores éticos como mecanismos de evolução
Somente na esfera humana os valores éticos passariam a atuar conscientemente como mecanismos de mudança. Huxley contrasta valores tribais restritos com valores mais universais, mencionando o papel atribuído a Jesus na introdução de ideais éticos universalistas.
Nem toda mudança é progresso
O simples fato de uma tendência persistir não significa que ela seja progressiva. Algumas especializações biológicas, como as observadas em determinadas linhagens de cavalos ou elefantes, podem conduzir a becos evolutivos sem novas possibilidades de transformação.
Seriam progressivas as mudanças que melhoram o organismo de maneira ampla e conservam aberta a possibilidade de avanços futuros, como a passagem dos répteis aos primeiros mamíferos e, posteriormente, dos mamíferos aos seres humanos.
Hegel, Marx e a filosofia evolutiva
Huxley relaciona os conflitos e reajustamentos da evolução à tese, antítese e síntese da filosofia hegeliana e à reconciliação marxista dos opostos.
O materialismo dialético teria sido uma tentativa pioneira de construir uma filosofia evolucionária, mas teria sido elaborado prematuramente e apoiado excessivamente em princípios sociais, sem uma base biológica e científica suficientemente desenvolvida. fileciteturn3file0L19-L23
4. Critérios do progresso evolutivo
Direção geral da evolução
Huxley identifica uma direção geral caracterizada pelo aumento da complexidade, pelo maior domínio do ambiente, pela independência em relação às condições externas e pelo desenvolvimento das capacidades mentais.
Na esfera humana, o critério decisivo passaria a ser o crescimento da compreensão e da realização de valores intrínsecos.
A abertura para novos avanços
O verdadeiro progresso não encerra o processo de mudança. Ele deixa aberta a possibilidade de desenvolvimento posterior, em vez de produzir uma especialização sem saída.
Esse princípio serviria à UNESCO como critério para julgar projetos, políticas e tendências sociais.
A humanidade como herdeira e administradora da evolução
A humanidade seria a herdeira do progresso evolutivo realizado e a única responsável pelo progresso futuro. O destino humano seria realizar o máximo progresso no mínimo tempo, desde que esse avanço fosse orientado por valores e não apenas pela expansão quantitativa.
Aplicações potencialmente contraditórias da ciência
Uma descoberta científica não seria boa apenas por aumentar o conhecimento ou o poder técnico. A ciência médica, por exemplo, poderia elevar a população de uma região, mas reduzir sua qualidade de vida se a produção de alimentos, o bem-estar social e as oportunidades não acompanhassem esse crescimento.
Por isso, a aplicação da medicina precisaria ser equilibrada com o estudo da produtividade agrícola, da erosão do solo, da mecanização, do bem-estar social e da provisão de meios de controle da natalidade. fileciteturn3file0L23-L23
5. Nacionalismo, internacionalismo e unidade mundial
O conflito entre soberanias nacionais e soberania mundial
Huxley considera que um dos principais conflitos da época ocorre entre o nacionalismo e o internacionalismo, ou entre muitas soberanias nacionais e uma soberania mundial.
Como a evolução humana depende da tradição cumulativa, um único reservatório mundial de conhecimentos e experiências seria mais eficiente que diversos reservatórios concorrentes ou hostis.
Unificação política como condição da paz
A unidade cultural e intelectual poderia ultrapassar fronteiras, mas não eliminaria inteiramente os conflitos entre Estados soberanos. A única garantia definitiva contra a guerra seria alguma forma de unificação política mundial, como um governo mundial ou uma organização dotada de soberania superior às nações.
Huxley reconhece que essa finalidade não pertencia diretamente à competência da UNESCO. A organização poderia, contudo, educar os povos para compreender a necessidade da unidade e preparar suas bases intelectuais e culturais.
Empreendimentos internacionais
Instituições genuinamente internacionais demonstrariam que o nacionalismo poderia ser superado pela atividade compartilhada. Entre os exemplos propostos aparecem:
- um Centro da UNESCO de Matemática Aplicada;
- Campos Internacionais de Reconstrução;
- um Centro Bibliográfico e de Bibliotecas Mundial;
- uma Central Internacional de Publicações;
- um Instituto Internacional de Planejamento Doméstico e Comunitário;
- um Instituto Internacional de Teatro;
- filmes e programas radiofônicos concebidos internacionalmente.
Cooperação científica e bem-estar
A UNESCO deveria cooperar com organismos como a FAO e a Organização Mundial da Saúde, promovendo a aplicação internacional da ciência à alimentação e à saúde.
Quanto mais evidentes fossem os benefícios dessa cooperação, mais difícil seria para uma nação abandonar o sistema e recorrer ao isolamento ou à guerra.
Usos pacíficos e destrutivos da ciência
Campanhas educacionais deveriam contrastar os usos destrutivos da fissão atômica, da bacteriologia e da microbiologia — bombas atômicas e guerra biológica — com suas aplicações pacíficas.
A física nuclear poderia fornecer novas fontes de energia; os microrganismos poderiam atuar como instrumentos químicos; e o conhecimento bacteriológico poderia combater doenças.
Persistência da missão mesmo diante de uma nova guerra
Huxley admite a possibilidade de que as forças nacionalistas e destrutivas vencessem temporariamente. Ainda assim, a UNESCO deveria continuar demonstrando os benefícios materiais e espirituais da tradição comum e da cooperação internacional, para que esses princípios sobrevivessem mesmo depois de outro conflito. fileciteturn4file0L11-L12
6. Qualidade e quantidade
A primazia qualitativa
O progresso não pode ser medido apenas por número, tamanho ou extensão. O universo inorgânico é muito maior que o mundo vivo, mas é na matéria organizada dos seres vivos que aparecem propriedades mais complexas.
Do mesmo modo, existem milhões de espécies animais e vegetais, mas Huxley atribui à espécie humana a manifestação mais completa da mente e do espírito.
Crítica à mentalidade de produção em massa
A UNESCO deveria resistir à tendência de reduzir todos os problemas a termos quantitativos. A simples contagem de pessoas não revela o que ocorre dentro delas nem mede inteligência, sensibilidade, criatividade ou caráter.
Slogans como “era do homem comum”, “voz do povo” e “governo da maioria” poderiam, quando mal compreendidos, estimular a mediocridade e desestimular realizações raras ou superiores.
A quantidade como base da qualidade
A quantidade não é irrelevante. Uma civilização complexa não poderia desenvolver-se numa população minúscula, assim como determinadas funções orgânicas exigem um corpo com dimensões suficientes.
Entretanto, organizações e populações teriam dimensões ótimas. Uma estrutura excessivamente grande poderia tornar-se tão ineficiente quanto uma excessivamente pequena.
Elevação da média e dos limites superiores
A UNESCO deveria elevar o bem-estar médio, mas também criar condições para o desenvolvimento dos níveis mais elevados da capacidade humana.
O progresso envolveria tanto a elevação da média dentro dos limites existentes quanto o deslocamento dos próprios limites, abrindo novas possibilidades de conhecimento, criação e experiência.
Organização social e individualidade
A eficiência social e o desenvolvimento individual são frequentemente apresentados como opostos. Huxley critica, de um lado, o individualismo exagerado associado aos Estados Unidos e, de outro, o fascismo, que subordina inteiramente o indivíduo ao Estado.
A reconciliação entre organização social e individualidade seria possível e constituiria, depois da prevenção da guerra, uma das tarefas centrais da humanidade. fileciteturn4file0L12-L14
7. Princípios gerais de atuação
Dignidade do indivíduo e contexto social
O indivíduo humano plenamente desenvolvido é apresentado como o produto mais elevado da evolução. Isso sustentaria o princípio democrático da dignidade humana e contraria as filosofias que subordinam o indivíduo ao Estado.
Entretanto, o individualismo irrestrito também seria incorreto. O ser humano isolado não possui significado completo: seu desenvolvimento depende da sociedade, das tradições recebidas e do contexto que conserva e transmite suas realizações.
Aperfeiçoamento dos mecanismos sociais
As atividades da UNESCO deveriam proporcionar ao indivíduo desenvolvimento e satisfação, mas sempre dentro de um contexto social. A organização deveria aperfeiçoar os mecanismos que permitem esse desenvolvimento, como sistemas educacionais, centros de pesquisa, instituições artísticas e imprensa.
Um reservatório comum da tradição humana
A humanidade precisaria unificar suas tradições num reservatório comum de experiência, consciência e finalidade.
Essa unidade deveria preservar a variedade das artes e culturas, formar um patrimônio científico compartilhado e, gradualmente, desenvolver uma perspectiva e um conjunto de objetivos comuns.
Iluminar as “áreas escuras”
A UNESCO deveria elevar as condições educacionais, científicas e culturais das regiões consideradas atrasadas e das parcelas desfavorecidas das populações.
Campanhas contra o analfabetismo, educação fundamental, alimentação, moradia e saúde seriam indispensáveis para que grandes grupos humanos participassem de uma cultura comum.
Distribuição mundial da ciência
A ciência não alcançaria seu ritmo ideal enquanto pesquisadores, equipamentos e conhecimentos permanecessem concentrados em poucas regiões.
Além da distribuição mais equilibrada dos recursos científicos, seria necessário ampliar a compreensão popular do método e dos resultados da ciência.
Áreas de privação artística
No campo da arte e da beleza, as “áreas escuras” poderiam localizar-se justamente nos centros industriais e entre os trabalhadores das sociedades tecnologicamente desenvolvidas.
A pobreza cultural não coincidiria necessariamente com o atraso econômico ou industrial.
Valores incorporados às instituições
Um sistema educacional poderia promover uma raça escolhida ou uma casta privilegiada, ou poderia promover dignidade e igualdade de oportunidade.
Da mesma forma, a ciência poderia ser secreta e orientada para a guerra, ou livre e dirigida ao bem-estar. A produção em massa poderia destruir a criatividade ou ser organizada para atender necessidades humanas reais.
Por isso, a UNESCO deveria estudar os mecanismos sociais e seus efeitos à luz de uma filosofia geral, incluindo os efeitos da mecanização sobre a civilização. fileciteturn4file0L14-L16
8. O princípio da igualdade e o fato da desigualdade
Dois sentidos diferentes da igualdade
Huxley distingue a igualdade democrática da igualdade biológica. A primeira significa igualdade perante a lei, liberdade de expressão e movimento e igualdade de oportunidades para educação e trabalho.
A segunda diria respeito às características naturais e às diferenças genéticas entre os indivíduos.
Desigualdade como simples diferença
O primeiro tipo de desigualdade biológica seria a diversidade: diferenças de aparência, temperamento e aptidão. Algumas pessoas teriam maior capacidade musical, outras atlética, matemática, prática ou introspectiva.
Huxley considera essa variedade universal e desejável, pois ela amplia as possibilidades da espécie e da organização social.
Desigualdade de nível ou qualidade
O segundo tipo corresponderia a diferenças de nível em características consideradas desejáveis: saúde, força, longevidade, inteligência, aptidão especializada e qualidades morais.
O autor afirma que algumas dessas diferenças possuiriam componentes hereditários, embora reconheça a influência do ambiente físico e social.
Preservação da variedade humana
As tentativas de produzir “pureza” e uniformidade numa raça ou grupo nacional são rejeitadas como cientificamente incorretas e contrárias ao progresso.
A UNESCO deveria preservar a diversidade humana e ampliar a participação dos grupos raciais que haviam contribuído pouco para o patrimônio comum devido ao isolamento ou às condições sociais desfavoráveis.
Tipos psicofísicos e seleção ocupacional
O texto propõe incentivar estudos de tipos psicofísicos, mencionando Kretschmer, Draper e Sheldon. Essas pesquisas poderiam, segundo Huxley, ajudar a selecionar pessoas apropriadas para determinadas ocupações e impedir que certos tipos assumissem funções para as quais seriam inadequados.
Como exemplo de seleção empírica, são citadas as comissões que escolheram oficiais durante a guerra. Huxley também apresenta generalizações controversas sobre os tipos “astênico” e “pícnico”, associando temperamentos a comportamentos morais ou administrativos.
Igualdade dentro dos limites da aptidão
Diante das diferenças individuais, Huxley sugere reformular a igualdade de oportunidade como igualdade de oportunidade dentro dos limites da aptidão.
A finalidade não seria rotular ou conduzir coercitivamente as pessoas, mas ajudá-las a encontrar trabalhos compatíveis com suas capacidades e impedir a sobrecarga da sociedade com indivíduos em posições inadequadas.
Eugenia e disgenia na concepção do autor
Huxley apresenta a desigualdade biológica como fundamento da eugenia. A preservação da variedade deveria ser uma de suas finalidades; a outra seria elevar o nível médio das características consideradas desejáveis.
Ele afirma que a civilização poderia estar produzindo efeitos “disgênicos” ao permitir a acumulação de debilidades físicas, instabilidade mental e predisposição a doenças. Embora reconheça que uma política eugênica radical seria politicamente e psicologicamente impossível naquele momento, propõe que a UNESCO promovesse estudos e preparasse a opinião pública para considerar futuramente o problema. fileciteturn4file0L16-L17 fileciteturn2file0L12-L13
Capítulo II — O programa da UNESCO
1. Definição geral do programa
Da filosofia à atividade concreta
Depois de estabelecer uma filosofia evolucionária, Huxley passa ao programa que a UNESCO poderia executar nos primeiros anos.
Os objetivos constitucionais permanecem: paz e segurança internacionais, colaboração entre as nações, bem-estar humano, dignidade, igualdade, respeito mútuo, justiça, Estado de direito, direitos humanos e liberdades fundamentais.
Quatro grandes campos
O programa é dividido em educação, ciência, cultura e comunicação de massa.
A ciência deveria ser entendida amplamente, abrangendo ciências naturais, ciências sociais e humanidades. O campo se estenderia da matemática à teologia, da física à filosofia, incluindo história, sociologia, arqueologia, literatura clássica, química, bacteriologia, geologia e psicologia social.
Três sentidos de cultura
No primeiro sentido, cultura compreende as artes criativas e suas aplicações: literatura, arquitetura, música, dança, pintura, artes visuais, decoração, desenho industrial, urbanismo e paisagismo.
No segundo, significa o cultivo da mente: desenvolvimento dos interesses e faculdades, familiaridade com a história e as realizações intelectuais, capacidade de lidar com ideias, julgamento crítico e pensamento independente.
No terceiro, antropológico e sociológico, designa todo o conjunto material e mental característico de uma sociedade.
Cultura como instrumento e objeto de estudo
A UNESCO deveria promover a criação artística e a formação cultural, mas também estudar culturas como sistemas sociais.
Quando crenças, costumes ou estruturas culturais dificultassem a educação, a ciência, a arte, o bem-estar ou a paz, a UNESCO deveria examiná-los, respeitando os limites da jurisdição interna dos Estados. fileciteturn2file0L14-L16
2. Aplicação da ciência e da arte
Superação da ciência e da arte “puras”
A organização não deveria ocupar-se apenas da “ciência pura”, da “arte erudita”, dos especialistas ou das elites instruídas.
O bem-estar depende da aplicação das ciências físicas, biológicas, psicológicas e sociais, assim como da utilização das artes para produzir satisfação emocional e espiritual.
Divisão de competências entre organismos internacionais
A UNESCO deveria coordenar seu trabalho com outros organismos. Alimentação e agricultura caberiam em grande parte à FAO; saúde à Organização Mundial da Saúde; trabalho à OIT; energia atômica e segurança aos órgãos correspondentes das Nações Unidas.
Questões econômicas e sociais gerais pertenceriam ao Conselho Econômico e Social, enquanto problemas ligados a povos não autônomos envolveriam o Conselho de Tutela.
Função própria da UNESCO
O papel específico da UNESCO seria estudar de maneira coordenada as atividades superiores do ser humano e suas aplicações.
Ela deveria relacionar as aplicações científicas e artísticas a uma escala de valores, considerando não apenas eficiência imediata, mas também consequências humanas, sociais, ambientais e culturais.
Exemplos de aplicação inadequada
Um novo método agrícola poderia ser eficiente em curto prazo, mas provocar erosão e esgotamento do solo.
Poderia também produzir consequências socialmente indesejáveis: crescimento populacional excessivo, destruição da beleza natural, extinção de espécies ou empobrecimento da população rural.
Da mesma forma, a concentração exclusiva nas ciências mecânicas, físicas e químicas poderia prejudicar as artes e a apreciação da beleza. Em sentido contrário, preconceitos religiosos ou obscurantismo cultural poderiam impedir pesquisas e aplicações benéficas.
Três objetivos gerais
A UNESCO deveria descobrir quais aplicações da ciência e da arte não estavam sendo tratadas por outros organismos e selecionar as mais importantes.
Deveria estudar por que determinadas aplicações são impedidas, atrasadas, aceleradas indevidamente ou distorcidas.
Finalmente, deveria relacionar ciência e arte entre si e com uma escala geral de valores, determinando a quantidade, o equilíbrio e a velocidade adequados de aplicação em cada campo. fileciteturn2file0L16-L19
3. Educação
Natureza da educação
A educação é descrita como uma atividade distintivamente humana e um processo social cumulativo.
Por meio dela, conhecimentos, técnicas, ideias e atitudes emocionais e espirituais são transmitidos entre indivíduos e gerações. Ela também atualiza as potencialidades latentes de cada pessoa.
Educação permanente
A educação não deveria terminar na infância ou na juventude. Como a mente pode continuar desenvolvendo-se durante toda a vida, a sociedade deveria oferecer educação de adultos, autoeducação e formação permanente.
Função individual e social
A educação deveria preparar o indivíduo para o trabalho e para a vida comunitária, mas também permitir que a sociedade se tornasse consciente de sua tradição e de seu destino.
Ela poderia ajudar comunidades a se adaptarem a novas condições e a perseguirem de maneira consciente seus objetivos coletivos.
Pesquisa científica da educação
Os métodos educacionais ainda teriam uma base excessivamente empírica. A UNESCO deveria incentivar pesquisas sobre aprendizagem, desenvolvimento e formação, e divulgar internacionalmente os resultados.
Educação internacional
Como o mundo estaria tornando-se uma unidade, a educação deveria formar não apenas cidadãos nacionais, mas membros de uma sociedade mundial.
A dimensão internacional não eliminaria as comunidades locais, religiosas ou intelectuais, mas acrescentaria a consciência de pertencer à humanidade.
Desenvolvimento das aptidões
A escola não deveria apenas transmitir conhecimentos, habilidades e hábitos. Deveria descobrir e desenvolver as qualidades e aptidões naturais, ajudando cada indivíduo a realizar suas possibilidades.
Atividades valiosas por si mesmas
A educação não deveria limitar-se a finalidades práticas. Conhecimento, descoberta, beleza, arte, música, literatura, moralidade e nobreza de caráter possuem valor próprio, mesmo quando também produzem utilidades sociais. fileciteturn2file0L19-L19 fileciteturn3file1L38-L38
Combate ao analfabetismo
O ataque ao analfabetismo recebe prioridade elevada. A alfabetização seria necessária para o avanço técnico, a saúde, a agricultura eficiente, a indústria produtiva, a consciência política e a compreensão internacional.
Contudo, não deveria ser tratada isoladamente. Precisaria integrar-se à educação fundamental, à saúde, aos métodos agrícolas, à cidadania e à compreensão da sociedade.
Limites da alfabetização isolada
A capacidade de ler não garante automaticamente democracia, sabedoria ou compreensão internacional.
A alfabetização poderia apenas facilitar o consumo de jornais sensacionalistas, revistas inferiores e filmes escapistas. A Alemanha nazista demonstraria que uma população alfabetizada e instruída poderia ser conduzida a movimentos antidemocráticos.
A imprensa, a literatura e o cinema também poderiam ser manipulados para fins políticos ou econômicos. Informações incompletas ou distorcidas poderiam aumentar a hostilidade entre as nações.
Equilíbrio entre educação popular e formação superior
A UNESCO não deveria concentrar todos os recursos na elevação dos grupos menos instruídos. O funcionamento da civilização exigiria técnicos, cientistas, professores, médicos, juristas, arquitetos, artistas, filósofos, administradores e estadistas altamente preparados.
Como exemplo, o texto menciona uma estimativa britânica de aproximadamente 55 mil cientistas naturais qualificados, com 2.500 novos graduados por ano, diante de uma necessidade projetada de 90 mil em 1955.
Planejamento das profissões
Deveriam ser realizados levantamentos nacionais sobre a quantidade necessária de especialistas em cada profissão.
A UNESCO poderia ajudar a identificar deficiências e planejar a formação de profissionais, evitando tanto a escassez quanto o desperdício de recursos educacionais.
Limites da educação universitária
Huxley sustenta que apenas uma parcela da população poderia aproveitar integralmente a educação universitária tradicional. Menciona estimativas baseadas em testes de inteligência segundo as quais somente 10% a 20% teriam capacidade para um curso universitário, embora considere esse número provavelmente baixo.
O sistema deveria incluir formas diferenciadas de educação superior para pessoas com outras aptidões ou níveis quantitativamente distintos de inteligência, em vez de simplesmente excluí-las da formação pós-escolar.
Aptidões especiais e temperamento
Além da inteligência geral, deveriam ser estudadas aptidões específicas para matemática, música, artes visuais, história natural e mecânica.
O temperamento também influenciaria as carreiras. O texto menciona o “adolescente sensível”, capaz intelectualmente, mas propenso à insegurança, ao isolamento e à dificuldade de participar da vida prática.
Uma educação apropriada poderia ajudá-lo a utilizar sua sensibilidade em funções sociais, administrativas ou intelectuais.
Poder e personalidade
Huxley também menciona o problema inverso: impedir que o poder seja assumido por pessoas excessivamente ambiciosas, autoritárias, insensíveis ou movidas pelo poder como finalidade.
Esse problema deveria ser estudado conjuntamente por educadores, psicólogos e cientistas sociais.
Psicanálise e educação infantil
A UNESCO deveria investigar a aplicação da psicanálise e das diferentes escolas de psicologia profunda à educação.
Alguma repressão seria necessária ao desenvolvimento moral, mas a repressão excessiva ou unilateral poderia produzir distorções de caráter, frustrações e sentimento exagerado de culpa.
O estudo da infância deveria estender-se até os primeiros cuidados na creche e no berçário.
Grupos de discussão
Os grupos de discussão poderiam ampliar a consciência popular sobre problemas políticos, econômicos e culturais.
O Bureau of Current Affairs é citado como exemplo, e a UNESCO deveria estudar a aplicação do método em diferentes sociedades.
Relações públicas e propaganda
As relações públicas governamentais poderiam funcionar como forma de educação cívica dos adultos, mas também poderiam degenerar em justificativa dos ministérios ou em organizações de propaganda.
Huxley recomenda o estudo de suas possibilidades, usos e abusos. fileciteturn3file1L39-L42
4. Ciências naturais
O método científico
A ciência abrange a busca e a aplicação do conhecimento organizado dos fenômenos. O método científico rejeita a submissão a autoridades dogmáticas e substitui a tradição, a revelação, o boato e a simples argumentação abstrata pela pesquisa, observação, experimentação e análise matemática.
As teorias devem ser comparadas continuamente com os fatos e com os resultados dos experimentos.
Ciências naturais e ciências sociais
As ciências naturais podem isolar determinados aspectos da realidade e reduzi-los a medidas quantitativas.
Nas ciências sociais, valores, emoções, objetivos e significados não podem ser eliminados sem comprometer a compreensão. Mesmo estatísticas demográficas ou econômicas precisam considerar as motivações e os valores humanos.
Conhecimento provisório e fatos permanentes
A ciência mantém o julgamento aberto, admite que suas explicações podem ser corrigidas e reconhece que a verdade científica nunca está inteiramente concluída.
Isso não significa que todo conhecimento científico seja instável. Teorias abrangentes podem mudar, mas muitos fatos experimentais permanecem.
Einstein, Newton e Dalton
A substituição do universo newtoniano pela teoria einsteiniana alterou profundamente a teoria, mas não eliminou os fatos comprovados sobre trajetórias, movimentos planetários ou marés.
A descoberta da complexidade interna do átomo modificou a concepção de matéria, mas não anulou o fato estabelecido por Dalton de que a matéria possui estrutura particulada.
Corpo de fatos científicos
Entre os fatos apresentados como estabelecidos estão:
- a evolução, em oposição à criação especial;
- a combinação química, em oposição à transmutação alquímica;
- a biogênese, em oposição à geração espontânea;
- a origem microbiana de muitas doenças, em oposição aos humores ou ao castigo divino;
- a hereditariedade mendeliana e cromossômica;
- a geologia moderna, em oposição ao catastrofismo e ao criacionismo especial;
- a repressão e a dissociação psicológicas, independentemente da interpretação freudiana, junguiana ou behaviorista;
- a fisiologia vegetal, em oposição às explicações mágicas ou vitalistas.
Combate ao bloqueio da pesquisa
A UNESCO deveria impedir que a investigação científica fosse bloqueada por superstição ou preconceito teológico.
O texto menciona movimentos anticientíficos como o antivivisseccionismo, o fundamentalismo, a crença em milagres e formas rudimentares de espiritualismo.
Ao mesmo tempo, a própria ciência não deveria tornar-se dogmática nem rejeitar previamente possibilidades que não se ajustassem ao conhecimento existente.
Parapsicologia e percepção extrassensorial
Entre os campos limítrofes que deveriam ser investigados aparece a parapsicologia, incluindo percepção extrassensorial e precognição.
Huxley afirma que alguns trabalhos teriam oferecido indícios suficientes para justificar pesquisas rigorosas, com o objetivo de ampliar ou corrigir o quadro científico.
Iogues, místicos e controle psicofísico
O texto recomenda investigar cientificamente o controle que iogues hindus e outros místicos exerceriam sobre funções corporais e estados mentais.
Fisiologistas e psicólogos treinados deveriam estudar os mecanismos envolvidos e, quando apropriado, experimentar os treinamentos.
Eugenia como campo científico
A eugenia é apresentada como outro campo fronteiriço. Huxley reconhece que ela esteve próxima da pseudociência e foi influenciada por preconceitos políticos, raciais e de classe.
Mesmo assim, defende sua incorporação à ciência, afirmando que a melhoria da qualidade média humana poderia tornar-se um problema urgente.
Universalização da atividade científica
A ciência seria a mais internacional das atividades humanas, pois depende do acúmulo e da publicação livre dos resultados.
A UNESCO deveria promover a reunião mundial dos conhecimentos, ampliar a atividade científica nas regiões menos desenvolvidas e comparar os investimentos nacionais em pesquisa.
Ciência moderada pela arte
O industrialismo teria difundido os benefícios da ciência, mas também destruído formas tradicionais de vida e produzido feiura evitável.
A ciência deveria ser equilibrada pela arte, pela tradição humanística e por uma escala adequada de valores, evitando uma civilização rígida e unilateralmente naturalista. fileciteturn3file1L42-L47
5. Valores humanos, filosofia e humanidades
Fatos e valores
Nas humanidades, na filosofia e nas artes, o método científico é necessário, mas insuficiente. Esses campos envolvem fatos e também julgamentos de valor.
A história estuda pensamentos e princípios; a história da arte examina mudanças nos julgamentos estéticos; a religião comparada e a história da moral analisam valores éticos.
Impossibilidade de neutralidade absoluta
A UNESCO não poderia permanecer neutra diante de valores concorrentes. Qualquer ação administrativa ou educacional implica escolhas, mesmo quando essas escolhas não são reconhecidas conscientemente.
Uma escala de valores assumida sem reflexão seria menos confiável que uma escala examinada de maneira deliberada.
Filosofia como esclarecimento dos valores
A UNESCO deveria promover a filosofia para esclarecer os valores humanos e orientar suas próprias operações.
A filosofia indicaria tanto o que a organização deveria promover quanto aquilo que deveria evitar ou desencorajar.
Reformulação da teologia natural de Paley
Huxley apresenta seu humanismo evolucionário como uma extensão e reformulação da Teologia Natural de Paley.
Em vez de deduzir os atributos de um Criador a partir de um projeto estático, a abordagem examinaria a direção observável da evolução no tempo e no espaço, sem traduzir automaticamente os fatos naturais em termos sobrenaturais.
Fundamento evolucionário da ética
Os valores éticos deveriam ser relacionados à direção discernível da evolução.
Princípios duradouros seriam aqueles que promovem uma organização social capaz de permitir o desenvolvimento e a expressão dos indivíduos, ao mesmo tempo que assegura a continuidade e o progresso da sociedade.
Transformação histórica da moral
As formulações éticas concretas mudam com as condições históricas. A moral da vida tribal não é igual à do feudalismo ou da civilização industrial.
Os sistemas morais modernos ainda estariam fundamentados num mundo pré-científico e nacionalmente fragmentado, devendo adaptar-se ao conhecimento e à crescente interdependência.
Bacteriologia e novas responsabilidades
A bacteriologia criou responsabilidades éticas relacionadas ao abastecimento de água, à pasteurização do leite, às quarentenas e à saúde pública.
A redução das distâncias também transformou a fome na China ou uma epidemia na Índia em problemas moralmente relevantes para os povos da Europa e da América.
Nuremberg e o crime de genocídio
As técnicas de extermínio empregadas pelo nacionalismo de Hitler conduziram, em Nuremberg, à formulação do crime internacional de genocídio.
Huxley vê nisso a ampliação da responsabilidade moral, que passa das ações estritamente pessoais para as ações coletivas e institucionais.
Uma moralidade e uma filosofia mundiais
A divisão de Filosofia da UNESCO deveria estimular uma reformulação da moral compatível com o conhecimento moderno e buscar uma filosofia mundial que servisse como fundamento unificador.
Essa filosofia deveria surgir de conferências e discussões entre pensadores de diferentes regiões e disciplinas, evitando dogmatismo, lógica exclusiva e absolutismo inflexível.
Funções da filosofia
A filosofia teria duas funções principais. A primeira seria a crítica das pressuposições e métodos dos cientistas, artistas, matemáticos, políticos e cidadãos.
A segunda seria a síntese, relacionando os resultados intelectuais, morais e estéticos das diversas atividades humanas numa compreensão unitária.
Tarefas filosóficas particulares
Entre os projetos específicos aparecem:
- esclarecimento da filosofia da ciência e do método científico;
- reformulação da estética;
- estudo das artes dos povos chamados “primitivos” no texto;
- análise da arte moderna;
- relação entre psicologia profunda e expressão estética;
- estudo das funções individuais e sociais da arte;
- exame geral da semântica.
Humanidades e tradição clássica
As humanidades abrangem história, literatura, arte e cultura, além dos estudos clássicos.
A Grécia e Roma antigas deveriam receber atenção, mas dentro de uma perspectiva comparativa e histórica. O antigo conflito entre “Antigos” e “Modernos” poderia ser reconciliado ao integrá-los num único processo evolucionário da história.
História do desenvolvimento da mente humana
Uma das grandes tarefas seria construir uma história do desenvolvimento da mente e das realizações culturais superiores.
O projeto exigiria a colaboração de críticos, artistas, historiadores da arte, antropólogos, estudiosos das religiões, teólogos, arqueólogos, classicistas, poetas, escritores e professores de literatura.
O desenvolvimento do Oriente deveria receber atenção equivalente ao desenvolvimento ocidental.
Individualidade e estrutura social
A UNESCO também deveria promover um estudo da individualidade humana em relação à organização social.
O percurso histórico incluiria as unidades tribais, as massas de Mesopotâmia e Egito, o incentivo à personalidade na Grécia, a valorização cristã da alma individual, o amor romântico medieval, o individualismo renascentista e os conflitos modernos entre o indivíduo e a máquina social.
A pesquisa deveria combinar biologia, história, arte, antropologia e sociologia. fileciteturn3file1L47-L47 fileciteturn4file1L29-L32
6. Ciências sociais
Objeto das ciências sociais
As ciências sociais estudam a vida social baseada na tradição acumulada, característica distintiva do setor humano da evolução.
Sem um estudo adequado da humanidade, o homem permaneceria contraditório e confuso. Para ilustrar essa condição, Huxley cita versos de Pope sobre o ser humano como senhor e vítima, juiz da verdade e prisioneiro do erro, glória, brincadeira e enigma do mundo.
Estudo multidisciplinar da religião
A natureza e a função social da religião não poderiam ser compreendidas apenas pela teologia.
Seria necessário estudar música religiosa, pintura, escultura, antropologia, história, psicologia, místicos, santos, faquires e ascetas, observando tanto as realizações elevadas do impulso religioso quanto suas possíveis aberrações.
Evolução da sensibilidade emocional
As ciências sociais poderiam estudar historicamente a ampliação da capacidade emocional humana.
Entre os exemplos estão a introdução cristã do altruísmo universal, o ideal medieval do amor romântico e o interesse moderno pela natureza e pela paisagem.
Esses desenvolvimentos poderiam ser promovidos mediante drama, pintura, parques nacionais, conservação da natureza, arquitetura, planejamento urbano e formação de uma comunidade mundial.
Problemas sociais concretos
A UNESCO deveria estudar o tamanho ótimo das populações, a conservação da vida selvagem e a linguagem.
Huxley considera o reconhecimento de uma população ótima um passo para o controle planejado da reprodução, evitando que o crescimento populacional prejudicasse os objetivos materiais e espirituais.
A conservação da natureza exigiria reservar espaços onde a expansão humana fosse subordinada à preservação de outras espécies.
Psicologia profunda e psicologia social
A psicologia seria central para as ciências sociais. A psicologia profunda investigaria o inconsciente, enquanto a psicologia social forneceria bases para uma sociologia científica e para a aplicação do conhecimento social.
Limitações do experimento controlado
Nas ciências sociais, experimentos controlados raramente seriam possíveis, e os problemas envolveriam numerosas variáveis.
Os valores éticos e estéticos também fazem parte da realidade estudada e não podem ser simplesmente excluídos.
Correlação, estatística e pesquisa operacional
Métodos de correlação e outras técnicas estatísticas, desenvolvidos parcialmente na biologia, poderiam auxiliar o estudo das múltiplas causas sociais.
A pesquisa operacional, aperfeiçoada durante a guerra, também poderia ser adaptada à administração e ao planejamento civil.
Trabalho em equipes multidisciplinares
O problema da habitação exemplifica a necessidade de equipes compostas por físicos, engenheiros, psicólogos e sociólogos.
Esses especialistas deveriam estudar conjuntamente aquecimento, acústica, iluminação, resistência e isolamento dos materiais, conforto, saúde, movimentação, estética, composição familiar e demografia.
Método comparativo
O método comparativo, utilizado na anatomia, embriologia, filologia, etnologia e antropologia, deveria ser aperfeiçoado para estudar a cultura.
A evolução biológica pode ser representada como uma árvore genealógica. A evolução cultural, porém, assemelha-se mais a uma rede, na qual tradições divergem, convergem, unem-se e se separam.
A UNESCO deveria investigar a controvérsia entre os difusionistas, que enfatizam a transmissão cultural, e os defensores do desenvolvimento paralelo e independente.
Governo e sistema nervoso
Huxley compara a organização social, especialmente o governo, ao sistema nervoso de um organismo superior.
A sociedade precisa coordenar órgãos diferentes, receber informações sobre o ambiente, armazenar experiências, correlacionar dados e produzir ações apropriadas.
O cérebro dos vertebrados evolui pela introdução de centros de coordenação hierarquizados, culminando nas áreas associativas do córtex. Neurologistas e especialistas em administração poderiam investigar até que ponto essa analogia ajudaria a aperfeiçoar a “máquina do governo”.
Apesar da analogia, o indivíduo possuiria reivindicações e valores próprios, não podendo ser tratado apenas como uma célula do organismo social. fileciteturn4file1L33-L35 fileciteturn3file2L62-L62
7. Artes criativas
Diferença entre ciência e arte
A ciência acumula descobertas num reservatório comum e pode avançar por um esforço unificado.
Na arte, cada obra individual é essencial. A quantidade não compensa a baixa qualidade, e uma pintura, poema, sinfonia ou drama não pode simplesmente ser fundido com outras obras.
Orquestração da diversidade
A finalidade da UNESCO não deveria ser impor um único movimento artístico, mas promover uma unidade mundial composta de diversidades locais e regionais.
Utilizando uma expressão de L. K. Frank, Huxley denomina isso “orquestração da diversidade”.
Campos artísticos abrangidos
As artes incluem música, pintura, escultura, artes visuais, balé, dança, poesia, drama, romance, ensaio crítico, arquitetura, cinema, decoração de interiores e desenho industrial.
A UNESCO deveria distinguir o estímulo à criação contemporânea do estudo histórico e da conservação das obras antigas, sem abandonar nenhuma dessas funções.
A obra de arte como unidade expressiva
A arte expressa situações, experiências, emoções ou ideias complexas numa forma comunicável e individualmente organizada.
Cada obra constitui um conjunto no qual as partes se integram numa unidade orgânica.
Arte além da beleza e da representação
A arte não se limita ao belo nem à reprodução do visível. Pode selecionar, distorcer, simbolizar, transmitir emoções ou representar imaginações.
Como exemplos, o texto associa:
- a crucificação de Grünewald à angústia;
- a Guernica de Picasso ao horror;
- Verlorene Groschen, de Beethoven, ao humor;
- As viagens de Gulliver, de Swift, à sátira.
Impacto estético e experiência condensada
A obra bem-sucedida precisa produzir impacto estético e despertar uma emoção própria, além das demais emoções transmitidas.
Esse impacto teria componentes intuitivos e quase fisiológicos. Simultaneamente, a obra condensaria e organizaria a experiência consciente, desde uma canção popular ou pintura rupestre até a Missa em si menor de Bach ou o Fausto de Goethe.
A obra viva e o artista criador
A verdadeira obra de arte precisa permanecer viva pela ação que exerce sobre outras mentes.
O artista une-se ao objeto por amor, admiração, maravilhamento ou exaltação, transformando a própria personalidade numa criação física. Huxley cita palavras de Coleridge e as memórias de Sir William Rothenstein para descrever essa entrega criativa.
Funções sociais da arte
A arte expressa o espírito, os ideais e as esperanças de uma sociedade. Pode proporcionar um foco legítimo para o orgulho nacional e substituir a competição militar e econômica por uma rivalidade cultural.
Também oferece prazer, enriquece o ambiente, desenvolve a personalidade e pode ajudar a resolver conflitos internos ou neuroses.
Disciplina necessária à apreciação artística
A apreciação de grandes obras exige esforço e formação. Esperar compreender imediatamente Hamlet, os últimos quartetos de Beethoven ou os afrescos de Giotto na Capela Arena, em Pádua, seria comparável a esperar que uma pessoa sem treinamento apreciasse uma longa caminhada nas montanhas.
A educação artística deveria funcionar como uma disciplina da mente e do espírito.
A privação estética das sociedades industriais
Grande parte da população das nações industriais viveria em ambientes desprovidos de beleza e desconheceria o que a arte poderia oferecer.
A palavra “quadros” teria passado a significar predominantemente cinema, frequentemente utilizado como fuga da realidade, enquanto as pinturas capazes de oferecer compreensão mais profunda permaneceriam pouco visitadas.
Responsabilidade pública pela beleza
Governos centrais e locais deveriam proporcionar arquitetura de qualidade, urbanismo, beleza paisagística e bom desenho dos objetos cotidianos.
Algumas das maiores “áreas atrasadas” do ponto de vista estético seriam cidades da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e da Europa Ocidental.
Arte na educação
A arte deveria oferecer à criança compreensão e amor pelas obras artísticas e desenvolver uma personalidade mais completa.
O impulso criativo é apresentado como fundamental. Sua expressão poderia libertar, resolver conflitos e aumentar a confiança; métodos inadequados de ensino poderiam destruir o interesse e aumentar a frustração.
Arte e expressão comunitária
A arquitetura e o drama da antiga Atenas expressavam sua vida coletiva. Na Itália medieval, a pintura manifestava sentimentos religiosos e orgulho cívico. Na Alemanha do século XIX, Wagner expressava tradições e esperanças nacionais.
A arte poderia fornecer uma forma legítima de nacionalidade compatível com o internacionalismo.
Arte de povos não industrializados
Huxley destaca as artes da África Ocidental, dos povos melanésios do Pacífico e de Bali, observando a influência da escultura africana sobre a arte moderna ocidental.
Essas tradições estariam ameaçadas pelo comercialismo, pelo individualismo, pelos produtos industriais de desenho inferior e pelo turismo de objetos baratos.
A simples reprodução de modelos antigos poderia conservar empregos, mas também fossilizar a arte e separá-la da vida presente.
Artes e ofícios indígenas nos Estados Unidos
O Bureau of Indian Arts and Crafts, do Departamento do Interior dos Estados Unidos, é citado como experiência bem-sucedida com os povos indígenas do sudoeste.
Segundo o texto, o projeto teria conservado padrões estéticos, elevado a renda e permitido inovação e mudança.
Patrocínio público e isolamento do artista
Nos países industriais, o artista frequentemente estaria isolado em pequenos grupos intelectuais ou afastado do público.
Como o patrocínio artístico tenderia a passar de patronos privados para o Estado e as comunidades locais, seria necessário estudar os riscos do patrocínio público, a sobrevivência dos jovens artistas e a educação das autoridades e do público.
Arte, relações públicas e mobilização
Huxley relaciona a arte às relações públicas e à propaganda. Tallents e Grierson são mencionados como pioneiros na compreensão de que os fatos precisam receber forma artística e força emocional para mobilizar a sociedade.
O drama e o cinema seriam particularmente eficazes na apresentação dos conflitos da vida cotidiana e na criação de consciência coletiva.
Funções próprias das diferentes artes
A música aproxima-se diretamente das emoções. As artes visuais materializam a visão do artista. A arquitetura expressa concretamente a comunidade e introduz beleza no cotidiano.
Ópera e balé simbolizam e expressam realidades emocionais; o drama, segundo a referência a Aristóteles, purga a alma do espectador.
A prosa comunica ideias; a poesia e a pintura transformam experiências; o drama torna conflitos concretos; e o cinema supera distâncias de tempo e espaço.
O documentário, em especial, poderia converter informação e instrução em arte, conferindo vida e urgência emocional a atividades aparentemente impessoais.
Igualdade entre arte e ciência
A ascensão da ciência e da tecnologia teria levado o mundo moderno a valorizar excessivamente o intelecto e o material, negligenciando emoções e satisfações espirituais.
A UNESCO deveria restaurar a arte a uma posição de igualdade com a ciência. fileciteturn3file2L62-L67 fileciteturn4file2L47-L49
8. Bibliotecas, museus e outras instituições culturais
Conservar e tornar acessível
Bibliotecas, salas de leitura, galerias, centros de arte, museus, jardins zoológicos e botânicos, reservas naturais, monumentos e parques possuem duas funções: conservar o patrimônio científico e cultural e torná-lo acessível ao público.
Essas funções incluem tanto a herança humana quanto a natureza viva.
Classificação e catalogação internacional
O crescimento das bibliotecas exigiria sistemas uniformes e internacionais de classificação e catalogação.
A UNESCO deveria ajudar a desenvolver e adotar esses sistemas, facilitando o intercâmbio mundial.
Novas formas de publicação científica
O volume de conhecimento publicado poderia sufocar o próprio progresso da pesquisa.
Seriam necessários novos métodos de publicação, resumos de artigos, revisões periódicas e meios de armazenamento e reprodução como o microfilme.
Redistribuição e circulação dos acervos
Os museus não deveriam apenas acumular objetos em depósitos. A UNESCO deveria estudar a redistribuição, rotação, empréstimo, exposições itinerantes e reprodução das obras.
Filmes, televisão e reproduções poderiam projetar os acervos para além das paredes institucionais.
Biblioteca como serviço público
A biblioteca deveria deixar de ser apenas um depósito de livros e tornar-se um serviço capaz de antecipar as necessidades da população.
Seu acervo deveria incluir livros, filmes, registros sonoros, ilustrações e reproduções, além de bibliotecas populares e itinerantes.
Novos tipos de museu
O texto menciona o Museu do Folclore escandinavo e propõe museus locais, históricos, pré-históricos, sanitários, educacionais, agrícolas e dedicados aos recursos naturais.
Jardins zoológicos e botânicos poderiam tornar-se museus vivos, mas precisariam reformar seus métodos de exposição e educação.
Museus vivos e atividade criativa
Os museus deveriam dar mais atenção à criação presente, aos artistas contemporâneos, a modelos funcionais e a aplicações científicas.
Museus vinculados a parques e reservas poderiam apresentar animais, plantas e estruturas geológicas em seu ambiente.
Centros culturais ativos
Bibliotecas e museus poderiam fornecer materiais para debates, apoiar naturalistas amadores e manter oficinas e estúdios para atividades criativas.
A UNESCO deveria estudar centros culturais ligados a bibliotecas, museus, escolas ou outras instituições públicas.
Conservação ativa
Conservar não significa apenas armazenar objetos mortos. Inclui proteger a beleza e o interesse da natureza viva e sustentar a atividade criativa humana.
Tornar acessível também significa oferecer educação pública em ciência e cultura. fileciteturn4file2L50-L52
9. Meios de comunicação de massa
Uma transformação histórica
A imprensa popular, o rádio, o cinema e a televisão possibilitaram uma difusão de informações sem precedentes.
Essa transformação foi possibilitada pela fabricação de papel barato, pela imprensa rotativa, pelas telecomunicações, pelo transporte aéreo e por grandes organizações de coleta e transmissão de notícias.
Formação e manipulação da opinião pública
Os meios de comunicação podem formar rapidamente uma opinião pública informada, mas também podem disseminar informações falsas, incompletas ou distorcidas.
Censura, controle oficial, propaganda anterior e barreiras psicológicas podem impedir a comunicação verdadeira entre os povos.
Remoção dos obstáculos à informação
Uma das primeiras tarefas da UNESCO deveria ser identificar e reduzir as barreiras à circulação livre, fácil e não distorcida de notícias e conhecimentos entre as nações.
Essa seria, porém, uma tarefa negativa. A organização precisaria também oferecer uma finalidade positiva.
Interesses humanos transnacionais
Grierson é citado para mostrar que grupos de interesse semelhantes existem em todos os países: urbanistas, agricultores, especialistas em segurança de minas e colecionadores de selos compartilham linguagens profissionais e preocupações.
As necessidades humanas, da alimentação e moradia ao desenvolvimento intelectual e espiritual, ultrapassam as fronteiras.
A paz por realizações concretas
A paz não seria alcançada apenas pela pregação abstrata. Precisaria ser demonstrada por ações internacionais que melhorassem saúde, emprego, alimentação, viagens e circulação do conhecimento.
A cooperação deveria tornar-se uma experiência concreta e vantajosa para as populações.
Uma filosofia positiva para as massas
Os povos deveriam receber uma filosofia simples e positiva da existência. Essa mensagem mostraria que:
- o progresso humano já ocorreu e pode continuar;
- guerras e retrocessos são temporários;
- a humanidade ainda é jovem;
- a ciência pode satisfazer necessidades básicas;
- o ser humano necessita servir, amar e dedicar-se a algo maior que si mesmo;
- o progresso depende da escolha, da vontade e do esforço.
Técnicas de persuasão voltadas para a paz
As técnicas de informação e persuasão utilizadas nacionalmente durante a guerra deveriam ser direcionadas para objetivos internacionais de paz.
Huxley menciona Lenin ao falar em superar a resistência de milhões, Tallents ao afirmar que a verdade precisa tornar-se impressionante e Grierson ao destacar a necessidade de fé e senso de destino.
Isso exigiria uma espécie de filosofia ou credo de massa, difundido pelos meios de comunicação.
Serviço à educação, ciência e cultura
Os meios de massa também deveriam servir diretamente à educação, à ciência e à arte.
Livros, revistas, jornais, rádio e documentários oferecem grandes oportunidades técnicas, mas também poderiam vulgarizar o gosto, rebaixar padrões intelectuais, evitar problemas reais e criar falsos ideais.
Efeitos sobre populações analfabetas
A UNESCO deveria estudar os efeitos reais do rádio e do cinema sobre povos analfabetos, ainda pouco conhecidos segundo o documento.
Esses meios poderiam transformar rapidamente estruturas mentais e sociais, exigindo conhecimento antes de sua aplicação sistemática.
Duas tarefas finais
A tarefa especial seria colocar imprensa, rádio e cinema a serviço da educação, da ciência, da arte e da cultura.
A tarefa geral seria utilizá-los para produzir compreensão entre nações e culturas e estimular uma perspectiva comum a toda a humanidade. fileciteturn4file2L52-L54
10. Conclusão
Uma cultura mundial
Huxley resume a tarefa da UNESCO como a promoção do surgimento de uma única cultura mundial, dotada de filosofia própria, base comum de ideias e finalidade ampla.
Isso seria possível porque, pela primeira vez, existiriam mecanismos técnicos de unificação mundial e conhecimentos científicos capazes de fornecer um nível mínimo de bem-estar físico para toda a humanidade.
Conflito entre Oriente e Ocidente
O obstáculo imediato seria o confronto entre duas filosofias procedentes do Oriente e do Ocidente.
O conflito poderia ser descrito como oposição entre supernacionalismos, individualismo e coletivismo, modo de vida americano e russo, capitalismo e comunismo ou cristianismo e marxismo.
Essas ideias organizavam as vidas e aspirações de centenas de milhões de pessoas e poderiam tornar-se focos de uma nova guerra.
Reconciliação antes de outra guerra
Huxley acredita que os opostos poderiam ser reconciliados numa síntese superior, mas não sabia se isso ocorreria antes ou depois de outro conflito.
Como uma nova guerra retardaria o progresso humano por séculos, a realização dessa síntese deveria ser o objetivo dominante da UNESCO.
Dogma e doutrina flexível
A reconciliação exigiria escapar tanto do dogma teológico quanto do dogma marxista ou filosófico.
O dogma cristaliza experiências passadas numa forma rígida, intolerante e incapaz de adaptação. Uma doutrina, ao contrário, poderia conservar experiências válidas e permanecer aberta ao crescimento e ao reajustamento.
O progresso exigiria descristalizar os dogmas.
Indivíduo e comunidade
A diferença central entre as filosofias concorrentes seria a relação entre indivíduo e comunidade. Dessa oposição derivariam diferentes sistemas morais, métodos educacionais, concepções artísticas, modelos econômicos, interpretações das liberdades e formas de cooperação internacional.
O humanismo evolucionário proposto reconhece o desenvolvimento pleno do indivíduo como finalidade central e a organização adequada da sociedade como mecanismo indispensável desse desenvolvimento.
Autotranscendência
A sociedade não possui valores comparáveis aos que se manifestam nos indivíduos. Entretanto, o indivíduo não possui significado fora de uma comunidade que ultrapassa a nação e a própria época.
Seu desenvolvimento completo ocorreria por autotranscendência, pela integração com a realidade e com outros seres humanos.
Reconciliação pelo pensamento e pela ação
A unidade poderia ser buscada “de cima”, como problema intelectual e acordo de princípios, e “de baixo”, como cooperação prática em torno das necessidades comuns.
Educação, ciência e cultura poderiam satisfazer essas necessidades e construir uma visão unificada da vida.
Papel singular da UNESCO
Por reunir as atividades superiores da humanidade, suas aplicações práticas e uma escala internacional, a UNESCO seria o organismo mais apropriado para acelerar essa reconciliação e preparar os fundamentos de uma filosofia mundial comum. fileciteturn4file2L55-L56
Principais ideias recorrentes da obra
Humanismo científico e evolucionário
A UNESCO deveria orientar-se por um humanismo fundamentado na ciência, mundial em alcance e evolucionário em sua interpretação da humanidade.
Progresso como critério
As políticas deveriam ser julgadas pela capacidade de ampliar complexidade, controle consciente, inteligência, individualidade, valores e possibilidades de avanços posteriores.
Tradição cumulativa
O mecanismo distintivo da evolução humana é a transmissão social de conhecimentos, técnicas, instituições, sentimentos e valores.
Unidade mundial
A paz e o progresso dependeriam da constituição de um reservatório comum de conhecimento e de formas crescentes de cooperação, culminando, na concepção do autor, em alguma unidade política mundial.
Indivíduo e sociedade
O desenvolvimento individual é a finalidade, mas depende de instituições sociais adequadamente organizadas. Individualismo absoluto e supremacia do Estado são rejeitados.
Qualidade acima da simples quantidade
Bem-estar médio, educação popular e extensão dos serviços são importantes, mas não deveriam suprimir excelência, criatividade, aptidões particulares ou realizações superiores.
Aplicação responsável da ciência
Conhecimento e eficiência técnica não são suficientes. Toda aplicação deve ser julgada por suas consequências sociais, culturais, ambientais e humanas.
Igualdade de oportunidade e diferenças individuais
O texto procura combinar igualdade jurídica e educacional com sua concepção de diferenças naturais de aptidão, desenvolvendo propostas de orientação profissional e eugenia.
Integração entre ciência, arte e humanidades
A ciência fornece conhecimento e poder, a arte expressa valores e experiências, e a filosofia esclarece finalidades. Nenhum desses campos deveria dominar isoladamente os demais.
Educação permanente e internacional
A educação deveria acompanhar toda a vida, desenvolver aptidões, formar a personalidade e preparar o indivíduo para participar de uma comunidade mundial.
Comunicação como instrumento de paz
Imprensa, cinema, rádio e televisão poderiam produzir compreensão entre os povos, mas também manipulação, propaganda e vulgarização cultural.
Conservação ativa da cultura e da natureza
Bibliotecas, museus, centros culturais, parques e reservas deveriam conservar o patrimônio sem transformá-lo em coleção morta, mantendo vivas a natureza e a criação contemporânea.
Referências citadas
Autor, documento e instituições fundadoras
- Julian Huxley — autor da obra.
- UNESCO — Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
- Comissão Preparatória da UNESCO.
- Organização das Nações Unidas — ONU.
- Constituição da UNESCO, especialmente seu preâmbulo e o Artigo I.
- Carta das Nações Unidas.
- The Frederick Printing Co., Ltd., impressora indicada no volume. fileciteturn4file3L68-L69
Pessoas, pensadores, cientistas e figuras históricas
- Attlee
- Jesus
- Hegel
- Marx, citado por meio do marxismo e do materialismo dialético
- Darwin, por meio dos princípios darwinianos
- Kretschmer
- Draper
- Sheldon
- Einstein
- Newton
- Dalton
- Freud
- Jung
- Paley
- Hitler
- Pope
- L. K. Frank
- Grünewald
- Pablo Picasso
- Ludwig van Beethoven
- Jonathan Swift
- Johann Sebastian Bach
- Goethe
- Coleridge
- Sir William Rothenstein
- Giotto
- Wagner
- Aristóteles
- Tallents / Sir Stephen Tallents
- Grierson
- Lenin
- F. Hardy
Obras, documentos e produções artísticas
- UNESCO: Its Purpose and Its Philosophy
- Constituição da UNESCO
- Carta das Nações Unidas
- Natural Theology, de Paley
- Guernica, de Picasso
- Verlorene Groschen, de Beethoven
- Gulliver’s Travels — As viagens de Gulliver, de Swift
- Mass in B Minor — Missa em si menor, de Bach
- Faust — Fausto, de Goethe
- Hamlet
- Últimos quartetos de Beethoven
- Crucificação de Grünewald
- Afrescos de Giotto na Capela Arena
- Memórias de Sir William Rothenstein
- Versos de Pope
- Palavras de Coleridge sobre a criação artística
- Grierson on Documentary, editado por F. Hardy
- Obras e dramas de Wagner
- Filmes documentários, programas radiofônicos e produções concebidas internacionalmente
Organizações, centros e organismos internacionais
- FAO — Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura
- Organização Mundial da Saúde
- OIT — Organização Internacional do Trabalho
- Conselho de Segurança
- Comissão de Energia Atômica
- Conselho Econômico e Social
- Conselho de Tutela
- Centro da UNESCO de Matemática Aplicada
- Campos Internacionais de Reconstrução
- Centro Bibliográfico e de Bibliotecas Mundial
- Central Internacional de Publicações
- Instituto Internacional de Planejamento Doméstico e Comunitário
- Instituto Internacional de Teatro
- Bureau of Current Affairs
- Comissões de Seleção de oficiais
- Bureau of Indian Arts and Crafts
- Departamento do Interior dos Estados Unidos
- Divisão de Filosofia da UNESCO
- Divisão de Meios de Comunicação de Massa da UNESCO
- Universidades e faculdades estaduais dos Estados Unidos
- Instituições de ensino superior dos Domínios Britânicos
Lugares, povos e civilizações
- Terra
- Estados Unidos
- Grã-Bretanha
- Domínios Britânicos
- Inglaterra
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- Alemanha nazista
- Rússia
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- Pádua e Capela Arena
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- Povos tribais, populações industriais, povos não industrializados e comunidades indígenas
Religiões, doutrinas e correntes filosóficas
- Islamismo
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- Soberania mundial
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Conceitos biológicos e evolucionários
- Evolução inorgânica
- Evolução biológica
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- Seleção consciente
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- Tipos astênico e pícnico
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- Controle da natalidade
- Conservação das espécies
Conceitos científicos e metodológicos
- Método científico
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Já citei a família ilustre do também ilustre Aldous Huxley em alguns vídeos...
ResponderExcluirAbraços!