Curso Online de Filosofia
```Aula 20 — Razão Espontânea, Razão Refletida e Independência Intelectual
Técnica de leitura filosófica, formação cultural, crítica da cultura de massas e unidade entre linguagem popular e alta cultura.
```Professor: Olavo de Carvalho
Data da aula: 22 de agosto de 2009
Texto-base: capítulo inicial de O Ponto de Partida da Metafísica, de Joseph Maréchal, e referências às redondilhas Sôbolos rios que vão, de Luís de Camões.
Visão geral da aula
```A aula desenvolve dois trabalhos complementares. O primeiro é o estudo do capítulo “A caminho de uma primeira crise da certeza”, da obra O Ponto de Partida da Metafísica, de Joseph Maréchal. Esse texto é utilizado para demonstrar as dificuldades próprias da leitura filosófica e os procedimentos necessários para compreendê-la.
O segundo trabalho deveria ser a leitura das redondilhas Sôbolos rios que vão, de Camões. O poema permitiria mostrar como uma obra literária comunica experiências humanas e filosóficas por meio de imagens acessíveis, mantendo uma continuidade entre a linguagem popular e a alta elaboração intelectual.
Embora a análise integral do poema tenha sido adiada, alguns versos são comentados no encerramento da aula como exemplo da unidade entre cultura popular, experiência humana e expressão poética superior.
1. O nascimento da cosmologia e a crise da certeza
Dos mitos às explicações racionais
Maréchal descreve o surgimento das primeiras cosmologias gregas a partir dos mitos religiosos e das antigas cosmogonias poéticas. A Natureza, anteriormente representada em histórias sobre deuses e forças míticas, passa gradualmente a ser examinada como objeto de investigação racional.
A cosmogonia apresenta uma narrativa sobre a formação do cosmos. A filosofia nascente procura uma explicação racional de como essa formação foi possível. O objeto permanece essencialmente o mesmo, mas muda o modo de abordá-lo: da narrativa poética passa-se à análise filosófica.
A orientação para o objeto
Os primeiros filósofos estavam inteiramente voltados para o objeto, especialmente para a Natureza. Eles não problematizavam o sujeito cognoscente nem perguntavam, antes de começar a investigação, se o ser humano possuía capacidade para conhecer o mundo.
Essa despreocupação não era estranha para os próprios gregos. Ela somente parece estranha quando observada a partir da filosofia moderna, que transformou a investigação da capacidade humana de conhecer em um problema preliminar.
Descartes e o problema crítico
Com René Descartes, especialmente nas Meditações de Filosofia Primeira, a procura do fundamento da certeza desloca-se do objeto conhecido para o eu pensante. A dúvida coloca provisoriamente os conhecimentos em suspensão e procura no próprio sujeito o ponto inicial da certeza.
Segundo a exposição, Edmund Husserl considerava esse procedimento cartesiano o começo modelar da filosofia. A partir daí, o chamado problema crítico passa a perguntar se o conhecimento é possível, quais são os meios da certeza e como se fundamenta o conhecimento dos mundos exterior e interior.
2. O realismo espontâneo dos primeiros gregos
Crença natural no mundo objetivo
Os primeiros pensadores gregos partiam de um realismo dogmático e inconsciente. Eles acreditavam naturalmente que o mundo objetivo existe e pode ser conhecido. Essa crença era tão espontânea que não precisava ser formulada como doutrina.
A atitude é comparada à vida cotidiana. Quem ouve um automóvel buzinando ou percebe um cão feroz aproximar-se não interrompe a ação para investigar se o carro ou o animal são ilusões mentais. A pessoa age com base na crença espontânea de que o objeto existe e de que a percepção oferece informação suficiente para orientar sua conduta.
Dogma e crença muda
Dogma é entendido como uma afirmação ou crença positiva. Uma crença dogmática inconsciente, porém, não precisa ser verbalmente declarada. Ela somente se transforma em doutrina explícita quando surge uma hipótese contrária.
Por isso, o realismo filosófico torna-se uma posição formulada quando aparece em oposição ao idealismo filosófico. O idealismo, exemplificado por George Berkeley, afirma de alguma maneira a natureza mental ou espiritual das coisas, em vez de tratá-las como presenças materiais objetivas independentes.
A “afirmação objetiva” atribuída aos gregos deve, portanto, ser entendida como uma afirmação implícita. Eles não declaravam que o mundo existe e pode ser conhecido porque isso lhes parecia evidente. Era uma crença muda, presente em todas as experiências e formulações filosóficas.
3. As tendências afirmativa e unificadora da razão
Tendência afirmativa
A filosofia nascente possuía conteúdo positivo: afirmava determinadas explicações acerca da realidade. Por baixo das divergências entre os filósofos permanecia a crença comum na existência do mundo e na capacidade humana de conhecê-lo.
A razão não consegue permanecer apenas em negações e dúvidas. Ela precisa acreditar em algo e formular positivamente alguma compreensão do real.
Tendência unificadora
A razão também procura unificar a multiplicidade da experiência. Ela tenta condensar fenômenos variados em fórmulas inteligíveis, repetíveis e relativamente fáceis de conservar na memória.
Enquanto essa unificação permanecia limitada a domínios parciais, a diversidade entre os sistemas cosmológicos não abalava a confiança fundamental no conhecimento. Os filósofos podiam discordar sobre os elementos da Natureza, mas compartilhavam a mesma segurança realista.
4. O conflito entre unidade e multiplicidade
A unidade universal do ser
A crise começa quando a razão procura uma unidade não apenas parcial, mas universal: o ser. Essa noção parece referir-se simultaneamente à multiplicidade cambiante das coisas percebidas e à unidade imutável necessária para que algo seja reconhecido como existente.
O conflito entre o mutável e o imutável passa, então, a ocupar o centro da reflexão filosófica.
Heráclito e a mudança
Heráclito enfatiza o fluxo, a mudança e a multiplicidade. A afirmação segundo a qual ninguém se banha duas vezes no mesmo rio expressa a percepção de que a água, o fundo do rio e o próprio observador já não são exatamente os mesmos.
Sua doutrina preserva os dados imediatos da experiência, mas parece sacrificar a unidade imutável do ser.
Parmênides e a permanência
Parmênides afirma que “o que é, é; o que não é, não é”. Entre o ser e o não ser não haveria termo intermediário. Sua posição preserva a unidade, a estabilidade e a identidade do ser, mas tende a relegar a mudança e a multiplicidade ao domínio da aparência.
A articulação socrático-platônica
A exposição atribui a Sócrates, em ligação com a tradição platônica, a tentativa de articular os dois níveis: o mundo das aparências mutáveis e o das formas ou esquemas permanentes.
O exemplo de dois elefantes mostra que indivíduos mutáveis podem pertencer a uma mesma espécie porque possuem uma estrutura comum. As formas ou fórmulas dos entes seriam mais duradouras que os indivíduos particulares.
O processo dialético partiria das experiências sensíveis e procuraria os esquemas permanentes que tornam possível reconhecer os entes.
Zenão de Eleia e os paradoxos
Zenão de Eleia, discípulo de Parmênides, intensifica a dificuldade por meio de paradoxos como o da flecha. Em cada instante, a flecha está exatamente no lugar em que está. A formulação lógica parece, assim, negar o movimento que a percepção afirma.
Esses paradoxos colocam a razão refletida contra a razão espontânea e o raciocínio lógico contra aquilo que os sentidos mostram.
A multiplicação das cosmologias
A crise é agravada pela multiplicação de sistemas cosmológicos concorrentes. Heráclito, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo e Demócrito, entre outros, apresentam explicações diferentes para a origem e a composição do mundo.
Alguns procuram no fogo ou na água o elemento originário; outros recorrem ao ápeiron, entendido como o indefinido, ou aos átomos. Todos procuram uma fórmula unificadora da qual possa surgir a multiplicidade dos seres.
A divergência entre explicações, somada ao conflito interno da noção de ser, prepara o terreno para o ceticismo e para a pergunta sobre a possibilidade e a eficácia do conhecimento.
5. Técnica de leitura filosófica
Transformar a exposição em drama
O primeiro procedimento de leitura consiste em transformar o texto filosófico de uma exposição abstrata em um drama. Onde existe filosofia, existe um conflito, explícito ou implícito, que precisa ser reconstruído imaginativamente.
No capítulo de Maréchal, os personagens são os filósofos, suas experiências fundamentais, suas doutrinas e as forças históricas que conduziram à crise da certeza.
Pesquisa histórica seletiva
O leitor deve pesquisar os personagens mencionados em dicionários filosóficos e histórias da filosofia. Não é necessário estudar tudo sobre cada autor, mas somente aquilo que seja pertinente ao conflito apresentado pelo texto.
Também devem ser identificados os personagens implícitos. Um texto pode discutir com uma posição ou tradição sem mencionar nominalmente seus representantes.
As três etapas do estudo
- Compreensão esquemática: captar a fórmula geral do problema.
- Preenchimento histórico e informativo: pesquisar autores, conceitos, contextos e posições.
- Remontagem dramática: recolocar os elementos pesquisados dentro da articulação teórica original.
O tempo necessário é secundário. Um estudo aprofundado de um único texto pode ensinar mais filosofia do que a leitura superficial de muitos livros.
6. Diferença entre textos literários e filosóficos
Ficção como sonho acordado dirigido
O texto de ficção é definido como um sonho acordado dirigido. As palavras devem permitir que o leitor forme imagens, ambientes, personagens e ações sem permanecer detido na superfície verbal.
Quando a linguagem é excessivamente difícil ou opaca, o leitor tropeça na camada linguística e não consegue formar a experiência imaginativa proposta pelo texto.
Camada verbal e camada onírica
A camada verbal corresponde às palavras, aos sons, às construções e aos efeitos formais. A camada onírica é o conjunto de imagens e experiências imaginativas que surge no leitor.
O ideal do texto literário seria atravessar a camada verbal e alcançar a experiência onírica. A linguagem pode ser elaborada, mas não deve bloquear o drama nem atrair toda a atenção para si mesma.
Guimarães Rosa, Milton e Mallarmé
Em alguns textos de João Guimarães Rosa, segundo a aula, a elaboração verbal pode sobrepor-se à experiência dramática. O leitor fica encantado com as sonoridades, mas nem sempre chega a vivenciar plenamente o drama.
Algo semelhante é apontado em John Milton: suas frases musicais e encantatórias podem deter o leitor na deleitação verbal, deixando o drama em segundo plano.
Em Mallarmé, a rede verbal seria tão opaca que a imagem ou experiência onírica dificilmente chega a formar-se.
Shakespeare, Victor Hugo e Fernando Pessoa
Em Shakespeare, ao contrário, as palavras facilitariam a formação do drama e fariam a experiência imaginativa aparecer em primeiro plano.
A preferência popular por Victor Hugo, apesar de seus estereótipos e vulgaridades ocasionais, é relacionada à maior acessibilidade de sua experiência narrativa em comparação com a poesia hermética.
Os versos de Fernando Pessoa sobre uma presença sinistra no meio da noite são apresentados como exemplo de linguagem verbalmente sofisticada, mas transparente. Em poucas linhas, o leitor é colocado diretamente dentro da experiência de despertar e perceber uma presença ameaçadora.
Chico Buarque e Caetano Veloso
O expositor critica a tendência brasileira de valorizar jogos verbais, trocadilhos e sonoridades sem investigar a experiência imaginativa subjacente.
Chico Buarque de Holanda e Caetano Veloso são citados como exemplos de composições nas quais, segundo o julgamento apresentado, o esforço verbal pode ser maior que o conteúdo onírico.
A linguagem regional
A dificuldade vocabular pode ser necessária quando a própria linguagem regional constitui o meio de ingresso no universo narrado.
Em Andam Faunos pelos Bosques, de Aquilino Ribeiro, uma aldeia portuguesa acredita que um fauno está à solta depois do relato de uma jovem violentada. A linguagem local é necessária para construir a atmosfera específica daquele ambiente.
Em Cascalho, de Herberto Salles, o vocabulário da região mineradora da Bahia permite ao leitor penetrar naquele mundo social e histórico.
A dificuldade verbal é justificável quando nasce da própria experiência que a obra pretende comunicar. Balzac e Thomas Hardy são citados como autores geralmente acessíveis, enquanto a dificuldade de Charles Dickens seria, em parte, consequência da distância temporal.
7. O caráter histórico e dialógico da filosofia
Todo texto filosófico discute com outro
Ao contrário do romance, o texto filosófico sempre dialoga com outros textos ou posições. Atrás de toda afirmação aparece a figura de um adversário, mesmo quando ele não é explicitamente nomeado.
Julián Marías é citado pela fórmula segundo a qual uma tese filosófica não possui apenas a estrutura “A é B”, mas “A não é B, e sim C”.
Benedetto Croce é lembrado pela afirmação de que, para compreender um filósofo, é preciso saber contra quem ele está discutindo.
Necessidade da história da filosofia
O conhecimento da história da filosofia é condição para compreender adequadamente um texto filosófico. Uma afirmação somente revela plenamente seu sentido quando se conhece o problema, a tradição ou o autor contra o qual foi formulada.
A ideia atribuída a Jorge Luis Borges, de que para compreender um único livro é necessário ter lido muitos livros, é aplicada ao estudo filosófico.
Período de impregnação confusa
No início dos estudos, existe necessariamente um período de leitura com pouca compreensão. O estudante acumula impressões, nomes e problemas ainda desorganizados.
Essa impregnação confusa fornece o material que poderá ser posteriormente reorganizado numa compreensão mais refletida.
8. Razão espontânea e razão refletida
As divergências pertencem à razão refletida
Por baixo do conflito histórico entre as escolas filosóficas existe outro drama: as contradições surgem no plano da razão refletida, isto é, da razão que transforma experiências em fórmulas, conceitos e esquemas verbais.
No plano da razão espontânea, os filósofos partilhavam uma experiência comum da realidade. Não seria plausível que Heráclito e Parmênides percebessem mundos sensorialmente incompatíveis. Eles viam a mesma realidade, embora a expressassem por fórmulas unilaterais.
Homens despertos e homens adormecidos
Heráclito é citado pela afirmação de que os homens despertos estão no mesmo mundo, enquanto os adormecidos se encontram cada um em seu próprio mundo.
A frase é interpretada como indicação de que os seres humanos compartilham o mundo no plano da razão espontânea, mas podem separar-se em sonhos diferentes no plano das doutrinas refletidas.
As disputas filosóficas seriam, nesse sentido, conflitos entre formulações que deformam, limitam ou recortam uma experiência originária comum.
Funcionamento da razão espontânea
A razão espontânea trabalha diretamente com os dados da experiência e pode solucionar problemas antes que o sujeito consiga verbalizar o processo.
Ela é rápida, integrada à percepção e frequentemente fornece resultados corretos sem apresentar uma demonstração consciente.
Funcionamento da razão refletida
A razão refletida conserva elementos da experiência em símbolos e esquemas de memória, manipula esses esquemas e chega a formulações conceituais.
Ela é necessária para comunicar e discutir, mas funciona de modo mais lento e está sujeita a dúvidas, deformações e abstrações.
Sua operação separa elementos que, na experiência, aparecem unidos. Essa separação é útil, mas pode afastar o pensamento da realidade originária.
Mudança e permanência
Parmênides certamente percebia as mudanças físicas observadas por Heráclito. Heráclito, por sua vez, compreendia a permanência necessária para que sua própria frase sobre o rio conservasse algum sentido.
As duas doutrinas tornam-se incompatíveis quando isoladas verbalmente, mas seus conteúdos estão unidos na experiência espontânea. A realidade apresenta simultaneamente mudança e permanência.
Para que algo mude, outra coisa precisa conservar alguma estabilidade. Um movimento somente é percebido em relação a um fundo relativamente permanente.
O erro de sobrepor a explicação ao real
Os filósofos erram quando colocam a explicação acima da realidade explicada. As primeiras cosmologias, consideradas isoladamente, são insuficientes; reunidas, podem revelar dimensões complementares da experiência.
O exercício filosófico consiste em reviver cada experiência parcial e depois recuar até o nível mais profundo em que as distinções ainda não se separaram. Nesse fundo mudo estaria a solução de muitos problemas formulados verbalmente.
9. Sócrates, anamnese e conhecimento implícito
Conhecimento já presente
Sócrates procura fazer a razão espontânea falar por meio da anamnese. Por trás das opiniões, ideias e doutrinas existe algo que o indivíduo já sabe, embora esse conhecimento ainda não tenha sido formulado pela razão refletida.
No diálogo Mênon, Sócrates interroga um escravo para ajudá-lo a recordar um conhecimento que já operava implicitamente.
Examinar o processo de conhecer
Os primeiros filósofos examinaram diretamente o mundo, mas não investigaram aquilo que eles próprios haviam feito ao transformar a experiência em doutrina.
Sócrates retorna ao processo cognitivo, não mediante a dúvida crítica moderna, mas mediante a recordação. O indivíduo deve lembrar-se do material originário e do caminho pelo qual chegou à conclusão.
A conclusão conceitual deve permanecer subordinada à experiência da razão espontânea, e não substituir essa experiência.
Thomas Reid e o senso comum
Thomas Reid é mencionado como exemplo de filósofo que valorizou aquilo que denominava senso comum: conhecimentos que todos possuem sem ensino formal.
A expressão “razão espontânea” é considerada mais precisa porque não depende do número de pessoas que compartilham uma crença. Um mesmo indivíduo possui razão espontânea e razão refletida; a distinção é funcional, não estatística.
10. Compreender é reviver
Dramatização existencial
Depois de preencher as referências históricas, o leitor deve transformar novamente o texto em sonho acordado dirigido.
Compreender Heráclito significa observar imaginativamente o movimento constante do corpo, da mente e do mundo. Compreender Parmênides significa tentar conceber a supressão do ser ou a existência do nada e perceber a impossibilidade dessa operação.
Essas experiências não devem permanecer apenas no plano conceitual. Devem ser reconstruídas pela imaginação, como o leitor reconstrói o drama de uma peça ou de um filme.
Retorno ao fundo comum
Depois de reviver separadamente as experiências do mutável e do imutável, o leitor deve recordar que ambas nasceram de um fundo comum anterior à separação conceitual.
Na experiência espontânea, mudança e permanência aparecem inseparáveis. Não é possível imaginar um universo absolutamente estático nem um universo em que tudo mude sem qualquer permanência.
Objetivo metodológico
O expositor insiste que ainda não está ministrando propriamente uma aula sobre os conteúdos de Heráclito, Parmênides ou Sócrates.
O objetivo é ensinar a técnica de leitura filosófica: preencher conceitos abstratos com conteúdo histórico, imaginativo e existencial.
A leitura que conserva apenas fórmulas da razão refletida produz dúvidas e contradições aparentes. Muitas dificuldades do estudante surgem de uma confiança excessiva nas formulações conceituais e do esquecimento da experiência que lhes deu origem.
11. Linguagem, experiência e formação intelectual
Falamos o que pensamos
A razão espontânea não fala diretamente. O ser humano não consegue verbalizar tudo o que vê, sente ou experimenta.
A experiência precisa ser transformada em símbolos, esquemas conservados na memória, conceitos verbais e discurso. Por isso, as palavras expressam prioritariamente aquilo que foi pensado sobre a experiência, e não a experiência em sua totalidade.
Comunidade da experiência
Duas pessoas podem pensar e falar de modos diferentes, embora percebam o mesmo mundo. A própria possibilidade de diálogo pressupõe alguma experiência comum.
Se a discussão permanece apenas no plano das formulações conceituais, as divergências podem aumentar. Quando os interlocutores retornam ao fundo de experiência compartilhada, podem reconhecer aquilo a que as palavras se referem.
Santo Agostinho e o tempo
A observação de Santo Agostinho sobre o tempo — saber o que ele é enquanto não é solicitado a explicá-lo e deixar de saber quando precisa defini-lo — exemplifica a distância entre conhecimento espontâneo e formulação refletida.
O mesmo ocorre nas relações humanas: antes de discutir, as pessoas podem compreender-se; quando tentam estabilizar tudo em definições, começam a divergir.
12. A função da linguagem literária
Expressão analógica e simbólica
A experiência espontânea somente pode ser insinuada por uma linguagem analógica, simbólica, poética ou literária.
Na literatura, os significados não permanecem completamente estabilizados. Eles se deslocam conforme o contexto, o momento da leitura e a experiência do leitor, mantendo, porém, alguma referência comum.
Limites das linguagens filosófica e científica
As linguagens filosófica e científica operam com conceitos mais estabilizados. Elas não descrevem integralmente a experiência, mas organizam pensamentos que pretendem representá-la.
A compreensão dessas linguagens depende de o leitor reconhecer, por trás dos conceitos, uma experiência que ele próprio já conheça de algum modo.
Importância do vocabulário
Um vocabulário pobre e uma elaboração verbal deficiente impedem o indivíduo de reconhecer as experiências indicadas por discursos diferentes.
A capacidade de perceber a unidade da realidade por trás de formulações divergentes depende da riqueza, da flexibilidade e da sutileza da linguagem de cada pessoa.
13. Literatura e primeiro aprendizado humano
Primazia da formação verbal
O aprendizado das letras e da literatura é apresentado como o primeiro aprendizado humano. A inteligência não se reduz à capacidade de cálculo.
Isaac Newton e Albert Einstein são citados para ilustrar a diferença entre habilidade de cálculo e inteligência intelectual ou verbal.
Todos possuem razão espontânea, mas a razão refletida depende da formação cultural e linguística.
Animais e razão espontânea
Um jogador de polo teria afirmado que quem realmente acompanha a bola é o cavalo, não o cavaleiro. O episódio é usado para sugerir que até animais podem apresentar, em algum grau, uma adequação espontânea entre percepção e ação.
Três níveis da compreensão
- Riqueza verbal.
- Símbolos e imagens conservados na memória.
- Experiência da razão espontânea.
Os seres humanos não se compreendem apenas pela clareza das explicações, mas pela comunidade de experiências que essas explicações apenas insinuam.
14. Necessidade e perigo da razão refletida
Instrumento indispensável
A razão refletida é necessária para expressar experiências, estabelecer conceitos, comunicar argumentos e participar da experiência comum.
Sem abstração e formulação, o indivíduo não poderia transmitir o que aprendeu nem examinar suas próprias conclusões.
Risco de fechamento
Ao mesmo tempo, a razão refletida pode encerrar o sujeito dentro daquilo que ele próprio pensou, afastando-o da realidade.
Por ser lenta, abstrativa e sujeita à dúvida, ela precisa ser constantemente confrontada com a razão espontânea.
O conselho é policiar a razão refletida e interrompê-la quando ela se afasta demasiadamente da experiência originária.
Crítica ao sistema educacional
O sistema educacional é acusado de estimular continuamente a razão refletida e induzir o esquecimento da razão espontânea.
As pessoas passariam a preferir um erro que conseguem formular a uma verdade que não conseguem explicar. Também prefeririam errar acompanhadas a reconhecer sozinhas uma verdade percebida.
Compreender realmente algo, mesmo sem conseguir explicá-lo, vale mais do que persuadir muitas pessoas de uma formulação falsa.
15. Filosofia e independência intelectual
Ideias falsas e persuasão
Ideias erradas e mentiras podem difundir-se por meio da superioridade verbal, da rapidez de fala, de recursos cênicos e da capacidade persuasiva de determinadas pessoas.
A opinião pública pode basear-se em mitos, lendas e informações apresentadas como científicas sem que o público consulte a documentação ou compreenda o debate original.
Abertura à realidade e à tradição
O aprendizado filosófico é definido como conquista de independência intelectual em relação ao meio social e à cultura imediata.
Essa independência ocorre mediante dois movimentos: abertura à realidade apresentada pela razão espontânea e abertura às obras e experiências de outras épocas e culturas.
Algumas comunidades comportam-se como se somente aquilo que dizem coletivamente pudesse existir. A filosofia propõe o contrário: uma cumplicidade com o universo, isto é, fidelidade à realidade mesmo quando ela contraria a opinião dominante.
Sócrates e a solidão intelectual
Sócrates é apresentado como alguém que teria conservado por muito tempo certas percepções antes de encontrar um método para comunicá-las.
Antes de dialogar publicamente, teria mantido um diálogo solitário com a realidade. O método socrático tornaria gradualmente compreensível para os outros aquilo que ele já havia percebido.
16. Unidade e fragmentação da cultura
Cultura unitária
Os grandes momentos da literatura ocorreriam em sociedades nas quais a linguagem do poeta era essencialmente a mesma da comunidade, embora mais elaborada, condensada e eficiente.
Na Europa medieval, o universo de Dante e São Tomás de Aquino não seria inteiramente diferente daquele do cidadão comum ou do camponês. O sábio possuía mais conhecimentos, mas partilhava crenças, símbolos e sentimentos fundamentais com a sociedade.
Poesia moderna e hermetismo
Na modernidade, autores como Mallarmé e T. S. Eliot podem tornar-se incomunicáveis ao cidadão comum. Surge uma cultura para a maioria e outra para os homens cultos.
Quando o escritor deixa de representar uma cultura inteira e passa a falar apenas para um grupo, sua obra perde parte da força pública que possuíam Platão, Dante, Shakespeare ou São Tomás de Aquino.
Permanência da experiência comum
A ruptura cultural nunca é completa porque a razão espontânea permanece comum.
Mesmo numa sociedade fragmentada, o poeta ou filósofo pode falar a experiências que continuam presentes nos outros, ainda que obscurecidas.
17. O senso comum fabricado
Formação lenta do antigo senso comum
Antes dos meios modernos de comunicação, o imaginário coletivo formava-se lentamente, ao longo de gerações.
Uma ordem papal poderia levar anos ou décadas para chegar às regiões mais distantes. O chamado senso comum, no sentido associado a Antonio Gramsci, desenvolvia-se em contato prolongado com a experiência real das comunidades.
Meios de comunicação de massa
A partir do século XX, um pequeno grupo de técnicos e empresas passa a ser capaz de povoar rapidamente o imaginário coletivo.
Os meios de comunicação de massa podem produzir imagens e crenças com impacto superior ao das experiências pessoais. Surge, assim, um senso comum postiço, fabricado e distribuído em larga escala.
Consequências para o estudante
O estudante de filosofia não deveria aceitar uma crença somente por ser comum. Precisa reconhecer a possibilidade de que ela tenha sido artificialmente produzida.
O indivíduo volta, em certa medida, a uma condição primitiva: deve reconstruir símbolos e juízos a partir da experiência real porque a cultura de massas oferece pouca ajuda ou pode deformar sua percepção.
18. Capitalismo e cultura de massas
Função econômica e social
A crítica à cultura de massas não significa que ela possa ser simplesmente eliminada.
Segundo a aula, a economia capitalista liberou forças produtivas imensas e acelerou transformações econômicas e sociais. Karl Marx é citado em relação à liberação dessas forças produtivas.
A rapidez das mudanças tornaria impossível esperar a formação lenta e espontânea de uma cultura comum.
Integração fabricada
Sem algum imaginário comum produzido pelos meios de massa, a sociedade moderna poderia desintegrar-se rapidamente.
Publicitários, intelectuais, jornalistas, cineastas e profissionais do entretenimento produzem uma espécie de integração cultural forçada.
Essa solução pode ser momentaneamente necessária, mas não deve ser tratada como definitiva nem como autoridade incontestável.
Possibilidade de alternativas
A cultura de massas seria uma resposta improvisada às condições econômicas modernas, não necessariamente a melhor forma possível de organização cultural.
O estudante deve procurar alternativas pessoais e intelectuais sem imaginar que pode abolir imediatamente o sistema inteiro.
19. Desaculturação e ampliação do horizonte
Dependência da tradição
Ninguém aprende tudo por experiência própria. Todo ser humano depende do legado da cultura.
Quando a cultura recebida se torna duvidosa ou destrutiva, a solução proposta é uma desaculturação: não rejeitar mecanicamente o presente, mas ampliar o campo de referência.
Diálogo com outras épocas
O estudante deve aprender com homens de outras épocas, lugares e condições sociais. Em vez de dialogar apenas com o ambiente imediato, passa a dialogar com as grandes obras preservadas pela história.
A fórmula escolástica evocada recomenda buscar aquilo em que os homens “todos, sempre e em toda parte” acreditaram.
A crença comum da humanidade oferece um referencial mais amplo que a opinião momentânea de uma sociedade.
Imunização, não isolamento
A ampliação cultural não retira o indivíduo da sociedade. Ela o imuniza contra os efeitos incapacitantes da cultura de massas e fornece alternativas para julgar o presente.
A proposta não é combater frontalmente a cultura de massas, mas proteger a inteligência de seus efeitos daninhos.
20. Alta cultura como fonte de orientação
Referenciais superiores
O estudante não deveria alimentar-se intelectualmente apenas da Folha de S. Paulo, da Rede Globo ou da USP, mas de autores como Aristóteles, São Tomás de Aquino, Dante, Goethe e Shakespeare.
Matthew Arnold é citado pela definição de cultura como aquilo que foi feito de melhor pelos melhores homens.
Tensão com o meio social
Ao adquirir referências mais amplas, o indivíduo pode formular opiniões estranhas ao ambiente em que vive.
Ele não deve procurar aprovação permanente do meio nem transformar-se num ermitão. A tensão é resolvida quando compreende que está na sociedade para prestar algum serviço e ajudar pessoas, não para receber delas validação intelectual.
Benevolência sem dependência
A atitude recomendada combina benevolência e superioridade intelectual relativa. O estudante procura ajudar mesmo quando a ajuda é inicialmente rejeitada.
São usados exemplos de salvamento: o bombeiro que retira alguém de um incêndio contra sua resistência e crianças obrigadas a tomar vacina antirrábica depois de serem mordidas por um cão hidrófobo durante uma festa de São João.
Esses casos ilustram a possibilidade de agir pelo bem de alguém sem depender de sua aprovação imediata.
21. Melhorar pessoas, não reformar a sociedade inteira
O objetivo do curso não seria reformar toda a sociedade, mas melhorar indivíduos concretos.
Lênin e Hitler são mencionados como exemplos de projetos que pretenderam aplicar ideias gerais a toda a sociedade “a ferro e fogo”. Ninguém possuiria conhecimento suficiente para reorganizar integralmente uma sociedade.
É possível ajudar uma pessoa ou um grupo e tornar-se independente de determinados males coletivos, mas não assumir uma superioridade absoluta diante de toda a sociedade.
O indivíduo continua tendo deveres sociais e deve aceitar julgamentos legítimos, embora possa rejeitar julgamentos baseados em estereótipos e preconceitos.
22. Cultura de massas e deformação da razão refletida
A cultura de massas pode deformar profundamente a razão refletida, mas não elimina completamente a razão espontânea.
As pessoas podem preferir uma mentira compartilhada a uma verdade percebida individualmente. A razão espontânea continua operando, porém de maneira subterrânea ou inconsciente.
O trabalho intelectual deve ajudar o indivíduo a diminuir o falatório mental e reconhecer aquilo que já sabe.
Quando uma verdade espontaneamente conhecida é negada pela razão refletida, pode reaparecer de modo invertido, como algo aterrorizante, mau ou absurdo.
O indivíduo passa a odiar uma parte de si mesmo e substitui sua percepção por estereótipos absorvidos dos meios de comunicação.
23. Centralização da imprensa e unanimidade aparente
Diversidade inicial
A imprensa popular dos séculos XVIII e XIX possuía grande variedade de publicações. Nos Estados Unidos, pequenas cidades podiam ter vários jornais.
A partir das décadas de 1930 e 1940, grandes empresas começaram a adquirir veículos menores, centralizar redações e distribuir o mesmo conteúdo para numerosos jornais.
Exemplo brasileiro
A Folha de S. Paulo é citada como empresa que comprou jornais e passou a reproduzir neles conteúdo centralizado.
O Última Hora, anteriormente dotado de grande redação, teria sido reduzido a uma equipe pequena, mantendo o título e parte da aparência, mas reproduzindo material da Folha.
Aparência de consenso
Várias publicações aparentemente independentes passam a repetir a mesma informação originada de uma única central.
O público interpreta essa repetição como consenso entre fontes diversas, embora não tenha ocorrido verdadeiro debate. A conclusão é apresentada antes da confrontação.
24. Consenso científico e confronto de hipóteses
Ciência como debate
A aula afirma que um consenso científico autêntico deveria surgir da confrontação de hipóteses. A contradição e o exame de alternativas fazem parte do método científico.
Quando uma conclusão é apresentada sem exposição das hipóteses concorrentes, deve-se suspeitar de simplificação, propaganda ou supressão do debate.
Exemplos empregados na aula
O debate sobre a certidão de nascimento de Barack Obama é usado como exemplo de argumento que toma como premissa justamente o documento contestado. O porta-voz presidencial Robert Gibbs é mencionado nesse contexto.
A campanha antitabagista é apresentada como outro exemplo. O expositor afirma que o debate público teria se concentrado em direitos civis ou proibições, sem confronto suficiente entre interpretações médicas e estatísticas.
Também são mencionados o evolucionismo e o aquecimento global como temas nos quais, segundo a aula, um resultado final seria transmitido ao público sem exposição adequada das divergências.
25. Grande mídia e independência de julgamento
Desconfiança da unanimidade
O texto repete enfaticamente que a unanimidade dos grandes meios deve provocar dúvida, não confiança.
Onde existe divergência, ao menos uma busca da verdade ainda pode estar ocorrendo. Onde todos repetem a mesma fórmula, pode existir uma campanha centralizada.
A internet é mencionada como meio que permite acesso a fontes excluídas da imprensa dominante.
Veículos criticados
O New York Times, o Washington Post, a CNN e a Rede Globo são citados como exemplos de veículos dos quais intelectuais independentes poderiam afastar-se.
O Estadão e o Jornal da Tarde aparecem em relatos pessoais sobre o ambiente das redações jornalísticas.
A revista médica The Lancet é mencionada como exemplo de publicação científica que, segundo o expositor, começaria a veicular materiais de caráter propagandístico.
Consulta às fontes primárias
A recomendação central é consultar livros, pesquisas e estudos originais.
Quando uma notícia afirma que “uma pesquisa revelou” determinada conclusão, o estudante deveria procurar a pesquisa e comparar o conteúdo original com a notícia.
26. Imagens históricas fabricadas
Projeção do presente sobre o passado
A cultura de massas tende a interpretar outras épocas como se possuíssem os mesmos meios contemporâneos de controle e comunicação.
A ideia de que a Igreja Católica impunha uniformemente sua vontade em toda a Europa é contestada pela observação de que o papa não dispunha de meios rápidos para controlar bispos, cardeais e comunidades distantes.
Concílios e divergência
Os Concílios existiam precisamente para conciliar posições divergentes. Sua própria existência indicaria que a Igreja não funcionava como bloco inteiramente uniforme.
A infalibilidade papal, formalizada no século XIX, é contrastada com a fragmentação e as discussões de períodos anteriores.
Judeus e Roma
A aula afirma que judeus perseguidos em outras regiões buscavam proteção em Roma, onde o papa podia defendê-los contra autoridades locais.
Um autor transcrito de modo incerto como “Poliakovsky” e a obra Os banqueiros judeus do Papa são mencionados como referência desse tema.
O ponto central não é desenvolver a história eclesiástica, mas mostrar como fórmulas repetidas pela comunicação de massas podem produzir imagens simplificadas do passado.
27. Apocalipse e imaginação coletiva
Prudência diante de interpretações apocalípticas
Pastores protestantes que identificam o presente com o Apocalipse ou com uma “Era da mentira” são mencionados.
O expositor considera vã a tentativa de determinar em que capítulo da história sagrada a humanidade se encontra.
A data do Apocalipse seria desconhecida, e o indivíduo não deveria alimentar terrores baseados em especulações.
Il giudizio universale
O filme Il giudizio universale, de Vittorio De Sica, é usado como ilustração humorística.
Uma voz anuncia o Juízo Universal, a população entra em pânico, e ao final a mesma voz informa que o acontecimento foi cancelado.
O exemplo mostra o risco de organizar a vida em torno de previsões apocalípticas incertas.
28. Missão intelectual dos estudantes
Espírito de missão
Os alunos não devem considerar o curso apenas um serviço consumido mediante pagamento.
Sua participação é apresentada como missão e obrigação para com o país. O Brasil necessitaria de uma geração dotada de alta cultura e relativamente desaculturada em relação ao meio imediato.
Responsabilidade individual
O texto atribui aos estudantes a responsabilidade de criar um núcleo sério de vida intelectual.
O impacto social não deve ser diretamente planejado. Ele surgiria como consequência do estudo sincero e consistente.
29. A razão espontânea pode ser aprimorada?
Atenção e docilidade
À pergunta de um aluno, responde-se que talvez não seja possível medir ou graduar a razão espontânea, mas o indivíduo pode tornar-se mais atento e dócil às suas operações.
A maior parte das ações humanas depende dela. Ela não se reduz a instintos ou reflexos condicionados, porque realiza operações cognitivas complexas.
Confessar aquilo que já se sabe
O aprimoramento consiste em reconhecer interiormente aquilo que já se sabe e impedir que a razão crítica produza perguntas artificiais sobre conhecimentos fundamentais.
Isso não elimina a razão refletida; apenas a subordina à realidade e limita seu impulso de problematizar indefinidamente.
Crítica ao excesso de razão crítica
A cultura ocidental é acusada de possuir excesso de crítica e pouco respeito pela realidade.
Kant é citado como exemplo de formulações excessivamente artificiais ligadas à crítica do conhecimento.
Giordano Bruno é lembrado pela advertência de que o desenvolvimento desse caminho poderia levar as pessoas a duvidar da própria existência.
Os desconstrucionistas são criticados pela ideia de que o sentido de um texto remete apenas a outros textos. Contra isso, os exemplos de Balzac e Fernando Pessoa mostram que o texto produz experiências imaginativas, não apenas cadeias de palavras.
30. Autoridade universitária e conhecimento
Rebelião e novo autoritarismo
Os movimentos estudantis dos anos 1960 teriam enfraquecido a autoridade tradicional dos professores.
Posteriormente, antigos estudantes rebeldes tornaram-se docentes e reconstruíram formas ainda mais fortes de intimidação acadêmica.
A autoridade administrativa seria usada para compensar a ausência de verdadeiro conhecimento.
Autoridade intelectual
A verdadeira autoridade intelectual nasce do conhecimento e da sinceridade, não de instrumentos burocráticos, administrativos ou policiais.
O conselho aos alunos é não temer professores universitários, mas estudar profundamente e tornar-se capaz de corrigir erros com segurança.
Estudo como defesa
A independência não nasce da autoafirmação abstrata. Surge do estudo, da reflexão, da seriedade e da coragem.
Maquiavel é citado pela fórmula segundo a qual seria melhor ser temido que amado, aplicada polemicamente à relação com autoridades acadêmicas consideradas charlatãs.
31. Saber mais e reconhecer a própria ignorância
Quanto mais o indivíduo estuda, mais claramente percebe aquilo que lhe falta. Essa consciência não é fracasso, mas sinal de autoconhecimento.
Uma narrativa histórica totalmente verdadeira exigiria conhecer todos os vínculos concretos entre pessoas, ações e consequências, algo praticamente inalcançável.
Por isso, toda narrativa histórica contém saltos preenchidos pela ignorância do narrador.
Micro-história
O expositor afirma estar persuadido de que somente existe verdadeira micro-história, entendida como investigação dos encadeamentos concretos entre agentes e acontecimentos.
As grandes sínteses inevitavelmente omitem conexões e simplificam processos.
32. Teoria dos quatro discursos e mapa da ignorância
A teoria dos quatro discursos é utilizada para classificar crenças conforme seu grau de credibilidade:
- Possível: pode ser de um modo ou de outro.
- Verossímil: parece ser de determinada maneira.
- Razoável: existe uma probabilidade significativa a favor.
- Certo: há certeza, como em “dois mais dois são quatro”.
O estudante deve listar suas crenças e classificá-las segundo esses níveis. O resultado é um mapa da ignorância.
Sem esse mapa, a pessoa não distingue aquilo que sabe daquilo que apenas supõe. Saber alguma coisa inclui saber qual é o grau de certeza ou credibilidade desse conhecimento.
33. Professores sinceros e burocratização do ensino
Exemplos positivos
Um antigo professor de matemática é lembrado como mau didata, mas matemático sincero e apaixonado por sua matéria.
Francisco de Almeida Magalhães, professor de História, é descrito como estudioso cercado de livros anotados, alguém que dedicava a vida ao conhecimento.
Professores burocráticos
Em contraste, muitos docentes são descritos como funcionários interessados apenas em cumprir horário e receber salário.
O expositor considera grave entregar crianças e adolescentes a pessoas indiferentes à sua educação.
Paulo Ghiraldelli e Emir Sader são citados como representantes, segundo o julgamento da aula, da precariedade do ambiente universitário brasileiro.
Construção em pequena escala
Em vez de esperar uma reforma nacional imediata, o grupo deve realizar um trabalho modesto, real e sério.
Um conjunto relativamente pequeno de pessoas dedicadas à vida intelectual já poderia produzir efeitos futuros.
34. A metáfora da máquina e o sistema dos ventos
Toda comparação é parcial
Um aluno relata que tende a enxergar o sistema dos ventos como uma máquina. A resposta afirma que máquina é uma metáfora: apresenta semelhanças e diferenças em relação ao fenômeno.
O estudante deve investigar os aspectos em que a metáfora é válida e aqueles em que falha.
Multiplicidade de imagens
O sistema dos ventos também pode ser imaginado como diálogo mitológico entre forças naturais, sinfonia com instrumentos diversos ou outros esquemas analógicos.
Todas essas imagens podem ser exatas sob determinado aspecto e inexatas sob outro.
Crítica ao modelo mecânico
O modelo da máquina seria privilegiado porque sugere controle. Ele projeta sobre o universo o ideal de que o ser humano poderá operar a Natureza como quem aperta botões.
A incapacidade humana de controlar integralmente os ventos mostra os limites dessa metáfora.
35. Bom-mocismo e aparência de sanidade
Persuasão pelo comportamento
Um aluno pergunta como enfrentar discussões em que a pessoa que fala calmamente parece racional, enquanto quem reage com indignação parece desequilibrado.
Fritjof Schuon é citado pelo exemplo de alguém que afirma calmamente que dois mais dois são cinco, enquanto outro protesta que são quatro. O público tenderia a favorecer o primeiro por causa de sua aparência de serenidade.
Ritual grupal
O chamado bom-mocismo é descrito como ritual de segurança coletiva. Antes de discordar, o debatedor elogia extensamente o interlocutor para preservar a aparência de equilíbrio.
A USP é citada como ambiente em que esse procedimento seria recorrente.
Verdade acima da polidez ritual
O respeito pelo interlocutor não pode ser superior ao respeito pela ciência discutida, pela verdade ou por Deus.
Quando uma afirmação é evidentemente absurda, deve ser chamada de absurda, sem necessidade de elogios artificiais.
36. Normalidade, sinceridade e modelos humanos
Critério de normalidade
A aparência social não é critério suficiente de sanidade. O indivíduo deve escolher cuidadosamente seus modelos e juízes.
O psicólogo clínico Juan Alfredo César Müller é apresentado como modelo pessoal de equilíbrio e autoridade psicológica.
Hobbes e Jean Bodin
Thomas Hobbes e Jean Bodin são comparados diante das guerras de religião.
Hobbes teria reagido com medo e concebido um Estado tirânico; Bodin teria analisado possibilidades com maior serenidade.
A comparação é usada para diferenciar reação emocional desordenada de equilíbrio intelectual.
Sinceridade
A normalidade verdadeira estaria ligada à sinceridade e à ausência de fingimento.
A pessoa não deve organizar sua vida em torno da impressão que produz, pois maliciosos, invejosos e mentirosos interpretarão suas ações conforme suas próprias disposições.
37. Inveja e amor a si mesmo
Aprender com quem sabe mais
O expositor afirma nunca ter sentido inveja do Dr. Müller, embora ele soubesse responder às suas perguntas.
O conhecimento superior de outra pessoa deve ser apreciado como oportunidade de aprendizagem. A inveja impede o crescimento porque transforma uma excelência alheia em motivo de ressentimento.
Cultura da inveja
A escolha de atores menos belos no cinema é interpretada, de modo anedótico, como possível reflexo de uma cultura da inveja.
Marcello Mastroianni é citado como exemplo de ator cuja beleza poderia provocar ressentimento.
Amar o próximo como a si mesmo
O mandamento de amar o próximo como a si mesmo é utilizado para defender a necessidade de amor próprio.
Quem não aceita a si mesmo dificilmente poderá relacionar-se corretamente com os outros.
A vergonha fundamental deveria ocorrer diante de Deus e dos próprios pecados, não diante da opinião social.
38. Cultura do povo e excelência individual
Um aluno pergunta se a exaltação acadêmica do “saber popular” esconderia o afastamento dos intelectuais em relação às pessoas comuns.
A resposta afirma que descobertas e realizações surgem inicialmente do trabalho concentrado de indivíduos ou pequenos grupos e depois se disseminam pela sociedade.
Louis Pasteur
A descoberta da vacina antirrábica por Louis Pasteur é usada como exemplo.
Não teria sido a sociedade francesa inteira que realizou a descoberta, mas um indivíduo que se dedicou ao problema.
Os “melhores” são definidos como aqueles que realizam o bem. A exaltação indiscriminada do coletivo seria, em certos casos, expressão de inveja contra a excelência.
39. Formação do fundo de experiência
Experiência estética
O aluno deve buscar experiências estéticas do mais alto nível.
A Quinta Sinfonia, de Beethoven, é sugerida como obra a ser ouvida repetidas vezes até impregnar o imaginário.
A ópera As Valquírias, de Richard Wagner, é mencionada como obra escutada milhares de vezes e transformada em estrutura interior capaz de sustentar inúmeras analogias.
Não se trata inicialmente de analisar, mas de contemplar e assimilar.
Experiência moral
Também se recomenda ler vidas de grandes santos e heróis para conhecer possibilidades humanas superiores.
A participação imaginativa nessas vidas amplia o repertório moral, mesmo quando o estudante não conhece pessoalmente indivíduos dessa grandeza.
Evitar vulgaridade e feiura
O estudante deve evitar ambientes que o dispersem, vulgarizem ou rebaixem.
Festas marcadas apenas por bebida, pagode e conversas banais são apresentadas como exemplos de más influências.
Também se recomenda procurar lugares belos. Avenida São João, Parque Dom Pedro, São Paulo, Poá, Santos, Washington e Virgínia aparecem em comparações entre ambientes degradados e paisagens agradáveis.
Um verso de Federico García Lorca, “no, yo no quiero verlo”, é lembrado como expressão da recusa em contemplar a feiura.
40. Intelectuais mencionados
Um aluno pergunta se Jeffrey Nyquist, Lev Navrozov e Gerald Celente podem ser considerados intelectuais de primeiro plano.
A resposta é afirmativa, com destaque para Navrozov, descrito como gênio científico, e Nyquist, apresentado como importante analista estratégico nos Estados Unidos.
41. Simplificação científica
Átomo e origem filosófica
Um aluno observa que professores de química e física podem desconhecer a origem filosófica da ideia de átomo e atribuí-la exclusivamente a John Dalton e à ciência moderna.
Isso é relacionado à confusão entre ciência e tecnologia e à tendência da formação especializada de estreitar o horizonte intelectual.
Ciência como atividade automatizável
A ciência tende à simplificação, estabilização e repetição de procedimentos.
Seu ideal seria produzir esquemas suficientemente simples para serem executados por computadores.
Essa característica torna a ciência indispensável, mas potencialmente lesiva quando transforma seu método especializado em modelo de toda a inteligência humana.
42. Camões e a unidade da cultura
Sôbolos rios que vão
Nas redondilhas Sôbolos rios que vão por Babilônia, Camões assume a perspectiva do judeu exilado na Babilônia que se recorda de Sião.
Progressivamente, a lembrança da pátria terrestre converte-se em símbolo da lembrança humana da pátria celeste, numa passagem da experiência histórica e religiosa para uma dimensão associada à filosofia platônica.
Linguagem comum e elevação filosófica
A linguagem utilizada pelo poeta era essencialmente a linguagem da população portuguesa de seu tempo, embora trabalhada com extraordinária técnica.
Uma pessoa comum poderia acompanhar o poema sem romper com sua sensibilidade cotidiana e elevar-se, por meio dela, a uma compreensão filosófica.
Essa continuidade entre imaginação popular e elaboração intelectual constitui a unidade da cultura.
Terra bem-aventurada
Os versos comentados exprimem o desejo de que tudo aquilo que o poeta escreveu seja esquecido caso ele próprio esqueça a terra de origem, entendida como Sião ou pátria celeste.
O significado é considerado imediatamente compreensível, apesar da elevada elaboração formal.
O pensamento comum em alto nível
O objetivo da alta cultura deveria ser expressar, em nível superior, aquilo que o homem comum também percebe ou diria se possuísse os mesmos recursos linguísticos.
O intelectual não deve inventar uma consciência artificialmente separada do povo, mas dar voz clara e elaborada ao fundo comum da experiência humana.
43. Chesterton e São Tomás de Aquino
O livro de G. K. Chesterton sobre São Tomás de Aquino é recomendado.
Um grande especialista em São Tomás, cujo nome aparece incompreensível na transcrição, teria declarado que daria um braço para ter escrito aquela obra.
A tese atribuída a Chesterton é que São Tomás era um homem comum de sua época, porém mais inteligente e capaz de expressar com clareza aquilo que estava presente na experiência dos demais.
Camões também é apresentado como homem comum de seu tempo dotado de talento verbal extraordinário. Sua grandeza consistiria em dizer o que as outras pessoas diriam se possuíssem seus recursos.
Principais ideias da aula
Técnica de leitura
- Um texto filosófico deve ser transformado de exposição abstrata em drama imaginativamente revivido.
- O estudo deve seguir três momentos: síntese do problema, pesquisa histórica e remontagem existencial do conflito.
- Todo texto filosófico é um diálogo histórico com outros textos, autores ou doutrinas.
- A compreensão real exige retornar dos conceitos às experiências que lhes deram origem.
Razão espontânea e razão refletida
- A razão espontânea opera diretamente sobre a experiência, de maneira rápida, integrada e silenciosa.
- A razão refletida transforma a experiência em símbolos, conceitos e discursos.
- A razão refletida é indispensável, mas pode afastar-se do real e produzir contradições artificiais.
- Muitas doutrinas aparentemente incompatíveis são formulações parciais de uma experiência comum.
- A conclusão conceitual deve permanecer subordinada à experiência.
Literatura e linguagem
- A literatura funciona como sonho acordado dirigido.
- A linguagem literária comunica analogicamente experiências que não podem ser inteiramente estabilizadas em conceitos.
- A formação literária amplia o vocabulário, o imaginário e a capacidade de reconhecer experiências.
- A alta literatura deve unir elaboração superior e experiência humana comum.
Filosofia e independência intelectual
- Estudar filosofia significa conquistar independência diante da opinião dominante.
- Essa independência nasce de estudo, coragem, sinceridade e ampliação das referências culturais.
- O estudante deve distinguir certeza, probabilidade, verossimilhança e possibilidade.
- Conhecer a extensão da própria ignorância é parte essencial do saber.
Alta cultura e cultura de massas
- A cultura de massas pode produzir um senso comum fabricado.
- A unanimidade aparente não substitui o confronto de hipóteses.
- A solução não é o isolamento, mas a ampliação do diálogo com grandes obras e autores.
- O indivíduo deve proteger-se intelectualmente sem pretender reformar toda a sociedade.
Unidade cultural
- Grandes épocas culturais unem a linguagem do poeta ou filósofo à experiência da sociedade.
- Quando alta cultura e linguagem comum se separam, literatura e filosofia tendem ao hermetismo.
- Camões, Dante, Shakespeare e São Tomás são apresentados como exemplos de autores que elevaram uma experiência cultural compartilhada.
- O objetivo é dizer em alto nível aquilo que as pessoas reconhecem como expressão verdadeira de sua própria experiência.
Referências citadas
Filósofos, pensadores e intelectuais
Olavo de Carvalho; Joseph Maréchal; Hesíodo; Heráclito; Parmênides; Zenão de Eleia; Empédocles; Anaxágoras; Leucipo; Demócrito; Sócrates; Platão; René Descartes; Edmund Husserl; George Berkeley; Julián Marías; Benedetto Croce; Jorge Luis Borges; Thomas Reid; Santo Agostinho; Aristóteles; São Tomás de Aquino; Antonio Gramsci; Karl Marx; Immanuel Kant; Giordano Bruno; Nicolau Maquiavel; Fritjof Schuon; Thomas Hobbes; Jean Bodin; Matthew Arnold; G. K. Chesterton; Jeffrey Nyquist; Lev Navrozov; Gerald Celente; Paulo Ghiraldelli; Emir Sader; Francisco de Almeida Magalhães; Juan Alfredo César Müller.
Escritores, poetas, músicos e artistas
Luís de Camões; João Guimarães Rosa; John Milton; William Shakespeare; Victor Hugo; Stéphane Mallarmé; Fernando Pessoa; Chico Buarque de Holanda; Caetano Veloso; Aquilino Ribeiro; Herberto Salles; Honoré de Balzac; Thomas Hardy; Charles Dickens; Dante Alighieri; Johann Wolfgang von Goethe; T. S. Eliot; Ludwig van Beethoven; Richard Wagner; Federico García Lorca; Vittorio De Sica; Marcello Mastroianni; Michael Jackson.
Cientistas e figuras históricas
Albert Einstein; Isaac Newton; Louis Pasteur; John Dalton; Vladimir Lênin; Adolf Hitler; Barack Obama; Robert Gibbs.
Livros, poemas e obras
O Ponto de Partida da Metafísica; A caminho de uma primeira crise da certeza; Teogonia; Meditações de Filosofia Primeira; Mênon; Diálogos Platônicos; Sôbolos rios que vão; Andam Faunos pelos Bosques; Cascalho; livro de Chesterton sobre São Tomás de Aquino; Os banqueiros judeus do Papa; Il giudizio universale; Quinta Sinfonia; As Valquírias.
Conceitos fundamentais
Teoria do Conhecimento; crítica do conhecimento; problema crítico; problema da certeza; sujeito cognoscente; objeto do conhecimento; cosmogonia; cosmologia; realismo dogmático; realismo filosófico; idealismo filosófico; crença muda; ser; não ser; unidade; multiplicidade; mudança; permanência; ápeiron; átomos; ceticismo; razão espontânea; razão refletida; senso comum; anamnese; dialética; formas; ideias platônicas; experiência imaginativa; sonho acordado dirigido; camada verbal; camada onírica; dramatização do texto; expressão analógica; expressão simbólica; independência intelectual; alta cultura; cultura de massas; cultura unitária; cultura fragmentada; senso comum fabricado; desaculturação; consenso científico; confronto de hipóteses; bom-mocismo; autoridade intelectual; micro-história; mapa da ignorância; metáfora da máquina; unidade da cultura.
Instituições e veículos
Curso Online de Filosofia; Seminário de Filosofia; É Realizações; Universidade de São Paulo; Igreja Católica; Concílios; Folha de S. Paulo; O Globo; Rede Globo; Última Hora; O Estado de S. Paulo; Jornal da Tarde; New York Times; Washington Post; CNN; The Lancet; meios de comunicação de massa; internet; sistema educacional.
Lugares
Grécia; Brasil; Estados Unidos; França; Portugal; Europa; Roma; Havaí; Japão; Califórnia; Virgínia; Washington; Bahia; São Paulo; Santos; Poá; Avenida São João; Parque Dom Pedro; Anhangabaú; Babilônia; Sião; pátria celeste.
Eventos e períodos
Aurora da civilização grega; passagem das cosmogonias míticas às cosmologias filosóficas; primeira crise da certeza; surgimento do ceticismo; guerras de religião; Renascença; movimentos estudantis dos anos 1960; centralização da imprensa; campanha antitabagista; debates sobre evolucionismo e aquecimento global; Apocalipse; Juízo Universal; desenvolvimento da economia capitalista; formação do senso comum fabricado; fragmentação entre alta cultura e cultura de massas.
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