Platão · Sofista
A REALIDADE DO NÃO-SER
A natureza da falsificação ou, ainda, sobre a semelhança entre verdade e mentira
Esquema do diálogo
I. Prólogo [216A–217A]
II. Esclarecimentos metodológicos [217A–218B]
- Escolha do método dialógico
- Determinações do argumento
- Exemplo explicativo do procedimento diairético: definição do pescador com anzol
III. Definições preliminares sobre o sofista [221C–236D]
- Primeira definição: o sofista é um caçador de jovens ricos
- Segunda definição: o sofista é um mercador de coisas concernentes à alma
- Terceira definição: o sofista é um revendedor varejista de noções
- Quarta definição: o sofista é, na verdade, um erista ou praticante da erística[1]
- Quinta definição: o sofista é aquele que purifica a alma do saber aparente [refutador]
- Sexta definição: o sofista é um imitador que, por meio de palavras, representa as coisas de acordo com as aparências
IV. O eleatismo e o problema do não-ser [236D–242B]
- O não-ser não é pensável, predicável nem exprimível
- Não se podem atribuir predicados ao não-ser: nem ser, nem uno, nem múltiplo
- A aporia da imagem: ela é, simultaneamente, ser e não-ser
- O entrelaçamento entre ser e não-ser impõe a superação do eleatismo
V. O problema do ser [242B–248A]
- Diversidade de opiniões entre os pré-socráticos
- Materialismo radical e sua superação
VI. Alguns gêneros supremos [248A–258D]
- Introdução ao problema
- Ser, movimento e repouso
- Unidade e multiplicidade do ponto de vista da predicação
- Participação recíproca entre os gêneros principais [sumos gêneros]
- Definição da dialética e sua identificação com a filosofia
- Os gêneros supremos fundamentais: ser, movimento, repouso, identidade e alteridade
- Relações possíveis entre os cinco gêneros principais fundamentais
- O não-ser como alteridade
VII. Superação do eleatismo: o não-ser, no sentido de “diverso”, é [258D–259D]
VIII. Possibilidade de opiniões e discursos falsos [259D–264B]
- Condições de possibilidade do discurso: o entrelaçamento recíproco das Formas
- Possibilidade de entrelaçamento entre ser e não-ser
- O discurso é o entrelaçamento de verbos e substantivos
- O discurso refere-se necessariamente a um objeto
- Pensamento, discurso, opinião e aparência
IX. Retomada do procedimento diairético (por segmentação ou divisão) para definir o sofista [264B–267B]
- Reformulação do problema inicial
- Arte produtiva divina e humana
- Produção de coisas reais e de aparências
- Imitação com o corpo e a voz
- Imitação daquilo que se conhece ou daquilo que se ignora
X. Definição conclusiva do problema da essência do sofista [267D–268D]
Personagens, época e nexo com Teeteto
Do ponto de vista cênico, Sofista é a sequência do diálogo Teeteto e será seguido por Político. Nesse diálogo, entra em cena o estrangeiro de Eleia, personagem fictício que atua como porta-voz de Platão e interage com o jovem Teeteto do início ao fim. O estrangeiro é apresentado como seguidor de Parmênides e da escola eleática, elemento literário que evidencia a ligação desse diálogo com o anterior. Sócrates — que, em Teeteto, se calou ao ser inquirido por Teodoro a respeito do velho Parmênides, cuja filosofia rivalizaria com a tese do eterno devir de Heráclito — não protagoniza Sofista. Nesse diálogo, a tese de Parmênides é apresentada e analisada, mas também confrontada com a necessidade de sua superação, imposta pela busca de uma definição do sofista.
Sofista integra a última fase da obra de Platão, à qual também pertencem Teeteto, Parmênides, Político e Filebo. Todas essas obras apontam para a “doutrina não escrita”, denominada “protologia” por G. Reale, pois consiste na postulação dos princípios que estruturam a realidade e abrangem as dimensões sensível e inteligível, bem como os aspectos comuns a ambas. Esses princípios mantêm uma relação bipolar, isto é, são opostos interdependentes: um deles é o princípio da unidade, o UNO; o outro é o princípio da dualidade indefinida, a DÍADE.
A relação entre esses dois princípios — unidade e multiplicidade — manifesta-se nas coisas e, por extensão, na maneira de compreendê-las. Por esse motivo, o diálogo emprega o método “diairético” para definir o fenômeno do sofista. A fim de esgotar o conjunto de classes presentes em um ser, é necessário dividir sucessivamente a ideia que o define, até abarcar todas as partes dessa unidade, isto é, a essência do sofista. O fato de cada essência — de homem, sofista, filósofo, político, pescador com anzol etc. — ser composta de classes revela a estrutura bipolar da realidade. Platão procura compreendê-la por meio da especulação, ou seja, de conceitos abstratos de máxima generalidade, aplicáveis a toda a extensão do ser, a tudo o que existe. Assim, legou à filosofia a disciplina chamada “metafísica”.
Para compreender cada fenômeno que se apresenta diante de nós, é preciso estudar sua natureza íntima e apreender o conjunto de determinações ou causas que fazem com que ele seja o que é. A metafísica é a exploração do conhecimento concreto no campo especulativo, isto é, no âmbito do pensamento abstrato, cujo objetivo consiste em alcançar, partindo de uma percepção particular, as razões universais de determinado fenômeno.
Metafísica platônica e confronto com a singularidade presente na realidade
O diálogo Sofista tem o mérito incontestável de revelar a relação intrínseca entre a especulação e o dever para com a realidade que se impõe ao intelecto. Ao contrário do que se imagina, o ser humano que reflete não cria quimeras ou fantasias para brincar na chamada torre de marfim. Muito pelo contrário: a realidade bruta dos fenômenos e suas consequências fatais impõem ao homem o desafio de compreender as razões últimas pelas quais algo existe e é de determinada forma.
A imagem do filósofo como alguém suspenso no ar, semelhante a uma águia, é evocada em Teeteto para mostrar quanto o homem incapaz de reflexão se sente desconfortável diante de quem reflete e alcança uma explicação universal para coisas aparentemente pequenas. Em Sofista, essa imagem encarna-se na busca do estrangeiro de Eleia por uma definição do sofista.
Por que é importante definir o sofista?
O tipo humano que conduz multidões ao erro poderia passar despercebido por alguém que jamais tivesse formulado a pergunta: errar é tão grave assim?
Errar é grave no plano particular? No plano técnico? No plano científico? Não. Na verdade, o erro pode até ser pedagógico, como vimos claramente em Teeteto. O jovem comete erros ao longo de sua aventura em busca da compreensão, mostrando que a errância é o estado natural de quem procura conhecer e se depara, em primeiro lugar, com a consciência daquilo que o objeto buscado não é. Descobrir onde se erra faz parte do caminho do conhecimento.
Há, porém, um plano em que o erro pode ser fatal: o plano político. Quando arrastamos multidões a cometer tolices e a tomar decisões profundamente erradas, surgem fenômenos como câmaras de gás que extirpam grupos humanos, campos de trabalhos forçados destinados aos autores de “crimes de pensamento”, a derrocada total de uma comunidade — como no caso da Venezuela — ou, no caso específico de Platão, a condenação de um filósofo à morte.
Convém observar que, segundo Plutarco e Diógenes Laércio, Sócrates não foi o primeiro filósofo levado ao paredão em Atenas. Anaxágoras, filósofo jônico que inclusive era frequentado por Sócrates, foi processado, julgado e condenado em Atenas por trair a religião pública. Segundo alguns historiadores, teria começado com ele o processo que culminaria na execução de Sócrates. Depois de sofrer uma condenação por impiedade, porém, Anaxágoras teria se exilado em Lâmpsaco, colônia de Mileto, na Jônia, onde fundou uma escola de filosofia. O próprio Péricles, conhecido general grego, teria sido seu discípulo. Cabe ainda assinalar que Anaxágoras é o filósofo mais citado nos diálogos de Platão, embora neles não exista uma única menção à sua condenação. Por essa razão, alguns historiadores consideram o episódio um mito histórico, apesar dos registros de Plutarco e Diógenes Laércio.
Seja como for, o fenômeno de filósofos condenados por retores hábeis na arte da erística era perfeitamente palpável para Platão. Por isso, investigar o sofista significa também investigar por que os seres humanos podem ser induzidos ao erro.
E o que significa errar para Platão? Significa confundir aspectos dos mundos sensível e inteligível. A causa de todos os erros aos quais o pensamento humano está sujeito é não saber nada e acreditar que se sabe — a velha lição socrática.
Por que a figura do sofista exprime tão bem a tensão entre verdade e falsidade?
O sofista é fabricante de simulacros, cópias e imitações, e não de verdadeira ciência. Ele é mestre na arte de criar falsificações do ser.
Mas como é possível falsificar o ser? Definindo cada coisa incorretamente, com base em formas diferentes daquelas que de fato a definem.
Como o erro é possível — pois todos confundimos continuamente aspectos dos mundos inteligível e sensível —, o sofista joga com essa possibilidade persistente entre os homens.
Definições do sofista e definição indireta do filósofo
Após as seis definições iniciais acerca da natureza do sofista, o diálogo apresenta a maldade como discórdia e enfermidade da alma, semelhante à fealdade do corpo. Dessa comparação entre fealdade e maldade surge a alusão a duas medicinas: a ginástica, destinada a corrigir a fealdade física; e a erística ou refutação, por meio da qual alguém purga a alma das opiniões falsas que a contaminam e pervertem.
A matriz da ignorância consiste em não saber que não se sabe e em julgar que se sabe aquilo que não se sabe, isto é, em ignorar que se erra. Por isso, o ensino do exercício erístico — que vimos ocorrer em Teeteto, diálogo no qual Sócrates refuta as três definições propostas pelo jovem — seria um remédio capaz de curar a alma dessa doença.
Embora a descrição da refutação apareça em Sofista, essa passagem do diálogo — parte III, definição 5 — alude a outra prática, distinta da sofística, mas que não é nomeada. Trata-se da filosofia, definida por Platão, em outros diálogos, como medicina da alma e purgação dos erros e, portanto, do erro matricial: acreditar que se sabe quando não se sabe, ou ignorar o próprio erro.
A estrutura hierárquica do Ser e a estrutura bipolar do real
Konrad Gaiser, na obra Platão como escritor, afirma:
“O leitor deve esforçar-se por captar a verdade nesses escritos não diversamente de como se esforça para entender as sentenças dos oráculos. Aos diálogos platônicos pode-se aplicar o que Heráclito disse do Deus de Delfos: ‘Não afirma nem esconde, mas deixa entender por sinais’ (aute legei, aute kruptei, ala semainei). São textos cuja significação se manifesta ao leitor somente por meio da interpretação e de um esforço pessoal de assimilação”.
Depois de evocar esse juízo, G. Reale ressalta que tal esforço deve ainda apoiar-se objetivamente no que a tradição indireta transmitiu acerca das doutrinas não escritas.
Analisemos, então, o diálogo Sofista à luz da Protologia, a doutrina não escrita de Platão, à qual o próprio filósofo alude em diversos diálogos.
Proto-logia = arka prota = princípios primeiros
Como já discutimos, o mundo inteligível é composto de ideias. Elas são realidades unas, estáveis e eternas, embora múltiplas. A quais princípios superiores as ideias se referem?
UNIDADE — SER
DÍADE — DUALIDADE INDETERMINADA (desdobramento indefinido do uno em outro)
Tudo o que é posterior aos princípios, tanto na dimensão inteligível quanto na dimensão sensível da realidade, implica a mistura e a síntese de ambos.
Estrutura hierárquica da realidade
A divisão categorial da realidade está na base da argumentação de Sofista. Trata-se do procedimento diairético, que consiste em dividir cada raciocínio em duas categorias, escolher uma delas e dividi-la novamente em outras duas, prosseguindo dessa maneira até o fim do diálogo. Além de iluminar as linhas fundamentais das “doutrinas não escritas”, esse procedimento também está na base da posterior doutrina aristotélica das categorias.
Conforme vimos em Fédon, o conhecimento da verdade consiste em passar do plano sensível ao plano inteligível, conquistando:
- primeiro, a doutrina das ideias;
- depois, a doutrina dos princípios.
Os princípios dizem respeito ao contraste permanente entre unidade e multiplicidade e, portanto, entre uno e díade. Esses princípios estão indissoluvelmente ligados, de modo que não é possível compreender a realidade empregando apenas um deles como chave explicativa dos fenômenos e de suas causas determinantes.
Os gêneros maiores apresentados no diálogo — ser, repouso, movimento, identidade e alteridade — não constituem uma tabela das categorias do mundo inteligível. São gêneros invocados no esforço de submeter a visão eleática do real, que identifica unidade e ser, a um exame crítico consequente no chamado “parricídio de Parmênides”.
Na prática, sempre diante do desafio de explicar o sofista e sua arte, Platão recorre ao gênero da alteridade, isto é, do diverso, para mostrar que o não-ser, considerado “inviável e indizível” por Parmênides, pode ser compreendido em dois sentidos:
- negação do ser ou oposição;
- diversidade em relação ao ser ou diferença.
No segundo caso, o não-ser pode existir porque possui uma natureza específica: a alteridade. O não-ser cuja essência — causa ou ideia matriz — é a alteridade constitui um gênero possível na estrutura da realidade, como comprovam o sofista e sua arte.
Os exemplos de falsificação são inúmeros e revelam a variedade de formas concretas assumidas pela arte de falsificar o ser, isto é, de produzir aquilo que designamos como “mentira”.
Platão rejeita a identificação parmenídica entre UNO e SER com os seguintes argumentos:
- Para ser coerente, o monismo absoluto — tudo é um — deveria incluir também o nome nessa unidade. Contudo, o nome é diferente daquilo a que se refere, o que demonstra que a multiplicidade opera no mundo.
- Em seu poema Sobre a natureza, Parmênides identifica o uno, equivalente ao todo, com uma esfera. Desse modo, acaba por atribuir-lhe partes, pois toda esfera consiste, no mínimo, em centro e extremidades. O UNO, contudo, é indivisível e está acima das partes; por isso, não cabe a associação SER–UNO–TODO–ESFERA.
Observe-se o esquema da página anterior. O UNO não coincide com o Todo, mas está contido no TODO, que abrange o ser e o UNO. Ao mesmo tempo, o ser — a dupla dimensão da realidade, desdobrada em mundo inteligível e mundo sensível — participa do UNO, embora seja diferente dele. Da mesma maneira, o ser exprime o múltiplo, ou princípio da dualidade indefinida, sem ser idêntico ao múltiplo, como pensava Heráclito.
A metafísica platônica consiste na articulação — que também se manifesta na investigação filosófica por meio da linguagem ou dos diálogos — entre os princípios estruturantes de tudo o que existe, a origem e a forma dos fenômenos perceptíveis e o universo dos próprios fenômenos perceptíveis.
O diálogo Político retoma a investigação diairética e exemplifica, em relação a outro ser — a natureza ou essência do político —, a articulação entre unidade e multiplicidade nas coisas do mundo e, consequentemente, na inteligência dessas coisas, isto é, na compreensão abstrata de tudo o que existe.
[1] Na filosofia e na retórica, a erística refere-se a argumentos cujo objetivo é contestar com êxito o argumento de outra pessoa, em vez de buscar a verdade.
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